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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 10

EM COMBATE CONTRA O MAL


ROBÔS QUE ROUBARAM JOIAS FORAM PROJETADOS PARA VIAGEM A VÊNUS por Ben Urich NOVA YORK – Clientes e visitantes do Distrito dos Diamantes na rua 47 tinham todo o direito de pensar que estavam sendo atacados por invasores vindo do espaço sideral quando uma horda de monstros metálicos de seis patas causou alvoroço no quarteirão na manhã de hoje. O Clarim Diário obteve informações de que as dez máquinas robóticas colocadas no quarteirão por Maxwell Dillon, o meta-humano mascarado conhecido pelo codinome Electro, foram na verdade projetadas para serem viajantes interplanetários. As sondas robóticas foram roubadas da Cyberstellar Technologies, uma empresa aeroespacial privada contratada pela NASA para construir as máquinas para um grande levantamento topográfico no planeta Vênus. Segundo planeta mais próximo do Sol, Vênus é muito mais quente do que a Terra e possui uma atmosfera densa e carregada de grossas nuvens de ácido sulfúrico, hidrofluorídrico e outros ácidos potentes, com uma pressão de superfície de cerca de cem vezes a da atmosfera terrestre. Até hoje, de todos os módulos de aterrissagem que chegaram à superfície de Vênus, nenhum durou mais do que 127 minutos. As sondas da Cyberstellar foram projetadas para um levantamento mais ambicioso que envolveria um percurso sobre a superfície rochosa de Vênus, bem como a coleta e o envio para a Terra de amostras minerais. Para tanto, eram equipadas com pernas versáteis para a manutenção do equilíbrio em terreno imprevisível, garras potentes e lasers cortantes para a retirada de amostras, além de estruturas muito resistentes e duráveis para suportar a atmosfera esmagadora e fortemente corrosiva. Todas essas características se combinaram para fazer deles adversários extremamente eficazes contra a polícia e os demais combatentes do crime que os enfrentaram. Homem-Aranha, o primeiro aventureiro mascarado a chegar à cena, não foi capaz de detê-los sozinho. Testemunhas afirmam que seu confronto com Dillon fez com que o criminoso perdesse o controle das sondas, levando-as à destruição subsequente por Midtown e tornando necessária a intervenção de membros dos Vingadores e do Quarteto Fantástico. Entretanto, fontes do departamento de polícia afirmam que os meios pelos quais Dillon controlava as sondas ainda não foram determinados, de modo que o papel que as ações do Homem-Aranha podem ter representado na destruição não está claro. Dillon é um ex-engenheiro elétrico capaz de manipular correntes e campos elétricos diretamente por meios paranormais, mas não há informações se ele possui algum treinamento em programação de computadores ou robótica. O roubo das sondas do prédio da Cy berstellar em suas instalações em Westchester ocorreu na última quinta-feira. Hoje à tarde, o promotor público Blake Tower anunciou a intenção de apresentar queixas contra Dillon pelo roubo à Cyberstellar e pelo ataque ao Distrito dos Diamantes. Uma fonte da Promotoria Pública indica que Dillon também está sendo investigado pelo furto de equipamentos industriais do prédio da Oscorp no Condado de Nassau no último sábado, visto que há indícios de que os danos causados à fábrica nesse roubo se assemelham aos do Distrito dos Diamantes. Ao ser lembrado de que o modus operandi convencional de Dillon costuma envolver roubos simples e vandalismos em grande escala, muitas vezes trabalhando para figuras mais poderosas do submundo, o Sr. Tower se recusou a especular sobre o motivo da mudança de tática do criminoso (…) – Nãoéculpasua. Peter vinha ouvindo essas palavras de Mary Jane durante a tarde toda, embora os canais de notícias não parassem de exibir as imagens de seu fracasso. Pelo menos era o que ele achava. Claro, havia algumas imagens da batalha entre Homem-Aranha e Electro enquanto