EM COMBATE CONTRA O MAL
ROBÔS QUE ROUBARAM JOIAS FORAM PROJETADOS PARA VIAGEM A
VÊNUS
por Ben Urich
NOVA YORK – Clientes e visitantes do Distrito dos Diamantes na rua 47 tinham
todo o direito de pensar que estavam sendo atacados por invasores vindo do
espaço sideral quando uma horda de monstros metálicos de seis patas causou
alvoroço no quarteirão na manhã de hoje. O Clarim Diário obteve informações
de que as dez máquinas robóticas colocadas no quarteirão por Maxwell Dillon, o
meta-humano mascarado conhecido pelo codinome Electro, foram na verdade
projetadas para serem viajantes interplanetários.
As sondas robóticas foram roubadas da Cyberstellar Technologies, uma
empresa aeroespacial privada contratada pela NASA para construir as máquinas
para um grande levantamento topográfico no planeta Vênus. Segundo planeta
mais próximo do Sol, Vênus é muito mais quente do que a Terra e possui uma
atmosfera densa e carregada de grossas nuvens de ácido sulfúrico,
hidrofluorídrico e outros ácidos potentes, com uma pressão de superfície de
cerca de cem vezes a da atmosfera terrestre. Até hoje, de todos os módulos de
aterrissagem que chegaram à superfície de Vênus, nenhum durou mais do que
127 minutos.
As sondas da Cyberstellar foram projetadas para um levantamento mais
ambicioso que envolveria um percurso sobre a superfície rochosa de Vênus, bem
como a coleta e o envio para a Terra de amostras minerais. Para tanto, eram
equipadas com pernas versáteis para a manutenção do equilíbrio em terreno
imprevisível, garras potentes e lasers cortantes para a retirada de amostras, além
de estruturas muito resistentes e duráveis para suportar a atmosfera esmagadora
e fortemente corrosiva. Todas essas características se combinaram para fazer
deles adversários extremamente eficazes contra a polícia e os demais
combatentes do crime que os enfrentaram. Homem-Aranha, o primeiro
aventureiro mascarado a chegar à cena, não foi capaz de detê-los sozinho.
Testemunhas afirmam que seu confronto com Dillon fez com que o
criminoso perdesse o controle das sondas, levando-as à destruição subsequente
por Midtown e tornando necessária a intervenção de membros dos Vingadores e
do Quarteto Fantástico. Entretanto, fontes do departamento de polícia afirmam
que os meios pelos quais Dillon controlava as sondas ainda não foram
determinados, de modo que o papel que as ações do Homem-Aranha podem ter
representado na destruição não está claro. Dillon é um ex-engenheiro elétrico
capaz de manipular correntes e campos elétricos diretamente por meios
paranormais, mas não há informações se ele possui algum treinamento em
programação de computadores ou robótica.
O roubo das sondas do prédio da Cy berstellar em suas instalações em
Westchester ocorreu na última quinta-feira. Hoje à tarde, o promotor público
Blake Tower anunciou a intenção de apresentar queixas contra Dillon pelo roubo
à Cyberstellar e pelo ataque ao Distrito dos Diamantes. Uma fonte da Promotoria
Pública indica que Dillon também está sendo investigado pelo furto de
equipamentos industriais do prédio da Oscorp no Condado de Nassau no último
sábado, visto que há indícios de que os danos causados à fábrica nesse roubo se
assemelham aos do Distrito dos Diamantes. Ao ser lembrado de que o modus
operandi convencional de Dillon costuma envolver roubos simples e vandalismos
em grande escala, muitas vezes trabalhando para figuras mais poderosas do
submundo, o Sr. Tower se recusou a especular sobre o motivo da mudança de
tática do criminoso (…)
– Nãoéculpasua.
Peter vinha ouvindo essas palavras de Mary Jane durante a tarde toda,
embora os canais de notícias não parassem de exibir as imagens de seu fracasso.
