11 de abril de 1778
i
À meia-noite, coloquei um vestido, peguei uma vela e, em silêncio, desci a escada para a
biblioteca, onde aguardei pelo Sr. Weatherall.
Ele entrou sozinho no château, movimentando-se como um mistério, sem perturbar
os cães, e quando adentrou a biblioteca foi com tal discrição que mal ouvi a porta se abrir
e fechar. Atravessou o piso em poucas passadas, tirou a peruca — a coisa maldita, ele a
detestava —e me agarrou pelos ombros.
— Dizem que ela está definhando rapidamente — disse ele, e ansiava que fossem
boatos.
—Sim —falei-lhe, baixando o olhar.
Ele fechou os olhos e, embora não fosse nada velho —tinha seus quarenta e poucos,
assim como meus pais —, os anos marcavam seu rosto.
“O Sr. Weatherall e eu já fomos muito próximos”, dissera minha mãe. Ela sorrira ao
falar isso. Imagino que tenha ruborizado.
ii
Fazia um frio congelante naquele dia de fevereiro, quando conheci o Sr. Weatherall.
Aquele foi o primeiro dentre os invernos verdadeiramente cruéis, mas enquanto em Paris
o rio Sena transbordava e congelava e os indigentes morriam nas ruas, as coisas eram
muito diferentes em Versalhes. Quando acordávamos, os criados já haviam acendido o
fogo que crepitava nas lareiras, comíamos o desjejum fumegante e nos agasalhávamos em
peles quentes, nossas mãos aquecidas por regalos enquanto fazíamos nossas caminhadas
durante a manhã e a tarde pelos jardins.
Naquele dia em particular, o sol brilhava, embora de nada adiantasse para compensar
o frio de arrepiar os ossos. Uma crosta de gelo faiscava lindamente sobre uma grossa
camada de neve, e era tão dura que Scratch, nosso lébrel irlandês, conseguia andar nela
sem que as patas afundassem. Ele deu alguns passos hesitantes e, ao perceber a boa sorte,
soltou um latido alegre e disparou à frente, enquanto minha mãe e eu atravessávamos o
jardim e nos dirigíamos às árvores no perímetro do gramado sul.
Segurando a mão dela, olhei para trás enquanto andávamos. De longe, nosso château
brilhava no reflexo do sol e da neve, as janelas cintilando, e então, ao sairmos do sol e
seguirmos por entre as árvores, ele tornou-se indistinto, como se rabiscado com lápis.
Distanciamo-nos mais do que o de costume, percebi. Havíamos saído do alcance de seu
abrigo.
— Não fique assustada se vir um cavalheiro nas sombras — disse minha mãe,
curvando-se um pouco para mim. Sua voz era baixa. Apertei-lhe um pouco mais a mão ao
me dar conta de tal ideia e ela riu. —Nossa presença aqui não é coincidência.
Eu tinha então 6 anos e nem imaginava que o encontro entre uma dama e um
cavalheiro em tais circunstâncias podia ter “repercussões”. Até onde eu compreendia, era
só minha mãe encontrando-se com um homem, e aquilo não era mais significativo do que
uma conversa entre ela e Emanuel, nosso jardineiro, ou do que seus dias com Jean, nosso
cocheiro.
O gelo confere quietude ao mundo. No bosque, estava ainda mais silencioso do que
no gramado coberto de neve, e fomos arrebatadas por uma tranquilidade absoluta ao
tomarmos o caminho estreito para o interior da mata.
—OSr. Weatherall gosta de brincar —disse minha mãe, a voz aos sussurros, fazendo
jus à paz. —Pode querer nos surpreender e devemos sempre estar cientes de surpresas
reservadas a nós. Levamos em conta nosso entorno e calculamos as expectativas de acordo
com isso. Está vendo rastros?
A neve em volta de nós estava intocada.
—Não, mamãe.
—Ótimo. Então podemos ter certeza do nosso raio. Agora, onde um homem poderia
se esconder, em tais condições?
—Atrás de uma árvore?
—Muito bem, muito bem... Mas que tal aqui? —Ela apontou para o alto e estiquei o
pescoço para ver o dossel de galhos, o gelo cintilando em fragmentos de sol.
—Observe tudo, sempre. —Minha mãe sorriu. —Use seus olhos para enxergar, e se
possível não incline a cabeça. Não mostre aos outros para onde está dirigindo sua
atenção. Na vida, você terá adversários, e estes buscarão em você pistas de suas intenções.
Mantenha-se em vantagem fazendo-os conjecturar.
—Nosso visitante estará no alto de uma árvore, mamãe? —perguntei.
Ela riu.
—Não. Na realidade, já o vi. Você o vê, Élise?
Paramos. Mirei as árvores à nossa frente.
—Não, mamãe.
—Apareça, Freddie —chamou minha mãe e, dito e feito, a alguns metros adiante, um
homem de barba grisalha saiu de trás de uma árvore, tirou rapidamente o tricorne da
cabeça e nos fez uma mesura exagerada.
Os homens de Versalhes têm um determinado estilo. Olham de cima a todos que
diferem deles. Têm o que eu considerava “sorrisos de Versalhes”, suspensos entre a
ironia e o tédio, como se estivessem constantemente prestes a soltar um gracejo
espirituoso pelo qual, ao que parecia, todos os homens da corte eram julgados.
Este não era um homem de Versalhes, a barba por si só já me dizia isso. E embora
sorrisse, não era um sorriso de Versalhes; era suave porém sério, o rosto de um homem
que pensava antes de falar e que imprimia significado às suas palavras.
— Você deixou uma sombra, Freddie. — Minha mãe sorriu enquanto ele se
aproximava, beijando a mão estendida dela e fazendo o mesmo comigo, com uma nova
reverência.
—Uma sombra? —disse ele, e a voz saiu calorosa e meio rosnada, sem civilidade, a
voz de um marinheiro ou soldado. —Ah, maldição, devo estar perdendo o jeito.
— Espero que não, Freddie. — Minha mãe riu. — Élise, este é o Sr. Weatherall, um
inglês. Associado meu. Freddie, minha filha, Élise.
Um associado? Como os Corvos? Não, ele não era nada parecido com eles. Em vez de
me olhar feio, segurou minha mão, curvou-se e a beijou.
— Encantado, mademoiselle — disse com a voz rouca, seu sotaque estropiando a
palavra “mademoiselle” de um jeito que não pude deixar de julgar encantador.
Minha mãe me encarou com uma expressão séria.
—O Sr. Weatherall é nosso confidente e protetor, Élise. Um homem com quem você
pode sempre contar quando precisar de ajuda.
Olhei-a com certo sobressalto.
—Mas e papai?
—Papai nos ama encarecidamente e dará a vida por nós de bom grado, mas homens
tão importantes como seu pai precisam ser protegidos de suas responsabilidades
domésticas. Por isso temos o Sr. Weatherall, Élise... Para que seu pai não seja
incomodado com questões relacionadas às mulheres da vida dele. —Uma expressão ainda
mais sugestiva invadiu os olhos dela. — Seu pai não precisa ser incomodado, Élise,
compreendeu?
