AINDA MATO ESSE CLARINETISTA
–JONAH,AGENTEPRECISACONVERSAR.
Quando Joseph Robertson irrompeu na sala de seu editor, encontrou
Jameson debruçado no teclado, digitando mais um pouco da sua prosa imortal (ou
seria mortal?).
– Fala quando chegar a sua vez, Robbie – Jameson resmungou. – Eu pago
você para editar um jornal, não para exercitar suas habilidades orais.
– Você precisa ouvir, Jonah. É sobre sua cobertura do incidente dos robôs.
Jameson tirou o rosto da tela e voltou a carranca impaciente contra
Robertson. Pelo menos noventa por cento das expressões de JJJ eram carrancas,
mas Robbie já o conhecia há tempo suficiente para discernir o tipo impaciente do
tipo furioso, do tipo desconfiado, do tipo “você espera que eu te pague por isso?”
e de todo os outros tipos.
– Já conversamos sobre isso, lembra? Aquelas fotos já estavam na internet.
Qualquer pessoa poderia ter encontrado em dez segundos. Elas faziam parte da
matéria e eu as publiquei.
– Você sabe que isso é uma desculpa, Jonah. Aquele canalha com a câmera
invadiu a privacidade dos adolescentes e, quando você republicou as imagens,
fechou os olhos para o que ele fez. É por isso que não as colocamos no Clarim.
Caramba, você nem sugeriu colocar aquelas fotos no Clarim, porque sabia disso!
– Blogs são diferentes de jornais, Robbie! Os padrões não são os mesmos. As
regras não são as mesmas.
– Os padrões de bom gosto deviam ser iguais em qualquer meio.
– É meu blog pessoal, Robbie, e vou colocar o que bem entender nele.
– Eles são alunos do Peter, Jonah! – Robertson parou para respirar depois do
acesso de fúria, continuando com menos volume, mas não com menos raiva. – Eles
são alunos da turma do Peter Parker. Ele era um dos nossos, Jonah. Fez parte da
família do Clarim durante anos. Você nem… nem parou para pensar em como ele
se sentiria?
Para variar, Jameson ficou sem palavras. Ele desviou os olhos, tendo a
decência de parecer envergonhado. Era o tipo de momento que Robertson havia
presenciado muitas vezes em sua relação com J. Jonah Jameson, o tipo que fazia
com que continuasse trabalhando para ele apesar de todos seus defeitos. Claro,
JJJ era difícil, irascível, tinha opiniões agressivas, era movido pelo lucro e, em
algumas ocasiões, estava disposto a extremos questionáveis para obtê-lo. Às
vezes, esses eram seus piores defeitos como profissional e como pessoa, quando o
levavam a escravizar a equipe ou comprometer a ética jornalística em sua guerra
pessoal contra o Homem-Aranha. Mas eram também algumas de suas maiores
qualidades. Um dono de jornal colocava sua reputação em jogo diariamente e
precisava ter coragem para manter suas convicções e sua determinação para
defender aquilo em que acreditava apesar de todas as pressões contrárias. E um
dono de jornal precisa ter dinamismo para fazer o que é preciso a fim de tornar
sua empresa lucrativa, pelo bem dos empregados que dependem dela. Robbie
Robertson tinha visto JJJ enfrentar políticos corruptos, defender programas
sociais e lutar pelo bem-estar de seus funcionários inúmeras vezes. Como editorchefe,
Robertson acreditava ser sua responsabilidade atuar também como uma
consciência de Jonah, e impedir que os excessos e más decisões ocasionais dele
(movidos pelo seu desejo de vender jornais a qualquer custo ou por ódio ao
Homem-Aranha) superassem a decência que Robertson sabia existir por trás da
aparência rígida de seu chefe.
Mas um dono de jornal precisava manter a casca dura, de modo que,
enquanto pensava no argumento dele, Jameson não demonstrou nenhum remorso
além de uma sutil mudança no aspecto da cara feia.
– Certo, vou compensar o menino de alguma forma. Já sei… manda Sibert
falar alguma coisa boa sobre a mulher dele na página de teatro.
– Que tal tirar aquelas fotos do seu blog?
– Tá, tá, elas já atingiram seu objetivo mesmo. – Seu tom era de desdém,
mas, quando Robertson olhou na tela, pôde ver que Jonah já estava excluindo as
fotos.
– Enfim – ele disse, continuando –, não foi sobre isso que vim falar com você.
– Não? Então por que você gastou meu tempo choramingando se deveria
estar trabalhando na edição da tarde?
