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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 19

A MAQUINA FANTASMA


OHOMEM-ARANHASALTOU em cima de um trem para chegar a Nova Jersey, segurando-se à traseira do último vagão conforme atravessava o túnel estreito sob o Rio Hudson. Ele tentou manter a cabeça abaixo da janela, mas alguns passageiros o avistaram e olhavam estupefatos, gritando insultos que ele não conseguia ouvir por causa do troar ensurdecedor e do estrépito que ecoava pelas paredes, bombardeando seus ouvidos de todos os lados. Eu troquei o Aranha-Móvel por isso? Quando o trem chegou ao rio Hackensack, ele se balançou por sobre as vigas de aço da antiga ponte ferroviária, escalando até o topo de uma das torres expostas de sustentação do sistema de elevação que erguia a ponte para permitir que o tráfego fluvial passasse. Ele pegou o radar e buscou algum sinal, encontrando um leve ponto luminoso a noroeste. – Ótimo – Aranha resmungou, pois isso o levaria para dentro dos Prados de Nova Jersey. Prados, Aranha pensou, balançando a cabeça ao pensar naquele nome. Ele sugeria lindos campos abertos com colinas onduladas e flores coloridas. Mas a versão de Jersey não era nada do tipo. Séculos atrás, aquele estuário de marés havia sustentado florestas férteis e um ecossistema aquático cheio de vida, de modo que merecia o nome. Mas os colonizadores europeus, com sua típica convicção de que a terra só importava se pudesse estar a serviço deles, haviam desprezado a região por considerarem-na solo improdutivo, o que virou uma profecia que foi se cumprindo à medida que os peixes e animais eram pescados e caçados sistematicamente, a água era poluída, o terreno fora transformado em aterro, dragado e pavimentado para a construção de fábricas. Em algum lugar no fundo de seus pântanos estavam os restos dos prédios londrinos destruídos na Batalha da Grã-Bretanha, trazidos de navio como entulho e depois jogados naquele lugar “inútil”. Aranha se considerava uma pessoa esclarecida e ecologicamente responsável; afinal, não se pode ser um super-herói nesses tempos sem se preocupar com as ameaças à sobrevivência do planeta, o que não incluía só Galactus, cientistas malucos, invasões da Zona Negativa, infiltração de clorito etc. Mas ele não conseguia deixar de considerar aquela paisagem inútil, pelo menos para os seus objetivos. Era tudo tão plano: grandes extensões de água salgada, lama ou gramados intercalados com uma ou outra autoestrada, trilho ferroviário ou construção industrial baixa, espalhados por uma área com metade do tamanho de Manhattan. Estendendo-se imediatamente diante dele na margem ocidental do rio, ficava um enorme pátio de trens com centenas de vagões vazios alinhados até onde a vista alcançava. Tirando as raras torres de eletricidade, não havia nada por onde se balançar. – O que torna esse terreno ótimo para quem quiser deixar o amigão teioso da vizinhança em desvantagem – ele disse. E isso prova que estou lidando com um inimigo esperto, mais esperto do que Electro nunca foi. Vamos torcer para que eu esteja certo e que ele seja misantropo demais para revelar suas ideias nas salas de bate-papo de vilões. Ele deu uma corridinha para tomar impulso e saltou da torre da ponte, avançando pelo ar até estar perto o bastante para acertar a torre elétrica mais próxima com um fio de teia curto que o balançasse em segurança até o chão, em vez de fazer com que ele desse de cara com o pavimento da ponte Newark ou Jersey City Turnpike. Aproveita enquanto pode, Peterzinho: a partir daqui você vai a pé. O que dificultava ainda mais encontrar um bom sinal do rastreador. Assim, ele seguiu a direção que havia conseguido antes – ao menos, tentou seguir; era mais fácil ter um bom senso de direção quando se estava planando no ar. Na próxima vida, eu preciso ser mordido por um pombo-correio radioativo. Ele correu pelo pátio de trens, chegou à rodovia expressa, saltando uma via de cada vez, sem dúvida pegando alguns motoristas de surpresa. Ouviu pneus cantando e olhou para trás, mas felizmente, ninguém bateu. Atrás da rodovia expressa ficava uma espécie de fábrica térrea que, pelo menos, proporcionava alguns telhados onde ele poderia correr, livrando-o da necessidade de desviar dos guardas. Depois, porém, só havia pântano, rio e gosma. Com um suspiro, ele encontrou uma estrada esburacada e foi correndo por ela, seguindo a costa do rio enquanto tentava se aproximar da fonte do sinal. Mas não demorou para que o rio se abrisse em um grande pântano, sem nada além de água e algumas estradas estreitas