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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 15

DE ONDE VOCÊ ESTÁ VINDO ?

–ENTÃO VOCÊ NÃO CONVERSOU com Mary Jane desde a briga? A voz de tia May era solidária e compreensiva, mas Peter podia ouvir um tom de pesar nela que ecoava sua própria tristeza. Ele estava debruçado na mesa da cozinha da casa dela e se afundou ainda mais na cadeira. – Não. Mas nós dois andamos muito ocupados, é comum passarmos muito tempo sem nos falar. Não é nada demais. Ela olhou para ele por sobre o ombro, sem diminuir o ritmo de seus afazeres na cozinha. Estava assando bolinhos de chocolate para uma feira de bolos da vizinhança a fim de angariar fundos para pesquisas que ajudassem pacientes em coma. Ela havia organizado a feira beneficente como forma de tentar fazer sua parte por Flash Thompson e Bobby Ribeiro. Muitas vezes, Peter pensava que ela era a verdadeira super-heroína da família. – Esse é o mesmo tom que você usava ao dizer “não tem importância”, quando os valentões da escola te provocavam. Eu te conheço. – Tá, então não estou exatamente feliz com isso. Mas ela vai superar logo, eu sei. – Ela vai, é? Ele sentiu que ficou vermelho diante daquele tom de voz, mas se manteve firme. – Olha, talvez eu tenha sido um pouco… grosso com ela. Mas ando sob muita pressão ultimamente. E cada vez ela me fala uma coisa! Primeiro, está feliz porque eu ando mais confiante; depois, me interroga sobre o que eu fiz ou deixei de fazer… num momento em que eu realmente precisava do apoio dela! E eu não tenho o direito de falar para minha mulher como fico chateado quando ela não está por perto? Não estou culpando MJ por isso. E, quando ela se acalmar um pouco, vai entender. – Hmm – murmurou tia May enquanto checava a segunda fornada de bolinhos; a primeira assadeira estava esfriando em cima do balcão. – Sabe, Peter… em trinta e tantos anos de casamento, uma coisa que eu aprendi é a importância de deixar a outra pessoa ganhar algumas brigas. Chega uma hora em que você entende que faz parte de uma equipe, e que a harmonia da equipe é mais importante do que defender seu argumento, mesmo se você tiver razão. – Sim. É exatamente isso que estou falando. – Ela o encarou com o olhar sereno e, depois de alguns segundos, ele entendeu que ela estava se referindo a ele, não a MJ. Ele suspirou. – Está bem. Vou fazer as pazes com ela… depois. Só vou dar um tempo para a gente se acalmar. – Que bom para você, querido. – É, pelo menos você concorda que eu tinha razão. Ela lhe lançou um de seus olhares mais inocentes. – Eu disse isso? – Bom, você… hum… você concorda? Tia May veio se sentar à sua frente. – Claro que eu concordo, querido. Mas também acho que Mary Jane tem razão. – Não dá para concordar com os dois. – Por que não? Brigas em que só um lado está certo são as mais fáceis. É raro – Por que não? Brigas em que só um lado está certo são as mais fáceis. É raro de encontrar. Ele lançou um olhar cético para ela. – No meu trabalho, vejo dessas o tempo todo. – Bom, quanto a isso não posso falar. Só sei o que vejo ao meu redor. O que aparece no jornal ou na TV ou naqueles… blobs como o do senhor Jameson. Peter riu baixinho. – Acho que a senhora quer dizer “blogs”. Ela franziu o nariz. – Palavra horrível. Não existe mais elegância na linguagem. Enfim, onde quer que eu olhe, vejo gente falando umas para as outras com ar de superioridade em vez de ouvir umas às outras. Gritando umas com as outras, dizendo que elas não têm o direito de abrir a boca. Quando uma pessoa tenta expressar um ponto de vista contrário, ninguém dá ouvidos; os outros gritam com ela, fazem com que fique quieta, respondem com tentativas de demonizar a pessoa ou tirar a credibilidade dela… tudo sem sequer entender os argumentos dela. Ninguém nem responde aos argumentos