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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 13

POR UM FIO

COMO ERA DE SE ESPERAR, Jameson encheu o blog com suas opiniões sobre o incidente com Marla. Ele resmungou sobre como Homem-Aranha havia começado a perseguir sua família, que sua esposa tinha medo de sair às ruas e se via sitiada na própria casa, e assim por diante. Citou a atitude mais agressiva de Aranha como prova de sua instabilidade crescente – assim como cada vez mais convencia Peter de que tinha sido ele quem puxara seu tapete. O frustrante, porém, era que a opinião pública parecia estar do lado de Jameson. Os noticiários locais estavam cheios de entrevistas com pessoas expressando sua preocupação pela “pobre Sra. Jameson”, rotulando Homem-Aranha como um obcecado e fazendo insinuações perturbadoras a respeito de suas intenções para com Marla. Mesmo as manchetes nos jornais mais equilibrados como o Times e o Globe estavam começando a soar como uma típica manchete do Clarim. Não importa, Peter se tranquilizou. Já fui acusado de coisas piores e a verdade sempre veio à tona. Quando eu desmascarar a família Jameson, as pessoas vão ver. Ele estava cada vez mais certo da culpa deles nos incidentes com os robôs. Felicia havia relatado que o Consertador não estava trabalhando em nenhum robô e estava, na verdade, de férias fora do estado. Peter achou aquilo suspeito, mas Felicia lhe assegurou que havia confirmado o álibi. Ela tinha investigado as oficinas vazias dele pessoalmente, confirmando que não existia nenhum projeto robótico de grande porte em processo. Rastreara as atividades dele e não encontrou nenhum sinal de que ele havia recebido o material necessário para tal projeto. Havia até obtido imagens de segurança que o mostravam embarcando em um avião do aeroporto JFK e desembarcando em Miami, embora não deixasse claros os métodos que usara para obter essas informações (e ele não tinha certeza se queria saber). Felicia estava confiante de que Mason não estava envolvido, e Peter acreditava que, sempre que houvesse uma ameaça à segurança dele, Gata Negra não deixaria uma pista passar, a menos que tivesse certeza de que não levaria a lugar nenhum. Por isso, com poucos outros suspeitos possíveis, a família Jameson parecia cada vez mais culpada. A ideia de Jonah Jovial desonrado e preso de uma vez por todas era muito atraente para Homem-Aranha. Ele imaginava com frequência como sua carreira teria sido diferente se JJJ não estivesse presente em todos os passos do caminho, tornando pública sua opinião contra ele. Imagina se Jonah fosse embora para sempre, se Robbie dirigisse o Clarim, Peter matutou. Robbie Robertson era um homem justo que acreditava nas boas intenções do Homem-Aranha. Talvez, num mundo como aquele que imaginava, o Aranha finalmente redimisse sua imagem e recebesse o merecido reconhecimento. Mas antes, precisava conseguir evidências sólidas contra Jameson. E fazer isso como Aranha não estava dando muito certo; então decidiu que era hora de trabalhar disfarçado de Peter Parker. Ele já havia trabalhado no Clarim por tempo suficiente para que ninguém achasse estranho se ele aparecesse lá. Além disso, seria uma boa oportunidade para rever velhos amigos. De fato, assim que entrou na redação, Betty Brant, sua ex-namorada do colégio e agora uma repórter experiente, avistou sua chegada e abriu um sorriso radiante. – Peter! – Ei, Betts – ele disse, enquanto ela corria até ele e o abraçava. – Como anda – Ei, Betts – ele disse, enquanto ela corria até ele e o abraçava. – Como anda o chuchuzinho da redação? – Por que você não pergunta diretamente para ele? – Betty retorquiu, apontando para Ben Urich. O copista despenteado e quase careca abriu um sorriso sarcástico para ela e acenou para Peter, mas pelo jeito estava ocupado demais em uma matéria para fazer qualquer coisa além disso. – Não fique ofendido – Betty disse. – Ele está no rastro de uma série de roubos. – E quando é que não está? Peter passou alguns minutos botando o papo em dia com Betty e com outras pessoas na redação, e não demorou para que Robbie Robertson percebesse o que estava acontecendo e viesse cumprimentá-lo. – Pete, oi, estava torcendo para que você aparecesse aqui algum dia. Queria que você soubesse que sinto muito pelos seus alunos. Se algum deles precisar de ajuda com despesas médicas, é