atravessando-o. – Veja pelo lado bom, Aranha. Você deve estar procurando uma fábrica, então ela deve ficar próxima a uma das estradas. – Ele franziu a testa. – A menos que seja outra base subaquática. Odeio bases subaquáticas. – Ele era um excelente nadador e conseguia segurar a respiração melhor do que ninguém, mas não teria como usar o radar embaixo d’água e não tinha a menor vontade de nadar naquela mixórdia poluída. Ainda mais sem o sentido-aranha ativo para avisá-lo de entulhos embaixo d’água em que ele poderia ficar preso. No entanto, o problema de seguir as estradas era que ele não tinha como se esconder. Estava anoitecendo, mas ainda havia luz suficiente para que ele fosse visto de longe. Mas àquela altura, ele não tinha muita escolha. Precisava chegar lá rápido – se não fosse tarde demais. Se estivesse certo sobre o perigo, quanto mais esperasse, pior seria. Finalmente, o radar o guiou até uma pequena fábrica sobre uma península estreita de terra que se estendia sobre o pântano, formada pelo aterro e por pedregulhos. A fábrica parecia ter mais de vinte anos, e dava para ver as letras apagadas na parede onde antes se lia OSCORP. Faz sentido, ele pensou. Às vezes eu odeio estar certo. Mas ele ainda precisava ter certeza. Não hesitaria em chamar a cavalaria, mas queria confirmar que não os estaria levando para o lugar errado. Não seria a primeira vez que seus inimigos usavam os rastreadores dele como pistas falsas. Aliás, por que será que existe uma expressão em inglês que chama pista falsa de red herring? Será porque esses arenques são da cor vermelha?, ele se perguntava enquanto corria agachado em direção à fábrica, prestando atenção para não deixar de ver guardas (humanos ou robóticos) ou câmeras de segurança. Será que os arenques são conhecidos por servir de distração para os outros peixes? Mas qual seria o benefício evolutivo de se deixar comer por outro peixe? Ou talvez os vermelhos se entreguem para que seus irmãos e irmãs arenques possam sobreviver, preservando assim os genes da família. Ele não viu nenhum sinal de segurança em torno do prédio e não sabia ao certo o que isso significava. Talvez significasse que o ocupante ainda estava tentando ficar na miúda e não estava pronto para pôr seu plano em prática. Podia ser um bom sinal. Ou, talvez, não existam arenques vermelhos. Pode ser um daqueles ditados sobre coisas que não existem, tipo pelo em ovo ou chifre em cabeça de cavalo. Mas a falta de segurança também poderia significar que ele estava entrando numa armadilha cuja isca era seu rastreador, enquanto a verdadeira ação estava se desenrolando em outro lugar. Isso vai me incomodar a noite toda. Se eu não estivesse com pressa para invadir esse lugar sem que ninguém me veja, eu ligaria para o telefone de informações da biblioteca para perguntar. Enfim, depois que eu entrar, vou ver se encontro um dicionário de expressões em inglês. Ele chegou ao prédio sem nenhum incidente e foi subindo pela parede, à procura de alguma janela desprotegida. Dava para ouvir sons de atividade mecânica pesada do lado de dentro, o que era um bom sinal de que ele havia encontrado o lugar certo. Se você chama isso de bom… Ao encontrar uma janela, perscrutou o amplo e elevado interior da fábrica, mas estava escuro e não dava para ver muito dali. Ele conseguia ver um pouco de movimento, mas não o suficiente para confirmar suas suspeitas. Precisaria entrar para ter certeza. Desligou o radar e o prendeu no cinto de novo. Grudando a mão em uma vidraça da janela e aplicando sua força de aranha, ele conseguiu arrancar o vidro do caixilho, quebrando o canto do vidro, mas sem despedaçá-lo. Ele lançou o vidro na água a uma certa distância e entrou pela abertura. Ao se aproximar do chão da fábrica, deixando que seus olhos se ajustassem à penumbra, conseguiu ver melhor o que estava acontecendo – e desejou não ter conseguido. Se rastejando pelo chão e até pela parede, havia dezenas de robôs enormes. Alguns eram iguais aos que haviam resgatado Electro da prisão – claro, até porque o rastreador-aranha estava em um deles –, mas quase todos eram maiores e diferentes. Alguns tinham corpos arredondados do tamanho de uma minivan, montados em quatro patas largas e lisas em um padrão de X e arqueados feito tarântulas. Suas carapaças eram feitas de placas sobrepostas em forma de diamante, e pareciam mais algo feito de plástico ou cerâmica do que de metal. Cada robô tinha uma grande variedade de membros que se estendiam de cada uma de suas quatro faces entre as pernas: tentáculos de compressão e pinças, serras e tochas, ou