sábado, 30 de janeiro de 2016
SD 23
10 de abril de 1778
i
Ela sobreviveu a esta noite.
Sentei-me ao lado de seu leito, segurei sua mão e conversei com ela. Por um tempo,
tive a ilusão de que era eu quem a reconfortava, até o momento em que ela virou a cabeça
e me fitou com os olhos turvos, porém profundamente observadores, e ficou evidente
que a verdade era bem o contrário.
Houve ocasiões, na noite passada, em que olhei pela janela e flagrei Arno no pátio
abaixo, e invejei a capacidade que ele tem de desligar-se do sofrimento que acontece a
poucos metros dele. Arno sabe que ela está doente, é claro, mas doenças devastadoras são
lugar comum, a morte junto ao médico é rotineira, mesmo aqui em Versalhes. E ele não é
um De la Serre. É nosso tutelado, portanto não fica a par de nossos segredos mais
íntimos e sombrios, nem de nossa angústia particular. Além disso, ele mal conheceu
qualquer outra circunstância durante a maior parte de seu tempo aqui. Para Arno, minha
mãe é uma figura longínqua tratada nos andares superiores do château; para ele, ela é
definida puramente por sua doença.
Meu pai e eu, por outro lado, partilhamos nosso turbilhão por meio de olhares
furtivos. Por ora, esforçamo-nos para demonstrar normalidade, nossa tristeza mitigada
pelos dois anos de horrível diagnóstico. Nosso pesar é outro segredo oculto de nosso
tutelado.
ii
Estamos nos aproximando do momento em que pesquei tudo. E ao pensar no primeiro
incidente, na primeira vez em que realmente comecei a me questionar sobre meus pais,
especificamente minha mãe, imagino-o como uma placa de sinalização na estrada que leva
ao meu destino.
Aconteceu no convento. Eu tinha apenas 5 anos quando entrei ali pela primeira vez, e
minhas lembranças do lugar estão longe de serem claras. Apenas impressões, na verdade:
longas fileiras de camas; uma lembrança nítida mas ligeiramente desconexa de olhar por
uma janela coroada de geada e de ver a copa das árvores erguendo-se acima de margens
ondulantes de neblina, e... a madre superiora.
Recurvada e amargurada, a madre superiora era conhecida por sua crueldade. Vagava
pelos corredores do convento com sua vara nas palmas como se a apresentasse em um
banquete. Em sua sala, a vara ficava sobre a mesa. Na época falávamos em ser a “sua vez”,
e por um tempo fora a minha, quando ela detestava meus esforços para ser feliz, invejava
o fato de eu ser de riso fácil, sempre atribuindo malícia a meu sorriso feliz. A vara, dizia
ela, arrancaria aquele sorrisinho malicioso do meu rosto.
A madre superiora tinha razão. Arrancou mesmo. Por um tempo.
E então, um dia, meus pais chegaram para ver a madre superiora, não sei por que
motivo, e fui chamada à sala a pedido deles. Ali encontrei meus pais virados em suas
cadeiras para me receber, a madre superiora de pé atrás de sua mesa, com a habitual
expressão de desdém indisfarçado no rosto, uma franca avaliação de meus muitos defeitos
acabando de secar em seus lábios.
Se apenas minha mãe tivesse ido me ver, eu não teria sido tão formal. Teria corrido a
ela e esperado poder me enfiar entre as dobras de seu vestido, adentrando outro mundo,
longe daquele lugar horrível. Mas eram os dois, e meu pai era meu rei. Era ele quem
ditava a que cortesias obedeceríamos; para começar, fora ele quem insistira para que eu
fosse colocada no convento. Assim, aproximei-me, fiz uma mesura e esperei que se
dirigissem a mim.
Minha mãe puxou minha mão. Como conseguira notar o que havia ali, nem imagino,
pois estava junto ao meu corpo, mas de algum modo ela teve vislumbres das marcas
deixadas pela vara.