– Jonah, o Globo Diário publicou uma coisa sobre a Cyberstellar Tech, a
empresa que construiu aqueles robôs.
– O Globo? Por que você está me falando o que eles publicaram se o Clarim
devia ter publicado antes?
– Jonah! Eles disseram que você é dono de ações da Cyberstellar.
– Eu?
– Isso é verdade?
Jonah ficou confuso por um momento, mas logo afastou a confusão.
– Como eu vou saber? É por isso que pago meu conselheiro de investimentos.
Não tenho tempo para conhecer todo meu portfólio!
– Jonah, você devia ter conferido. É conflito de interesses em potencial. Vai
pegar mal tentar culpar o Homem-Aranha por isso se você é dono de ações da
empresa que fez os robôs.
– Você sabe que não tenho nada a ver com aqueles robôs! Mas o HomemAranha
foi…
– Vamos lá, eu não deveria ter que te explicar sobre aparência de
impropriedade!
– Eu não estou me justificando, Robbie! Não estou tentando mudar a pauta
do jornal. Essas colunas, esses blogs, são opiniões. As pessoas sabem que não
podem considerar essas coisas como fatos.
– Será que sabem, Jonah? Você acredita mesmo nisso? Se sim, por que não
desiste de convencer as pessoas de que está certo?
Jameson suspirou.
– Faça uma matéria sobre a minha relação com a empresa. Abertura total.
Vou dar acesso a todos meus registros financeiros. O Globo pode ter conseguido a
matéria antes, mas o Clarim vai fazer melhor! A gente não se esconde atrás dos
nossos erros como certas pessoas. – Um brilho previsível surgiu em seus olhos. –
Já posso visualizar meu próximo post. J. Jonah Jameson não vai se esconder
atrás de uma máscara! Eu confesso e olho o público nos olhos! Desafio HomemAranha
a fazer o mesmo!
Robbie riu para si mesmo e deixou Jameson com seu blog.
• • • •
– É isso!
A exclamação súbita de Peter chamou a atenção do caixa e dos clientes que
estavam na frente dele na fila, além de atrair o olhar intrigado de MJ.
– Desculpa – ele disse aos outros. – Podem voltar para suas coisas.
– O que é “isso”? – MJ perguntou em um tom mais normal.
Ele apontou para o artigo do Globo Diário pelo qual estava passando o olho
enquanto esperavam na fila do mercado. Como os ensaios dela a mantinham
muito ocupada nos últimos tempos, fazer compras parecia ser uma das únicas
chances que ele tinha de sair com a esposa.
– É o Jameson. Ele é acionista na empresa que fez os robôs. Ele deve ter
alguma coisa a ver com isso.
Ela se aproximou, falando baixinho.
– Talvez você esteja exagerando, tigrão.
– Vamos lá, MJ, não seria a primeira vez em que ele usa ro… – Seu próprio
sentido-aranha calou sua boca, quando ele se deu conta de que as outras pessoas
na fila ainda podiam ouvir e que ele estava prestes a dizer algo comprometedor.
– Hmm, vamos esperar até estarmos lá fora, tá?
– Também acho melhor.
Mas a ideia ficou se agitando em sua cabeça enquanto aguardavam na fila.
Embora, nos últimos tempos, Jameson parecesse contentar-se em atacar HomemAranha
com palavras (e fotografias, ele acrescentou, com um nó de raiva na
garganta), houve o tempo em que o atacava mais abertamente. Seu ódio era tão
forte que ele havia chegado a contratar cientistas malucos para desenvolver uma
maneira de derrotar Homem-Aranha. Sua primeira tentativa havia transformado
o detetive particular Mac Gargan no poderoso Escorpião, mas o tiro saiu pela
culatra; o poder tinha mudado Gargan, que se voltou para o crime e passou a
sentir um ódio por Jameson que se igualava apenas ao seu ódio pelo Aranha,
culpando o dono do jornal por seu destino. O Aranha acabou tendo que salvar JJJ
de sua própria arma-secreta mais de uma vez.
Mas Jameson não havia aprendido com seus erros. Meses depois, um inventor
chamado Spencer Smythe abordara Jameson e lhe oferecera o uso de um robô
projetado para caçar e capturar o Homem-Aranha. Para ser justo, Jonah havia
relutado a princípio e o jovem Peter Parker – em um dos seus momentos menos
brilhantes – havia insistido para que ele tentasse, achando que seria fácil derrotar
o aparelho de aparência ridícula. O robô, porém, se revelou muito mais
ameaçador, atraindo o interesse de Jameson, especialmente por causa do controle
remoto e da tela bidirecional que permitia que o próprio JJJ guiasse o robô e
tivesse sua careta exibida na tela (de longe, a característica mais assustadora da
máquina). Incapaz de resistir à oportunidade de lutar contra o Homem-Aranha
pessoalmente, Jameson contratara os serviços de Smythe e se divertiu muito
caçando sua presa. O Aranha escapara por um triz.