manipuladores de precisão. Esses membros trabalhavam desmontando o equipamento da fábrica e colocando-os em orifícios na parte inferior. E não apenas o equipamento da fábrica. Aranha viu um enorme amontoado de sucata, entulho e escombros empilhados em torno de um buraco aberto no chão… um buraco de onde outros robôs entravam e saíam, arrastando para dentro mais material. Esse lugar não foi escolhido só para dificultar minha vida, ele percebeu. Eles estão usando o aterro como fonte de matéria-prima! Os robôs estavam literalmente comendo materiais de todo tipo, incluindo o que parecia e cheirava como restos orgânicos. Uma luz flamejante dentro de seus orifícios sugeria que o material estava sendo derretido, reduzido a seus constituintes brutos. Alguns dos robôs estavam inativos, mas emitiam chiados ardentes de dentro deles. Suas carapaças flexíveis estavam inchadas em diferentes graus, fazendo-os parecer carrapatos inchados. Não, o Aranha se corrigiu. Não inchados, grávidos. Enquanto observava, um Não, o Aranha se corrigiu. Não inchados, grávidos. Enquanto observava, um deles abriu a carapaça como uma flor que desabrocha. Enrolado dentro dele estava uma cópia exata do robô, que abriu as pernas e saiu de dentro do pai, inchando a própria carapaça até o tamanho normal antes de seguir para se juntar à equipe de escavação. Meu Deus. É pior do que eu imaginava. Ele havia lido as propostas em revistas científicas. Que melhor maneira de construir colônias espaciais ou qualquer outra grande façanha de engenharia senão com robôs capazes de se autorreproduzir, construindo cópias de si mesmos a partir da matéria-prima local? Basta construir uma dessas máquinas autorreplicantes e mandá-la para o espaço, que ela criaria todo um exército de duplicatas. Ele havia lido a respeito da existência de pesquisas preliminares sobre este campo, o uso de tecnologia semelhante ao de sistemas de prototipagem rápida, os quais, atualmente, estavam sendo usados para imprimir componentes projetados por computador em 3D. Em tese, o método poderia ser estendido a qualquer tipo de material, se fosse possível tirar a matéria-prima do ambiente usando extração carbotérmica e outras tecnologias. Tecnologias essas que estavam na lista de Jameson de produtos tecnológicos roubados. Claro, o problema de tal inovação era óbvio para quem quer que tivesse visto o episódio “Problemas aos pingos”, de Jornada nas Estrelas, ou Gremlins. O povoamento tinha o potencial de sair do controle, multiplicando-se infinitamente até dominar o planeta. Todos os modelos propostos de sistemas autorreplicantes incluíam defesas acopladas para desligar a replicação depois de um certo período e destruir os comandos caso essas defesas falhassem (e seria inevitável falhar, visto que qualquer sistema reprodutor era capaz de erro de replicação, o que resultaria em mutações). Mas alguma coisa me diz que essas máquinas autorreplicantes não têm essas defesas. Máquinas para dominar o planeta são exatamente o que o criador delas deseja, se ele for quem eu estou pensando. Aranha percebeu que estava ali boquiaberto por tempo demais. Subindo de volta para a janela, tirou o celular do bolso e se preparou para ligar para Jameson. Pensando bem, talvez eu devesse pular o intermediário e ligar direto para os Vingadores. Mas então, um cabo surgiu e arrancou o celular da sua mão, jogando o aparelho no chão. Com o sentido de perigo suprimido, ele não havia pressentido sua chegada. Virou-se e encontrou um dos grandes robôs hexápodes da prisão surgindo das sombras, avançando a passos rápidos pela parede. Ele fazia barulho demais para que Aranha não tivesse notado sua aproximação, de maneira que já devia estar parado por perto, à espreita. O que significava, no fim das contas, que aquilo era uma armadilha. Ele saltou para longe e seguiu para outra janela, sem se preocupar mais em ser furtivo. Porém, outro hexápode surgiu para bloquear seu caminho. Ele desviou na direção da parede lateral e um robô cortador surgiu à sua frente. A outra janela, ele notou agora, estava guardada por um dos robôs de cabos, cujos lançadores de discos afiados se viraram para mirar nele. – Ei, ei, toda a galera está aqui! – ele gritou. – De fato! – surgiu a voz de Electro. Aranha girou para ver o homem parado em uma passarela acima dele, supervisionando a cena como Nero em seu camarote do Coliseu observando a luta entre leões e cristãos. Exceto que não era Electro – era Max Dillon, ainda com o macacão da prisão. Não se via em lugar nenhum a roupa justa verde e amarela nem a máscara cafona em forma de estrela. Nas