—Sim, mamãe.
OSr. Weatherall assentia.
—Estou aqui para servi-la, mademoiselle —disse-me ele.
—Obrigada, monsieur. —Fiz uma reverência.
Scratch apareceu, cumprimentando animadamente o Sr. Weatherall, os dois
evidentemente velhos amigos.
— Podemos conversar, Julie? — perguntou o protetor, recolocando o tricorne e
indicando que os dois podiam caminhar juntos.
Fiquei alguns passos atrás, ouvindo breves fragmentos desconjuntados da conversa
aos sussurros. Ouvi “Grão-Mestre” e “Rei”, mas eram apenas palavras, do tipo que eu
costumava ouvir atrás das portas do château. Apenas muitos anos depois deste episódio
elas assumiram uma ressonância muito maior.
E então aconteceu.
Fazendo um retrospecto, não consigo me lembrar da sequência dos acontecimentos.
Lembro-me de ver minha mãe e o Sr. Weatherall tensos enquanto Scratch se eriçava e
rosnava. Em seguida, minha mãe girou o corpo. Meu olhar acompanhou os olhos dela e
então eu vi: um lobo parado na mata, à minha esquerda, um lobo preto e cinzento,
completamente imóvel entre as árvores, fitando-me com olhos famintos.
Algo surgiu de dentro do regalo de minha mãe, uma lâmina prateada, e em duas
passadas rápidas ela atravessou e veio a mim, segurou-me no ar e me colocou atrás de si,
de modo que me agarrei a suas saias enquanto ela encarava o lobo, com a lâmina
estendida.
Do outro lado, o Sr. Weatherall segurava Scratch, que se retesava, rosnando, os pelos
da nuca arrepiados, e notei que a outra mão alcançava a guarda de uma espada que pendia
na lateral do quadril.
—Espere —ordenou minha mãe. A mão erguida deteve o Sr. Weatherall de pronto.
—Não creio que este lobo vá atacar.
—Não estou tão certo disso, Julie —alertou o Sr. Weatherall —, este aí é um lobo que
parece excepcionalmente faminto.
Olobo encarava minha mãe. Ela olhou para trás, falando conosco ao mesmo tempo.
—Não há nada para ele comer nas colinas; foi o desespero que o trouxe aos jardins.
Mas creio que este lobo sabe que, se nos atacar, fará de nós seus inimigos. É muito
melhor para ele se retirar, diante da força implacável, e procurar alimento em outro local.
OSr. Weatherall soltou uma risada curta.
—Por que estou sentindo ter uma parábola no ar nisso aí?
—Porque, Freddie —minha mãe sorriu —, há uma parábola aqui.
O lobo olhou fixamente por mais alguns instantes, sempre concentrado em minha
mãe, então virou-se e trotou lentamente para longe. Vimos desaparecer por entre as
árvores, e minha mãe relaxou a postura, a lâmina recolhida de volta ao abafador.
Olhei para o Sr. Weatherall, o casaco já estava abotoado outra vez e não havia sinal da
espada.
E fiquei um passo mais perto daquele tal pescar algo.
iii
Levei o Sr. Weatherall ao quarto da minha mãe, e ele me pediu para vê-la a sós,
garantindo-me que encontraria a saída sozinho. Curiosa, espiei pelo buraco da fechadura
e o vi sentar-se ao lado dela, pegar sua mão e baixar a cabeça. Instantes depois, pensei
ouvi-lo chorar.
12 de abril de 1778
i
Olho pela minha janela e lembro-me do último verão, quando em momentos de
brincadeiras com Arno, livrei-me de minhas angústias e desfrutei de dias de júbilo, sendo
mais uma vez uma garotinha, correndo com ele pelo labirinto de sebe nos jardins do
palácio, disputando a sobremesa, pouco sabendo que a trégua das preocupações seria tão
temporária.
Toda manhã, eu cravava as unhas nas palmas das mãos e dizia, “Ela está acordada?” e
Ruth, sabendo que na verdade eu queria dizer “Ela está viva?”, garantia-me que mamãe
havia sobrevivido à noite.
Mas não por muito tempo.
ii
E então. O momento em que pesquei tudo. Aproximava-se. Mas, primeiro, mais uma
pista.
Os Carroll chegaram na primavera do ano em que conheci o Sr. Weatherall. E que
linda primavera foi. A neve derretera-se e revelara tapetes exuberantes de grama
perfeitamente aparada, devolvendo a Versalhes o seu estado natural de perfeição
imaculada. Cercados pela topiaria perfeita de nossos jardins, mal ouvíamos o zumbido da
cidade, enquanto à nossa direita, ao longe, os declives do palácio eram visíveis, largos
degraus de pedra que levavam às colunas de sua fachada imensa. O esplendor perfeito
para se entreter os Carroll de Mayfair, da cidade inglesa de Londres. O Sr. Carroll e meu
pai passavam horas na sala de estar, aparentemente imersos em conversas, e de vez em
quando eram visitados pelos Corvos, ao passo que minha mãe e eu tínhamos a tarefa de
entreter a Sra. Carroll e sua filha May, que não perdeu tempo em contar-me que tinha 10
anos, afinal eu só tinha 6 e tal diferença a tornava muito melhor do que eu.
Convidamos as duas para uma caminhada e nos agasalhamos contra o leve frio da
manhã que logo seria aquecido pelo sol: mamãe e eu, Sra. Carroll e May.
Minha mãe e a Sra. Carroll andavam alguns passos adiante; minha mãe, percebi, usava
seu regalo, aquele tal rolo de pele que aquecia nossas mãos, e fiquei imaginando se a
lâmina estaria escondida ali. Tive de perguntar a respeito disso, naturalmente, depois do
incidente com o lobo.
—Mamãe, por que você guarda uma faca em seu regalo?
—Ora, Élise, para a ameaça de ataques de lobos, evidentemente. —E com um sorriso
irônico, acrescentou: — Lobos das variedades de quatro patas e de duas pernas. De
qualquer modo, a lâmina ajuda a manter o formato do regalo.
Mas então, conforme rapidamente vinha se tornando costume, ela me fez prometer
guardar aquilo como uma de nossas vérités cachées. O Sr. Weatherall era uma vérité
cachée. Significava que quando o Sr. Weatherall me desse uma aula de espada, também
teria se tornado uma vérité cachée.
Em outras palavras, um segredo.
May e eu mantínhamos uma distância educada de nossas mães. A bainha de nossas
saias roçava na grama, e assim de longe parecia que deslizávamos pelo terreno, quatro
damas em um transporte perfeito.
—Quantos anos você tem, fedelha? —cochichou-me May, embora eu já tivesse dito,
ela já determinara nossas idades. Duas vezes.
—Não me chame de fedelha —retruquei com afetação.
—Desculpe-me, fedelha, mas me diga novamente quantos anos tem.
—Tenho seis —respondi.
Ela soltou uma gargalhada do tipo seis-anos-é-uma-idade-horrorosa, como se ela
própria nunca a tivesse tido.