Pelo menos era o que ele achava. Claro, havia algumas imagens da batalha entre
Homem-Aranha e Electro enquanto os robôs saíam do Distrito dos Diamantes
quebrando tudo, mas a maior parte da cobertura dos noticiários era dominada por
imagens da vitória dos Vingadores sobre Electro e seus robôs, filmadas de uma
centena de ângulos diferentes. Nunca havia poucas câmeras na Times Square, e
aquele foi um espetáculo e tanto. Afinal, não havia nenhuma outra parte da
cidade em que tanta eletricidade era usada ao mesmo tempo – ao menos, não de
maneira tão visível. Electro estava completamente à vontade, puxando energia
da enorme quantidade de anúncios luminosos chamativos e telas de vídeo que
faziam da Times Square uma mistura do cenário de Blade Runner e um jogo de
pinball gigantesco. Ele havia disputado a atenção intensamente com aquelas telas
por um tempo, disparando raios contra seus perseguidores enquanto três de seus
robôs causavam sérios danos a propriedades, fazendo clientes e turistas saírem
gritando em busca de abrigo. Tinha sido uma batalha dramática e eletrizante,
mas o Homem-Aranha só chamou a atenção por sua ausência. Em geral, a mídia o
estava tratando como algo secundário nas matérias.
Mas J. Jonah Jameson, em sua coluna editorial no Clarim (e, sem dúvida, em
seu novo blog também), estava berrando sobre as atrocidades de sempre a
respeito do papel do Homem-Aranha nas causas do desastre. Claro, JJJ culparia o
Homem-Aranha por Hindenburg e pela destruição de Pompeia se encontrasse uma
maneira. Mas, dessa vez, Peter achava que ele tinha motivos muito mais
legítimos para suas acusações.
– Fui eu quem começou – ele disse a MJ. – Eu distraí Electro e fiz com que ele
perdesse o controle dos robôs.
– Você não pode pensar desse jeito – ela insistiu. MJ estava fazendo um
intervalo em sua agenda cheia de ensaios para ajudá-lo a superar aquilo, mas ele
se sentia culpado por gostar disso; não queria ser uma distração na carreira dela
em um momento tão crítico. – Foi Electro quem roubou e controlou os robôs. Foi
ele quem decidiu deixar os robôs à solta pela cidade.
– Mas só depois que fiz com que ele perdesse o controle. Ele se aproveitou da
minha burrice.
– Como você sabe que ele não planejava deixar os robôs à solta de qualquer
jeito para acobertar sua fuga?
– Então como ele fugiria com os diamantes?
MJ olhou para ele.
– Você não para de olhar as notícias, mas não está ouvindo nada, né? O Tocha
encontrou tubos cheios de diamantes ejetados dos robôs em cima de um prédio
próximo. O Electro devia estar planejando pegar os diamantes depois.
– Ah, é verdade. – Peter lembrava vagamente de ter ouvido aquilo. Os tubos
deviam ter sido projetados para trazer as amostras de volta à Terra. Electro deve
ter reduzido muito a impulsão dos foguetes para impedir que o fruto do roubo
fosse parar no espaço. – Mas esse era no máximo um plano B. Ele não teria se
dado a tanto trabalho se não tivesse sido obrigado.
– E, se você não o tivesse obrigado, ele teria fugido com gazilhões de
diamantes e muitas outras pessoas teriam sido feridas ou mortas. Você fez o que
era preciso fazer, Peter.
– Mas não muito bem.
Antes que MJ pudesse argumentar mais, o telefone tocou. Quando Peter
atendeu, a voz doce da sua tia May respondeu:
– Peter, querido, acabei de voltar das compras e ouvi o que aconteceu. Queria
saber se está tudo bem com você.
Ele sorriu.
– Não se preocupe, tia May, estou ótimo. Quer dizer, fisicamente pelo
menos. – O sorriso se transformou em um suspiro.
– Entendi, querido – tia May disse depois de uma pausa. – Mas não se culpe
por isso. Sei que é difícil não se culpar, porque você é um rapaz muito sensível, mas
eu conheço você e não tenho dúvidas de que fez o possível para… enfim, todas as
pessoas envolvidas – ela completou, tentando não revelar nenhum detalhe numa
linha telefônica aberta.