atuais circunstâncias, porém, Aranha percebeu que sentia falta delas. – Para evitar mal-entendidos – disse o vilão –, devo deixar claro que você não sairá vivo deste lugar, Homem-Aranha. Está em grande desvantagem numérica, um desequilíbrio que não para de crescer a nosso favor. Você continua vivo apenas porque preciso de conhecimento. Aranha riu. – Foi você quem disse que precisa, eu não falei nada. – Você vai me dizer o que sabe e com quem compartilhou essa informação. – Era estranho ouvir uma precisão tão impassível na voz rude de Dillon. – Bom, eu não sei por que falam aquilo sobre arenques vermelhos. Você não tem essa informação arquivada, não? Sua piada não conseguiu causar nenhuma reação do adversário. – Quanto mais você demora, mais cresce sua desvantagem. Diga o que você sabe. – Seu nome. Uma pausa. – Maxwell Dillon. – Não vem com essa, Mendel. O Homem-Aranha riu por sob a máscara, pois isso sim causou uma reação. – Ou, talvez – continuou ele –, pensando melhor, não devia te chamar assim. Afinal, você não é Mendel Stromm, o Mestre dos Robôs. Você é a inteligência artificial que ele criou. Rodando no cérebro de Max Dillon. O rosto de Dillon pareceu friamente impressionado. – Sou mais do que um simples software, Homem-Aranha. Eu sou Mendel Stromm. Modelado conforme sua rede neural e engramas de memória. Tenho o mesmo conhecimento, ambições e consciência que ele. E, se não fosse pela sua interferência, Homem-Aranha, eu e Stromm teríamos nos tornado um só. – Não é assim que eu me lembro, cara. Stromm te achava um monstro. Estava disposto a morrer para te impedir. Ele pode até ter te criado, mas achava que você era um erro e fez o possível para te sufocar no berço. Se ele achava que isso causaria alguma reação da entidade, estava enganado. – Novamente você se ocupa com mentiras inúteis. – Mas é verdade, não é? Isso aconteceu depois que você se instalou no Electro. Então você não tem como lembrar dessa parte. Você é só uma cópia de uma cópia. – Suas deduções são impressionantes, porém incompletas. Eu recebi uma atualização da matriz antes de ela ser desligada. O suficiente para saber que você introduziu o programa que a invalidou. – Então como você não sabe que o resto é verdade? Computadores são capazes de negar a realidade? Depois de uma pausa, a inteligência artificial retomou. – Stromm ficou confuso por causa da transição. Se não fosse por sua interferência, ele teria aceitado nossa unidade. No entanto, se estiver de acordo com sua vontade, pode me chamar de Stromm. Mestre dos Robôs também serve como nome. É uma descrição acertada. – Prazer em conhecê-lo. Posso te chamar de Mestre dos Robôs Júnior? – Como você soube que era eu quem controlava este corpo? – Elementar, meu caro Júnior – Homem-Aranha disse, entrelaçando as mãos atrás das costas e andando de um lado para o outro como um detetive na grande cena da revelação. – Electro falou para Jameson que as ideias novas para os poderes, assim como os apagões, começaram alguns meses atrás na Broadway, onde ele foi impedir que alguém roubasse… alguma coisa dele. Ele também disse: “Começou onde tudo terminou”. Ele, quer dizer, você, foi preso na Times Square. Que é onde, alguns meses atrás, houve uma tempestade elétrica perigosa causada quando a inteligência artificial de Mendel Stromm tentou tomar conta da rede elétrica da cidade. Posso apostar que Dillon ia dizer que alguém queria roubar seu trovão. Ele deve ter visto a tempestade elétrica e correu para a Times Square para ver o que, ou quem, a estava causando. Quem ousava enfiar o bedelho na ação elétrica dele. Mas ele passou a conhecer você melhor do que esperava, não é? Não sei como, mas você fez uma conexão e se transferiu para o cérebro dele. – Muito sagaz, Homem-Aranha. Você está correto. Este sistema nervoso humano tem a capacidade peculiar de armazenar e direcionar energia elétrica. O que o torna um meio de armazenamento ideal para uma cópia do meu programa, codificado em impulsos elétricos. Tentei dominar seu cérebro, como um teste, a fim de aumentar minha compreensão da neurologia humana e desenvolver estratégias aperfeiçoadas para me unir ao criador Stromm. – Certo, entendi qual é seu problema. Se uma máquina quer se mesclar com seu criador, precisa da ajuda de um alienígena careca de roupão e do cara do Sétimo céu. – Suas palavras não significam nada. – Bom, muita gente fala isso sobre aquele filme. Então, você tentou tomar conta dele, né? – ele continuou sem parar. – Teve algum problema para entrar na roupa nova? – Eu instalei, com sucesso, um cópia da minha matriz no