só avisar a gente. – Obrigado, Robbie. Sabia que você pensaria assim. Robertson entendeu a ênfase. – Eu sinto muito pelo que Jonah fez. Você sabe como ele se deixa levar, mas quando percebeu que o que tinha feito magoaria você… bom, ele não é do tipo que admite, mas ficou arrependido. – Você não precisa se desculpar por ele, Robbie. – Houve um tempo em que Peter acreditou que o bom caráter essencial de Robertson tinha passado para Jameson, melhorando-o enquanto jornalista e pessoa. Agora, estava começando a considerar se isso fazia de Robbie um catalisador ou só alguém que confiava demais nas pessoas. – Na verdade, vim aqui para falar com ele pessoalmente. A gente precisa conversar sobre algumas coisinhas. Como se aproveitando a deixa, veio o berro: – Que conversinha toda é essa aqui? Isto é uma redação ou um clube social? – O zumbido de perigo surgiu um momento depois, e Peter se virou para ver Jameson, que parecia ter acabado de voltar do almoço, já que ainda estava com o casaco. – Ah, Parker, é você. Devia ter desconfiado. Já não bastava você transformar essa redação num clube particular quando tirava fotos para mim! Você não tem mais o que fazer da vida, não? Robbie riu para si mesmo. – Ele sentiu sua falta, cara. – Robbie deu um tapinha nas costas de Peter e seguiu seu caminho. – Você sabe que não consigo ficar longe da sua doce voz por muito tempo, Jonah – Peter respondeu, reprimindo a tensão. Ele não queria revelar suas desconfianças e nem que aqueles jornalistas inteligentes sacassem outras coisas. Ele nunca tinha conseguido fazer aquele lance de engrossar a voz que os dubladores de super-herói faziam ao trocar de identidade, pelo menos não sem parecer idiota. A máscara de Homem-Aranha, que cobria todo o rosto, abafava um pouco a sua voz, mas era um disfarce limitado. Na maior parte do tempo ele confiava nas personalidades diferentes que projetava. Como Peter, sempre falava com a voz baixa, algo originado pela timidez. Sob a máscara, ele se sentia livre para falar de maneira impetuosa, estridente e agressiva, liberando o novaiorquino gritalhão que sempre esteve escondido dentro dele. Era uma camuflagem acidental porém eficaz para a sua voz, e ele havia aprendido a cultivar isso intencionalmente. Peter tinha vencido a timidez, mas ainda costumava manter a voz baixa, e o humor seco e reservado. Portanto, por mais que quisesse gritar com Jameson agora, sabia que precisava controlar a raiva para não deixar transparecer nenhum tom de voz do Homem-Aranha. Se Jameson estivesse em uma onda maluca de vingança, Peter não podia correr o risco de deixar que ele descobrisse sua verdadeira identidade. Ele não deixaria que MJ, tia May ou seus amigos se tornassem alvos mais uma vez. – Isso significa que você finalmente decidiu voltar a trabalhar para mim? Tem alguma ideia de como tem sido difícil encontrar fotos boas do Homem-Aranha desde que você se demitiu? – Achei algo mais importante para fazer, Jonah. Algo que significa muito para mim e para um monte de jovens de bom coração. Jonah bufou. – Olha… se você está aqui por causa daquelas fotos no meu blog… – Prefiro discutir isso em particular. – Certo, certo. Venha até meu escritório. Quando entraram no elevador, Jameson voltou a falar. – Você sabe que não fui eu quem tirou aquelas fotos, certo? – O problema é elas terem sido publicadas. – Então culpe o canalha que botou as fotos na internet! – Ah, eu culpo sim. – E culpe Homem-Aranha também! Você devia estar tão furioso com ele quanto eu, Parker. Aqueles seus alunos nunca teriam se ferido se ele não tivesse deixado aqueles robôs correndo por aí. Para começar, tenho certeza de que foi ele quem deixou os robôs à solta. Mesmo sem o sinal de perigo constante em sua cabeça, teria sido difícil resistir à vontade de pular no pescoço do dono do jornal. Controlando-se muito, Peter perguntou: – Você tem alguma prova disso? – Nada sólido ainda. Mas eu talvez tivesse se você ainda fizesse seja lá o que fazia para conseguir aquelas fotos dele. – Jameson estreitou os olhos. – Ou talvez não. Sempre desconfiei da relação entre vocês dois. Sempre achei que você sabia mais sobre ele do que dizia. Você não deixaria de tentar proteger aquele maldito, não é, Parker? Nem mesmo depois que ele machucou seus alunos? – Eu não tenho mais relações com o Homem-Aranha, Sr. Jameson. Sou um professor agora, não um