— Bem, eu tenho dez — disse com arrogância. (E, como aparte, May Carroll dizia
tudo “com arrogância”. Na verdade, a não ser que eu diga o contrário, simplesmente
presuma que ela tenha falado com arrogância.)
—Sei que tem dez anos —sibilei, imaginando-me ingenuamente estendendo o pé para
fazê-la se esborrachar no cascalho do caminho.
— É só para que você não se esqueça — disse ela, e imaginei os pedacinhos de
cascalho grudando-se em seu rosto choroso enquanto ela se levantava do chão. Como foi
mesmo que o Sr. Weatherall me falou? Quanto maior você é, mais dura a queda.
(E agora que cheguei aos dez anos, pergunto-me, serei eu arrogante como May? Terei
aquele tom de zombaria quando falo com os mais jovens ou de status inferior a mim?
Segundo o Sr. Weatherall, sou confiante demais, o que suponho ser um jeito gentil de se
dizer “arrogante”, e talvez por isso May e eu tenhamos enfrentado nossos atritos, porque
no fundo éramos muito parecidas.)
Ao darmos nossa volta pelos jardins, as palavras pronunciadas pelas damas à frente
chegaram aos nossos ouvidos, a Sra. Carroll dizendo, “Evidentemente temos
preocupações com a direção que sua Ordem parece querer tomar”.
—Vocês têm preocupações? —disse minha mãe.
— Decerto. Preocupações com as intenções dos associados de seu marido. E,
conforme ambas já sabemos, é nosso dever garantir que nossos maridos ajam
corretamente. Quem sabe, se não se importa que eu diga, seu marido não esteja dando a
determinadas facções licença para ditar suas políticas?
— Sem dúvida, há integrantes de alto escalão que preferem, devemos dizer, medidas
mais extremas com respeito à mudança na velha ordem.
—Isto nos preocupa na Inglaterra.
Minha mãe riu.
—Naturalmente. Na Inglaterra, vocês se recusam a aceitar qualquer tipo de mudança.
A Sra. Carroll se empertigou.
— De modo algum. Sua interpretação de nosso caráter nacional carece de sutilezas.
Mas começo a desconfiar de onde estão suas lealdades, Madame de la Serre. A senhora
mesma roga por mudanças?
—Se as mudanças forem para melhor.
— Assim, preciso informar que suas lealdades estão com os conselheiros de seu
marido? Minha missão terá sido em vão?
—Nem tanto, senhora. É reconfortante saber que desfruto do apoio de meus colegas
ingleses na oposição a medidas drásticas. Mas não posso alegar partilhar seu objetivo
final. Embora seja verdade que existam forças pressionando pelo golpe violento; e embora
seja verdade que meu marido acredite na monarquia por direito divino, que os ideais dele
para o futuro não incluam mudança alguma, eu mesma trilho o caminho do meio. Uma
terceira via, se preferir. Talvez não a surpreenda saber que considero minha ideologia a
mais moderada das três.
Elas deram mais alguns passos e a Sra. Carroll assentiu, pensando.
Cortando o silêncio, minha mãe falou:
—Lamento se a senhora não sente que nossos objetivos estejam em consonância, Sra.
Carroll. Minhas desculpas se isto faz de mim uma confidente um tanto duvidosa.
A outra mulher concordou com um meneio de cabeça.
—Entendo. Bem, em seu lugar, Madame de la Serre, eu usaria minha influência para
com os dois lados a fim de propor seu caminho do meio.
— Não gostaria de me manifestar nesta questão, mas esteja certa de que sua viagem
não foi em vão. Meu respeito pela senhora e seu ramo da Ordem permanece firme, e
espero que seja recíproco. De minha parte, pode confiar em duas coisas: primeiramente,
que obedecerei a meus princípios; e em segundo lugar, que não permitirei que meu
marido seja controlado pelos conselheiros.
—Assim a senhora me dá o que desejo.
—Muito bem. Espero que seja de algum consolo.
Atrás, May inclinou a cabeça para mim.
—Seus pais já lhe falaram de seu destino?
—Não. Oque quer dizer com “destino”?
Ela pôs a mão na boca, fingindo ter falado demais.
— Eles falarão, talvez, quando você fizer dez anos. Como fizeram comigo. Quantos
anos tem, aliás?
—Tenho seis —respondi, depois de ter suspirado.
—Bem, talvez eles lhe digam quando você fizer dez, como fizeram comigo.
No fim, é claro, meus pais foram obrigados a uma atitude prematura, e tiveram de
falar de meu “destino” muito antes, porque dois anos depois, no outono de 1775, quando
eu acabara de completar 8 anos, minha mãe e eu saímos para comprar calçados.
iii
Assim como o château em Versalhes, tínhamos um château de bom tamanho na cidade e,
sempre que estávamos lá, minha mãe gostava de fazer compras.
Como já contei, embora ela desdenhasse da maioria das modas, detestando leques e
perucas, conformando-se ao mínimo de exibicionismo quando se tratava de seus vestidos,
havia algo no qual ela era exigente.
Sapatos. Ela adorava sapatos. Comprava pares de sapatos de seda na Christian, em
Paris, aonde íamos com a pontualidade de um relógio, uma vez a cada duas semanas,
porque era sua única extravagância, dizia ela, e minha também, pois sempre saíamos com
um par de sapatos para mim e outro para ela.
A Christian localizava-se em uma das ruas mais salubres de Paris, longe de nosso
château na Île Saint-Louis. Ainda assim, tudo é relativo e eu me via prendendo a
respiração enquanto nos ajudavam a sair do interior confortável e do cheiro fragrante de
nossa carruagem, e pisávamos na rua barulhenta e agitada, tomada pelo som de berros,
cascos de cavalos e pelo constante retumbar das rodas de carruagem. Osom de Paris.
Acima de nós, mulheres se inclinavam de braços cruzados nas janelas e observavam o
mundo passar. Ladeando a rua, havia barracas que vendiam frutas e tecidos, carrinhos de
mão guarnecidos com pilhas altas de produtos e manejados por homens e mulheres de
avental que imediatamente nos chamavam aos gritos.
—Madame! Mademoiselle!
Meu olhar foi atraído para as sombras, à beira da rua, onde vi rostos pálidos na
penumbra e imaginei ter visto fome e desespero naqueles olhos que nos observavam com
reprovação e avidez.
— Venha comigo, Élise — pediu minha mãe, e segurei as saias, como ela fazia,
andando cautelosamente pela lama e excremento sob nossos pés, daí fomos conduzidas à
Christian pelo proprietário.
A porta bateu às nossas costas, o mundo exterior ignorado. Um ajudante de loja se
ocupou de nossos pés com um pano e em instantes era como se nunca tivéssemos feito
aquela travessia perigosa, aquela curta distância entre nossa carruagem e a porta de uma
das lojas de calçados mais exclusivas de Paris.