mais, porque isso exigiria pensar sobre eles, e não podemos fazer isso. Eles só atacam a pessoa e inferem que o argumento não tem credibilidade por associação. – Ela balançou a cabeça. – É assustador o que as pessoas fazem hoje em dia para evitar admitir que outra pessoa possa estar certa em alguma coisa. É considerado um sinal de fraqueza dar um pouco de razão para o outro lado. Como eu falei, querido, não é assim que funciona em um casamento. E eu não entendo por que seria diferente em outros aspectos da vida. As pessoas não vão conseguir viver junto em comunidade, não vão conseguir trabalhar juntas para fazer nada, se não baixarem a guarda e tiverem um pouco de confiança uns nos outros. Se elas não conseguirem resolver suas diferenças com um pouco de flexibilidade, procurar as coisas que têm em comum e usar essas coisas para resolver os problemas que as separam. E dá para ver isso em toda parte. O mundo está ficando muito mal-educado. Os líderes estão ocupados brigando uns com os outros em vez de procurar soluções reais para seus problemas. Não está dando certo, Peter. Porque as pessoas estão se esforçando tanto para “ganhar”, ou pelo menos, fingir que ganharam, que não tentam resolver nada. Estão se esforçando tanto para não parecer errados que não questionam se poderiam aprender alguma coisa com os outros. E ninguém ouve a verdade entre trovões de acusação. Peter fez menção de dizer que ela estava exagerando, mas ela continuou. – Ben e eu sempre tentamos ensinar você sobre a importância de fazer perguntas. E mal precisamos nos esforçar, porque você aceitava isso muito bem. Você tinha o dom de reconhecer o que não sabia e se dedicar a aprender. Nunca teve medo de errar porque sabia que era uma condição que podia mudar quando se dedicava. – Ela sorriu. – Acho que foi isso que o transformou em um aluno tão inteligente em ciências, e num homem tão bom e tolerante. Ben se orgulhava disso em você, e eu ainda me orgulho. Peter abaixou a cabeça, mais humilde diante das palavras dela. Depois de alguns momentos de silêncio, tia May se levantou e apertou o ombro de Peter ao passar atrás dele. Ele voltou a falar depois de pensar por mais alguns instantes. – Entendo o que a senhora está falando, tia May. Você tem razão: desconfiar – Entendo o que a senhora está falando, tia May. Você tem razão: desconfiar um pouco de si mesmo pode ser saudável. Acho que descontei minha frustração na MJ mesmo. Sinto falta dela, e guardo rancor porque o teatro faz com que ela fique longe de mim, e eu lido mal com isso. Acho que ela precisa lidar com a mesma coisa quando passo as noites fora pegando bandidos. – Precisei lidar com isso quando você se mudou para a faculdade – tia May disse, com carinho. – E o simples fato de ela ter questionado a morte daquele homem não significa que não me apoia. Eu… – Ele piscou algumas vezes e engoliu em seco. – Acho que ela só estava expressando os meus questionamentos. Eu tenho tentado não admitir que estivesse me questionando. Se fiquei convencido demais, descuidado demais. Se o que aconteceu foi minha culpa… em partes. É… difícil de encarar. Ele sentiu a mão dela sobre seu ombro de novo. – Eu nunca diria que foi culpa sua se você não conseguiu evitar uma morte causada por outra pessoa. A culpa é dessa outra pessoa, claro. Mas mesmo os melhores de nós cometem erros, e precisamos enfrentar esses erros e aprender com eles. Depois de um instante, ele meneou a cabeça, franzindo a testa. – Quanto a isso, talvez. Quanto a MJ, sem dúvida – ele continuou quando ela tirou as mãos e voltou ao trabalho. – A única coisa de que eu ainda tenho certeza é que Jameson está por trás disso tudo. Ele não estaria ativando meu sentidoaranha se não estivesse. – Você precisa admitir, querido, que é difícil de acreditar. – Eu sei. Eu sei. Mas preciso