fotógrafo. Não preciso mais dele. – Um pensamento passou pela cabeça de Peter. Jameson estava claramente tentando culpar o Homem-Aranha por aquele crime, um crime que poderia muito bem ter sido cometido por ele mesmo. Até que ponto ele estava disposto a chegar para conseguir isso? – Na verdade, a gente meio que teve uma desavença um tempo atrás. Fiquei cansado dele sempre se intrometer na minha vida, me enchendo para lhe dar alguma publicidade. Então mandei que enfiasse as teias naquele lugar. Jameson deu uma gargalhada. – Ora, Parker, e não é que você tem colhões? Estou orgulhoso de você, meu garoto. – Ele deu um tapa nas costas de Peter, que precisou reunir todo o seu autocontrole para não atacar Jameson violentamente, como seus instintos ordenavam. – Acredite em mim, é melhor para você ficar longe daquele maníaco. – Ele abriu um largo sorriso. – Por mais que isso não faça bem para nossa vendagem. – Sabe – começou Peter quando saíam do elevador –, acho que eu poderia ser convencido a ajudar o Clarim pelos velhos tempos. Os olhos de Jameson brilharam. – Você está falando de pegar a velha câmera de novo? Sair no rastro do Aranha? – É possível. Mas do meu jeito agora. Na verdade… como você me ajudou tanto ao longo dos anos – ele disse, esforçando-se para não ranger os dentes –, eu posso aceitar alguns trabalhos. – Como o quê? Jameson guiou Peter até seu escritório (ou melhor, o escritório temporário que estava usando enquanto sua suíte executiva no último andar era reformada) e pendurou o casaco no cabide ao lado da porta. Peter esperou enquanto JJJ se encaminhava para sua mesa. Quando o dono do jornal ficou de costas para ele, Peter tirou um rastreador aranha do bolso, apertou para ativar o sinal e enfiou dentro do casaco de Jameson. Sentindo seus pulsos ultrassônicos com o sentidoaranha, Peter saiu de perto do cabide enquanto Jameson se voltava para ele de novo. – Bom, me diga você, Jonah. Você anda fazendo muitas acusações específicas contra o velho Cabeça de Teia nos últimos dias. Talvez queira fotos para… ilustrar essas acusações em particular. – Parker, se você conseguisse pegar Homem-Aranha no flagra, ganharia um bônus por isso. Eu colocaria você na lista de cartão de Natal da minha família, isso sim. Mas se você e ele não estão mais se dando bem, como você se aproximaria dele o suficiente para encontrar provas? – Tenho certeza de que poderia dar um jeito nisso – insinuou Peter, piscando um olho. – Ei… espera um minuto – Jameson se levantou de um salto. – Espera só um minuto! Você está insinuando que eu permitiria que você forjasse uma foto? Como você ousa? Eu devia ter desconfiado! Você sempre foi uma fraude! Devia ter expulsado você daqui na vez que forjou aquelas fotos que mostravam que o Homem-Aranha era o Electro! Por que eu me deixei convencer em aceitar você de volta? Muita coragem sua de se aproveitar da minha famosa generosidade desse jeito! – Calma, Jonah, foi só uma ideia à toa. – Pois vai ficar à toa bem longe do meu escritório, seu charlatão de meiatigela! Os jovens de hoje jamais saberão o que é integridade! Eu nunca aceitaria uma história sabendo que é uma fraude! As únicas vezes em que isso aconteceu foi quando aberrações como você se aproveitaram da minha confiança! E não é como se eu precisasse falsificar alguma coisa! – ele continuou, empurrando Peter para fora da sala. – Afinal, o Homem-Aranha é culpado! Não preciso falsificar o que já é verdade! Agora dá o fora daqui! Rápido, e não apareça na minha porta de novo! E assim, Peter estava de volta ao elevador. Quando as portas se fecharam entre ele e Jameson, que ainda reclamava, ele praguejou. Tinha esperança de fazer com que Jonah confessasse alguma coisa, mas o dono do jornal estava decidido a seguir com sua atuação. Eu quase teria acreditado nele se meu sentidoaranha não estivesse apitando o tempo todo. É óbvio que ele representou bem. Mas, enfim, ele consegue gritar desse jeito até quando está dormindo. E provavelmente grita. Isso não prova nada. Mas ele havia conseguido plantar o rastreador com sucesso. Logo vou ter a prova de que preciso. Depois disso, era questão de esperar. Aranha passou as horas seguintes patrulhando Midtown East e Murray Hill, mas se manteve perto o bastante do edifício Goodman para sentir quando Jameson começasse a se mover. Ele impediu um assalto no St. Gabriel’s Park e ajudou a