E esse tinha sido só o começo. Nos anos seguintes, Jameson pagou para que
outros dois robôs de Smythe, cada vez mais poderosos, caçassem o Homem-
Aranha, e o cientista, mais e mais obcecado, acabou apelidando os robôs de
“Esmaga-Aranhas”. Com o tempo, Smythe passou a desenvolver uma rixa pessoal
contra Homem-Aranha e, assim como o Escorpião antes dele, também se voltara
contra Jameson, culpando o dono do Clarim pelo câncer terminal que havia
desenvolvido por causa das fontes de energia radioativa de seus diversos robôs. O
charme peculiar de J. Jonah Jameson atacara mais uma vez.
No entanto, Jameson havia abandonado Smythe muito antes disso, quando
encontrou uma nova criadora para seus robôs Esmaga-Aranha, a eletrobióloga
Dra. Marla Madison. O primeiro e último Esmaga-Aranha dela também foi o
último encomendado por Jameson; todas as gerações de Esmagas seguintes foram
obra do agora falecido Spencer Smythe ou de seu filho, o igualmente vingativo
Alistaire. Talvez JJJ tivesse se amargurado depois que o Smythe pai usara seu
último robô para tentar matá-lo. Ou talvez simplesmente tivesse encontrado
outras prioridades, pois Madison fora a exceção à regra; em vez de jurar vingança
contra Jameson, acabou se casando com ele. Peter não sabia qual era o sinal mais
claro de insanidade.
– Mas e se Jonah tiver decidido voltar à empreitada de robôs antiaranha? –
ele perguntou à MJ no caminho para casa com as compras na mão. – Talvez ele
tenha investido na Cyberstellar para conseguir acesso aos robôs. Talvez tenha
contratado Electro para controlá-los.
MJ não estava convencida.
– Mas você não falou que o ataque não foi contra você? Que Electro não
tinha como saber que você estaria lá?
O sinal de pedestres se abriu e eles começaram a atravessar a rua, mas o
sentido-aranha o fez parar e puxar MJ quando um ciclista atravessou a faixa de
pedestres diante deles, mostrando um típico desprezo pelo conceito de direito de
passagem. O menino estava freando, mas não com força suficiente; ele pararia no
meio do cruzamento quando conseguisse parar. Peter puxou a parte detrás do
banco dele com dois dedos, fazendo-o parar com segurança antes de chegar ao
trânsito adiante. O ciclista olhou ao redor, atordoado, mas Peter e MJ já tinham
retomado a caminhada.
– Foi o que eu pensei no começo. Mas talvez seja isso que eles queiram que
eu pense. Quer dizer, era um crime de alta visibilidade e que levaria um tempo
para acabar. Era bem provável que eu ficasse sabendo e aparecesse em algum
momento.
– Você e meia-dúzia de outros super-heróis.
– O QF e os Vingadores costumam lidar com lances ligados ao destino do
mundo. O Demolidor se foca mais no Hell’s Kitchen e no crime organizado, o Dr.
Estranho cuida do sobrenatural, os X-Men resolvem problemas de mutantes.
Quando se trata de crime de rua em geral, roubos, assaltos, esse tipo de coisa,
costumo ser o primeiro a aparecer. Não seria a primeira vez que encenariam um
crime para me pegar. Caramba, não seria nem a centésima primeira vez.
– Mas não acredito que Jonah colocaria tanta gente em perigo só para atingir
você. E faz tanto tempo que ele não tenta mais te atacar desse jeito. Depois do
escândalo que estourou sobre o Escorpião, imaginei que ele tinha aprendido a
lição.
– Eu também – Peter disse, lembrando da vez em que uma ameaça de
chantagem havia levado Jameson a confessar seu envolvimento na criação do
Escorpião e abandonar o cargo de editor-chefe do Clarim. Ele ainda se lembrava
da discussão que tiveram. Jonah havia se gabado de sua integridade em ser
franco com o público, ao contrário do Aranha. O herói havia retrucado que ele não
tinha sido “honesto” até correr o risco de ser inevitavelmente exposto, e que
ainda não tinha confessado seu envolvimento com os Esmaga-Aranhas ou com
outros atos antiéticos. Peter tinha ficado furioso com a hipocrisia dele. – Mas, se
ele tiver desistido depois daquilo, aposto que foi mais por medo de exposição do
que por qualquer outra coisa. Talvez, dessa vez, ele tenha achado que conseguiria
sair impune.