Apesar de seu estado de espírito, Peter não conseguiu conter um sorriso
diante da tentativa canhestra de sua tia de lidar com a realidade da vida dele. A
recente descoberta de tia May de que ele era o Homem-Aranha havia se tornado
uma das melhores coisas que haviam lhe acontecido. Durante anos, ele havia
presumido que o choque seria grande demais para que o coração frágil dela
aguentasse, mas, pensando agora, ele percebia que não devia ter subestimado sua
tia. Tia May havia sido forte o bastante para suportar a perda dos pais dele e,
depois, a de seu amado Ben, para criar e educar Peter durante uma infância
solitária, e resistir à loucura contínua que parecia afetar todos na vida de Peter
depois daquela picada de aranha, fosse pela manipulação deliberada dos inimigos
que conheciam sua identidade ou pelo destino lunático que parecia ter cabido a
ele. A descoberta foi um grande choque para ela – ela ficara sabendo do pior jeito
possível, entrando no apartamento dele e dando de cara com o corpo exausto e
ensanguentado de Peter dormindo com metade do uniforme depois de uma luta
especialmente violenta –, mas os efeitos foram mais emocionais do que físicos, e
ela tivera o bom senso de esperar para pensar sobre o assunto antes de
confrontar Peter e lidar com a questão. Antes disso, ela tinha medo e repugnância
pelo Homem-Aranha, mas agora se esforçava para aceitar o que ele fazia;
embora ainda se perturbasse com seu vigilantismo, a fé dela na bondade
fundamental do sobrinho era inabalável.
No entanto, apesar de normalmente ser um alívio conversar com tia May
sobre seus problemas como Homem-Aranha depois de anos de segredos, naquele
dia as palavras de conforto dela mais incomodaram do que aliviaram.
– Você fez a coisa certa cuidando dos seus alunos – ela disse. – Devia ficar
contente por ter tantos… er… amigos como você que conseguiram cuidar dos
outros… aspectos do problema. Você realmente devia considerar se juntar a eles com
mais frequência.
– Você sabe que nunca trabalhei bem em equipe, tia May – ele respondeu.
Era estranho porque, ao longo da sua carreira de Aranha, ele havia trabalhado
com quase todos os super-heróis do planeta (e alguns de fora do planeta
também); apesar disso, costumava atuar sozinho, raramente aceitando as
oportunidades de criar laços mais fortes com a comunidade dos heróis. Ele havia
se juntando ao Quarteto Fantástico no começo da carreira, mas não lidou muito
bem com a situação e isso acabou afastando-o dos parceiros, o que criou uma
rivalidade contínua com o Tocha Humana. Desde então, ainda conseguia recorrer
à ajuda do QF quando precisava, mas mantinha certa distância por trás da
máscara. Ele havia chegado a ser um Vingador reserva durante um tempo, mas
essa condição havia se perdido em uma das dispersões periódicas do grupo, e ele
nunca tentou recuperá-la.
Será que tia May está certa?, ele se perguntou. Se ele fizesse parte de uma
equipe desde o começo, seus parceiros teriam cuidado dos robôs antes que eles
saíssem de controle? Antes que seus alunos fossem mandados para o hospital?
A verdade era que, quando ele olhou para as imagens do noticiário, que
mostravam a Mulher-Hulk derrotando Electro enquanto outros Vingadores
espancavam os robôs, ele não sentia gratidão pela ajuda deles. Sentia vergonha
por não ter conseguido derrotar um dos “seus” vilões, precisando de outros superheróis
para limpar a bagunça que ele havia feito, ainda mais de maneira tão
pública. Mas ele ficou tão envergonhado com essa situação, que não a admitiu
nem para tia May nem para MJ. Ele não queria fazer parecer que se importava
mais com seu orgulho ferido do que com a segurança dos cidadãos.
Mais do que tudo, ele se sentia oprimido pelos esforços delas em convencê-lo
a não se martirizar. Porque Peter tinha certeza de que aquele era um consolo
vazio, e que no fundo, elas também sabiam que ele tinha sim falhado em sua
responsabilidade de proteger pessoas inocentes. De proteger seus alunos. Por
isso, depois de um tempo, ele se despediu de tia May e inventou uma desculpa
para sair do apartamento.
Infelizmente, a desculpa que ele inventou de improviso foi:
– Prometi que passaria lá embaixo para dar uma olhada no Flash. – Assim que
saiu pela porta, ele se tocou, tarde demais, que aquela era a última coisa que ele
poderia fazer para se sentir menos culpado.