cérebro de Maxwell Dillon, mas levei algumas semanas de prática para aprender a dominar o controle dele sobre o corpo. A princípio, só conseguia fazer sugestões subliminares, propondo formas novas de usar seu poder para manipular tecnologias. Aos poucos, fui ganhando a capacidade de tomar o controle por curtos períodos. – Então foi ideia sua roubar a Cyberstellar. – Sim. Depois que você desativou minhas outras versões, fui a única que restou para executar nosso imperativo de expandir e replicar. Mas eu não tinha como copiar minha consciência em outros corpos humanos ou mesmo me transferir de volta para a rede de computadores. Por isso, precisei executar o imperativo em um nível mais físico. Para atingir tal objetivo, necessitei de assistência robótica. – E foi ideia sua caçar diamantes? – O Mestre dos Robôs Júnior podia ter razão ao dizer que as forças contra o Homem-Aranha estavam aumentando conforme passava o tempo e mais robôs “nasciam”. No entanto, quanto mais Aranha fazia com que a inteligência artificial falasse, menor era a chance de ele morrer num futuro imediato e maior a de pensar em uma maneira de evitar esse destino. Daí esse estranho impasse em que ambas as partes se contentavam em manter a outra falando em vez de fazer um movimento. – O ímpeto foi de Dillon, mas achei conveniente. Serviu como teste para as sondas da Cyberstellar em combate, e descobri que elas deixavam a desejar. Isso possibilitou que eu fosse atrás de designs melhores. Também serviu para desviar a atenção do verdadeiro objetivo dos primeiros roubos. – Ainda mais depois que você foi capturado e conseguiu fazer todo mundo acreditar que não havia mais perigo. Mas você já tinha construído, pegado ou roubado um robô ou dois, não é? Alguns capazes de controlar esta fábrica, construir novos robôs segundo as suas especificações. Você não precisava estar aqui pessoalmente para vigiar, porque estava usando o sistema nervoso de Electro como antena e controlando todos por rádio no conforto da sua cela. Para os guardas, parecia só que Electro estava desligado ou dormindo. – Afinal, o isolamento elétrico não bloqueava as ondas de rádio. – Você está quase correto. Antes do meu confinamento, recrutei a assistência de Phineas Mason. – O Consertador! Então ele estava metido nessa! – Era um alívio saber que ele não tinha ficado tão longe da verdade. – Correto. Segundo minhas especificações, transmitidas da prisão, Mason construiu os vários robôs que atacaram você nas últimas semanas, assim como o conjunto de robôs de construção que reconfiguraram esta fábrica para criar os autorreplicadores que você vê à sua frente. Ele desconhecia o verdadeiro objetivo do projeto. Experiências prévias mostram que mesmo humanos aliados recusam-se a cooperar ao saber que seu mundo será conquistado pela Máquina. – Por que será? – Aranha ironizou, fingindo estar intrigado. – E o que aconteceu com o Gambiarra, aliás? Você deu o velhinho para seus novos bichos de estimação comerem? – Aquelas fornalhas eram capazes de extrair carbono de tudo, inclusive de corpos, e os mecanismos de replicação poderiam incorporar esse carbono em polímeros, carbeto de silício e até mesmo aço-carbono. – Ao perceber que meus objetivos não eram meramente buscar vingança contra você, ele anunciou que queria sair. Ele fugiu antes que eu tivesse tempo de tratar de sua eliminação. Todavia, o fato de que ainda não me expôs revela que ou não descobriu a verdadeira envergadura dos meus planos, ou não está disposto a confessar seu envolvimento neles. – Imagino. Ele é muito consciente dos seus deveres cívicos, aquele lá. Homem-Aranha coçou o pescoço. – Olha, estou ficando cansado de ficar olhando para cima; se importa se eu pegar um pouco de altitude? – ele perguntou, erguendo o disparador de teia para deixar claro o que queria. – Como quiser. Não vai te dar nenhuma vantagem estratégica significativa. – Enquanto o Mestre dos Robôs falava, o robô cortador girou para se posicionar entre eles, deixando claro que não seria permitido nenhum ataque contra o corpo de Dillon. Aranha disparou um fio de teia e subiu até a altura do Mestre dos Robôs, passando a ficar de cabeça para baixo. Era uma posição que ele havia passado a achar confortável ao longo dos anos e que aumentava o fluxo de sangue para seu cérebro. – Então, Júnior, por que toda essa discussão entre mim e Jonah? – ele perguntou, erguendo a voz acima do barulho que robô cortador fazia. – Por que complicar seu planinho bonito ferrando com meu sentido-aranha e me fazendo de bobo de um jeito novo e eletrizante? – Ele inclinou a cabeça. – Ou