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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 36

11 de fevereiro de 1788

Meu protetor deu-me alguns dias para me acomodar antes de me procurar nesta manhã. Nesse meio-tempo, peguei roupas emprestadas com May Carroll, que fez questão de dizer que os vestidos emprestados eram “velhos” e “bem fora de moda”, e que não eram o tipo de coisa que ela vestiria nesta temporada. —Mas servirão bem para você, Fedelha. —Se me chamar assim mais uma vez, vou matá-la —adverti. —Perdão? —disse ela. —Ah, nada não. Obrigada pelos vestidos. —E nisto fui sincera. Felizmente, herdei o desdém de minha mãe pela moda, sendo assim, embora os vestidos ultrapassados evidentemente tivessem sido escolhidos a dedo para me irritar, não tiveram efeito algum nesse sentido. Oque me irrita mesmo é MayCarroll. Enquanto isso, Hélène enfrentava a vida no porão, descobrindo que os criados eram ainda mais esnobes do que os aristocratas. E, é necessário dizer, não estava fazendo um trabalho lá muito bom quando se tratava de fingir ser minha dama de companhia, realizando mesuras estranhas ao acaso enquanto disparava olhares constantes e apavorados em minha direção. Teríamos de trabalhar nisto, sem dúvida. Pelo menos, os Carroll eram tão arrogantes e cheios de si que simplesmente supuseram que Hélène era “muito francesa” e atribuíram sua ingenuidade a isto. E então o Sr. Weatherall bateu na porta. —Está decente? —ouvi perguntar. — Sim, Monsieur, estou decente — respondi, e meu protetor entrou, cobrindo os olhos imediatamente. —Maldição, menina, você disse que estava decente —queixou-se ele, agastado. —Eu estou decente —protestei. —Oque quer dizer com isso? Está de camisola. —Sim, mas decente. Ele cobriu o rosto outra vez e balançou a cabeça, um gesto de exasperação. — Não, preste atenção, na Inglaterra, quando dizemos “Você está decente?” significa “Já vestiu suas roupas?”. As camisolas de May Carroll não eram nada reveladoras, mas mesmo assim eu não desejava escandalizar o Sr. Weatherall. Ele se retirou e instantes depois tentamos mais uma vez. Ele entrou, puxando uma cadeira enquanto eu me sentava na beiradinha da cama. A última vez que o vi foi na noite de nossa chegada, quando ele ficou da cor de uma beterraba assim que Hélène e eu entramos na sala de jantar, ambas parecendo —qual foi mesmo a expressão usada por Madame Carroll? — “algo trazido pelo gato” —, e eu rapidamente tive de inventar uma história, alegando ter sido atacada por salteadores na estrada entre Dover e Londres. Dei uma olhada ao redor dos que sentavam à mesa, vendo rostos nos quais deitara os olhos pela primeira vez havia mais de uma década. A Sra. Carroll não tinha mudado muito, assim como o marido. Os dois mantinham o sorriso irônico habitual tão amado pela alta casta inglesa. May Carroll, no entanto, havia crescido bastante — e se alguma coisa tinha mudado, agora ela demonstrava uma arrogância ainda mais enfadonha do que quando nos conhecemos em Versalhes. O Sr. Weatherall, por sua vez, foi obrigado a fingir saber de minha chegada iminente, disfarçando sua clara surpresa como preocupação por meu bem-estar. Os Carroll lançaram uma série de olhares perplexos e fizeram várias perguntas, mas ele e eu blefamos com confiança suficiente para não sermos expulsos no ato. Para ser franca, eu achava que formávamos um belo time. —Oque diabos acha que está fazendo? —dizia ele agora. Eu o olhei com firmeza. —Você sabe o que pretendo fazer. —Pelo amor de Deus, Élise, seu pai vai me matar por isto. Não sou exatamente uma das pessoas preferidas dele. Vou acordar com uma lâmina no pescoço. —Foi