confiar nos meus instintos, certo? – ele perguntou, voltando-se para ela. Ela colocou a mão no queixo e pensou sobre isso por um momento. – Bom, as pessoas gostam muito de falar isso. Porém, tenho as minhas dúvidas. Não consigo deixar de pensar nas pessoas de que você me falou no… enfim, no seu ramo de trabalho… que são movidas principalmente por instinto. Pessoas como aquele Kravinoff, o tal do Caçador. Ou o pobre Dr. Connors quando ele se transformou naquele Lagarto. – Ela estremeceu. – Ou aquele alienígena preto terrível que se autodenomina Venom. Ela havia acabado de listar três dos seus inimigos mais temíveis, selvagens e irracionais. Peter não podia culpá-la por ter medo até de pensar no nome deles, pois eles o matavam de medo também. E a ferocidade animalesca deles, sua insensibilidade à razão e à conciliação, era em grande parte o que os tornava tão letais. Peter se levantou e pôs a mão consoladora no ombro de tia May. Ela abriu um sorriso, colocando a mão sobre a dele por um momento, e continuou: – Acho que instintos podem ser úteis. Mas também acho que o que nos separa dos animais, de criaturas como essas, é que podemos ouvir nossa razão e também nossos instintos. Podemos reconhecer que um impulso que poderia fazer sentido em uma selva há milhões de anos pode não estar certo para um mundo povoado por seres humanos civilizados. Ele olhou para ela fixamente. – Mas como meu sentido-aranha poderia estar errado? – ele perguntou com sinceridade, sem desdém. Tia May abriu um sorriso melancólico. – Não faço ideia, querido. Não posso nem dizer que ele está errado. Mas pelo menos você começou a fazer a pergunta. E não pode haver mal nisso, não é? Peter se virou, andando devagar de um lado para o outro enquanto se atracava com a ideia. – Pense nisso um pouco enquanto cuido dos bolinhos – tia May disse. Será que meu sentido-aranha já errou assim antes? Ele não conseguia se lembrar. Falsos negativos eram uma coisa. Os sentidos de aracnídeo dos quais acreditava depender – fossem de vibrações, de ultravioletas, de feromônios ou o que fosse – podiam sofrer interferências de chuvas fortes ou nuvens particuladas, assim como qualquer outro sentido. Em algumas situações, tinham sido mitigados quimicamente, de modo que ficou sem eles por um tempo. E havia seres que seu sensor de perigo não conseguia ver como uma ameaça, independentemente do contexto: tia May, porque era da família, e o simbionte Venom, porque estivera ligado a ele por tanto tempo que seu cérebro aprendera a reagir a ele como parte de si mesmo. Mas falsos positivos? Até onde conseguia se lembrar, tudo o que ele havia imaginado como um falso positivo – como resultado de estresse, doença ou nervosismo –, em algum momento havia se revelado um aviso de perigo oculto a que ele deveria ter prestado atenção. No entanto, ele achava que a culpa disso era da razão. Era seu cérebro, não seus órgãos de sentido, que decidia se um estímulo excedia o limite de perigo e merecia uma reação de aversão. Venom não era exatamente invisível a seus sentidos subliminares, mas não gerava o tipo de informações que seu cérebro reconhecia como perigosas o bastante para gerar um alerta. Cérebro burro e teimoso, deveria ter aprendido a essa altura, depois de todas as vezes em que Venom quase me matou. Então, estava claro que, teoricamente, era possível que seu cérebro reagisse de maneira exagerada a informações que não fossem perigosas. Ele não sabia como, mas tia May tinha razão: ele precisava admitir o… PERIGO! A explosão súbita de seu sentido-aranha formigou de maneira quase opressora. Ele saltou para o teto, para longe da ameaça mortal que sentiu atrás dele, e virou para ver o que era. Tia May estava atrás dele, segurando uma faca de carne. Em um segundo, ele pulou em cima dela. – Quem é você? O que você fez com