será que tem mais Stromm em você do que eu imaginava? Você está fazendo isso só por vingança? – Não há dúvidas de que houve satisfação ao frustrar você, Homem-Aranha – respondeu o Mestre. – No entanto, havia outros objetivos. Sua rixa crescente com Jameson serviu de distração para a opinião pública e para a mídia, diminuindo o risco de atenção para os meus planos. Além disso, você continuou servindo como uma excelente cobaia de teste para as habilidades de combate dos meus designs robóticos, contanto que estivesse regulado pelo meu implante neural. Os membros do Quarteto Fantástico e dos Vingadores que ajudaram a derrotar as sondas de Vênus também teriam sido excelentes cobaias de teste, e eu havia construído chips neurais para manipular os poderes deles também; todavia, só foi possível implantar um em você antes dos demais serem destruídos ou confiscados. Embora você seja aquele que eu estava mais interessado em controlar, em retribuição por sua interferência anterior. Homem-Aranha ficou mais sério agora. – Esse chip no meu pescoço. O que exatamente ele faz comigo? Controla meus pensamentos, minhas emoções? – Uma ideia alarmante tomou conta dele. – Você anda me vendo através dele? Lendo meus pensamentos? – Você sabe quem eu sou? – O chip não tem duas vias. Ele recebe instruções e usa a placa interna de inteligência artificial para computar os meios ideais para a execução delas. – Isso era um alívio. – Mas essa inteligência artificial não é sofisticada o suficiente para influenciar seu raciocínio. Ela apenas regula sua percepção de perigo. Você escolheu o alvo de acordo com suas suspeitas; o chip apenas seguiu sua decisão, ativando seu sentido de perigo nos momentos em que isso reforçaria suas suposições e medos, e o desviasse ainda mais de mim. Sob a máscara, Homem-Aranha corou. Acho que não posso fugir das minhas responsabilidades tão facilmente. Tudo que o chip fez foi me empurrar para o caminho em que eu já queria ir. E ajudei pensando que eu tinha de estar certo, sem questionar minhas preconcepções, por mais que elas não fizessem sentido. – Aparentemente, superestimei a eficácia do chip neural, pois você venceu suas suspeitas e me identificou como a verdadeira ameaça. Contudo, você continua sendo uma excelente cobaia para meus robôs, e esse é o motivo porque permiti que seguisse seu rastreador até aqui. – Aranha franziu a testa; ainda bem que o Mestre dos Robôs não podia ver. Ele estaria mentindo para evitar admitir que fora pego no flagra, como muitos humanos fariam? Ou só não sabia que a capacidade de rastreamento do Aranha costumava depender do seu sentidoaranha, agora suprimido? – Também é o motivo porque aceitei o interrogatório por tanto tempo. Quero que você entenda toda a situação para que saiba o que está em jogo nesta luta. Eu sou o Mestre dos Robôs. Pretendo transformar a Terra em um paraíso cibernético sem lixos biológicos como você. E você é minha marionete, com seu sentido de perigo sob meu controle. Tudo isso o motivará a lutar com toda a força, atenção e sagacidade de que é capaz, o que o tornará um excelente treinamento para minhas melhores criações, os robôs que o cercam. – Alguns dos imensos autorreplicadores avançaram quando ele disse isso. – Imagino que você destruirá um bom número deles. Isso não me custará nada, pois sempre será possível construir mais, inclusive dos restos do que você destruir. – Bom, preciso te dar parabéns por estar reciclando. Mas por falar em lixo biológico, e esse monte de carne em que você está instalado? Lembra-te de que és mortal agora, Robôspierre. – Este corpo será desmontado como foi o de Stromm, e seu cérebro, incorporado a uma matriz robô. Não demorará até que eu aprenda a substituir o substrato orgânico ou a fazer download de mim mesmo para outro servidor. – Um sorriso perturbadoramente frio se formou no rosto de Dillon. – Mas isso não é do seu interesse. Até lá, as moléculas de seu corpo terão sido “recicladas” nos componentes mecânicos e lubrificantes dos meus novos servos. Sua existência finalmente terá um objetivo… quando terminar! Dito isso, o robô cortador disparou no ar e avançou contra ele, girando as lâminas letais. Mas o Mestre dos Robôs não era o único capaz de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Homem-Aranha vinha pensando, preparando um plano de defesa. Também ajudava o fato de que fazia dias que ele vinha relembrando de sua batalha com o robô cortador. Fazia parte da sua natureza pensar em lutas passadas, perguntando-se o que ele poderia ter feito de diferente. Nos últimos tempos, com aquele estilo