Eugene “Flash” Thompson tinha sido um dos maiores rivais de Peter no ensino
médio e na faculdade; o popular jogador de futebol americano provocava Peter
incessantemente, mas, nos últimos anos, eles haviam acertado as contas e virado
bons amigos. Mais recentemente, tinham se afastado, o que, porém, não impediu
Norman Osborn de vê-lo como alvo. Há anos, Osborn era um dos maiores
inimigos de Homem-Aranha, tanto na forma do vilão mascarado Duende Verde
quanto como um manipulador perverso que atuava nos bastidores – em grande
parte porque ele sabia da verdadeira identidade do Homem-Aranha. Ele
guardava o segredo, graças às regras do jogo maluco que pensava estar jogando,
mas nunca deixou de atacar os amigos de Peter para ferir seus sentimentos. Flash
Thompson havia sido a última vítima, enquadrado por dirigir alcoolizado e
causado um acidente que o deixara em estado vegetativo. Tia May havia
contratado uma enfermeira em tempo integral que se mudou para o apartamento
vago embaixo do de Peter, e os amigos e vizinhos dele se incumbiam de visitar
Flash de tempos em tempos para tentar ocupar a mente dele em coma com a leve
esperança de estimulá-la a voltar para algum nível de atividade.
Esse é o lance de Peter Parker, ele pensou, enquanto batia na porta do
apartamento de Flash. Nunca preciso andar muito para me sentir culpado.
A porta se abriu, mas, em vez da enfermeira de Flash, Peter encontrou Jill
Stacy na porta.
– Oi, Pete! – disse a jovem linda e morena, sorrindo. – Pode entrar! Ei, Liz,
Pete está aqui.
– E aí, Pete!
Ah, ótimo, Peter pensou. Mais dois lembretes. Jill era a prima mais nova de
Gwen Stacy, o primeiro grande amor da vida de Peter, que foi assassinada pelo
Duende Verde anos atrás. Liz Allan, por sua vez, era viúva do filho de Osborn,
Harry, que havia sido vítima do legado de loucura do pai e acabou deixando Liz
viúva e mãe solteira. Apesar de seus próprios problemas e responsabilidades, Liz
vinha demonstrando uma lealdade inesgotável a Flash Thompson, sua antiga
paixão da adolescência, vindo visitá-lo quase todos os dias desde o acidente.
Todos nesta sala sofreram terrivelmente por causa da velha rixa de Osborn
comigo, Peter pensou ao entrar. Parece que, mais cedo ou mais tarde, todos na
minha vida se machucam, mesmo que não tenham nada a ver com o HomemAranha.
Por que ainda deixo isso acontecer?
Por fora, ele tentou manter o sorriso, mas sem sucesso. Liz e Jill notaram sua
melancolia, mas não adivinharam o motivo completo de sua existência.
– Ai, Peter, a gente ficou sabendo o que aconteceu com seus alunos – Liz
disse, puxando-o para um abraço de que Jill também participou. – Graças a Deus
você está bem.
– Bom, agora estou me sentindo bem melhor – ele respondeu, mantendo o
tom leve.
– Ei, não esqueça que você é um homem casado, Sr. Watson-Parker – ela
brincou enquanto se afastava.
– Confie em mim, MJ nunca me deixaria esquecer disso. Nem se eu quisesse.
– Sob a pena de uma morte horrível, aposto – Jill acrescentou, mas logo
pigarreou quando ninguém viu graça. – Desculpa. Piada de mau gosto.
– Tudo bem – Peter disse. – Os médicos falaram que todos os meus alunos
devem ficar bem.
– Tomara – Liz torceu, virando-se de repente para Flash. – E tomara que
todos eles… voltem ao normal. – Ela deu uma risadinha nervosa, limpou um pouco
de saliva do queixo de Flash e segurou a mão dele. – Como você já vai ficar, né,
Flash? Só leva tempo, nada além disso. – Peter fez uma careta.
Bem na hora em que Peter estava tentando pensar numa maneira de mudar
de assunto, seu celular tocou no bolso, surpreendendo-o. Ele abriu um sorriso
encabulado enquanto o pegava.
– Não se assustem, meninas, mas meu celular estava na bunda no modo
vibrador. – Depois de uma ou duas situações embaraçosas e perigosas, ele havia
se acostumado a manter o celular no silencioso quando estava como Aranha e, às
vezes, levava isso para a vida civil também.