minha tia May?! – Ela abafou um grito, deixando cair a faca no chão. Ela parecia completamente horrorizada. Mas ele não podia deixar aquilo enganá-lo. Já havia sido enganado por impostores antes. E pensar que aquele quase o tinha convencido a duvidar do que sabia ser verdade… – Peter, por favor, sou eu! Mas seus instintos diziam outra coisa. – Responda! Para quem você está trabalhando?! Ela se esforçou para tomar fôlego. – Peter… por favor… pense um pouco. É realmente… provável? Você estaria… – Peter… por favor… pense um pouco. É realmente… provável? Você estaria… disposto a correr o risco… de machucar a própria tia… com base em um instinto? Na sua certeza… de que não pode… estar errado? Seu sentido-aranha continuava gritando dentro dele, mas ele olhou nos olhos dela… viu o pavor no rosto da tia… por sua culpa. Ele a soltou, e recuou… Ele não sabia o que pensar, o que fazer. Ela caiu numa cadeira, tremendo, e procurou seus remédios para a pressão. Olhando para ele com medo. Ele saiu correndo. Não sabia mais o que fazer. Se aquela era realmente tia May, ele se odiava por deixá-la sem a certeza de que ela estaria bem. Mas, pela maneira como seus instintos estavam gritando para que ele a atacasse, ele não poderia correr o risco. O que está acontecendo comigo?, ele gritou consigo mesmo enquanto colocava as roupas de Homem-Aranha em um lugar isolado. Preciso de respostas. Preciso que existam respostas. Ele partiu em direção a Manhattan, em direção a Jameson. Não sabia mais se Jameson estava realmente por trás de tudo aquilo. Mas torceu para que essa fosse a resposta verdadeira. Tudo seria tão mais simples. • • • • Jameson havia finalmente chegado à conclusão de que não aguentaria mais esperar sentado até que alguma coisa acontecesse. Como declarou à esposa pelo telefone, era hora de Jogador Jameson voltar da aposentadoria. – Quem? – foi a única resposta dela. – Nunca te falei? Era como me chamavam nos tempos de repórter. Jogador Jameson. Eu conseguia montar todas as peças de um quebra-cabeça em tempo recorde. – Jura? – Marla ironizou. – Então por que você precisa de mim para programar o videocassete? – Sou um homem importante agora. Aprendi a delegar funções. Mas não dessa vez. Essa é pessoal. Preciso sair daqui e rastrear o Homem-Aranha pessoalmente. Ninguém conhece aquele homem como eu. Sou o único capaz de reconhecer o fedor dele atrás dessa história de robôs e seguir seu rastro até encontrar a origem disso tudo. Por isso me chamavam de Cão de Caça. – Pensei que te chamavam de Jogador. – Eles me chamavam de muitas coisas! – Bom, nisso eu acredito. Ele riu. Ninguém mais poderia falar com ele nesse tom sem sofrer as consequências. Mas havia algo no humor frio e sarcástico dela que sempre tocava seu coração. Talvez os opostos se atraíssem. – Também te amo, querida. – Mas sério, Jonah, não gosto nada dessa história. Você devia agir com cuidado. – Não cheguei onde cheguei agindo com cuidado, Marla. E faz tempo demais que estou sentado naquela suíte executiva. É por isso que as pessoas duvidam da minha credibilidade: fico muito distante. Preciso voltar às minhas raízes, voltar a entrar em contato com a cidade. Não posso tirar o melhor dos meus repórteres se não me juntar a eles nas trincheiras, lembrar como é a sensação. Ele suspirou. – Mas principalmente, preciso fazer alguma coisa. Não gosto de me sentir de mãos atadas. Depois de pensar por um momento, Marla voltou a falar. – Eu entendo. Faça o que precisa fazer. Mas por favor, Jonah, tome cuidado. – Eu vou tomar. Não se preocupe com isso. – Ele pegou seu antigo revólver militar, recentemente limpo e polido, para relembrar a sensação de tê-lo nas mãos. Ele esperava não ter que usá-lo, afinal, não era um assassino. Entretanto, se tivesse de enfrentar Homem-Aranha cara a cara, estaria pronto. Assim