Christian usava uma peruca branca amarrada atrás por uma fita preta, além de
sobrecasaca e calções brancos. Era a perfeita aproximação de alguém entre o nobre e o
lacaio, que era como ele se via na pirâmide social. Ele gostava de dizer que estava em seu
poder fazer as mulheres se sentirem bonitas, que este era o maior poder que um homem
possuía. Entretanto, para ele, minha mãe ainda era um enigma, como se fosse a única
cliente sobre a qual seu poder não tivesse efeito. De fato não tinha mesmo e eu sabia por
quê. Era porque outras mulheres simplesmente viam os sapatos como tributos à própria
vaidade, enquanto mamãe os adorava como objetos de beleza.
Christian, porém, ainda não havia chegado a esta conclusão e, assim, todas as visitas
eram marcadas pelas gafes dele.
— Veja, madame — disse ele, apresentando-lhe um par de chinelos enfeitados com
uma fivela —, toda dama que passa por esta porta fica de joelhos bambos à mera visão
desta nova criação primorosa, entretanto só Madame de la Serre tem os tornozelos belos
o suficiente para lhes fazer justiça.
— Frívolos demais, Christian. — Minha mãe sorriu e, com um gesto imperioso,
apontou outras prateleiras. Lancei os olhos para o ajudante da loja, que retribuiu meu
olhar com uma expressão indecifrável, então prossegui.
Ela escolhia rapidamente. Tomava suas decisões com uma certeza que sempre
assombrava Christian. Eu, sua companhia constante, notava a diferença nela enquanto
escolhia seus sapatos. Uma leveza. Um sorriso que ela abria em minha direção enquanto
calçava outro sapato e admirava os lindos tornozelos no espelho juntamente a um arfar e
à tagarelice de Christian —cada calçado uma obra de arte refinada em progresso, e o pé
de minha mãe era o arabesco final.
Escolhemos nossos pares, minha mãe tomou as providências para o pagamento e a
entrega e então saímos, Christian ajudando-nos a chegar à rua, onde...
Não havia sinal de Jean, nosso cocheiro. Nenhum sinal de nossa carruagem.
— Madame? — disse Christian, o rosto vincado de preocupação. Senti minha mãe
enrijecer, notei que empinava o queixo enquanto seus olhos percorriam a rua.
— Não há com que se preocupar, Christian — garantiu-lhe ela num tom jovial —,
nossa carruagem está um pouco atrasada, só isso. Desfrutaremos da vista e dos sons de
Paris enquanto aguardamos aqui por sua volta.
Começava a escurecer e havia um friozinho no ar, o qual ficou mais intenso com o
início da neblina do entardecer.
— Isto está fora de cogitação, madame, não podem esperar na rua — disse um
Christian perplexo.
Ela o olhou com um meio sorriso.
—Para proteger minha suscetibilidade, Christian?
—É perigoso. —protestou ele, e se curvou para sussurrar, o rosto distorcido numa
expressão um tanto enojada: —E o povo.
—Sim, Christian —disse ela, como se o deixando saber de um segredo —, é apenas o
povo. Agora, por favor, volte para dentro. Sua próxima cliente valoriza o atendimento
exclusivo com o vendedor de calçados mais atencioso de Paris tanto quanto eu, e sem
dúvida a irritaria ter de partilhar seu tempo com duas extraviadas que aguardam o
cocheiro negligente.
Conhecendo minha mãe como uma mulher que raras vezes mudava de ideia e
sabendo que tinha razão a respeito da cliente seguinte, Christian, curvando-se em
concordância, deu-nos um au revoir e voltou à loja, deixando-nos a sós na rua, onde os
carrinhos de mão já estavam sendo retirados e as pessoas se dissipavam em formas
ambulantes na neblina turva.
Segurei a mão de minha mãe.
—Mamãe?
— Não se preocupe, Élise. — Ela empinou o queixo. — Alugaremos uma carruagem
para nos levar a Versalhes.
—Não ao château aqui em Paris, mamãe?
— Não — disse ela, pensando, mordendo sutilmente o lábio —, creio preferir que
retornemos a Versalhes.
Ela estava tensa e atenta quando começou a nos guiar pela rua, deslocadas em nossas
saias compridas e gorros. Pegou um espelho compacto na bolsa para verificar o blush e
paramos para olhar a vitrine de uma loja.
Mesmo ao andarmos, ela aproveitava a oportunidade para me ensinar.
— Sua expressão deve ser impassível, Élise. Não demonstre seus verdadeiros
sentimentos, em especial se estiver nervosa. Não aparente ter pressa. Mantenha seu
exterior calmo. Mantenha o controle.
A multidão agora diminuía.
—Há carruagens para aluguel na praça e chegaremos lá em alguns instantes. Primeiro,
porém, tenho algo a lhe dizer. Quando eu lhe falar, você não deve reagir, não deve virar a
cabeça. Compreendeu?
—Sim, mamãe.
— Muito bem. Estamos sendo seguidas. Ele vem nos seguindo desde que saímos da
loja de Christian. Um homem de capa e cartola de feltro.
—Por quê? Por que o homem nos segue?
—Ora essa, Élise, esta é uma ótima pergunta e é algo que pretendo descobrir. Apenas
continue andando.
Paramos para olhar outra vitrine.
—Acredito que nossa sombra tenha desaparecido —disse ela com cuidado.
—Então isso é bom —respondi, com toda a ingenuidade de meu ser despreocupado
de 8 anos.
Havia preocupação no rosto dela.
— Não, minha querida, isso não é bom. Prefiro que ele esteja onde eu possa vê-lo.
Agora terei de me perguntar se ele realmente se foi ou, como parece mais provável,
apressou-se à nossa frente para nos interceptar antes de chegarmos à praça. Ele estará
esperando que tomemos a rua principal. Nós o enganaremos, Élise, escolhendo outra
rota.
Pegando minha mão, ela nos tirou da rua, primeiro entrando em uma via mais
estreita, em seguida em uma longa viela escura, exceto por uma lamparina acesa em cada
extremidade.
Estávamos no meio do caminho quando a figura saiu da neblina, se pondo diante de
nós. A névoa perturbada ondulou pelas paredes escorregadias dos dois lados da viela
estreita. E percebi que minha mãe tinha cometido um erro.
iv
Ele tinha o rosto fino emoldurado por um esguicho do cabelo branco quase imaculado,
parecia um médico um tanto dândi, porém maltrapilho, com a capa preta e longa e a
cartola desgastada, os babados da camisa se derramando pela gola.
Portava uma maleta de médico que colocou no chão e abriu usando apenas uma das
mãos, tudo isso sem desviar os olhos de nós, aí pegou algo dentro dela, algo longo e
curvo.
Depois sorriu e sacou a adaga de sua bainha, e ela brilhou malignamente no escuro.
—Fique perto de mim, Élise —cochichou minha mãe —, vai ficar tudo bem.
Acreditei nela porque eu era uma menina de 8 anos e naturalmente acreditava em
minha mãe. Mas também porque, tendo-a visto com o lobo, eu tinha bons motivos para
acreditar.
Mesmo assim, o medo roía minhas entranhas.
—Oque deseja, monsieur? —perguntou ela tranquilamente.
Ele não respondeu.
—Muito bem. Então voltaremos ao lugar de onde viemos —disse minha mãe em voz
alta, pegando minha mão, prestes a partir.