limpar a área de um acidente com quatro carros na FDR Drive. Deu uma passada nas Nações Unidas para ver a chegada do Quarteto Fantástico para uma solenidade diplomática e suportou alguns minutos de piadas do Johnny Storm por deixar que Electro e os robôs escapassem. No entanto, recusou-se a aceitar a provocação e o Tocha seguiu seu caminho, dizendo que Aranha não tinha mais tanta graça. Um pouco depois, ficou com fome e pousou diante de um vendedor de cachorro-quente espantado. Ele sempre guardava um pouco de dinheiro no cinto de utilidades para emergências, e aqueles carrinhos metálicos eram a melhor fonte de comida barata da cidade. Naquela noite, quando Jameson saiu do escritório, Aranha estava pronto, empoleirado sobre o prédio do outro lado da rua, de frente para o Clarim. Ele sentiu o sinal do rastreador ecoando enquanto se movia: o carro de Jameson estava saindo da garagem e dirigindo-se para o oeste pela 39. Aranha disparou uma teia e saltou atrás dele. No alto do balanço, lançou outra, mais curta, no Burroughs Building, que ficava na esquina da 39 com a 3. Se Jameson virasse para o norte em direção à sua casa, ele poderia dar a volta e segui-lo, mas, se o carro continuasse indo para o oeste, poderia soltar o fio e disparar outro para continuar reto. O carro deu seta para fazer a curva, então o Aranha deixou que a teia também o levasse a fazer uma curva. Mas de repente, seu sentido-aranha disparou e a teia se soltou. Em queda livre, girou no ar e pousou com segurança na lateral do edifício de número 600 na 3 a Avenida do outro lado da rua. (A essa altura, não devia haver nenhum arranha-céu na cidade cujo número ou nome Aranha não conhecesse. Como dependia deles para se transportar, ele havia se tornado um especialista e tanto.) Olhou ao redor para encontrar a origem do ataque e a encontrou vindo de cima. Um vulto retangular descia em sua direção, suspenso no ar por um par de cabos finos ancorados àquela torre e ao Burroughs. Pelo som agudo que ele fazia, parecia estar rolando pelos cabos para descer, mas em ritmos diferentes, sendo que agora estava vindo na horizontal, em sua direção. Quando o trambolho se aproximou, ele pôde ver que era feito de uma série de polias empilhadas capazes de rodar independentemente, como o ferrolho da corrente de uma bicicleta deitado. Aranha saltou para o lado quando uma fenda em uma das polias se abriu na direção dele e disparou um tipo de projétil rodopiante. Pela maneira como o projétil se enfiou nos painéis de aço preto em que ele estava há pouco, aquele troço devia ser bem afiado. Aranha se esquivou para trás da esquina sudoeste do edifício, estendeu a mão, dando a volta, e disparou uma gosma de teia contra o robô. Mas outro cilindro se abriu e disparou um forte jato de ar, que desviou a teia. Um novo cabo saiu para se ancorar acima dele, ao mesmo tempo em que os dois primeiros cabos se soltaram e começaram a girar. Eles revolviam com força enquanto o robô avançava contra ele, então Aranha precisou saltar em pleno ar para não ser esfolado vivo. Infelizmente, o prédio mais alto do outro lado da rua, o Dryden East, estava vinte andares abaixo dele. Abrindo os braços para estabilizar a queda e planar um pouco para o oeste, ele disparou uma rede ampla de teia sobre a rua para ter onde cair com segurança. Ela se esticou quando ele caiu sobre ela, absorvendo seu peso, e ao se segurar na superfície elástica, ergueu os olhos para ver o que o robô dos cabos estava fazendo agora. Ele estava descendo pelo arranha-céu por um cabo e soltando outro para se ancorar no edifício Dryden East. Em seguida, usou mais um cabo para se ancorar no prédio de número 600 da 3 a , na mesma altura em que estava, soltou o primeiro cabo e começou a cair na direção dele, disparando discos afiados assim que chegou à altura de Aranha. Caramba! Esses troços são tão rápidos quanto eu! Só que mais malvados! Ele saiu da teia tropeçando, disparou um fio curto para os telhados baixos a oeste do Dryden e saiu correndo. O robô continuou seguindo-o, ainda soltando seus cabos e se equilibrando horizontalmente. Homem-Aranha subiu por uma teia até o Court Hotel, que era mais alto e ficava do outro lado da Lexington, e o robô soltou outro cabo, subindo para seguir o herói. Aranha disparou uma rede de teia na direção do robô, mas um jato forte de ar jogou a teia para o lado. Se eu ainda