como Marla, o chefe da sua segurança, Berkowitz, não gostou nem um pouco da ideia. – O senhor deveria deixar que a gente fosse junto – ele insistiu. – De jeito nenhum. Preciso sair às ruas e fazer contatos, encontrar informantes. Se eu tiver Homens de Preto ao meu redor vou assustar qualquer pessoa que possa me dizer alguma coisa de útil. Não, Jogador Jameson trabalha sozinho – ele insistiu. – Vocês vão ter que ficar a pelo menos uns trinta metros de distância. Tentem ser invisíveis. A questão estava decidida. Jameson colocou o revólver e o bloco de notas no bolso, calçou um bom par de sapatos confortáveis, colocou um chapéu marrom e um casaco (em um dos bolsos estava o celular com discagem rápida para a polícia e para sua equipe de segurança – ele não era bobo) e saiu às ruas. Quer dizer, depois que seu motorista o deixou na parte certa da cidade. • • • • Homem-Aranha não tinha para onde ir. Ele havia tentado ir para casa. Quando chegara ao seu prédio depois de fugir da casa da tia, avistou MJ chegando. Ficou aliviado por vê-la, até que o mesmo zumbido do sentido-aranha tomou conta dele, avisando para ficar longe. Ele havia se refugiado no terraço do prédio ao lado, na esperança de observar e descobrir o que estava acontecendo, mas um zumbido baixo e contínuo de perigo o deixou agitado demais para continuar parado, e ele se afastou até que o formigamento desaparecesse. Mais tarde, quando MJ ligou no seu celular e perguntou onde ele estava, o zumbido em sua cabeça recomendou que não dissesse. Ele não quis acreditar. Não quis acreditar que ela e tia May não eram quem ele pensava que fossem. Sabia que havia uma chance de que algo estivesse errado em seu próprio sentido de perigo. Mas como poderia correr esse risco? O sentido-aranha era como um alarme de incêndio na escola: era preciso levá-lo a sério todas as vezes, tratar como uma emergência real, mesmo que, na maioria, fosse culpa de alguma criança fazendo um trote idiota. Afinal, se você ignorasse o alarme uma vez, correria o risco de se expor a perigos reais. Por isso, Aranha tinha que continuar confiando no zumbido de perigo, ainda que houvesse a chance de que não devesse. Até que ele tivesse respostas de verdade, precisava agir com cautela. Além do mais, não seria a primeira vez, ele pensou, ao se empoleirar no alto da antena do Empire State Building, o único lugar de onde conseguia vigiar toda a cidade e ter certeza de que nada pularia em cima dele (embora, com sua atual sorte, ele pensou, aviões biplanos poderiam surgir a qualquer momento para atirar nele). Seus inimigos haviam feito armadilhas cruéis contra ele no passado. Alguns anos antes, seus pais, que ele pensava estarem mortos desde a infância, aparentemente foram descobertos vivos e viraram parte da sua vida por um tempo, mas se revelaram androides impostores programados para matá-lo. A lembrança de ter seus pais arrancados dele mais uma vez, uma perda antes abstrata que então ganhou corpo de maneira terrível, ainda o despedaçava por dentro. Ele não conseguia suportar a ideia de MJ e tia May terem sido substituídas por androides impostores… mas também não conseguia tirar essa ideia da cabeça. Especialmente porque isso significava que seja lá quem estivesse atrás dele conhecia a sua identidade. Jonah teria como saber? Foi por isso que ele estava tão agressivo comigo no Clarim? Havia outras possibilidades. Norman Osborn conhecia sua identidade. E a Oscorp sem dúvida seria capaz de lhe fornecer os recursos técnicos necessários para a construção daqueles robôs – afinal, Mendel Stromm tinha sido sócio de Osborn na empresa antes que Norman o acusasse de fraude, mandando-o para a prisão e levando-o a um caminho vingativo que o tornara o Mestre dos Robôs. Mas Aranha sabia que Osborn estava preso em segurança; ele havia confirmado isso