– Não sei – MJ duvidou, quando chegaram ao prédio deles. Peter manobrou
para manter a porta aberta, confiando na agilidade de aranha e nos dedos
pegajosos para fazer isso sem derrubar nenhuma das compras. – Obrigada. O que
estou querendo dizer é que você precisa admitir que pode estar exagerando.
Jonah não é o único investidor na empresa. E você não tem nenhuma evidência do
envolvimento dele.
– Então vou ter que tentar encontrar alguma.
– Ah, não.
– Ah, não o quê?
– Esse seu tom de voz – MJ disse enquanto subiam a escada. – Essa frase
determinada e ameaçadora. Se fosse um daqueles filmes de ação cafonas que eu
fiz, seria a deixa para subir a música e entrar a cena em que o herói entra no
esconderijo do bandido, vai atrás de informantes ou coisa do tipo. Por favor, me
diz que você não vai fazer nada precipitado. Não vá atrair problemas para você.
– Quem, eu? – Peter perguntou, equilibrando dois sacos de compras com
habilidade numa mão enquanto abria a porta do apartamento com a outra. –
Poxa. Nem tem um diretor aqui para gritar “Corta!”.
• • • •
Certo, certo, pensou o Aranha enquanto se balançava por Midtown East naquela
mesma noite. MJ me conhece bem demais. Corta para Externo, Clarim Diário, noite.
Nosso intrépido herói entra na sala de Jameson. Sob a máscara, ele sorriu. É, claro.
Como se algum dia fossem fazer um filme sobre mim.
Para ser honesto, MJ tinha razão: ele não tinha nenhuma evidência real de
que Jameson estava envolvido com aquilo. Na verdade, até ontem, ele teria
concordado com ela de que aquele velho enrugado nunca colocaria tantas pessoas
em risco. Ele podia ser resmungão, avarento e tirano, mas Aranha havia passado a
pensar nele como no máximo um incômodo, ou até como um contraste cômico de si
mesmo. E Jameson tinha mostrado evidências de ter um bom coração aqui e ali,
por mais que fosse um bem pequeno.
No entanto, depois da maneira como Jameson havia explorado os alunos de
Peter, tudo mudou. Se ele foi capaz disso, não posso ignorar mais nada. E,
convenhamos, ele pensou enquanto pousava no terraço do Goodman Building, ao
lado da enorme placa do CLARIM DIÁRIO, eu adoraria descobrir que ele é o
culpado. Assim teria uma desculpa legítima para acabar com ele.
Ele suspirou por sob a máscara. Reconheça, Aranha: você deve estar procurando
agulha no palheiro. É bem provável que MJ esteja certa e Jonah seja só uma pessoa
detestável, não um gênio do crime. Mas é a única pista que tenho. Podia não passar
de um tênue fio de lógica, mas toda a carreira de Homem-Aranha dependia de
fios.
A sala executiva de Jameson, onde estavam seus arquivos particulares, ficava
no último dos quarenta e seis andares da torre, mas não seria fácil para ele entrar
lá. Aranha tinha invadido as salas de Jonah tantas vezes ao longo da sua carreira
que o dono do jornal tinha instalado um grande sistema de segurança – janelas à
prova de balas, alarmes ultraeficazes e coisas do tipo. Nada disso impediria que
um homem com força de aranha entrasse, mas chamaria a atenção da segurança
antes que ele tivesse tempo suficiente de vasculhar os arquivos de Jameson. Por
isso, Aranha teria de ser furtivo. Pena que Felicia está fora da cidade, ele pensou,
pensando na sua antiga paixão e parceira ocasional, a gatuna semirrecuperada
conhecida como Gata Negra.
Aranha achou melhor entrar pelos dutos de ventilação. Normalmente, ao
contrário dos filmes de assalto, esse método fazia muito barulho para servir como
uma maneira eficaz de ação clandestina. Mas os dedos aderentes do Aranha
conseguiam se prender e soltar com muito mais delicadeza do que muitos ímãs e
ventosas, e ele conseguia se mover com uma graça sobrenatural, quase sem fazer
barulho. Os dutos eram estreitos e um humano normal não teria conseguido lidar
com aquelas curvas, mas o Aranha conseguia se dobrar de maneiras inimagináveis.
Por outro lado, nem Felicia teria conseguido isso.