tinha alguma dúvida de que esses ataques eram contra mim, pensou Aranha, elas acabaram de acabar. Esse troço foi feito sob medida para rebater meus ataques. Além de tudo, estava no caminho entre ele e Jameson. Mas, enquanto o robô dos cabos continuava a subir, Aranha teve a chance de virar para o norte e captar o sinal do rastreador de novo. Disparando um fio de teia na direção dos prédios mais baixos do lado norte da rua, desceu em alta velocidade, esquivando-se de um disco afiado enquanto chegava na altura do robô. Ele estava a alguns andares do chão, e os clientes da lavanderia, da cantina e do restaurante gritaram e correram atrás de um abrigo. Ao soltar a teia e pular sobre o próximo telhado, ele avistou um anúncio de uma CARTOMANTE abaixo dele e pensou: Queria saber o que ela tem a dizer sobre a minha vida nesse momento. Querendo evitar que a batalha acontecesse na rua, tanto por sua segurança como pela dos transeuntes, ele disparou uma teia na direção do prédio alto mais próximo em seu caminho e foi subindo pelos arranha-céus que ficavam cada vez mais altos em direção ao nordeste, na tentativa de recuperar o sinal do rastreador. Mas um disco afiado vindo do nordeste cortou sua teia enquanto ele subia, obrigando-o a pousar na parede de aço inoxidável do Mobil Building, cujas falsas saliências piramidais se enfiavam desconfortavelmente nas solas de seus pés. Ele olhou para trás para verificar e, de fato, o robô dos cabos continuava subindo atrás dele, vindo do sul. Mas outro estava vindo na direção dele vindo do leste. – Ah, que ótimo, gente, juntem-se contra o único que não tem pele de metal! – Ele escalou até o telhado, mas o segundo robô de cabos subiu mais rápido, com um som agudo cada vez mais cortante, e chegou ao topo antes dele. Quando Aranha chegou ao amplo terraço plano, o robô dos cabos já estava avançando em suas três pernas, parecendo usar jatos de ar para se propelir e disparando discos afiados contra ele. Aranha se esquivou e deu um salto mortal para desviar dos discos. Uma rajada súbita dos fortes ventos daquela altitude soprou um disco na direção dele depois que já havia sido desviado, fazendo um corte na lateral esquerda do seu tronco que rasgou o elastano e a pele. Ele continuou seguindo apesar da dor, preparando-se para saltar e disparar um fio de teia até a gárgula mais próxima em cima do Chrysler Building do outro lado da rua. Se conseguisse chegar ao pináculo, o segundo ponto mais alto de Manhattan, estaria em terreno alto e controlaria a única rota de aproximação possível. Mas, enquanto se aproximava da beira do terraço, viu uma garra compacta atracada no canto. Ele chegou à beira e viu o primeiro robô se lançando em sua direção, enrolando-se rápido para acumular velocidade enquanto subia e desenrolando-se, também rapidamente, conforme avançava em um trajeto ascendente. O robô disparou mais discos no trajeto de Aranha ao passar atrás dele, e disparou outro cabo para se ancorar na parte de baixo do pináculo sobre o terraço do Chrysler Building, bloqueando seu trajeto para noroeste. Preso em um fogo cruzado de discos afiados, Aranha sofreu outro corte, dessa vez na coxa. – Vou mandar a conta do meu alfaiate para vocês! – E então o segundo robô, no outro canto do terraço, disparou mais um cabo para se prender em uma das gárgulas do Chrysler e se içou no ar, impedindo que Aranha seguisse para o nordeste. Uh-oh. Eles se rebelaram, eles evoluíram, e eles têm um plano. Ele tentou prendê-los numa rede de teia, na esperança de que os jatos de ar dos robôs não tivessem força suficiente para a desviarem completamente; mas, por ironia do destino, a grande área de superfície da teia fez com que os ventos da altitude elevada a soprassem de volta contra ele. Ele precisou pular para a esquerda a fim de desviar da própria armadilha e pousou na beira do terraço, disparando uma teia para se prender ao canto sudeste do Chanin Building. Deu a volta segurando-se à teia para ficar atrás do prédio, longe dos robôs, e avançou para o oeste. Ele já podia ouvir os ruídos agudos o seguindo. Um estava logo atrás dele sobre a 41 a , o outro avançava pela 42 a para bloquear seu caminho para o norte. Não estou jogando bem, ele pensou. Este é o problema de lutar com robôs: sem ninguém para fazer piada, eu perco o ritmo. – Pelo menos com os Esmaga-Aranhas, tinha alguém com quem conversar – ele disse, só para ouvir sua própria voz. Deu meia-volta, voando de costas para gritar contra seus perseguidores. – Que tal isso, gente? Alguém está ouvindo? Vendo? Pode rir agora! – Mas os robôs continuaram em silêncio, exceto pelo ruído cada vez mais inquietante de suas bobinas e do ocasional assovio que indicava o lançamento de um disco afiado. Mas uma coisa é certa: eles definitivamente estão tentando me manter longe de Jonah. Isso o encheu de uma nova determinação. Então por que eu estou deixando? Para de só reagir e faz alguma coisa. Ele se virou para o sul sobre a Avenida Madison, em busca de um bom lugar aonde atrair um dos robôs para uma emboscada. Um momento depois, deu-se conta de que sua mudança de rumo havia sido motivada pelo fato de estar a um quarteirão da biblioteca. Ele não queria levar mais nenhum robô assassino para lá. Mas a onda de fúria que veio com esse pensamento aumentou ainda mais sua determinação. Ele guiou os robôs pela Madison por mais dois quarteirões, desviando dos discos afiados, então virou para o oeste e escalou até o topo do 425 da 5 a Avenida, uma torre fina azul e amarela com listras brancas verticais, que parecia algo montado com peças de um Lego gigante. Era o prédio mais alto das redondezas, e era relativamente isolado, de modo que, para subir nele, os robôs precisariam ancorar seus cabos na própria torre. Isso daria a chance de que ele precisava. Eles estão sabotando minha teia, então posso fazer o mesmo com eles. Assim que a garra compacta de um dos robôs se ancorou no prédio, Aranha saltou para baixo na direção dela. Ele lançou fluido de teia por todo o braço do robô, cobrindo-o com uma camada grossa de vários metros. Quando o robô se enrolou sobre o cabo na direção dele, logo começou a se enrolar na parte coberta, e o ruído foi diminuindo até se tornar um som baixo e agudo conforme a teia bloqueava o mecanismo de bobinas. Aranha parou um momento para colocar outro cartucho no disparador de teia, e então cobriu a garra com mais teia e a arrancou da parede, jogando-a em direção ao chão. O robô caiu, mas se segurou mais abaixo com os dois outros cabos, um sobre a torre de Lego e o outro perto do topo do número 260 da avenida Madison, um prédio branco mais baixo a meio quarteirão ao leste. Mas o cabo cheio de teia continuou pendurado inutilmente sob ele, contraindo-se conforme o mecanismo de bobinas se esforçava para se livrar da obstrução. Aranha desceu até onde o cabo seguinte estava ancorado e repetiu o procedimento nele. O outro robô tentou acertar Aranha, mas ele conseguiu se segurar. O robô danificado (ou seu controlador) aparentemente havia aprendido com seu erro, pois dessa vez parou de rolar na direção do cabo cheio de teia e recuou na direção oposta. Aranha rastejou ao longo do cabo, desviando dos discos afiados enquanto lançava mais teia pelo cabo. O robô disparou um quarto cabo para acertar o Mercantile Building, ao norte, e soltou a garra do segundo, deixando o cabo cair na esperança de que Aranha caísse junto. O herói se segurou a uma teia ancorada diretamente no novo cabo, balançando-se para subir sobre ele, e repetiu a manobra. Prestativo, o robô também repetiu sua reação e, com um só cabo restante, despencou. O robô conseguiu evitar uma colisão contra a lateral do número 260 da Madison disparando um jato de ar, mas Aranha já havia se posicionado e estava enchendo de teia o último cabo, disparando bem para onde o robô estava se dirigindo a fim de impedir que ele parasse e mudasse de rumo. Em vez disso, o motor morreu. Só dois dos motores estavam obstruídos, mas o robô não poderia subir completamente pelos dois outros cabos e, portanto, não conseguiria mirar e atirar. O robô estava imobilizado. E agora? Ahh. No terraço abaixo dele, havia várias torres de água pequenas que eram marcas registradas do horizonte de Manhattan. Depois de arrancar a última garra do robô, Aranha o balançou de um lado para o outro e, por fim, lançou-o contra um dos tanques, onde o robô se espatifou sobre o teto cônico de madeira. O clarão reluzente e o estalido vindo dele provaram que o robô não tinha sido projetado para ficar embaixo d’água. – Haha! Um a menos, baby, e agora vou atrás de você! – ele gritou provocando enquanto saltava para desviar dos discos afiados do outro robô. No entanto, quando seguiu na direção da garra ancorada mais