quando estivera lá para visitar Smythe e Electro. Não adianta nada ficar sentado especulando, Aranha concluiu. Ele estava agitado; precisava de respostas. Então, teria que descer para a cidade e ver o que conseguiria descobrir. Teria de começar do começo, passar por todos os informantes marginais em que conseguisse pôr as teias e chacoalhá-los até que lhe dessem alguma informação sobre os robôs. Ou sobre Jameson. E se o próprio Jameson for um robô? Isso explicaria muita coisa. Mas enfim, se fosse verdade, ele teria que perdoar o verdadeiro Jonah. E essa era uma possibilidade que Homem-Aranha não estava disposto a contemplar. Jonah “Jogador” Jameson não demorou para descobrir que o trabalho de repórter não era mais tão fácil quanto antigamente. Todos os seus antigos informantes do submundo haviam desaparecido fazia tempo, e ele era famoso demais para andar despercebido. Por isso, suas tentativas de descobrir alguma coisa através das redes criminosas tiveram pouquíssimo sucesso. Ele teve de mostrar o revólver algumas vezes para não ser maltratado, e enfrentou alguns momentos angustiantes de perseguição até que os homens de Berkowitz aparecessem e afugentassem os vagabundos. Então, decidiu que estava agindo da maneira errada. Esses crimes são de alta tecnologia, ele se lembrou. Muitas empresas foram roubadas e os frutos dos roubos apareceram naqueles robôs sofisticados. Talvez eu devesse começar por aí. Era óbvio que investigar as cenas dos roubos pessoalmente e falar com os construtores dos equipamentos roubados poderia lhe dar algumas boas informações básicas sobre o caso. Se ele não estivesse tão enferrujado, teria começado ali. Claro, fazia dias que Ben Urich vinha investigando esses roubos. Mas Urich não tinha o faro apurado de Jameson para o envolvimento do aracnídeo. Além disso, era apegado a seu próprio vigilante preferido, Demolidor, um parceiro conhecido do escalador de paredes. Vou usar minha visão mais objetiva para encontrar provas de que Homem-Aranha está por trás disso. Porém, estava difícil encontrar essa prova. Ele entrevistou todas as empresas atingidas, falou com os engenheiros, visitou os depósitos e inspecionou os danos. O primeiro roubo de alta tecnologia, dos robôs de Vênus da Cyberstellar, havia sido cometido por Electro, obviamente. O segundo, cometido entre esse e o caso do Distrito dos Diamantes, envolvia danos consistentes com o uso das sondas de Vênus para a invasão do depósito. Jameson poderia facilmente crer que HomemAranha e Electro estavam juntos nessa. No entanto, os outros roubos haviam acontecido depois que todos os robôs de Vênus foram destruídos e encontrados. Se Cabeça de Teia estivera em um daqueles depósitos, havia escondido bem o rastro, aparentemente usando outros robôs no lugar de sua própria força e suas teias. Jameson viu onde as portas tinham sido arrombadas por maçaricos e lâminas de alta potência. Assistiu às fitas de segurança e viu a estática de interferência eletromagnética encher a tela. Leu os relatórios policiais que revelavam que grandes quantidades de equipamentos haviam sido removidas em um curto espaço de tempo. Homem-Aranha podia carregar muito peso nas costas, mas seria logisticamente impossível para um homem carregar tantos engradados pesados em uma única viagem, sem nenhuma ajuda. – O que precisaria para construir esses tipos de robôs com as peças roubadas? – perguntou aos engenheiros. Eles disseram que o robô que havia destruído o escritório de Jameson e os dois que perseguiram Homem-Aranha por Midtown East eram relativamente básicos, e poderiam ter sido construídos em questão de dias com as ferramentas certas, mas só se o construtor fosse um gênio da robótica. Muitas das partes roubadas haviam sido reutilizadas de maneiras que os engenheiros nunca teriam considerado, maneiras que