14 de janeiro de 1789
Em uma encosta de morro que dava para uma aldeia mínima nos arredores de Rouen,
três lavradores com gibão de couro riam e brincavam; e então, depois de contar até três,
ergueram uma forca em uma plataforma baixa de madeira.
Um dos homens colocou um banco de três pernas abaixo da forca, depois se abaixou
para ajudar os dois companheiros que martelavam as estacas que manteriam o cadafalso
no lugar, a batida ritmada transportada pelo vento até onde eu estava, sentada em meu
cavalo, um capão belo e calmo que eu chamava de Scratch, em homenagem a nosso amado
e há muito falecido lébrel.
Ao pé da colina, havia uma aldeia. Era muito pequena, mais parecia um aglomerado
de choças desconsoladas e uma taberna, espalhadas pelo perímetro de uma praça marrom
e lamacenta, mas ainda assim era uma aldeia.
Uma chuvinha gelada havia se reduzido a um chuvisco constante e igualmente gelado,
e um vento feroz soprava, digno de arrepiar os ossos. Os aldeões esperavam na praça,
embrulhados em xales bem apertados, segurando as camisas no pescoço e aguardando o
entretenimento do dia — um enforcamento. O que poderia ser melhor? Nada como um
bom enforcamento para elevar os ânimos enquanto a geada destruía as safras, o senhor de
terras local aumentava o valor do arrendamento e o rei em Versalhes tinha novos
impostos que esperava impor.
De uma construção, que imaginei ser a prisão, saiu um barulho, e os espectadores
petrificados viraram-se para ver sair um padre de chapéu e batina pretos, sua voz muito
solene ao ler a bíblia. Atrás dele vinha um carcereiro, que segurava uma corda, em cuja
ponta estavam amarradas as mãos de um homem com a cabeça coberta por um capuz,
cambaleando e escorregando na lama da praça, gritando protestos às cegas para ninguém
em particular.
—Creio que houve um erro —gritava ele, mas em inglês, antes de se lembrar de fazê-
lo em francês. Os aldeões o observaram ser levado para o morro, alguns se persignando,
outros escarnecendo. Não havia um só gendarme à vista. Nenhum juiz ou oficial da lei.
Aparentemente, aquele era o conceito de justiça da área rural. E ainda diziam que Paris
não era civilizada.
O homem, naturalmente, era Ruddock, e ao vê-lo ali em cima do morro, ao vê-lo ser
içado por uma corda para depois ficar dependurado, era difícil acreditar que um dia fora
um Assassino. Não me admirava que o Credo tivesse lavado as mãos em relação a ele.
Puxei o capuz de minha capa e sacudi o cabelo, olhando para Bernard, que me fitava
de baixo com olhos arregalados e adoradores.
—Lá vão eles, mademoiselle —disse ele —, justamente como prometi que fariam.
Balancei uma bolsa na palma de sua mão e a recolhi quando ele fez menção de pegá-la.
—E sem dúvida nenhuma é ele, não? —perguntei.
— É ele, sim, mademoiselle. O homem que atende pelo nome de Monsieur Gerald
Mowles. Dizem que tentou afanar o dinheiro de uma idosa, mas foi apanhado antes de
conseguir partir.
—E então foi sentenciado à morte.
—É verdade, mademoiselle, os aldeões o sentenciaram à morte.
Soltei uma risada curta e voltei a olhar a terrível procissão, que tinha chegado ao pé
do morro e agora subia à forca, meneando a cabeça ao ver o quanto Ruddock tinha
decaído e perguntando-me se seria melhor para o mundo permitir que fosse enforcado.
Afinal, aquele era o homem que havia tentado matar a mim e minha mãe. Algo que o Sr.
Weatherall me dissera antes de eu sair brincava em minha mente.
—Se o encontrá-lo, faça-me o favor de não trazê-lo para cá.
Olhei incisivamente para ele.
—E por que isso, Sr. Weatherall?
— Bem, por dois motivos. Primeiro, porque este é nosso esconderijo e não quero
que seja comprometido por uma escória que vende seus serviços a quem paga mais.
—E o segundo motivo?
Ele se remexeu, pouco à vontade, e coçou o coto da perna, algo que tinha o hábito de
fazer.
— O outro motivo é que estive pensando muito em nosso Sr. Ruddock. Talvez
pensando até demais, você poderia dizer... Mais do que seria considerado saudável. E
creio que eu o culpo por isto —Ele apontou para a perna. —E também porque, ora, ele
tentou matar você e Julie, e disso jamais me esquecerei.
Dei um pigarro.
—Houve alguma coisa entre você e minha mãe, Sr. Weatherall?
Ele sorriu e deu uma pancadinha na lateral do nariz.
—Um cavalheiro jamais comenta a respeito disto, jovem Élise, você já deveria saber.
Mas ele tinha razão. Aquele homem tinha nos atacado. É claro que eu o salvaria da
forca, mas só porque havia coisas que eu desejava saber. Mas e depois? Eu teria minha
vingança?