os robôs saíam do Distrito dos Diamantes quebrando tudo, mas a maior parte da cobertura dos noticiários era dominada por imagens da vitória dos Vingadores sobre Electro e seus robôs, filmadas de uma centena de ângulos diferentes. Nunca havia poucas câmeras na Times Square, e aquele foi um espetáculo e tanto. Afinal, não havia nenhuma outra parte da cidade em que tanta eletricidade era usada ao mesmo tempo – ao menos, não de maneira tão visível. Electro estava completamente à vontade, puxando energia da enorme quantidade de anúncios luminosos chamativos e telas de vídeo que faziam da Times Square uma mistura do cenário de Blade Runner e um jogo de pinball gigantesco. Ele havia disputado a atenção intensamente com aquelas telas por um tempo, disparando raios contra seus perseguidores enquanto três de seus robôs causavam sérios danos a propriedades, fazendo clientes e turistas saírem gritando em busca de abrigo. Tinha sido uma batalha dramática e eletrizante, mas o Homem-Aranha só chamou a atenção por sua ausência. Em geral, a mídia o estava tratando como algo secundário nas matérias. Mas J. Jonah Jameson, em sua coluna editorial no Clarim (e, sem dúvida, em seu novo blog também), estava berrando sobre as atrocidades de sempre a respeito do papel do Homem-Aranha nas causas do desastre. Claro, JJJ culparia o Homem-Aranha por Hindenburg e pela destruição de Pompeia se encontrasse uma maneira. Mas, dessa vez, Peter achava que ele tinha motivos muito mais legítimos para suas acusações. – Fui eu quem começou – ele disse a MJ. – Eu distraí Electro e fiz com que ele perdesse o controle dos robôs. – Você não pode pensar desse jeito – ela insistiu. MJ estava fazendo um intervalo em sua agenda cheia de ensaios para ajudá-lo a superar aquilo, mas ele se sentia culpado por gostar disso; não queria ser uma distração na carreira dela em um momento tão crítico. – Foi Electro quem roubou e controlou os robôs. Foi ele quem decidiu deixar os robôs à solta pela cidade. – Mas só depois que fiz com que ele perdesse o controle. Ele se aproveitou da minha burrice. – Como você sabe que ele não planejava deixar os robôs à solta de qualquer jeito para acobertar sua fuga? – Então como ele fugiria com os diamantes? MJ olhou para ele. – Você não para de olhar as notícias, mas não está ouvindo nada, né? O Tocha encontrou tubos cheios de diamantes ejetados dos robôs em cima de um prédio próximo. O Electro devia estar planejando pegar os diamantes depois. – Ah, é verdade. – Peter lembrava vagamente de ter ouvido aquilo. Os tubos deviam ter sido projetados para trazer as amostras de volta à Terra. Electro deve ter reduzido muito a impulsão dos foguetes para impedir que o fruto do roubo fosse parar no espaço. – Mas esse era no máximo um plano B. Ele não teria se dado a tanto trabalho se não tivesse sido obrigado. – E, se você não o tivesse obrigado, ele teria fugido com gazilhões de diamantes e muitas outras pessoas teriam sido feridas ou mortas. Você fez o que era preciso fazer, Peter. – Mas não muito bem. Antes que MJ pudesse argumentar mais, o telefone tocou. Quando Peter atendeu, a voz doce da sua tia May respondeu: – Peter, querido, acabei de voltar das compras e ouvi o que aconteceu. Queria saber se está tudo bem com você. Ele sorriu. – Não se preocupe, tia May, estou ótimo. Quer dizer, fisicamente pelo menos. – O sorriso se transformou em um suspiro. – Entendi, querido – tia May disse depois de uma pausa. – Mas não se culpe por isso. Sei que é difícil não se culpar, porque você é um rapaz muito sensível, mas eu conheço você e não tenho dúvidas de que fez o possível para… enfim, todas as pessoas envolvidas – ela completou, tentando não revelar nenhum detalhe numa linha telefônica aberta. Apesar de seu estado de espírito, Peter não conseguiu conter um sorriso diante da tentativa canhestra de sua tia de lidar com a realidade da vida dele. A recente descoberta