ampliavam a força e a resistência dos robôs, além de aumentar sua agilidade e seu tempo de reação. Havia relativamente poucas pessoas no mundo com esses dons, entre elas Reed Richards, Henry Pym, Victor von Doom e Alistaire Smythe. Smythe, Jameson pensou. Vou ter que investigá-lo. Ele odeia Homem-Aranha, mas depois de eu ter atrapalhado a vida dele na última vez, talvez me odeie tanto que tenha feito um acordo com o teioso. Mas muitos dos componentes roubados não tinham aplicações robóticas claras, pelo menos foi o que os projetistas lhe disseram. Ele não conseguiu entender tudo o que os engenheiros contaram sobre os sistemas de prototipagem rápida, extração carbotérmica e sabe-se lá o que mais, mas tudo apontava em uma direção: quem quer que tivesse roubado aqueles componentes devia estar montando um grande projeto científico, algo que iria além de construir robozinhos de brinquedo para encenar lutas no alto dos arranha-céus de Manhattan. E tudo indicava que essa pessoa precisaria de habilidade, equipamento de precisão e fontes de energia consideráveis para isso. Ao investigar Smythe, Jameson descobriu que o homem estivera preso em sua cela todo o tempo, não parecendo ser um suspeito viável. Doutor Destino estava indisponível para comentários. Richards era um suspeito improvável, mas Jameson o consultou para obter informações sobre robótica e possíveis personagens do submundo com a habilidade necessária. Richards tinha pouco tempo para a entrevista – algo a respeito do Quarteto Fantástico estar “a caminho de outra dimensão” – mas sugeriu que Jameson desse uma olhada em Phineas Mason, um inventor que ele alegou ser uma figura do submundo conhecido como Terrível Consertador. Jameson passou na oficina de Mason, descobrindo que ele era um homem muito frio, quase ele mesmo um robô. O homem não deu nenhuma informação e não reagiu à intimidação de Jameson. O jornalista quase teve de admirar a rara capacidade dele de resistir ao Três Jotas (como seus antigos colegas de reportagem o chamavam) sem nem chegar a suar. – Não pense que isto acabou – Jonah lhe disse antes de sair. – Vou continuar de olho em você. E, se eu encontrar uma teia de aranha nas suas coisas, você vai desejar nunca ter ouvido falar de Jogador Jameson. – Quem? Apesar disso, quanto mais Jameson investigava, mais passou a ser incomodado por um pensamento. Tentava não dar ouvidos a ele, mas estava ficando cada vez mais difícil de ignorar. Por fim, precisou reconhecer para si mesmo. Isso não parece coisa do Homem-Aranha. Não tem uma única pista que aponte para ele. Uma coisa era descartar isso quando estava sentado em sua suíte no quadragésimo sexto andar, supondo que seus repórteres estavam simplesmente deixando alguma coisa passar. Mas, quanto mais tempo passava nas trincheiras, quanto mais refrescava a memória de como era caçar uma matéria, mais difícil ficava negar que aquela história não o estava levando em nenhuma direção em que haveria teias no final. Não, ele disse a si mesmo. Homem-Aranha tem que estar envolvido. Ele está atrás de mim e da minha família, disso eu tenho certeza. Deve haver alguma relação entre ele e os robôs. Talvez… talvez ele não passe de um cúmplice de outra pessoa, admitiu a contragosto. Talvez seus ataques contra minha família sejam parte de algo maior. Mas ele tem que fazer parte disso. Coloquei minha reputação em jogo por essa opinião e não posso dar para trás agora. Preciso me manter fiel às minhas convicções! Preciso estar certo! Entretanto, uma de suas convicções não era reportar a verdade? Seguir as evidências para onde quer que elas guiassem e informá-las ao público de maneira precisa? Eu vou encontrar a verdade, ele jurou. Mas o Homem-Aranha vai fazer parte dessa verdade. Tem que fazer. Não tem?

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