Ele saiu no corredor a uma certa distância da sala de Jameson e rastejou pelo
teto até chegar a ela. JJJ não esperaria que o Homem-Aranha invadisse o local
pela porta como um ladrão comum. Tanto que o sentido-aranha sequer formigou
quando ele estendeu a mão para tocar a maçaneta, indicando que a porta não
tinha nenhuma forma de segurança além de uma simples fechadura. Não seria
difícil arrombar a porta. Poxa, ele consegue pagar uma fechadura nova. Não é nada
comparado com o que ele me deve pelas fotos mal pagas ao longo dos anos.
Ele sorriu, pois tinha trazido sua velha minicâmera consigo desta vez. Não
costumava se dar ao trabalho de levá-la mais consigo, visto que havia trocado a
fotografia pelo trabalho de professor, mas naquela noite, poderia precisar dela
para fotografar evidências.
Começou pela mesa de Jameson, arrombando as fechaduras da escrivaninha
da mesma maneira que tinha feito com a porta. Não havia nada incriminador ali,
mas encontrou uma planilha contendo as senhas de Jameson. Isso vai economizar
tempo, ele pensou, ligando o computador.
Sob o som da ventoinha e dos giros do disco rígido, ele começou a ouvir outro
som, mas baixo e agudo. A princípio, achou que o computador precisasse de
conserto, mas então seu crânio começou a zumbir. A sensação logo se intensificou
e se espalhou, e o Aranha saltou para longe do caminho no exato momento em
que algo passou quebrando o vidro supostamente inquebrável.
Seu salto o levou para o teto, onde se segurou com as duas mãos antes de
Seu salto o levou para o teto, onde se segurou com as duas mãos antes de
balançar os pés para fixá-los também, virando a cabeça para trás para ver o
intruso de ponta-cabeça. Era um tipo de equipamento mecânico com duas hélices
giratórias, uma maior em cima e uma menor embaixo, que girava no sentido
contrário, e uma enorme base cilíndrica. Parecia uma grande armação de guardachuva
presa a um ventilador de teto de cabeça para baixo possuída pelo demônio.
Fazia o som de uma broca de dentista enquanto girava e espalhava os papéis na
mesa de Jameson com o vento que criava. O barulho e o ritmo das hélices
estavam diminuindo; os rotores estavam perdendo velocidade, descendo no
processo. Voar até aquela altura e quebrar a janela devem ter exigido muita
energia da máquina. Ela pousou sobre a mesa, que soltou um rangido, deixando
claro ao Aranha que aquele aparelho não era nem um pouco leve. E ele pôde ver
que as hélices tinham lâminas fortes e afiadas nas extremidades.
Depois de um momento, porém, ela pareceu começar a usar novas reservas
de energia, pois as lâminas voltaram a girar, subindo de volta à horizontal. Elas
ajustaram sua velocidade de modo que o robô levantou voo da mesa e partiu
direto contra o Aranha. Ele saltou para desviar e se escondeu atrás de uma
poltrona enquanto o robô fazia um buraco nos painéis do forro, fazendo voar
pedaços em alta velocidade para todos os lados. Um dos estilhaços atingiu seu
ombro com força suficiente para feri-lo.
Aranha se lembrou da febre de lutas de robôs que ele havia acompanhado nos
tempos de faculdade, quando essas coisas faziam tanto sucesso que até passavam
na TV. Os robôs giratórios sempre eram alguns dos competidores mais perigosos
por causa da alta velocidade rotacional e da força que conseguiam acumular. Um
desses robôs, o infame Blendo, tinha sido banido da Guerras de Robôs porque
fazia pedaços de seus oponentes voarem sobre os escudos de proteção e
atingirem o público. E aquele negócio era só uma frigideira de cabeça para baixo com
duas hélices nela. Esse sim é barra pesada.
O robô cortador tocou o chão e rolou na direção da poltrona, fatiando seu
estofado com as lâminas inferiores sem o menor esforço e transformando a
estrutura de madeira em gravetos. Aranha pulou para o canto mais distante e
disparou contra as lâminas uma teia que logo foi retalhada. Ele lançou mais, na
esperança de colar as lâminas, mas a teia foi rasgada e atirada para o lado, sem
se prender. Cobertura de Teflon, ele adivinhou, o que sugeria que havia sido
projetada pensando nas teias do Aranha. E a máquina rodopiante estava se
aproximando dele, sem deixar dúvidas de que tinha sido projetada com objetivos
assassinos. Como última tentativa desesperada, ele pegou um cartucho de fluido
de teia reserva no cinto e jogou contra as lâminas. Como pretendia, o cartucho
abriu com uma explosão no impacto, mas se voltou contra ele. Ele precisou desviar
para não ficar preso na própria gosma de teia, que se expandiu, preenchendo um
dos cantos da sala.