de tia May de que ele era o Homem-Aranha havia se tornado uma das melhores coisas que haviam lhe acontecido. Durante anos, ele havia presumido que o choque seria grande demais para que o coração frágil dela aguentasse, mas, pensando agora, ele percebia que não devia ter subestimado sua tia. Tia May havia sido forte o bastante para suportar a perda dos pais dele e, depois, a de seu amado Ben, para criar e educar Peter durante uma infância solitária, e resistir à loucura contínua que parecia afetar todos na vida de Peter depois daquela picada de aranha, fosse pela manipulação deliberada dos inimigos que conheciam sua identidade ou pelo destino lunático que parecia ter cabido a ele. A descoberta foi um grande choque para ela – ela ficara sabendo do pior jeito possível, entrando no apartamento dele e dando de cara com o corpo exausto e ensanguentado de Peter dormindo com metade do uniforme depois de uma luta especialmente violenta –, mas os efeitos foram mais emocionais do que físicos, e ela tivera o bom senso de esperar para pensar sobre o assunto antes de confrontar Peter e lidar com a questão. Antes disso, ela tinha medo e repugnância pelo Homem-Aranha, mas agora se esforçava para aceitar o que ele fazia; embora ainda se perturbasse com seu vigilantismo, a fé dela na bondade fundamental do sobrinho era inabalável. No entanto, apesar de normalmente ser um alívio conversar com tia May sobre seus problemas como Homem-Aranha depois de anos de segredos, naquele dia as palavras de conforto dela mais incomodaram do que aliviaram. – Você fez a coisa certa cuidando dos seus alunos – ela disse. – Devia ficar contente por ter tantos… er… amigos como você que conseguiram cuidar dos outros… aspectos do problema. Você realmente devia considerar se juntar a eles com mais frequência. – Você sabe que nunca trabalhei bem em equipe, tia May – ele respondeu. Era estranho porque, ao longo da sua carreira de Aranha, ele havia trabalhado com quase todos os super-heróis do planeta (e alguns de fora do planeta também); apesar disso, costumava atuar sozinho, raramente aceitando as oportunidades de criar laços mais fortes com a comunidade dos heróis. Ele havia se juntando ao Quarteto Fantástico no começo da carreira, mas não lidou muito bem com a situação e isso acabou afastando-o dos parceiros, o que criou uma rivalidade contínua com o Tocha Humana. Desde então, ainda conseguia recorrer à ajuda do QF quando precisava, mas mantinha certa distância por trás da máscara. Ele havia chegado a ser um Vingador reserva durante um tempo, mas essa condição havia se perdido em uma das dispersões periódicas do grupo, e ele nunca tentou recuperá-la. Será que tia May está certa?, ele se perguntou. Se ele fizesse parte de uma equipe desde o começo, seus parceiros teriam cuidado dos robôs antes que eles saíssem de controle? Antes que seus alunos fossem mandados para o hospital? A verdade era que, quando ele olhou para as imagens do noticiário, que mostravam a Mulher-Hulk derrotando Electro enquanto outros Vingadores espancavam os robôs, ele não sentia gratidão pela ajuda deles. Sentia vergonha por não ter conseguido derrotar um dos “seus” vilões, precisando de outros superheróis para limpar a bagunça que ele havia feito, ainda mais de maneira tão pública. Mas ele ficou tão envergonhado com essa situação, que não a admitiu nem para tia May nem para MJ. Ele não queria fazer parecer que se importava mais com seu orgulho ferido do que com a segurança dos cidadãos. Mais do que tudo, ele se sentia oprimido pelos esforços delas em convencê-lo a não se martirizar. Porque Peter tinha certeza de que aquele era um consolo vazio, e que no fundo, elas também sabiam que ele tinha sim falhado em sua responsabilidade de proteger pessoas inocentes. De proteger seus alunos. Por isso, depois de um tempo, ele se despediu de tia May e inventou uma desculpa para sair do