Arrastando-se para a forca, havia um grupo de mulheres que formava uma fila
desordenada enquanto Ruddock, ainda protestando sua inocência, era levado para junto
da silhueta do cadafalso, que se contrastava ao céu cinzento de inverno.
—Oque elas estão fazendo? —perguntei a Bernard.
— São mulheres estéreis, mademoiselle. Esperam que, tocando na mão do
condenado, tenham ajuda para conceber.
—Você é supersticioso, Bernard.
—Não é superstição se eu sei que é verdade, mademoiselle.
Olhei-o, perguntando-me o que se passava em sua cabeça. Como Bernard e seus
semelhantes podiam ser tão medievais?
—Quer salvar Monsieur Mowles, mademoiselle? —perguntou-me ele.
—De fato quero.
—Bem, então é melhor se apressar, eles começaram.
O quê? Girei na sela a tempo de ver um dos gibões de couro puxando o banco, e o
corpo de Ruddock caindo e sendo apanhado com força pelo nó.
—Mon Dieu —praguejei, e parti pela encosta, abaixada na cela, o cabelo estendendose
atrás de mim.
Ruddockdava solavancos e se contorcia na corda.
—Haaa! —Aticei meu cavalo. —Vamos, Scratch! —Trovejamos para a forca enquanto
as pernas penduradas de Ruddock se agitavam. Saquei a espada.
Larguei as rédeas e me sentei reta na cela, agora a poucos metros da forca. Passei a
espada da mão direita para a esquerda, posicionei a arma atravessada pelo meu corpo e
estendi o braço direito. Curvei-me para a direita, perigosamente baixo na cela.
As pernas dele apresentaram uma última comoção.
Corri a espada, cortei a corda e ao mesmo tempo agarrei o corpo espasmódico de
Ruddock com o braço direito, colocando-o sobre o pescoço de Scratch e rezando a Deus
que o bicho aguentasse o peso repentino a mais e, com a graça de Deus e talvez um pouco
de sorte, de algum modo conseguisse permanecer sobre as quatro patas.
Vamos, Scratch.
Mas o peso foi demasiado para Scratch, cujas patas vergaram, e todos tombamos ao
chão.
Em um segundo eu estava de pé, de espada em riste. Um aldeão enfurecido, privado
de seu enforcamento do dia, avançou da pequena multidão para me atacar, mas eu plantei
os pés, girei o corpo e o chutei, preferindo atordoá-lo em vez de feri-lo, fazendo-o
cambalear de volta ao grupo de aldeões. Coletivamente, eles pensaram duas vezes antes de
tentar impedir, resolvendo, em vez disso, parar e resmungar sombriamente, as mulheres
apontando para mim:
— Ah, não pode fazer isso — e instigando seus homens a tomarem alguma
providência; ao mesmo tempo todos olhavam incisivamente para o padre, que apenas
aparentava preocupação.
Ao meu lado, Scratch se punha de pé. Assim como Ruddock, que desatou a correr de
imediato. Ainda encapuzado, em pânico, disparou para o lado errado, de volta à forca, de
mãos amarradas, a corda cortada dançando junto às costas.
—Cuidado —tentei gritar. Porém, com um baque sólido, ele esbarrou na plataforma,
afastando-se dela aos rodopios com um grito de dor e caindo no chão, onde ficou,
tossindo e evidentemente ferido.
Afastei a capa para trás e embainhei a espada, virando-me para pegar Scratch. Em
seguida, encarei os olhos de um jovem camponês na frente da multidão.
— Você — ordenei —, você me parece um sujeito grande e forte. Pode me ajudar a
erguer peso. Aquele homem semiconsciente naquele cavalo, por favor.
—Ah, você não pode... — começou uma mulher mais velha que estava por ali, mas
em um segundo minha espada estava no pescoço dela, que olhou com desdém da espada
para mim. —Vocês pensam que podem fazer o que querem, não é? —escarneceu ela.
— É mesmo? Então diga-me, que autoridade determinou que aquele homem fosse
condenado à morte? Vocês podem se considerar com sorte por eu não denunciar seus
atos aos gendarmes.
Eles se acanharam, alguns pigarrearam e a mulher na ponta de minha lâmina desviou
o olhar para o outro lado.
—Agora —ordenei outra vez —, só quero alguma ajuda com o peso.
Meu ajudante designado fez o que pedi.
Em seguida, certificando-me de que Ruddock estava seguro, montei em Scratch e,
enquanto manobrava para sair, captei o olhar do rapaz que tinha me ajudado, dei-lhe uma
piscadela —e parti.
Cavalguei por quilômetros. Havia muita gente do lado de fora, a maioria correndo
para chegar em casa antes do cair da noite, mas não prestaram atenção em mim. Talvez
tivessem chegado à conclusão de que eu era uma esposa muito sofrida carregando o
marido bêbado da taberna para casa. E, se chegaram a tal conclusão, bem, eu sem dúvida
era muito sofrida, pelo menos no que dizia respeito a Ruddock.
O corpo jogado à minha frente soltou um gorgolejo, então desmontei, deitei o
prisioneiro no chão, peguei um frasco de água e agachei-me ao lado dele. Seu fedor tomou
minhas narinas de assalto.