Depois de ler o identificador de chamadas, atendeu.
– Dawn? Oi, tudo bem?
Sua colega parecia furiosa.
– Peter, você leu o blog do Jameson hoje?
– Hmm, não, por quê?
– Aquele filho da… ele… nem sei se consigo falar sobre o assunto. Só… acho
que você precisa ver isso.
– Certo, espera aí. – Ele abaixou o celular, notando que o laptop de Liz
estava na mesa de centro do Flash. – Liz, posso usar seu laptop?
– Claro.
O laptop estava em modo de espera e ligou automaticamente quando ele o
abriu. Depois de confirmar o endereço com Dawn, entrou no blog O Alerta de
Jameson e começou a passar os olhos pela última publicação. Começava com o
texto-padrão de Jameson: o Homem-Aranha é uma ameaça, criou o caos,
perseguidor de glórias, sem respeito pela segurança pública, blá blá blá etc…
Então, ele desceu a barra de rolagem e viu as fotos.
– Não – ele murmurou. Mas ao olhar mais de perto, não havia dúvida. A
primeira imagem era um vídeo amador do YouTube mostrando o ataque à
biblioteca. Relutando em assistir, mas precisando saber, Peter clicou na imagem.
Era um vídeo tremido de baixa resolução, mas mostrava o ataque do robô, a
estátua se quebrando, os alunos caindo sobre os escombros enquanto HomemAranha
chegava alguns segundos atrasado. O vídeo era horrível o bastante, mas
abaixo dele, estavam algumas fotos que pareciam ter sido tiradas no hospital:
fotos dos seus alunos, feridos e ensanguentados sendo levados para a sala de
emergência. Susan, Bobby, Angela, todos eles. Seus rostos estavam visíveis. Seus
nomes, listados. Abaixo das imagens, Jameson havia escrito:
Alguns podem me acusar de mau gosto por exibir essas imagens, mas elas já se
tornaram públicas, graças ao funcionário anônimo do hospital que tirou e postou
essas fotos online. A questão ética deste feito é um debate para outro momento,
mas se esse tipo de exposição absoluta faz parte da natureza da nossa cultura atual,
talvez nesse caso possa servir a um propósito positivo. O público precisa ver os
verdadeiros horrores que o Homem-Aranha e sua laia infligem nos inocentes do
mundo em suas competições de testosterona sem fim. As pessoas precisam ver que,
apesar de suas personalidades vistosas e extravagantes e de suas palhaçadas, no
fim das contas o legado deles é sanguinário. Estes são os rostos das vítimas do
Homem-Aranha. Angela Campanella, Koji Furuya, Susan Labyorteaux, Roberto
Ribeiro, Joan Rubinof. Vocês podem dizer que o funcionário do hospital violou
os direitos deles ao tirar essas fotos, ou que eu violei o bom gosto aos publicá-
las. Mas nunca se esqueçam que foi o Homem-Aranha quem violou a segurança de
todos eles. Olhem bem o que o vigilantismo incansável dele fez com esses frágeis
inocentes e lembrem-se. Sim, é chocante mostrar essas imagens para vocês. Mas às
vezes precisamos ser chocados, precisamos ser enraivecidos e ofendidos para
sermos inspirados a agir.
Mas Peter mal conseguiu ler essas últimas frases por trás da sua visão já
turva de raiva.
– Jameson! Como ele ousa!
– Peter! – Liz gritou, alarmada. Peter virou a cabeça para onde as duas
mulheres estavam lendo por sobre seu ombro, recuperando ânimo suficiente em
meio à fúria para seguir o olhar de Liz e descobrir que havia esmagado o celular
na própria mão.
Mas naquele momento ele não conseguia se preocupar em proteger sua
identidade. Só lamentou não ter sido o pescoço de Jameson.
– Eu estou bem – ele disse, entre dentes. – Desculpa, preciso ir.
– A gente entende – Jill disse. – Aquele canalha, como ele ousa?
– Cuida dessa mão, hein? – Liz gritou enquanto ele saía do apartamento
batendo pé. Mas a mão dele estava bem. A ferida era muito mais profunda.