tudo resolvido com meu pai —informei. —E Madame Levene? Engoli em seco, sem querer pensar de fato em Madame Levene, caso fosse possível evitar fazê-lo. —Isso também está resolvido. Ele me olhou de soslaio. —É melhor eu não saber, não é? —Sim —garanti-lhe. —Não vai querer saber. Ele franziu o cenho. —Bem, agora que está aqui, temos de... —Pode esquecer qualquer ideia de mandar-me para casa. — Ah, eu adoraria mandá-la para casa, se pudesse... Se eu não soubesse que, assim que o fizer, terei seu pai em meu encalço desejando saber o motivo, e isto me colocaria em problemas ainda maiores. E se os Carroll não tivessem planos para você... Ericei-me. —Planos para mim? Não sou criada deles. Sou Élise de la Serre, filha do Grão-Mestre, eu mesma a futura Grã-Mestre. Eles não têm autoridade sobre mim. Ele revirou os olhos. — Ah, desça da torre, criança. Você está em Londres como hóspede deles. Não só isso, você espera se beneficiar dos contatos deles a fim de encontrar Ruddock. Se não queria que tivessem autoridade sobre você, talvez tivesse sido melhor não ter se colocado nesta situação. — Comecei a protestar, mas ele ergueu a mão, impedindo-me. — Escute, ser Grã-Mestre não é apenas lutar com espadas e se comportar como a rainha do mundo. Trata-se de diplomacia e política. Sua mãe sabia disso. Seu pai sabe disso, e está na hora de você aprender também. Suspirei. —E então? Oque terei de fazer por eles? — Eles querem que você se insinue em uma casa daqui, de Londres. Você e sua criada. —Querem que eu... o quê?... que eu faça o quê? —Que você se insinue. Que se infiltre. —Eles me querem como espiã? Ele coçou a barba branca como neve, pouco à vontade. — Por assim dizer. Querem que você se faça passar por outra pessoa a fim de ter acesso à casa. —Isto é, espionar. —Bem... sim. Pensei e concluí que, apesar de tudo, a ideia me agradava muito. —É perigoso? —Bem que você gostaria, não? — É melhor do que a Maison Royale. Quando vou saber dos detalhes da minha missão? — Conhecendo essa gente, quando estiverem prontos. Enquanto isso, sugiro que passe algum tempo tornando aquela sua suposta dama de companhia mais apresentável. Nesse exato momento, ela é inútil, não serve nem como enfeite. —Ele me olhou. —Oque exatamente você fez para inspirar tal lealdade, suponho que jamais saberei. —Talvez seja melhor que não saiba. —Isso me lembra uma coisa. Algo mais, já que tocamos no assunto. —Oque é, monsieur? Ele pigarreou, olhou fixamente para os próprios sapatos, mexeu nas unhas. —Bem, é a travessia. Ocapitão que você encontrou para trazê-la. Senti que eu ruborizava. —Sim? —Qual era a nacionalidade dele? —Inglês, monsieur, como o senhor. —Muito bem —assentiu ele —, muito bem. —Ele limpou a garganta mais uma vez, respirou fundo e ergueu a cabeça para me fitar bem nos olhos. —A travessia de Calais a Dover não leva dois dias inteiros, Élise. Pode levar algumas horas, se você tiver sorte... Nove, dez, no máximo, se não tiver. Por que acha que ele a manteve ali por dois dias? —Estou certa de não poder responder a isso, monsieur —falei com recato. Ele assentiu. —Você é uma menina bonita, Élise. Deus sabe que é tão bela quanto sua mãe, e saiba que todas as cabeças se viravam quando ela entrava em um ambiente. Você encontrará mais do que sua parcela justa de patifes. —Estou ciente disto, monsieur. —Arno aguarda por sua volta em Versalhes? —Exatamente, monsieur. Pelo menos eu tinha esperanças de que aguardasse. Ele se levantou para sair. —Então o que exatamente você fez durante dois dias de viagem pelo canal da Mancha, Élise? — Pratiquei esgrima, monsieur — respondi. — Nós praticamos luta com nossas espadas.