— Olá outra vez — cumprimentei quando os olhos vidrados se abriram e ele me
olhou —, é Élise de la Serre.
Ele gemeu.
ii
Ruddock tentou se apoiar nos cotovelos, mas estava fraco como um gatinho, e de minha
posição agachada eu o prendi facilmente, usando a ponta dos dedos de apenas uma das
mãos, colocando a outra no cabo de minha espada.
Ele se contorceu pateticamente durante alguns instantes, parecendo mais um bebê
muito crescidinho dando um ataque de birra do que alguém tentando escapar.
Depois de se acalmar, ele me olhou com ódio.
— Escute, o que você quer? — perguntou com uma voz magoada. — Isto é,
evidentemente não quer me matar, caso contrário já o teria feito...
Algo lhe ocorreu.
— Ah, não. Você não tem salvado minha vida para ter o prazer de me matar você
mesma, não é? Quero dizer, isso seria cruel e incomum. Não vai fazer isso, vai?
—Não —respondi —, não vou fazer isso. Ainda não.
—Então o que você quer?
—Quero saber quem o contratou para matar a mim e a minha mãe em Paris no ano
de 1775.
Ele bufou, incrédulo.
—E se eu disser, você me matará depois.
—Então melhor: se você não me disser, eu o matarei.
Ele virou a cabeça de lado.
—E se eu não souber?
—Bem, eu o torturarei até que me diga.
—Ora, então direi apenas um nome qualquer até você me soltar.
—E depois, quando eu descobrir que você mentiu, irei atrás de você de novo... e eu
já o encontrei duas vezes, Monsieur Ruddock, eu o acharei novamente, e mais uma vez se
necessário, e ainda outra. Jamais se livrará de mim, até que eu esteja satisfeita.
—Ah, pelo amor de Deus —disse ele —, o que eu fiz para merecer isso?
—Você tentou matar a mim e a minha mãe.
—Ora, sim —admitiu ele —, mas não consegui, não foi?
—Quem o contratou?
—Não sei.
Ergui-me sobre um joelho, saquei a espada e a espetei em seu rosto, a ponta pouco
abaixo do globo ocular.
—Se você não foi contratado por um fantasma, sabe quem o contratou. Agora, quem
contratou você?
Seus olhos disparavam furiosamente, como se tentando se fixar na ponta da lâmina.
—Eu lhe garanto —choramingou —, garanto-lhe que não sei.
Empurrei a lâmina ligeiramente.
—Um homem! —gritou ele. —Um homem em uma cafeteria de Paris.
—Que cafeteria?
—Café Procope.
—E qual era o nome dele?
—Ele não me falou.
Passei a lâmina por sua bochecha direita, provocando-lhe um corte. Ele gritou e,
embora eu tivesse me retraído por dentro, mantive a expressão vaga — cruel, até — o
rosto de alguém decidido a conseguir o que queria, ainda que eu contivesse a depressão
que sentia, uma sensação de que tinha chegado ao fim de uma caçada inútil de uma
década.
—Eu lhe dou minha palavra. Garanto. Era um estranho para mim. Ele não me disse,
eu não perguntei. Peguei metade do dinheiro naquele momento e deveria voltar para pegar
o restante quando o trabalho estivesse concluído. Mas, evidentemente, jamais voltei.
—Creio que esteja me dizendo a verdade: que 14 anos antes um anônimo contratara
outro anônimo para fazer o serviço. E fim da história.
Eu tinha uma última carta na manga, então me levantei, mantendo a lâmina onde
estava.
—Então só resta me vingar pelo que você fez em 1775.
Ele arregalou os olhos.
—Ah, pelo amor de Deus, você vai me matar.
—Sim —confirmei.
— Eu posso descobrir — disse ele rapidamente. — Posso descobrir quem era o
homem. Deixe que eu descubra para a senhora.
Eu o fitei cautelosamente, como se refletindo, embora na verdade não tivesse qualquer
intenção de matá-lo. Não daquele jeito. Não a sangue frio.
Por fim, falei:
— Pouparei sua vida para que você faça o que diz. Mas saiba, Ruddock, quero ter
notícias suas dentro de seis meses... Seis meses. Pode me encontrar na propriedade dos De
la Serre, na Île Saint-Louis, em Paris. Quer você tenha alguma informação ou não, poderá
me encontrar ou passar o restante de seus dias esperando que eu surja das sombras e
corte sua garganta. Eu me fiz entender?
Coloquei a espada na bainha e montei em Scratch.
— Há uma cidade a cinco quilômetros daqui, naquela direção. — Apontei. — Eu o
verei em seis meses, Ruddock.
Parti em meu cavalo. E esperei até que estivesse fora do campo de visão de Ruddock
para relaxar os ombros.
Foi de fato uma perseguição inútil. Só o que eu soube era que não havia nada para se
saber.
Será que eu veria Ruddock novamente? Eu duvidava disso. Não tinha certeza se minha
promessa de persegui-lo tinha sido uma ameaça vazia, mas de uma coisa eu sabia: como
em quase tudo na vida, falar era muito mais fácil do que fazer.

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