apartamento. Infelizmente, a desculpa que ele inventou de improviso foi: – Prometi que passaria lá embaixo para dar uma olhada no Flash. – Assim que saiu pela porta, ele se tocou, tarde demais, que aquela era a última coisa que ele poderia fazer para se sentir menos culpado. Eugene “Flash” Thompson tinha sido um dos maiores rivais de Peter no ensino médio e na faculdade; o popular jogador de futebol americano provocava Peter incessantemente, mas, nos últimos anos, eles haviam acertado as contas e virado bons amigos. Mais recentemente, tinham se afastado, o que, porém, não impediu Norman Osborn de vê-lo como alvo. Há anos, Osborn era um dos maiores inimigos de Homem-Aranha, tanto na forma do vilão mascarado Duende Verde quanto como um manipulador perverso que atuava nos bastidores – em grande parte porque ele sabia da verdadeira identidade do Homem-Aranha. Ele guardava o segredo, graças às regras do jogo maluco que pensava estar jogando, mas nunca deixou de atacar os amigos de Peter para ferir seus sentimentos. Flash Thompson havia sido a última vítima, enquadrado por dirigir alcoolizado e causado um acidente que o deixara em estado vegetativo. Tia May havia contratado uma enfermeira em tempo integral que se mudou para o apartamento vago embaixo do de Peter, e os amigos e vizinhos dele se incumbiam de visitar Flash de tempos em tempos para tentar ocupar a mente dele em coma com a leve esperança de estimulá-la a voltar para algum nível de atividade. Esse é o lance de Peter Parker, ele pensou, enquanto batia na porta do apartamento de Flash. Nunca preciso andar muito para me sentir culpado. A porta se abriu, mas, em vez da enfermeira de Flash, Peter encontrou Jill Stacy na porta. – Oi, Pete! – disse a jovem linda e morena, sorrindo. – Pode entrar! Ei, Liz, Pete está aqui. – E aí, Pete! Ah, ótimo, Peter pensou. Mais dois lembretes. Jill era a prima mais nova de Gwen Stacy, o primeiro grande amor da vida de Peter, que foi assassinada pelo Duende Verde anos atrás. Liz Allan, por sua vez, era viúva do filho de Osborn, Harry, que havia sido vítima do legado de loucura do pai e acabou deixando Liz viúva e mãe solteira. Apesar de seus próprios problemas e responsabilidades, Liz vinha demonstrando uma lealdade inesgotável a Flash Thompson, sua antiga paixão da adolescência, vindo visitá-lo quase todos os dias desde o acidente. Todos nesta sala sofreram terrivelmente por causa da velha rixa de Osborn comigo, Peter pensou ao entrar. Parece que, mais cedo ou mais tarde, todos na minha vida se machucam, mesmo que não tenham nada a ver com o HomemAranha. Por que ainda deixo isso acontecer? Por fora, ele tentou manter o sorriso, mas sem sucesso. Liz e Jill notaram sua melancolia, mas não adivinharam o motivo completo de sua existência. – Ai, Peter, a gente ficou sabendo o que aconteceu com seus alunos – Liz disse, puxando-o para um abraço de que Jill também participou. – Graças a Deus você está bem. – Bom, agora estou me sentindo bem melhor – ele respondeu, mantendo o tom leve. – Ei, não esqueça que você é um homem casado, Sr. Watson-Parker – ela brincou enquanto se afastava. – Confie em mim, MJ nunca me deixaria esquecer disso. Nem se eu quisesse. – Sob a pena de uma morte horrível, aposto – Jill acrescentou, mas logo pigarreou quando ninguém viu graça. – Desculpa. Piada de mau gosto. – Tudo bem – Peter disse. – Os médicos falaram que todos os meus alunos devem ficar bem. – Tomara – Liz torceu, virando-se de repente para Flash. – E tomara que todos eles… voltem ao normal. – Ela deu uma risadinha nervosa, limpou um pouco de saliva do queixo de Flash e segurou a mão dele. – Como você já vai ficar, né, Flash? Só leva tempo, nada além disso. – Peter fez uma careta. Bem na hora em que Peter estava tentando pensar numa maneira de mudar de assunto, seu celular tocou no bolso, surpreendendo-o. Ele abriu um sorriso encabulado enquanto o pegava. – Não se