Na entrada da viela, uma sombra bruxuleou e uma segunda figura apareceu sob o
brilho alaranjado da lamparina. Era um acendedor de lampiões; sabíamos por causa do
bastão que carregava. Mesmo assim, minha mãe parou.
—Monsieur —chamou ela para o acendedor cautelosamente —, posso lhe pedir para
afastar este cavalheiro que nos incomoda?
O acendedor não disse nada, indo em vez disso até onde a lâmpada ardia e erguendo
seu bastão. Minha mãe começou a falar, “Monsieur...” e me perguntei por que o homem
tentava acender uma lamparina que já estava acesa, então percebi, tarde demais, que o
bastão possuía um gancho na extremidade —o gancho que usavam para apagar a chama
em seu interior.
—Monsieur...
A entrada mergulhou na escuridão. Nós ouvimos o sujeito deixar o bastão cair com
um estrondo e, à medida que nossos olhos se adaptavam, vi que ele enfiava a mão no
casaco para tirar alguma coisa. Outra adaga. Agora ele também se aproximava, um passo.
A cabeça de minha mãe girava do acendedor ao médico.
—Oque deseja, monsieur? —perguntou ela ao médico.
Em resposta, o médico exibiu o outro braço. Com um ruído metálico, uma segunda
lâmina surgiu de seu punho.
—Assassino —disse ela com um sorriso enquanto ele se aproximava.
O acendedor também estava próximo agora — o suficiente para vermos a severidade
na boca dos homem e os olhos semicerrados. Minha mãe virou a cabeça para o outro
lado e viu o médico, com as duas lâminas junto às laterais do corpo. Ele ainda sorria.
Estava desfrutando —ou tentando passar a impressão de estar se deleitando com aquilo
tudo.
Fosse como fosse, minha mãe se revelou tão imune à maldade dele como aos
encantos de Christian, e o movimento seguinte dela foi gracioso como um passo de
dança. Seus calcanhares estalaram na pedra quando ela estendeu um pé, abaixou-se e
sacou uma faca de bota, tudo num piscar de olhos.
Num segundo éramos uma mulher e a filha indefesas apanhadas em uma viela escura,
no seguinte, não: éramos uma mulher brandindo uma faca para proteger a filha. Uma
mulher que, pelo modo como puxara a arma e agora se postava, sabia exatamente o que
fazer com a faca.
Os olhos do médico vacilaram. Oacendedor se deteve. Ambos pararam para pensar.
Ela segurava a faca na mão direita e eu sabia que havia algo errado porque minha mãe
era canhota, e oferecia seu ombro ao médico.
O médico avançou. Ao mesmo tempo, minha mãe passou a faca da mão direita para a
esquerda, sua saia se empoçou quando ela se abaixou e, com a mão direita estendida para
garantir equilíbrio, golpeou a fronte do médico utilizando a mão esquerda, e a
sobrecasaca dele se abriu como se cortada por um alfaiate, o tecido instantaneamente
ficando ensopado de sangue.
Ele foi cortado, mas não gravemente ferido. Então arregalou os olhos e arremeteu,
evidentemente chocado com a habilidade do ataque de minha mãe. Apesar de toda sua
atitude sinistra, ele parecia assustado e, em meio ao meu próprio medo, senti outra coisa:
orgulho e assombro. Jamais me sentira tão protegida.
Ainda assim, embora ele tivesse vacilado, permaneceu de pé, e, quando seus olhos se
dirigiram para trás de nós, minha mãe girou tarde demais para impedir que o acendedor
me agarrasse por trás, com um braço sufocante em meu pescoço.
—Largue a faca, ou... —começou a dizer o acendedor.
Mas não terminou a frase porque, meio segundo depois, estava morto.
A velocidade dela o pegou de surpresa —não só a velocidade com que agiu, mas de
sua decisão; se ela permitisse que o acendedor me tomasse como refém, então tudo
estaria perdido. E isto lhe deu vantagem quando ela girou para o acendedor, encontrando
o espaço entre meu corpo e o dele, erguendo o cotovelo e, com um grito, esfaqueando o
pescoço do homem.
Ele emitiu um som, algo parecido com boac, e senti seu braço ceder, depois vi o
lampejo de uma lâmina enquanto minha mãe aproveitava a vantagem e impelia bem fundo
a faca de bota na barriga do homem, empurrando-o contra a parede da viela e, com um
leve grunhido de esforço, impulsionando a lâmina para cima, e em seguida afastando-se
rapidamente enquanto a frente da camisa do homem escurecia com o sangue e se
avolumava devido às entranhas derramadas, o homem escorregando ao chão.
Ela aprumou o corpo para enfrentar um segundo ataque do médico, mas só o que
vimos foi a capa dele enquanto dava meia-volta e corria, abandonando a viela e fugindo
para a rua.
Minha mãe segurou meu braço.
—Venha, Élise, antes que você suje os sapatos de sangue.
v
Havia sangue na capa de minha mãe. Tirando isso, não havia como saber que ela
presenciara um combate recentemente.
Logo depois de chegarmos em casa, recados foram enviados e rapidamente os Corvos
apareceram, agitados, com um grande estrépito de bengalas, esbaforidos e falando alto
sobre punir “os responsáveis”. Enquanto isso, a criadagem também estava em alvoroço,
levando mãos aos pescoços e fofocando pelos cantos, e meu pai estava lívido. Notei que
ele parecia compelido a continuar nos abraçando, segurando nós duas um pouco forte
demais e por tempo demais, então afastando-se brevemente com os olhos cintilantes por
causa das lágrimas.
Só minha mãe estava serena. Tinha o equilíbrio e a autoridade de quem se
desempenhara bem. E com razão. Graças a ela, sobrevivemos ao ataque. Eu me
perguntava: será que ela no fundo estava tão emocionada quanto eu?
Eu seria solicitada a dar minha versão dos acontecimentos, avisou-me ela na
carruagem de aluguel a caminho de nosso château. Com respeito a isto, eu deveria seguir
sua liderança, apoiar tudo o que ela falasse e não manifestar nada que a contradissesse.
E assim ouvi minha mãe contar suas versões da história, primeiro a Olivier, nosso
mordomo-chefe, depois a meu pai quando este chegou, e por fim aos Corvos, quando
entraram num repente. E embora as histórias dela adquirissem maiores detalhes ao
decorrer da narrativa, respondendo a todas as perguntas que lhe disparavam, todas
careciam de um detalhe muito importante. Omédico.
—Não viu nenhuma lâmina oculta? —indagaram a ela.
—Não vi nada que identificasse meus agressores como Assassinos —respondeu ela
—, sendo assim, não posso supor ter sido obra de Assassinos.
— Os ladrões comuns de rua não são tão organizados como este homem parece ter
sido. Não pode considerar o sumiço de sua carruagem mera coincidência. Talvez Jean
apareça embriagado, ou não. Talvez apareça morto. Não, madame, isto não tem nada que
evidencie ser um crime oportunista. Foi um ataque premeditado contra a sua pessoa, um
ato de agressão de nossos inimigos.