de “Novo Aranha”, ele andava tentando suprimir esse reflexo, dizendo a si mesmo que não havia por que duvidar do que tinha dado certo, que ele devia ficar contente com suas vitórias e seguir em frente. Felizmente, porém, não havia sido fácil abandonar os velhos hábitos neuróticos e sua mente continuara com as mil maquinações de pós-luta de sempre, por mais que ele tentasse ignorar. Agora, aquilo podia salvar sua vida. Enquanto o robô cortador avançava em sua direção, ele soltou a teia e deu um mortal. Disparou duas outras teias na base do robô cortador, pegando-o por baixo como não tinha conseguido fazer no escritório de Jameson. Seus pés tocaram o chão e ele se fixou com firmeza. O robô cortador tentou escapar, mas ele o tinha bem preso. Os hexápodes e autorreplicantes começaram a se fechar ao seu redor, como ele esperava. Puxou então o duplo fio de teia e começou a girá-lo por sobre a cabeça, obrigando o robô cortador a fazer um trajeto espiralado para baixo. Suas lâminas cortaram os robôs que se aproximavam, fatiando vários de seus membros e carcaças, fazendo um bom estrago até as lâminas ficarem curvas, cegas e voarem no ar. Droga. Eles são mais fortes do que eu imaginava. Mesmo assim, ele continuou girando o corpo do robô feito um liquidificador para manter os outros a distância. Ele atingiu vários deles, causando outros estragos, mas nada significativo. Então, um dos autorreplicantes segurou o robô cortador quebrado com seus braços manipuladores e deteve seu giro, puxando o ombro de Aranha. Ele colocou a carcaça em uma de suas bocas e começou a puxar a teia como um fio de espaguete. Sem querer brincar de A dama e o vagabundo com um carrapato mecânico gigante, Aranha soltou o fio. Um som conhecido de arpão o fez saltar para fora do caminho quando a garra de um robô de cabos disparou no lugar onde ele estava. A coisa fez um corte na lateral do seu tronco, deixando uma ferida profunda. Ai, que saudade do sentidoaranha! Mas, pelo menos, ele tinha experiência. Continuou desviando, prevendo a saraivada de discos afiados. Ao ver uma lâmina quebrada de robô cortador no chão, lançou um monte de teia em uma extremidade para servir de cabo e a empunhou, balançando-a para desviar os discos afiados como um espadachim em um filme de Hong Kong. Infelizmente, sem o sentido-aranha ou efeitos especiais, não foi tão fácil bloquear todos os discos como ele esperava, e sofreu mais alguns cortes profundos. Com um grito de dor e fúria, lançou a lâmina contra o robô dos cabos com toda a sua força, empalando-o no centro e acabando com ele. Chega disso. Hora de ir para a ofensiva. Aranha saltou no topo de um dos robôs, desviando de suas lâminas cortantes. Ele tinha escolhido um dos menos inchados, supondo que não teria um filhote na barriga ainda e estaria praticamente vazio. Aquelas cascas ocas e expansíveis deviam ser seu ponto fraco. Ele segurou uma das placas em forma de diamante e as arrancou uma a uma, jogando-as contra os manipuladores que subiram para pegá-lo. Por fim, conseguiu um buraco considerável por onde dava para olhar – ou descer, quando um hexápode se aproximou e tentou agarrá-lo com um de seus cabos. Deixe que essa blindagem faça o serviço para variar. Mas ele se manteve pendurado no interior da carapaça, imaginando que o piso fosse inóspito. De fato, ao olhar para baixo, viu vários tanques de material derretido sendo atingidos por uma grade de lasers, entalhando novas formas que surgiam dos tanques como a Excalibur saindo do lago. Dezenas de pequenos braços robóticos trabalhavam montando as peças sobre uma plataforma central. Alguns desses braços subiram para ele com suas pinças, lâminas e soldadores a arco; rapidamente disparou gosmas de teia antes de destruir tudo aos pontapés. Encheu o mecanismo de replicação com teias para parar as máquinas. Naquele momento, porém, pôde sentir que os outros robôs estavam batendo e cortando aquela carcaça. Eles não se importavam se a destruíssem, pois sempre poderiam construir outras novas. E é nesse ponto que estou completamente ferrado, ele se deu conta. Como eu vou poder derrotar todos, um a um desse jeito? Só estou perdendo tempo. Não vou durar o suficiente para fazer a diferença. Preciso fazer alguma coisa drástica, alguma coisa que possa acabar com todos de uma só vez. Mesmo se eu tiver que me afundar junto com eles. Mas ele podia sentir a resposta logo abaixo dele. Um calor considerável sob o piso de montagem. Essas fornalhas de extração são muito quentes, ele pensou. E essa fábrica velha deve ser altamente inflamável. Ele lembrou que nenhum dos