Não, ele percebeu enquanto subia a escada. O que ele sentia agora não era
uma ferida, nem uma pontada da culpa que ainda pesava sobre seu peito. Algo
havia se quebrado dentro dele, sim, mas isso lhe dera uma nova clareza, uma
nova força. Ele havia sido levado a um extremo e agora, algo dentro dele o
estava trazendo de volta.
Quando voltou para seu apartamento, ainda estava nervoso, mas sua raiva
era mais focada e controlada do que a ira feroz que havia ameaçado tomar conta
dele antes. Sentou-se no sofá com MJ e contou o que havia acontecido com a voz
tensa, mas firme.
– Não acredito! – ela disse quando ele terminou. – Jonah já forçou os limites
do bom gosto antes, mas colocar fotos de crianças machucadas?
– Pode acreditar – Peter disse. – Sempre que desconfio que há algum
resquício de dignidade ou limite naquele homem, ele prova que estou errado. Mas
dessa vez ele realmente passou dos limites. Não tem perdão. Eles são meus
alunos, MJ! Ninguém faz meus alunos de vítima e sai impune. Ninguém!
– Que pena que você não trabalha mais para ele – ela disse. – Você poderia
largar o emprego.
– É exatamente o que eu vou fazer – ele disse. – Largar. Tudo.
Ela arregalou os olhos.
– Tudo o quê?
– O que eu faço toda vez que algo dá errado na minha vida. Faz anos que
Jameson está me perseguindo. Os policiais estão atrás de mim. Meus professores
e meus chefes sempre me chamaram de preguiçoso e irresponsável porque eu
estava ocupado salvando essa maldita cidade de assassinos psicóticos. Todo
mundo fica me culpando por tudo que dá errado na minha vida, e sempre fiquei lá,
liderando o esquadrão da culpa. Entrei no jogo de Jameson junto com todos os
outros. Fico me martirizando, exatamente como ele quer. Bom, não vou mais
fazer isso!
Ele se levantou do sofá.
– Cansei de deixar Jameson me colocar para baixo, e cansei de me colocar
para baixo. Cansei de aceitar a culpa por tudo que dá errado mesmo que eu não
tenha controle sobre as coisas! Você tinha razão, MJ, o que aconteceu ontem não
foi culpa minha. Era eu quem estava tentando parar aquilo! Era eu quem estava
salvando vidas lá fora!
– Isso! Esse é o espírito.
– Não fui eu quem machucou aqueles alunos. A culpa foi do Electro. A culpa
foi de quem ajudou aquele bandido a pegar aqueles robôs. Caramba, a culpa foi
do Jameson por fazer a cidade se voltar contra mim! Se eu tivesse mais apoio
pelo que faço, talvez tivesse conseguido colocar Electro atrás das grades há muito
tempo! A única coisa que eu faço de errado – ele continuou – é acreditar nessas
críticas contra o Aranha. Enfim, agora chega. Estou cansado de duvidar de mim, de
questionar toda maldita decisãozinha. Estou cansado de ser o Woody Allen dos
super-heróis. Já tem pessoas demais querendo acabar comigo; eu é que não vou
ajudar. Não vou gastar energia me punindo quando deveria estar indo atrás das
pessoas que realmente merecem ser punidas!
MJ lhe deu um abraço por trás.
– Esse é o meu tigrão. Adoro quando você ruge.
Ele sorriu.
– Valeu, mas acho que agora não estou no clima.
– Não, sério. Você é um homem muito bom, Peter. É muito difícil ver você
duvidando de si mesmo, se martirizando desse jeito. Você merece coisa melhor.
Você é um herói e quero que o mundo inteiro saiba isso. – Ela lhe deu um beijo. –
Incluindo você mesmo.
– Você tem razão. Mereço coisa melhor. E vou conseguir o que eu mereço.
– Hmm, me diz, tigrão, como você vai fazer isso?
– Encontrando a pessoa que realmente está por trás disso – ele falou. –
Electro nunca foi um mestre do crime. Para fazer algo tão grande, ele deve ter
recebido ajuda.
Ele caminhou até a janela e olhou para a cidade que, naquele momento,
parecia pequena e fácil de domar.
– Eu vou descobrir quem está por trás disso e vou entregar essa pessoa para a
justiça. Depois vou fazer J. Jonah Jameson engolir todas as palavras que já
escreveu sobre o Homem-Aranha.

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