Ele correu para trás da mesa, e as lâminas quebraram a forte madeira no
meio. Faíscas voaram quando o computador de Jameson foi destruído. Aranha
saltou de novo para o forro e, mais uma vez, o robô levantou voo contra ele.
Dessa vez, desviou pelo buraco que o robô já tinha feito e tentou se esconder
sobre o forro. Mas seus ouvidos e o sentido-aranha lhe disseram que o robô tinha
mudado de direção e logo as lâminas dele estariam destruindo as placas do forro
na perseguição. No entanto, Aranha já havia desviado do caminho, rodeando o
buraco de modo que o robô não pudesse vê-lo. As lâminas destruíram o lugar onde
ele estava e não se viraram para segui-lo. Em vez disso, ele ouviu o robô tocar o
chão, e o barulho diminuir até chegar ao modo de espera.
Se ao menos eu conseguisse diminuir a velocidade dele, ele pensou. Mas então se
deu conta de uma coisa. Claro! Parte dele já está mais devagar!
Ele manobrou com cuidado, tentando ficar diretamente acima de onde vinha o
som da máquina. Fechando os olhos, confiou no sentido-aranha. Quando ele se
concentrava e o sentido estava suficientemente elevado pela adrenalina, ele agia
quase como o sentido sonar do Demolidor, dando-lhe uma consciência espacial do
ambiente que o fazia andar sem a visão. A marca de perigo intenso representada
pelo robô cortador não atrapalhava nesse aspecto. Ele só precisava encontrar o
ponto em que o perigo era mais intenso, que ironicamente era o ponto onde tinha
mais chances de deter aquela coisa.
Depois que assumiu a posição, precisava agir rápido. Primeiro, tirou vários
cartuchos reservas do cinto. Em seguida, deu um soco no painel do forro abaixo
dele, que caiu e foi imediatamente despedaçado pelas palhetas do helicóptero. As
lâminas aceleraram seu giro conforme o robô cortador se preparava para avançar
contra ele. Porém, já estava atirando cartuchos por entre elas, mirando na lateral
do eixo central, cujas lâminas estavam mais lentas, tendo menos distância angular
para cobrir em menos tempo. Por isso, as lâminas cortaram os cartuchos e os
abriram, mas não com força suficiente para fazer com que voassem para longe.
Gotas de fluido de teia saíram dos cartuchos pressurizados, expandindo-se em
contato com o ar e cobrindo o eixo interno e as lâminas do robô cortador. A massa
das longas cadeias de polímero grudentas começou a colar os motores, diminuindo
a velocidade das lâminas até que elas começassem a parar.
O Aranha chutou um painel do forro perto dele e pulou para o chão, soltando
uma rede de teia nas lâminas para baixo. As lâminas em si podiam ser
antiaderentes, mas a rede pousou sobre elas e se prendeu à gosma de teia que as
cobria, e quanto mais ele lançava, mais ficavam envolvidas em torno delas a cada
rotação. A teia foi se apertando conforme se solidificava, obrigando as lâminas
rotatórias a descer e girar para dentro. Ele lançou ainda mais teia para prendê-las
com força.
Em pouco tempo, as lâminas estavam tão cobertas que o Aranha conseguiu
segurar uma delas como se fosse uma grossa alça, que usou para balançar o robô
como um taco de beisebol, batendo sua base cilíndrica nas paredes e no piso até
que o mecanismo parasse de funcionar por completo. Depois de desligado, Aranha
se ajoelhou para abrir o revestimento e tentar descobrir como ele funcionava.
Mas então seu crânio voltou a zunir e ele ouviu a porta do elevador se abrir
no fundo do corredor. Os alarmes de Jameson devem ter disparado quando a
janela foi quebrada, e agora os policiais e/ou seguranças do prédio estavam a
caminho. Sem querer ficar e tentar dar uma explicação, o Aranha correu até a
janela, disparou um fio de teia até o arranha-céu do outro lado da rua 39, e
mergulhou noite adentro.
Mesmo assim, ele não considerou a expedição completamente inútil. Eu entro
Mesmo assim, ele não considerou a expedição completamente inútil. Eu entro
na sala de Jameson para investigar suas relações com os robôs e outro robô aparece
para tentar me transformar em purê. Acho que é uma evidência bem sólida.
• • • •
Como era de esperar, Jameson estava em todos os jornais no dia seguinte.
Acompanhando pela TV desde que chegou em casa, não demorou muito para que
Peter encontrasse uma entrevista coletiva em que Jameson acusava HomemAranha
publicamente de vandalizar seu escritório em retaliação a seus editoriais.