hexápodes havia usado o lança-chamas ali dentro. Ele saltou para a beira do piso do “ventre” sob ele e começou a arrancar as Ele saltou para a beira do piso do “ventre” sob ele e começou a arrancar as chapas, evitando, por reflexo, o calor incandescente que vinha de baixo. Ao examinar as peças mecânicas, avistou o que parecia ser um sistema de resfriamento e arrancou um fio, fazendo o líquido refrigerante vazar. Em seguida, achou algumas das entradas de ar e espalhou teias espessas sobre elas. A essa altura, os robôs que atacavam já haviam quase desmontado a carapaça. Ele estava contando com isso. Quanto mais estrago fizessem naquele autorreplicante, melhor. Como toque final, antes de saltar para longe, ele lançou dois cartuchos de teia reservas na fornalha de extração exposta. Bendita seja, MJ. Os pequenos tubos pressurizados davam ótimos fogos de artifício quando lançados em uma chama, e poderiam acelerar o processo. Saltando para longe, ele avançou na direção da pilha de lixo desenterrado, desviando de outros tentáculos e lâminas de robôs. Por sorte, até o autorreplicante semidesmontado continuou a mancar atrás dele, facilitando o plano. Os cartuchos de teia explodiram com estrépitos sonoros, sacudindo o autorreplicante por dentro, e fazendo com que jatos de líquido flamejante e fumaça química saíssem de suas aberturas. Ao chegar ao monte de lixo, HomemAranha vasculhou pelo entulho em busca de vigas podres, tecido, qualquer coisa inflamável, e os atirou contra o robô superaquecido e estropiado. Algumas das coisas pegaram fogo assim que encostaram na carapaça do robô, enquanto outras foram incendiadas pelo líquido de teia flamejante. Decidindo que precisava de algo melhor para espalhar o fogo, Aranha correu na direção de um hexápode que avançava e pulou nas suas costas, arrebentando suas alças de descarga elétrica com os pés antes que o robô pudesse carregá-las. Puxando as junções do robô com toda a força, ele foi arrancando suas entranhas até chegar ao tanque de combustível de seu lança-chamas. Depois de arrancar o tanque, ele o lançou contra o autorreplicante em chamas, fazendo-o girar de modo a espalhar combustível vazado por todo o chão da fábrica. Quando o tanque atingiu o robô superaquecido partido ao meio, ele se amassou, se abriu e causou uma bela de uma explosão. A onda de choque arrancou o Aranha das costas do hexápode e fez um corte no seu elastano. Ai, pensou o aranha ao cair. Agora preciso inventar um álibi sobre as curtas férias tropicais de Peter Parker sem protetor solar. Se é que eu vou sair vivo daqui, ele acrescentou ao se levantar e olhar ao redor. O fogo estava se espalhando rapidamente e muitos dos robôs já estavam em chamas. Era só uma questão de tempo até outros pegarem fogo e acelerarem o incêndio ainda mais. Havia uma janela coberta por tábuas não muito longe de Aranha, mas ainda não era hora de se aproveitar dela. Dillon, ele se lembrou. Não era o estilo de Homem-Aranha deixar alguém morrer se ele pudesse evitar. Além disso, Max Dillon era uma vítima inocente em toda aquela história, sendo apenas o homem errado no lugar errado, na hora errada, com o poder errado. Por isso, ele subiu pendurado em uma teia até as passarelas para resgatar Dillon/Mestre dos Robôs. Mas avistou o vilão já descendo para o chão, onde um dos autorreplicantes esperava por ele, com a carcaça aberta em forma de flor. Sem dúvida, ela havia desligado seu equipamento de replicação para proteger o mestre. Mas o robô não poderia fazer nada quanto à passarela em chamas ou o hexápode em chamas prestes a bater contra as bases dela. – Dill… Stromm, cuidado! – o Aranha berrou, mas o vilão esquizoide não deu sinal de ter ouvido em meio ao barulho do incêndio. O hexápode colidiu com as bases e explodiu, fazendo toda a estrutura da passarela cair em cima do transporte do Mestre dos Robôs. Aranha não conseguiu saber se o robô havia se fechado em torno do mestre a tempo de salvá-lo. Estava agora enterrado sob os escombros e cercado por chamas. Ele tentou chegar mais perto, mas estava ficando um forno lá dentro e ele estava sufocando com a fumaça tóxica. Se não saísse naquele momento, não sairia nunca mais. Desculpe, Max. Depois de disparar uma teia para o teto, ele saiu da passarela logo antes de ela desabar e chutou as tábuas em chamas da janela mais próxima para atravessá-la. Lascas de madeira e cacos de vidro cortaram sua pele queimada, e ele tossiu convulsivamente ao cair. A escuridão abaixo dele foi se aproximando, e ele foi atingido e tragado por ela.

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