assustem, meninas, mas meu celular estava na bunda no modo vibrador. – Depois de uma ou duas situações embaraçosas e perigosas, ele havia se acostumado a manter o celular no silencioso quando estava como Aranha e, às vezes, levava isso para a vida civil também. Depois de ler o identificador de chamadas, atendeu. – Dawn? Oi, tudo bem? Sua colega parecia furiosa. – Peter, você leu o blog do Jameson hoje? – Hmm, não, por quê? – Aquele filho da… ele… nem sei se consigo falar sobre o assunto. Só… acho que você precisa ver isso. – Certo, espera aí. – Ele abaixou o celular, notando que o laptop de Liz estava na mesa de centro do Flash. – Liz, posso usar seu laptop? – Claro. O laptop estava em modo de espera e ligou automaticamente quando ele o abriu. Depois de confirmar o endereço com Dawn, entrou no blog O Alerta de Jameson e começou a passar os olhos pela última publicação. Começava com o texto-padrão de Jameson: o Homem-Aranha é uma ameaça, criou o caos, perseguidor de glórias, sem respeito pela segurança pública, blá blá blá etc… Então, ele desceu a barra de rolagem e viu as fotos. – Não – ele murmurou. Mas ao olhar mais de perto, não havia dúvida. A primeira imagem era um vídeo amador do YouTube mostrando o ataque à biblioteca. Relutando em assistir, mas precisando saber, Peter clicou na imagem. Era um vídeo tremido de baixa resolução, mas mostrava o ataque do robô, a estátua se quebrando, os alunos caindo sobre os escombros enquanto HomemAranha chegava alguns segundos atrasado. O vídeo era horrível o bastante, mas abaixo dele, estavam algumas fotos que pareciam ter sido tiradas no hospital: fotos dos seus alunos, feridos e ensanguentados sendo levados para a sala de emergência. Susan, Bobby, Angela, todos eles. Seus rostos estavam visíveis. Seus nomes, listados. Abaixo das imagens, Jameson havia escrito: Alguns podem me acusar de mau gosto por exibir essas imagens, mas elas já se tornaram públicas, graças ao funcionário anônimo do hospital que tirou e postou essas fotos online. A questão ética deste feito é um debate para outro momento, mas se esse tipo de exposição absoluta faz parte da natureza da nossa cultura atual, talvez nesse caso possa servir a um propósito positivo. O público precisa ver os verdadeiros horrores que o Homem-Aranha e sua laia infligem nos inocentes do mundo em suas competições de testosterona sem fim. As pessoas precisam ver que, apesar de suas personalidades vistosas e extravagantes e de suas palhaçadas, no fim das contas o legado deles é sanguinário. Estes são os rostos das vítimas do Homem-Aranha. Angela Campanella, Koji Furuya, Susan Labyorteaux, Roberto Ribeiro, Joan Rubinof. Vocês podem dizer que o funcionário do hospital violou os direitos deles ao tirar essas fotos, ou que eu violei o bom gosto aos publicá- las. Mas nunca se esqueçam que foi o Homem-Aranha quem violou a segurança de todos eles. Olhem bem o que o vigilantismo incansável dele fez com esses frágeis inocentes e lembrem-se. Sim, é chocante mostrar essas imagens para vocês. Mas às vezes precisamos ser chocados, precisamos ser enraivecidos e ofendidos para sermos inspirados a agir. Mas Peter mal conseguiu ler essas últimas frases por trás da sua visão já turva de raiva. – Jameson! Como ele ousa! – Peter! – Liz gritou, alarmada. Peter virou a cabeça para onde as duas mulheres estavam lendo por sobre seu ombro, recuperando ânimo suficiente em meio à fúria para seguir o olhar de Liz e descobrir que havia esmagado o celular na própria mão. Mas naquele momento ele não conseguia se preocupar em proteger sua identidade. Só lamentou não ter sido o pescoço de Jameson. – Eu estou bem – ele disse, entre dentes. – Desculpa, preciso ir. – A gente entende – Jill disse. – Aquele canalha, como ele ousa? – Cuida dessa mão, hein? – Liz gritou enquanto ele saía do apartamento batendo pé. Mas a mão dele estava bem. A ferida era muito mais profunda. Não, ele