Olhos se voltavam para mim. Por fim fui solicitada a deixar a sala, o que fiz,
encontrando um assento no corredor, ouvindo as vozes do cômodo que reverberavam
pelo piso de mármore até meus ouvidos.
—Grão-Mestre, deve se dar conta de que isto foi obra dos Assassinos.
(Mas a meus ouvidos tinha sido obra de “assassinos”, e assim sentei-me ali pensando,
é claro que foi obra de assassinos, seu estúpido. Ou “pretensos assassinos”, pelomenos.)
— Tal como minha esposa, preferiria não chegar a nenhuma falsa conclusão —
respondeu meu pai.
—Entretanto, o senhor reforçou a guarda.
—Naturalmente, homem. Todo cuidado é pouco.
—Creio que no fundo o senhor sabe.
A voz de meu pai se elevou.
—E se eu souber? Oque espera que eu faça?
—Ora, que tome uma atitude imediata, é claro.
—E seria esta atitude vingar a honra de minha esposa ou agir para destronar o rei?
—Qualquer uma das duas seria um recado a nossos adversários.
Mais tarde, chegou a notícia de que Jean fora encontrado com a garganta cortada. Senti
frio, como se alguém tivesse aberto uma janela. Chorei. Não só por Jean, mas,
vergonhosamente, também por mim. E observei e escutei enquanto o choque caía sobre
todos da casa, e ouvi lágrimas do porão e as vozes dos Corvos novamente exaltadas, desta
vez em desagravo.
Novamente foram silenciados por meu pai. Quando olhei pela janela, vi homens com
mosquetes nos jardins. À nossa volta, todos estavam tensos. Meu pai veio me abraçar
repetidas vezes —até que fiquei tão farta disso que comecei a me desvencilhar.
vi
—Élise, há algo que precisamos lhe contar.
Este é o momento que você esperava, caro leitor deste diário, quem quer você que
seja —o momento em que finalmente pesquei tudo: quando enfim compreendi por que
me pediram para guardar tantas véritéscachées; quando descobri por que os associados
de meu pai o chamavam de Grão-Mestre; e quando percebi o que eles queriam dizer com
Templários e que “assassino” na realidade significava “Assassino”.
Eles me chamaram ao escritório do meu pai e pediram que as cadeiras fossem
reunidas junto à lareira antes de solicitar aos criados que se retirassem. Meu pai
permaneceu de pé, enquanto minha mãe sentou-se à frente, com as mãos nos joelhos,
reconfortando-me com os olhos. Lembrei-me de certa vez em que fui espetada por uma
farpa e minha mãe me abraçou e me reconfortou, aquietando meu choro enquanto meu
pai segurava meu dedo e retirava a farpa.
— Élise — começou ele —, o que estamos prestes a dizer teria de esperar até seu
décimo aniversário. Mas os acontecimentos de hoje sem dúvida suscitaram-nos muitas
dúvidas e sua mãe acredita que você já esteja pronta para ouvir, assim... Cá estamos.
Olhei para ela, que segurou minha mão, banhando-me em um sorriso acalentador.
Meu pai pigarreou.
Era isso. Qualquer ideia turva que eu tivesse formado a respeito de meu futuro, estava
prestes a mudar.
— Élise — disse ele —, um dia você se tornará a chefe francesa de uma Ordem
internacional secreta que existe há séculos. Você, Élise de la Serre, será uma Grã-Mestre
Templária.
—Grã-Mestre Templária? —repeti, olhando de meu pai para minha mãe.
—Sim.
—Da França?
— Sim, atualmente, este cargo é meu. Sua mãe também tem uma alta posição na
Ordem. Os cavalheiros e Madame Levesque, que nos visitam, também são cavaleiros da
Ordem e, como nós, estão comprometidos com a salvaguarda de seus dogmas.
Escutei, sem realmente compreender, mas perguntando-me por que eles passavam
toda reunião trocando gritos se afinal estavam comprometidos com a mesma coisa.
—Oque são os Templários? —perguntei, em vez disso.
Meu pai apontou para si e para minha mãe, depois estendeu a mão, incluindo a mim
em seu círculo.
— Todos nós somos. Somos Templários. Comprometidos em fazer do mundo um
lugar melhor.
Gostei de como aquilo soava. Gostei do som de “fazer do mundo um lugar melhor”.
—Como vocês fazem isso?
Ele sorriu.
— Ah, ora, esta é uma ótima pergunta, Élise. Como em qualquer outra organização
grandiosa e antiga, existem opiniões divergentes sobre como atingir melhor nossos fins.
Há aqueles que pensam que devemos fazer frente violentamente aos que se opõem a nós.
Outros, que acreditam em divulgar pacificamente nossa ideologia.
—E qual é ela, Papa?
Ele deu de ombros.
— Nosso lema é, “Que o pai da compreensão nos guie”. Entenda bem, o que nós
Templários sabemos é que apesar dos discursos em contrário, as pessoas não desejam a
verdadeira liberdade e responsabilidade porque tais coisas são um fardo grande demais
para suportar, e apenas os espíritos mais fortes conseguem fazê-lo.
“Acreditamos que as pessoas são boas, porém facilmente levadas à maldade, à
indolência e à corrupção; que elas precisam de bons líderes, que não explorarão suas
características negativas, buscando, em vez disso, exaltar aquelas positivas. Acreditamos
que a paz possa ser mantida dessa maneira.
Eu podia sentir meus horizontes se expandindo literalmente enquanto ele falava.
—Espera guiar o povo da França dessa maneira, papai? —perguntei-lhe.
—Sim, Élise, sim, assim esperamos.
—Como?
—Bem, pergunto a você... Oque você pensa?
Minha mente ficou vazia. O que eu pensava? Parecia a pergunta mais difícil que já
haviam feito para mim. Eu não fazia ideia. Ele me olhava com ternura, entretanto eu sabia
que aguardava uma resposta. Olhei para minha mãe, que apertou minha mão,
incentivando, suplicando com os olhos, e descobri minhas crenças nas palavras que certa
vez a ouvi falar ao Sr. Weatherall e à Sra. Carroll.
Eu disse:
—Monsieur, penso que nossa monarquia presente é corrupta além da redenção; que
seu governo envenena o bem da França e que, para que a fé do povo na monarquia seja
restaurada, o rei Luís precisa ser afastado.
Minha resposta o pegou desprevenido e ele se sobressaltou, lançando um olhar
inquisitivo à minha mãe, que deu de ombros como se dizendo Não tenho nada a ver com
isso, embora fossem as palavras dela que eu imitava.
—Entendo —disse ele —, bem, sua mãe sem dúvida está satisfeita em ouvir que você
defende tais ideias, Élise, pois nesta questão ela e eu não estamos de pleno acordo. Como
você, ela acredita na mudança. Quanto a mim, sei que este monarca é nomeado por Deus
e acredito que um monarca corrupto possa ser convencido a enxergar o erro que comete.
Mais um olhar indagativo e um dar de ombros, e eu continuei rapidamente:
—Mas existem outros Templários, papai?
Ele assentiu.