próxima do robô, um pouco acima no Mercantile Building, este soltou a garra e caiu, recuando-se para o oeste. – Ha! Melhor sair correndo! Ninguém derrota o Homem-Aranha na minha cidade! Não aceite imitações! Mas o som de vidro estilhaçado o silenciou. O robô dos cabos não estava batendo em retirada, mas simplesmente avançando para o prédio ao lado, o Fifth Avenue Tower, um condomínio de vidro de trinta e três andares de altura. O robô havia lançado três de seus quatro cabos pelo vidro e estava disparando dezenas de discos afiados pela lateral do prédio, fazendo cair uma cachoeira de estilhaços de vidro na direção do solário no nono andar do condomínio e da rua abaixo dele. Aranha tinha poucos segundos para salvar os moradores e transeuntes abaixo. No entanto, estava a meio quarteirão de distância. O único ponto a seu favor era a resistência do ar, que reduzia a velocidade da queda do vidro, mas que não ajudava tanto. Ele pegou o maior impulso que pôde da lateral do 260 da Madison, descendo sobre um terraço no meio do caminho, e pulou diretamente sob o vidro que caía, disparando redes de teia sobre ele. A teia apanhou a maioria dos cacos e ele estendeu o disparador direito para prender a rede à fachada do prédio, de modo que a massa de teia e vidro grudasse à parede. O impacto quebrou mais vidro, e o pouso do Aranha sobre a teia quebrou ainda mais. No entanto, a teia aguentou. – É! Por essa você não esperava, né? – ele gritou para o robô. Contudo, o mecanismo estava descendo, disparando suas garras contra outras janelas e fazendo com que elas se estilhaçassem sobre Aranha e as pessoas abaixo dele. O herói olhou para baixo, vendo que havia algumas pessoas ali, feridas pelos cacos de vidro que não tinha conseguido apanhar. O velho Homem-Aranha poderia ficar paralisado pela culpa por ter sido lento demais. Porém, naquele dia, Aranha refreou esses pensamentos imediatamente e se concentrou na missão diante dele, lançando uma rede de teia o mais rápido que pôde para cobrir a rua sobre ele. O vidro que caía cortou alguns dos fios, mas a maioria aguentou. Ele lançou mais teia para apanhar o resto, e então desceu até o solário para checar os feridos. Então ouviu o ruído familiar do robô de cabos descendo e soube que estava prestes a ser atacado. O robô havia colocado civis em perigo para distraí-lo, deixando-o vulnerável para o abate. Mas ele não cairia nessa. Nenhuma vara de pescar com mania de grandeza vence o Homem-Aranha. Ele pegou uma mesa do pátio e usou-a como escudo. – Quem consegue se mover leve os feridos para dentro! – ele berrou quando discos afiados se afundaram na mesa. Quando os tiros pararam e ele ouviu o robô se enrolando para chegar a uma nova posição, lançou a mesa na direção em que o robô se movia. Jatos de ar sopraram a mesa, mas como esta tinha mais inércia do que um fio de teia, quase não teve seu trajeto desviado. Ela atingiu o robô com força suficiente para fazê-lo chacoalhar. O mecanismo se recuperou e apontou para o Aranha, disparando uma garra contra ele como se fosse um arpão. Os discos devem ter acabado, ele pensou enquanto desviava às pressas e segurava a garra em pleno ar, enchendo o cabo de teia com a outra mão. Entretanto, o outro cabo disparado foi na direção dos civis, que ainda arrastavam os feridos para um lugar seguro. Aranha prendeu o cabo em pleno voo com um fio de teia e o fez parar com um puxão. – Agora chega – ele gritou. Jameson havia passado dos limites, atacando inocentes de maneira deliberada como peças de seu jogo de vingança. HomemAranha estava fervilhando de raiva agora. Por sorte, ele tinha um alvo fácil. Aranha catou alguns dos pedaços maiores de vidro que haviam caído sobre o solário e os atirou um a um contra o robô com toda a violência de sua fúria. Eles não eram tão afiados quanto os discos, mas o atingiram com força. O robô sofreu alguns cortes na carcaça, porém continuou se enrolando para cima e se afastando. Aranha pegou mais cacos de vidro e deu sequência ao ataque saltando vários andares até o terraço do outro lado da rua. O robô tentou lançar um cabo contra ele de novo, mas Aranha desviou com um pulo e agarrou o corpo do robô, acertando-o com os punhos. No começo foi uma liberação de raiva impensada, mas aos poucos ele começou a direcionar seus esforços, alargando os cortes na carcaça com os dedos e, em seguida, usando as mãos para