percebeu enquanto subia a escada. O que ele sentia agora não era uma ferida, nem uma pontada da culpa que ainda pesava sobre seu peito. Algo havia se quebrado dentro dele, sim, mas isso lhe dera uma nova clareza, uma nova força. Ele havia sido levado a um extremo e agora, algo dentro dele o estava trazendo de volta. Quando voltou para seu apartamento, ainda estava nervoso, mas sua raiva era mais focada e controlada do que a ira feroz que havia ameaçado tomar conta dele antes. Sentou-se no sofá com MJ e contou o que havia acontecido com a voz tensa, mas firme. – Não acredito! – ela disse quando ele terminou. – Jonah já forçou os limites do bom gosto antes, mas colocar fotos de crianças machucadas? – Pode acreditar – Peter disse. – Sempre que desconfio que há algum resquício de dignidade ou limite naquele homem, ele prova que estou errado. Mas dessa vez ele realmente passou dos limites. Não tem perdão. Eles são meus alunos, MJ! Ninguém faz meus alunos de vítima e sai impune. Ninguém! – Que pena que você não trabalha mais para ele – ela disse. – Você poderia largar o emprego. – É exatamente o que eu vou fazer – ele disse. – Largar. Tudo. Ela arregalou os olhos. – Tudo o quê? – O que eu faço toda vez que algo dá errado na minha vida. Faz anos que Jameson está me perseguindo. Os policiais estão atrás de mim. Meus professores e meus chefes sempre me chamaram de preguiçoso e irresponsável porque eu estava ocupado salvando essa maldita cidade de assassinos psicóticos. Todo mundo fica me culpando por tudo que dá errado na minha vida, e sempre fiquei lá, liderando o esquadrão da culpa. Entrei no jogo de Jameson junto com todos os outros. Fico me martirizando, exatamente como ele quer. Bom, não vou mais fazer isso! Ele se levantou do sofá. – Cansei de deixar Jameson me colocar para baixo, e cansei de me colocar para baixo. Cansei de aceitar a culpa por tudo que dá errado mesmo que eu não tenha controle sobre as coisas! Você tinha razão, MJ, o que aconteceu ontem não foi culpa minha. Era eu quem estava tentando parar aquilo! Era eu quem estava salvando vidas lá fora! – Isso! Esse é o espírito. – Não fui eu quem machucou aqueles alunos. A culpa foi do Electro. A culpa foi de quem ajudou aquele bandido a pegar aqueles robôs. Caramba, a culpa foi do Jameson por fazer a cidade se voltar contra mim! Se eu tivesse mais apoio pelo que faço, talvez tivesse conseguido colocar Electro atrás das grades há muito tempo! A única coisa que eu faço de errado – ele continuou – é acreditar nessas críticas contra o Aranha. Enfim, agora chega. Estou cansado de duvidar de mim, de questionar toda maldita decisãozinha. Estou cansado de ser o Woody Allen dos super-heróis. Já tem pessoas demais querendo acabar comigo; eu é que não vou ajudar. Não vou gastar energia me punindo quando deveria estar indo atrás das pessoas que realmente merecem ser punidas! MJ lhe deu um abraço por trás. – Esse é o meu tigrão. Adoro quando você ruge. Ele sorriu. – Valeu, mas acho que agora não estou no clima. – Não, sério. Você é um homem muito bom, Peter. É muito difícil ver você duvidando de si mesmo, se martirizando desse jeito. Você merece coisa melhor. Você é um herói e quero que o mundo inteiro saiba isso. – Ela lhe deu um beijo. – Incluindo você mesmo. – Você tem razão. Mereço coisa melhor. E vou conseguir o que eu mereço. – Hmm, me diz, tigrão, como você vai fazer isso? – Encontrando a pessoa que realmente está por trás disso – ele falou. – Electro nunca foi um mestre do crime. Para fazer algo tão grande, ele deve ter recebido ajuda. Ele caminhou até a janela e olhou para a cidade que, naquele momento, parecia pequena e fácil de domar. – Eu vou descobrir quem está por trás disso e vou entregar essa pessoa para a justiça. Depois vou fazer J. Jonah Jameson engolir todas as palavras que já escreveu sobre o Homem-Aranha.

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