– O fato de que ele usou um robô para fazer seu trabalho sujo é um forte indício
de que Homem-Aranha estava por trás do ataque dos robôs no Distrito do
Diamante no outro dia – Jameson insistiu. – Sem mencionar o roubo dos robôs,
além de um ou dois outros roubos em empresas de alta tecnologia relatados nos
últimos dias.
– Mas Sr. Jameson – perguntou um repórter –, se o robô foi usado pelo
Homem-Aranha, por que o relatório da polícia disse que ele foi imobilizado por teias
e parecia ter sido quebrado por alguém de força sobre-humana?
– Isso eu não sei, talvez tenha fugido dele.
– E por que uma pessoa com poderes sobre-humanos como Homem-Aranha, que,
segundo meus dados, tem uma força estimada em mais de quarenta vezes a de um
humano comum, precisaria usar um robô para destruir seu escritório?
– Talvez ele tenha ficado com preguiça! Na verdade, todo o incidente deve ser um
truque para fazer parecer que ele foi a vítima. Mas, se ele foi uma vítima tão
inocente, o que estava fazendo no meu escritório antes do robô atacar?
– O senhor tem como provar essa declaração? Talvez ele tenha visto o robô
atacando sua sala e interveio.
– A porta do meu escritório foi arrombada pelo corredor. Alguém virou a
maçaneta com tanta força que quebrou a fechadura. Está aí seu poder sobrehumano.
Se ele estivesse apenas passando e visse aquele guarda-chuva destruindo
meu escritório, por que se daria ao trabalho de entrar às escondidas no prédio e
arrombar a porta?
– Mas, se o objetivo dele era usar um robô para vandalizar seu escritório, um
robô capaz de voar e atravessar sua janela, por que precisaria arrombar a porta?
– Quer saber? Quando a polícia prender esse criminoso por invasão de
propriedade e vandalismo qualificado, vou pedir para perguntarem isso a ele.
– Isso está ficando ridículo – Peter disse, desligando a TV. Ele estava
acostumado a ouvir o velho rabugento ultrapassar os limites da calúnia e da
difamação em suas acusações de crimes cometidos pelo Aranha, e fazia tempo que
desenvolvera a capacidade de não se deixar atingir. Mas agora parecia que
Jameson podia estar começando a usar essas acusações inconsistentes para
encobrir seus próprios crimes, incluindo, talvez, ter colocado os alunos de Peter
em perigo. Isso ele não conseguia aguentar sentado.
E todas essas buscas por pistas e informações também não eram seu forte.
Coloque Peter Parker em um laboratório de ciências e ele será capaz de fazer
uma pesquisa meticulosa e atenta com as equipes mais experientes. Entretanto,
atrás da máscara, ele era outra pessoa, um combatente impetuoso e impulsivo
que preferia o confronto cara a cara. Homem-Aranha representava tudo o que
Peter Parker era tímido demais para ser antes da máscara. Talvez esse fosse o
principal motivo para ter feito a máscara quando entrara na competição de luta
livre, pensando em usar os poderes recém-adquiridos como um meio de ganhar
dinheiro. Talvez ele soubesse que aquele Peter Parker tímido e estudioso nunca
fosse ter confiança suficiente para se apresentar em público, que ele precisava se
tornar outra pessoa, uma pessoa extravagante e desinibida. O momento em que
se tornou um enigma sem rosto, entrou no ringue e fez Hogan, o Esmagador,
virar pó, o encheu de uma sensação de poder, liberdade e euforia que ele nunca
havia experimentado antes. Era isso que o Homem-Aranha significava para ele,
uma energia primitiva e livre.
Claro, várias vezes ele colocou sua disciplina e suas habilidades científicas em
ação para derrotar seus adversários. Mas normalmente isso só acontecia depois
de ter sido incapaz de triunfar com os punhos. E, de certo modo, a urgência e a
adrenalina dessas crises o inspiravam a novos graus de inventividade,
capacitando-o a preparar, em poucas horas, poções e apetrechos em que ele nunca
teria sido capaz de pensar em um estudo calmo e metódico. O método do
Homem-Aranha era enfrentar um problema e acabar com ele com os punhos.
E assim, ele já tinha saído pela janela e se colocado a caminho do Clarim de
novo quando começou a repensar sua intenção de confrontar Jameson cara a cara
sobre seu papel nos ataques dos robôs. Sei que parece suspeito, mas esse não é o
jeito do JJJ. Pode ter sido uma coincidência eu ter sido atacado na sala dele.