—Sim, pelo mundo todo. Existem aqueles que servem à Ordem. Há aqueles que são
simpáticos a nossos objetivos. Porém, conforme você e sua mãe descobriram hoje, temos
inimigos também. Assim como somos uma antiga ordem que tem esperanças de moldar
o mundo à nossa imagem, do mesmo modo existe uma ordem oposta, com muitos
adeptos sensíveis a seus objetivos. Assim como temos esperança de livrar as pessoas de
bom coração da responsabilidade da decisão para ser suas guardiãs, esta ordem contrária
convida ao caos e aposta na anarquia, insistindo que o homem deve pensar por si
mesmo. Ela defende o abandono do pensamento tradicional que tanto fez para guiar a
humanidade durante milhares de anos em favor de um tipo diferente de liberdade. São
conhecidos como Assassinos. Acreditamos que foram Assassinos que as atacaram hoje.
—Mas, monsieur, eu o ouvi dizer que não tinha certeza...
— Eu disse isso puramente para mitigar a sede de guerra de alguns dos membros
mais incisivos de nossa Ordem. Só podem ter sido Assassinos que atacaram vocês, Élise.
Só eles seriam tão ousados para matar Jean e enviar um homem para assassinar a esposa
do Grão-Mestre. Sem dúvida esperam nos desestabilizar. Desta vez fracassaram. Devemos
cuidar para que fracassem novamente, caso voltem a tentar.
Concordei com a cabeça.
—Sim, papai.
Ele olhou para minha mãe.
—Agora, imagino que os atos defensivos de sua mãe tenham sido uma surpresa para
você, não?
Não foram. Aquele encontro “secreto” com o lobo fora um indicativo para tudo isso.
—Sim, monsieur —falei, fitando os olhos de minha mãe.
— Estas são habilidades que todos os Templários devem possuir. Um dia, você irá
nos liderar. Mas antes disso, será iniciada como Templária, e antes ainda aprenderá o
método de nossa Ordem. A partir de amanhã, você aprenderá a combater.
Mais uma vez, mirei nos olhos de minha mãe. Eu já havia começado a aprender
técnicas de combate havia mais um ano.
— Percebo que isso pode ser muito para se absorver, Élise — continuou meu pai
enquanto minha mãe ruborizava um pouco. — Talvez você tenha considerado sua vida
semelhante à das outras meninas de sua idade. Só espero que o fato de ser tão diferente
não se revele motivo de ansiedade para você. Espero apenas que você adote o potencial
que tem para cumprir com seu destino.
Sempre me considerei diferente das outras meninas. Agora eu tinha certeza.
vii
Na manhã seguinte, Ruth me vestiu para um passeio no jardim. Estava agitada, dava
resmungos e dizia que eu não devia estar assumindo tais riscos depois do ocorrido na
véspera, que escapamos por pouco do homem horrível que tinha nos atacado; e que
minha mãe e eu poderíamos estar prostradas e mortas naquela viela se não fosse pelo
cavalheiro misterioso que estava de passagem e tinha visto o assalto.
Então foi isso o que disseram aos criados. Muitas mentiras, muitos segredos.
Emocionava-me saber que eu era a única dentre duas pessoas — ora, três, suponho, se
considerássemos o médico — que sabia de toda a verdade sobre o acontecido no dia
anterior, parte de um grupo seleto que sabia ter sido minha mãe a lidar com o ataque, e
não um homem misterioso — e uma dentre os poucos escolhidos que sabia de toda a
extensão dos negócios da família, isso sem mencionar minha própria participação na
coisa toda.
Fui despertada naquela manhã com o sol brilhando em minha vida. Finalmente todas
aquelas véritéscachées que me solicitaram guardar faziam sentido. Finalmente eu sabia por
que nossa família parecia tão diferente das outras, por que eu mesma jamais me entendera
com outras crianças. Era porque meu destino corria por uma via diferente da delas, e
sempre fora assim.
E o melhor de tudo: “Sua mãe será sua tutora em todas as coisas”, dissera meu pai
com um sorriso caloroso para minha mãe, o qual por sua vez refletia o amor que ele
sentia por mim. Com um sorriso, ele se deteve.
— Bem, talvez não em todas as coisas. Talvez no quesito ideologia seja mais
recomendável atentar às palavras de seu pai, o Grão-Mestre.
— François — repreendeu minha mãe. — A criança tomará a própria decisão. Deixe
que chegue às suas conclusões por si mesma.
— Minha amada, por que eu tenho a nítida impressão de que, para Élise, os
acontecimentos de hoje não são a surpresa que deveriam ser?
—Do que pensa que nós, damas, falamos durante nossos passeios, François?
—Sapatos?
—Bem, sim —admitiu mamãe —, falamos de sapatos, mas do que mais?
Ele compreendeu, meneando a cabeça, perguntando-se como pôde ter sido tão cego a
ponto de não enxergar o que acontecia bem debaixo de seu nariz.
—Ela sabia da Ordem antes de hoje? —perguntou-lhe ele.
— Não muito — disse ela —, embora eu deva dizer que ela estivesse um tanto
preparada para a revelação.
—E quanto às armas?
—Sim, ela andou recebendo um pequeno treinamento.
Ele gesticulou para que eu me levantasse.
—Vejamos se você aprendeu seu en garde, Élise — disse ele, adotando a postura, o
braço direito estendido e o indicador apontado como uma lâmina.
Fiz o que me ensinaram. Meu pai lançou um olhar impressionado a minha mãe e
examinou minha postura, caminhando à minha volta enquanto eu me regozijava com sua
aprovação.
—Destra, como o pai —riu ele —, não é canhota como a mãe.
Oscilei um pouco nos joelhos, verificando meu equilíbrio, e meu pai sorriu mais
uma vez.
—Devo detectar aqui a mão de certo inglês no treinamento de nossa filha, Julie?
—O Sr. Weatherall esteve me ajudando a ocupar as horas extracurriculares de Élise,
sim. —concordou ela alegremente.
—Percebo. Eu pensava mesmo ter visto um pouco mais da presença dele no château
do que o de costume. Diga-me, ele ainda tem certo interesse por você?
—François, assim você me constrange —censurou minha mãe.
(Na época, eu não entendia o que eles queriam dizer, é claro. Mas agora compreendo.
Assim que vi o Sr. Weatherall outra noite, um homem abalado. Ah, agora eu entendo.)
A expressão de meu pai ficou séria.
— Julie, sabe que confio em você acima de tudo, e se andou ensinando à criança,
então eu a apoio nisto também, e se isto ajudou Élise a manter a cabeça fria durante o
ataque de ontem, então foi mais do que justificado. Mas Élise será Grã-Mestre um dia.
Seguirá meus passos. Em questões de combate e tática, pode ser sua protegida, Julie, mas
em questões de ideologia, deve ser minha. Está entendido?
—Sim, François. —Minha mãe sorriu com doçura. —Sim, está entendido.
Um olhar foi trocado entre mim e mamãe. Uma vérité cachée silenciosa.
viii
E assim, tendo escapado da preocupação desnecessária de Ruth, cheguei ao hall de
recepção, pronta para minha caminhada com minha mãe.