abri-los ainda mais e enfiar os braços dentro do robô para arrancar suas peças. A bobina de um dos cabos cedeu e se deixou cair enquanto a outra ficou entupida e paralisada, de modo que o robô balançou para baixo e bateu contra o canto do Mercantile Building, dessa vez sem o jato de ar para amortecer o impacto. Aranha pegou carona nele e o chutou com os dois pés quando ele atingiu a parede, fazendo-o cair ainda mais. O herói fixou as solas dos pés na parede, agarrou os cabos, arrancou-os e deixou que a máquina quebrada caísse no pátio abaixo. A essa altura, a polícia e os paramédicos já haviam chegado, e estavam entrando no prédio para cuidar dos feridos. Aranha desceu e interceptou dois deles. – Posso levá-los lá em cima mais rápido, gente – ele disse. – Segurem-se na maca! – Eles se seguraram com firmeza e o Aranha ergueu a maca com os dois paramédicos sobre ela até o solário, por sobre a parede de vidro. – Cuidado por onde andam, tem vidro por todo lado – ele aconselhou quando os colocou no chão. Olhando para a rua abaixo, notou que uma equipe de TV estava se instalando na área também. Ele desceu pela parede, prendendo-se apenas com alguns dedos para deslizar mais rápido e pousou na frente da repórter. – A gente está ao vivo? – ele perguntou. – Quero fazer uma declaração antes que isso seja distorcido. A repórter assentiu com a cabeça. – Só um segundinho – ela disse, voltando-se para o câmera, que a ligou um segundo depois. – Obrigada, Diane. Estamos ao vivo na Fifth Avenue Tower, onde acabou agora há pouco uma batalha entre Homem-Aranha e dois robôs aracnídeos. O incrível é que o próprio Homem-Aranha acabou de aceitar dar uma declaração exclusiva para mim sobre o incidente. Isso mesmo, aqui vocês sabem antes. Aranha deu um passo à frente antes que ela tivesse tempo de se promover ainda mais. – Obrigado. Quero deixar claro o que ocorreu aqui antes que certas pessoas movidas por interesses egoístas distorçam os acontecimentos. Esses robôs me atacaram enquanto eu estava seguindo uma pista sobre os ataques anteriores. Está claro que eles foram projetados para me atacar, usando cabos para imitar meus movimentos e fortes jatos de ar para desviar minhas teias. Quando derrotei um deles, o outro começou a quebrar as janelas do prédio, colocando civis em perigo para me distrair. Infelizmente, houve alguns feridos apesar dos meus esforços, mas como vocês podem ver, coloquei minha segurança em risco para proteger o povo de Nova York. – Ele se virou para mostrar à câmera os cortes no tronco e na perna, assim como os machucados nas suas luvas rasgadas. – Como você tem coragem?! – Aranha e a repórter se viraram para ver uma mulher abalada de meia-idade correndo na direção dele. – Vocês, grandes heróis e suas lutas no céu, não ligam para o que cai em cima da gente aqui embaixo! Meu marido morreu! Olha só para ele! Em choque, Homem-Aranha seguiu o braço dela, o qual apontava para os paramédicos que levavam uma maca carregando um saco com um cadáver. – O vidro caiu e cortou meu marido, um corte horrível… – Ela tremeu, perdendo a voz por um momento, e por reflexo, Aranha deu um passo à frente em solidariedade. Mas a mulher se enrijeceu com sua aproximação e gritou: – Por que você, senhor Grande Herói, estava ocupado demais se gabando que é invencível! Você estava se vangloriando quando devia estar vendo o que aquele troço estava prestes a fazer com a gente! – Homem-Aranha, isso é verdade? – perguntou a repórter. – Não – ele disse, e então repetiu com mais vigor. – Não. Eu sinto muito pela perda dessa mulher, mas ela não está lembrando claramente. Eu agi o mais rápido que pude e impedi que a maior parte do vidro caísse no chão. Sei que a senhora quer me culpar porque era eu quem estava aqui. Mas quem matou seu marido foi a pessoa que construiu aqueles robôs. E juro para você que vou encontrar essa pessoa e fazer com que ela pague por isso. – Sai de perto de mim – gritou a viúva. – Sai daqui! – Ela correu em direção ao corpo do marido. Homem-Aranha se voltou para a câmera. – Você está me ouvindo? Sei que você está assistindo e que vai tentar voltar isso contra mim. Mas não vai dar certo, está me escutando? Você passou dos limites e isso muda tudo! Sei quem você é e vou provar isso para o mundo! De um jeito ou de outro, eu vou acabar com você!

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