 20 de março de 1788


 Os Carroll prometeram ajudar a encontrar Ruddock e, segundo o Sr. Weatherall, isto colocaria uma rede de espiões e informantes à nossa disposição. —Se ele ainda estiver em Londres, será encontrado, Élise, pode estar certa disso. — Mas naturalmente eles querem que eu realize esta tarefa. É claro que eu devia estar tensa com a missão que me espera, mas o pobre Sr. Weatherall já estava nervoso o bastante por nós dois, afligindo-se constantemente com seu bigode e expressando sua preocupação em alto e bom som o tempo todo. Não havia ansiedade suficiente para ambos no mundo. De qualquer modo, ele tinha razão em supor que acharia a ideia empolgante. Não faz sentido negar, creio eu. E, afinal, você pode me culpar? Dez anos daquela escola insípida e odiosa. Dez anos querendo sair e tomar o destino que sempre esteve a centímetros das pontas de meus dedos. Em outras palavras, dez anos de frustração e anseio. Eu estava preparada. Mais de um mês se passou, é claro. Tive de escrever uma carta, que então foi enviada a associados dos Carroll na França, os quais a lacraram e enviaram a um endereço de Londres. Enquanto aguardávamos por uma resposta, eu ajudava Hélène com sua leitura e lhe ensinava inglês, e ao fazê-lo acabava por moldar minhas próprias habilidades. —Isso será perigoso? —perguntou-me Hélène certa tarde, usando o inglês, enquanto dávamos um passeio pelo jardim. —Será, Hélène. Você deve permanecer aqui até minha volta, talvez procurar emprego em outra casa. Ela passou ao francês, falando timidamente: —Não se livrará de mim com tanta facilidade, mademoiselle. — Não é que eu queira me livrar de você, Hélène. Você é uma companhia maravilhosa, e quem não ia querer uma amiga tão calorosa e de espírito tão generoso? Ocorre que sinto que a dívida está paga. Não tenho necessidade de uma criada, nem quero responsabilidades para com uma. —E quanto a uma amiga, mademoiselle? Talvez eu possa ser sua amiga. Hélène era o oposto de mim. Ao passo que eu permitia que minha boca me metesse em problemas, ela era mais reticente e passava dias sem pronunciar mais do que uma ou duas palavras; enquanto eu era expansiva, rápida tanto no riso quanto no gênio terrível, ela se resguardava e raramente traía suas emoções. E sei o que você está pensando. O mesmo que pensou o Sr. Weatherall. Que eu podia aprender algumas coisas com Hélène. Talvez por isso eu tenha ficado mais contida, tal como acontecera quando a conheci, e em várias ocasiões desde então. Permiti que ela ficasse comigo e me perguntava por que Deus aparentemente me favorecera com este anjo. E assim como eu ficava na companhia de Hélène, isso sem mencionar a necessidade de evitar qualquer uma das mulheres petulantes do clã dos Carroll, eu também passava meu tempo praticando luta com o Sr. Weatherall, que... Bem, não há como negar —ele está ficando lento. Não é o espadachim que costumava ser. Não é tão veloz como antigamente. Nem tem a vista tão boa. Será a idade? Afinal, lá se vão 14 anos desde que o conheci, então sem dúvida é uma realidade a ser considerada. Mas também... Às refeições, eu o via pegar o jarro de vinho antes mesmo que os criados chegassem até ele, o que não passava despercebido por nossos anfitriões, a julgar pelo modo como May Carroll o olhava com desprezo. A aversão deles despertava um instinto protetor em mim. Eu ficava dizendo a mim mesma que o Sr. Weatherall ainda lamentava a morte de minha mãe. — Talvez um pouco menos de vinho esta noite, Sr. Weatherall — brinquei durante uma sessão, quando ele se abaixou para pegar a espada de madeira na grama, a nossos pés. — Ah, não é a bebida que me faz parecer tão ruim. É você. Você subestima suas habilidades, Élise. Talvez sim. Talvez não. Eu também passava o tempo escrevendo a papai, garantindo-lhe que meus estudos continuavam e que eu estava “me empenhando”. Quando chegou a vez de me reportar mais uma vez a Arno, fiz uma breve pausa. E aí escrevi que o amava. Eu nunca havia escrito uma carta com tal carinho a ele, e quando a assinei, dizendo o quanto esperava vê-lo em breve —nos próximos dois meses, mais ou menos —, aquelas palavras foram as mais sinceras de minha vida. E daí que minhas razões para querer vê-lo fossem egoístas? Que eu o enxergasse como uma válvula de escape de minhas responsabilidades diárias, um raio de sol nas trevas de meu destino? Será que isso faria diferença, quando meu único desejo era levar a felicidade a ele? Fui chamada. Hélène me informando sobre a chegada de uma carta, o que significa que é hora de eu me espremer em um vestido, descer e descobrir o que me é reservado. 

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