—Por favor, Julie, leve Scratch e os guardas —ordenou meu pai em um tom que não
permitia discussões.
— Naturalmente — disse ela, e indicou um dos homens à espreita nas sombras do
saguão, toda nossa casa parecendo um pouco mais abarrotada repentinamente.
Ele avançou um passo. Era o Sr. Weatherall. Por um segundo, ele e meu pai se
olharam cautelosamente, antes de o Sr. Weatherall fazer uma mesura intensa e os dois
trocarem um aperto de mãos.
—François e eu contamos a Élise o que está reservado a ela —explicou minha mãe.
Os olhos do Sr. Weatherall deslizaram do rosto de meu pai para o meu e ele assentiu
antes de fazer mais uma reverência, estendendo a palma para beijar o dorso de minha
mão, fazendo com que eu me sentisse uma princesa.
—E como se sente, jovem Élise, sabendo que um dia irá liderar os Templários?
—Muito digna, monsieur —respondi.
—Posso apostar que sim —disse ele.
— François deduziu corretamente que Élise esteve recebendo treinamento — avisou
minha mãe.
OSr. Weatherall voltou a atenção a meu pai.
—Mas é claro —disse ele —, e posso confiar que minha instrução não foi motivo de
ofensa para o Grão-Mestre?
—Conforme expliquei ontem à noite, confio implicitamente em minha esposa no que
diz respeito a tais questões. Sei que, com você, Freddie, estão em boas mãos.
Neste momento Olivier se aproximou, mantendo certa distância até ser convidado a se
aproximar para cochichar no ouvido de seu senhor. Meu pai assentiu e se voltou a minha
mãe.
—Devo ir, minha querida —disse ele. —Nossos “amigos” estão aqui para nos visitar.
Os Corvos, é claro. Tinham retornado para uma manhã de gritaria. E era engraçado
saber agora que eu via meu pai sob novo prisma. Não era mais apenas meu pai. Não
somente o marido de minha mãe. Era um homem ocupado. Um homem de
responsabilidades, cuja atenção era exigida constantemente. Um homem cujas decisões
alteravam vidas. Os Corvos estavam entrando enquanto saíamos educadamente, então
cumprimentaram minha mãe e o Sr. Weatherall e reuniram-se no hall, subitamente muito
movimentado e enérgico com mais falatórios sobre vingar o ataque da véspera e assegurar
que Jean não tivesse morrido em vão.
Por fim saímos, nós três, e caminhamos por um tempo até o Sr. Weatherall se
manifestar:
—E então, Élise, como você realmente se sente, sabendo de seu destino?
—É como disse a meu pai —respondi.
— Nem um pouco apreensiva, então, minha flor? Com toda essa responsabilidade
por vir?
— O Sr. Weatherall crê que você é jovem demais para ter noção de seu destino —
explicou minha mãe.
— De maneira nenhuma, estou ansiosa para descobrir o que o futuro me reserva,
monsieur —repliquei.
Ele assentiu, como se isto lhe bastasse.
— E me agrada ter mais combates com a espada, monsieur — acrescentei —, agora
sem segredos.
— Exatamente! Trabalharemos em sua resposta e em seu envolvimento e você pode
exibir suas habilidades a seu pai. Acredito que ele ficará surpreso, Élise, com a
espadachim que já é. Talvez, um dia, você venha a ser uma espadachim melhor do que
seus pais.
—Ah, disso eu duvido, monsieur.
—Freddie, por favor, não ponha ideias estranhas na cabeça da menina. —Minha mãe
me cutucou e cochichou: — Embora eu pense que talvez ele tenha razão, Élise, cá entre
nós.
OSr. Weatherall ficou sério.
—Agora, vamos falar sobre o que aconteceu ontem?
—Um atentado contra nossas vidas.
—Eu só queria ter estado lá...
— Não importa que não estivesse, Freddie, continuamos sãs e salvas e nem mesmo
estamos traumatizadas pelo incidente. Élise comportou-se com perfeição e...
—Você foi a leoa protegendo a cria, ham?
—Fiz o que precisava ser feito. É deplorável que um dos homens tenha escapado.
OSr. Weatherall parou.
—Um dos homens? Oquê? Havia mais de um?
Ela se voltou a ele com olhos expressivos.
—Ah, sim. Havia outro homem, o mais perigoso dos dois. Usava uma lâmina oculta.
A boca do Sr. Weatherall formou um O.
—Então foi verdadeiramente trabalho de Assassinos?
—Tenho minhas dúvidas.
—Ah, sim? Por quê?
—Ele fugiu, Freddie. Algum dia você viu um Assassino fugir?
—Eles são apenas humanos e você é uma adversária formidável. Creio que eu mesmo
ficaria tentado a fugir se estivesse no lugar dele. Você é um demônio com esta faca de
bota. —Ele me olhou, dando uma piscadela.
Minha mãe ruborizou.
— Esteja certo de que sua adulação não será desconsiderada, Freddie. Mas aquele
homem, havia algo nele que não se encaixava. Ele era todo... exibição. Era um Assassino, a
lâmina oculta era prova disso. Mas me pergunto se seria um verdadeiroAssassino.
—Precisamos encontrá-lo e perguntar a ele.
—Decerto precisamos.
—Diga-me, que aparência tinha o sujeito?
Minha mãe fez uma descrição do médico.
—... e havia outra coisa.
—Sim?
Ela nos levou para a sebe. Na noite anterior, enquanto escapávamos da viela, ela
pegara a maleta do médico para trazê-la conosco na carruagem. Antes de chegarmos ao
château, ela me fez correr e escondê-la e agora a entregava ao Sr. Weatherall.
—Ele deixou isto?
—Certamente. Usou para carregar a lâmina, mas não havia nada mais dentro dela.
—Nada que o identifique?
—Há uma coisa... Abra. Vê a etiqueta por dentro?
—A maleta foi feita na Inglaterra —disse o Sr. Weatherall, surpreso. —Um Assassino
inglês?
Minha mãe assentiu.
—Possivelmente. É muito possível. Acha plausível um inglês me querer morta? Deixei
claro para a Sra. Carroll que sou favorável a uma mudança na monarquia.
—Mas também que você se opõe a um banho de sangue.
— É bem verdade. E a Sra. Carroll parecia pensar que isto bastava para sua Ordem.
Mas talvez não.
OSr. Weatherall meneava a cabeça.
—Eu mesmo não enxergo assim. Isto é, deixando minha própria lealdade nacional de
lado, não consigo ver o que os incomoda nisso. Eles a veem como uma influência
moderadora na Ordem como um todo. Matá-la representa o risco de desestabilizar isto.
— Talvez seja um risco que estejam dispostos a correr. Seja como for, a maleta do
médico feita na Inglaterra é a única pista que temos da identidade do Assassino.
OSr. Weatherall assentiu.
—Nós o encontraremos, madame —disse ele. —Esteja certa disso.
Isto, naturalmente, foi há três anos. E não houve sinal do médico desde então. O
atentado contra nossa vida desapareceu na história, como os indigentes tragados pela
neblina de Paris.

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