—Oque é isto? —Ela exigiu saber da madre superiora, estendendo minha mão a ela.
Eu nunca tinha visto a madre superiora com uma aparência aquém de composta. Mas
ali a vi empalidecer. Num instante, minha mãe deixou de ser decorosa e cortês, justamente
o que se esperava de uma convidada da madre superiora, e tornou-se um instrumento de
fúria potencial. Todos nós sentimos isto. Sobretudo a madre superiora.
Ela titubeou um pouco.
—Conforme eu dizia, Élise é uma menina voluntariosa e perturbadora da ordem.
— E por isso ela é espancada? — perguntou incisivamente minha mãe, a raiva
crescendo.
A madre superiora endireitou os ombros.
—De que outra forma espera que eu mantenha a ordem?
Minha mãe agarrou a vara.
—Espero que seja capaz de manter a ordem. Crê que isto torne a senhora forte? —
Ela bateu a vara na mesa. A madre superiora deu um salto e engoliu em seco, e seus olhos
dispararam para meu pai, que vigiava com uma expressão estranha e indecifrável, como se
tais acontecimentos não exigissem sua participação. —Ora, a senhora está redondamente
enganada —acrescentou mamãe —, isto a torna fraca.
Ela se levantou, olhando furiosamente a madre superiora, e a fez se sobressaltar de
novo quando bateu a vara na mesa pela segunda vez. Depois pegou minha mão.
—Vamos, Élise.
Partimos, e deste momento em diante passei a ter tutores para me ensinar as lições
escolares.
De uma coisa eu sabia quando fomos intempestivamente do convento à nossa
carruagem e seguimos em uma viagem silenciosa para casa. Como meus pais se eriçavam
por coisas não ditas, eu sabia que as damas não se comportavam como minha mãe
acabara de fazer. Não as damas normais.
Mais uma pista. Isso aconteceu mais ou menos um ano depois, numa festa de
aniversário de uma filha mimada em um château vizinho. Outras meninas da minha idade
brincavam com bonecas, ajeitando-as para que tomassem chá, apenas um chá para
bonecas, onde não havia chá ou bolo de verdade, só garotinhas fingindo dar chá e bolo a
bonecas, o que para mim, mesmo então, parecia uma estupidez.
Não longe dali, os meninos brincavam com soldadinhos de brinquedo, e assim
levantei-me para me juntar a eles, alheia ao silêncio de choque que caiu sobre o grupo.
Minha ama-seca, Ruth, arrastou-me para longe.
— Brinque com as bonecas, Élise — disse ela, firme, porém tensa, os olhos me
fuzilando enquanto ela se encolhia sob o olhar reprovador de outras amas-secas. Obedeci,
arriando nos quadris e fingindo interesse no chá com bolo de mentirinha. Com a
interrupção constrangedora encerrada, o gramado voltou ao estado natural: meninos
brincando com soldados, meninas com bonecas, amas-secas observando a ambos, e não
muito longe dali o riso das mães, damas bem-nascidas que fofocavam em cadeiras de
ferro fundido.
Olhei as damas falando da vida alheia e as enxerguei com os olhos de minha mãe. E
então, o meu próprio destino, de menina no gramado a dama fofoqueira, e com um
ímpeto de certeza absoluta percebi que não queria aquilo. Ser como aquelas mães. Queria
ser como a minha, que pediu licença do falatório de intrigas e agora estava ao longe,
sozinha, à beira da água, com a individualidade óbvia para quem quisesse ver.
iii
Recebi um bilhete do Sr. Weatherall. Escrevendo em inglês, sua língua de origem, ele diz
desejar ver minha mãe e pede que eu o encontre na biblioteca à meia-noite, para que eu o
acompanhe ao quarto dela. Insiste que eu não conte a meu pai.
Mais um segredo que devo guardar. Às vezes parece que sou uma daquelas pobres
coitadas que vemos em Paris, recurvada sob o peso de expectativas postas sobre mim.
Tenho apenas 10 anos.
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