Mas ele se deteve. Não, Peter. Chega de repensar, de chafurdar em dúvidas.
Confie em seus instintos.
Em velocidade máxima, o trajeto do Lower East Side até a rua 39 levou meros
minutos. Quando chegou ao Clarim, a entrevista coletiva estava no fim; Jameson
havia subido, e os repórteres e câmeras estavam começando a guardar seus
equipamentos.
– Ei! – ele gritou ao pousar na parede do prédio, logo acima do pódio onde
Jameson havia se pronunciado. – Aqui em cima! É, estou falando com todos vocês!
– Quando os jornalistas viram quem chamava, começaram a reposicionar os
equipamentos. O Aranha quis dar tempo para que avisassem suas emissoras e
transmitissem tudo ao vivo. Antes, ele não ficava à vontade diante da opinião
pública, recorrendo à mídia apenas em tempos de necessidade desesperada. Mas
aquele era o velho Homem-Aranha. O modelo novo e mais confiante não tinha
medo de falar o que pensava publicamente. Afinal, fazia anos que Jameson
conseguia usar a imprensa contra ele, então por que não revidar?
Depois de um momento, ele saltou para o pódio.
– Agora, ouçam! Estou aqui para responder às alegações de Jameson contra
mim. Estou cansado de ficar sem fazer nada enquanto ele me insulta, por isso vim
falar a verdade!
– Então você nega envolvimento no ataque do robô contra o escritório do Sr.
Jameson? – gritou um repórter.
– Ei, eu é que estava sendo atacado!
– O Sr. Jameson diz que você encenou o incidente.
– Gente, se liga! Quantas vezes Jameson me acusou de um crime e teve que
se contradizer na edição seguinte? Quanto mais ele fala de mim no Clarim, mais
as vendas dele caem, porque as pessoas estão cansadas de mentiras. É por isso
que ele recorreu a um blog para vomitar suas maluquices.
– Homem-Aranha, o que você estava fazendo no escritório do Sr. Jameson na
noite passada?
Ele olhou para o repórter, sem ter uma resposta. Eu estava cometendo uma
invasão ilegal para folhear os arquivos particulares dele com base em um instinto.
Isso vai pegar bem.
Mas ele não podia mostrar fraqueza, não podia ser desviado do assunto.
– Olha, eu não sou o assunto aqui! Alguém está deixando robôs assassinos à
solta em toda a cidade e sou eu quem está arriscando a vida para salvar a de
vocês!
Então, um berro conhecido veio da entrada do Clarim.
– O que está acontecendo aqui? O que essa ameaça aracnídea está fazendo
na minha propriedade?
Aranha o ignorou.
– E seria bom se vocês, seus sensacionalistas, prestassem um pouco de
atenção no bem que eu faço para essa cidade em vez de deixar que o baixinho
aqui crie a pauta! – ele completou, apontando o polegar para Jameson, que se
aproximava.
Mas, de repente, sua cabeça começou a zumbir com a sensação de perigo
iminente. Que foi agora? Ele virou, mas a única pessoa atrás dele era Jameson,
descendo furiosamente para o pódio para confrontá-lo.
– Agora, ouça, seu canalha mascarado! – ele berrou, espetando o dedo no
emblema bordado de aranha no peito do herói. – Quem te deu o direito de usar o
meu pódio na minha propriedade para me insultar em público?
Era tudo que Homem-Aranha podia fazer para não atacá-lo bem ali, já que
seus instintos gritavam para que ele fizesse exatamente isso. Não havia dúvida
agora: J. Jonah Jameson era o perigo que ele estava sentindo.
– Achei que era apropriado – ele retrucou. – Os dois ataques de robô nesta
semana tiveram alguma relação com você. Você pode explicar isso para essa boa
gente?
– Assim que você explicar o que estava fazendo na cena dos dois ataques.
– Eu estava fazendo meu trabalho, seu cara de uva passa!
– Que trabalho? Quem contratou você? A quem você responde? Você não
passa de uma aberração que acha que ter superpoderes é desculpa para passar
por cima dos direitos dos outros!
– Ah, belo discurso, Espártaco. Mas você me cheira muito mal e eu não vou
descansar até descobrir por quê! – Finalmente cedendo ao forte instinto de lutar
ou fugir que o sentido-aranha evocava, o herói saltou para o céu e disparou uma
teia para balançar para longe. Ao se afastar de Jameson, o zunido de perigo foi
diminuindo, reafirmando o que ele já sabia. Jonah virou uma ameaça ativa contra
mim. Não tenho mais dúvida.
E eu vou acabar com ele.

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