NA CALADA DA NOITE
ERA UMA NOITE CLARA e tempestuosa.
Nunca ficava muito escuro no centro de Manhattan, a não ser quando
fenômenos naturais ou atos de supervilania causavam blecautes. Olhando para a
cidade do alto de um terraço, Peter Parker refletiu que à noite Nova York
mostrava ainda mais a abundância de vida e energia que fazia dela a cidade mais
fascinante do mundo, quando milhões de luzes multicoloridas das janelas,
anúncios, semáforos, holofotes e carros reluziam para desafiar a escuridão,
declarando ao universo que os nova-iorquinos estavam cuidando de suas vidas e
não deixariam que algo tão banal como a rotação da Terra lhes dissesse a hora de
ir para a cama.
Isso era bom para Peter Parker, já que naquele momento ele estava vestido
dos pés à cabeça com elastano vermelho e azul e em queda livre de um prédio de
vinte andares, confiando num fino feixe de teias disparado de seu punho para se
fixar ao próximo arranha-céu e balançá-lo com segurança pela 8
a Avenida. Essa
era parte da rotina noturna de patrulha do Amigão da Vizinhança, o HomemAranha,
e as luzes brilhantes eram de uma ajuda inestimável para que pudesse
ver onde estava indo, bem como para manter seus olhos atentos a crimes e crises
nas ruas abaixo.
Quanto à tempestade? Esse era outro problema. Mesmo num dia normal,
Homem-Aranha precisava ficar alerta aos ventos caprichosos entre as torres
altas, ampliados pelo efeito de túnel de vento das ruas sinuosas de Manhattan.
Um fio de teia saído dos lançadores do Aranha, ainda que de polímero sintético da
melhor qualidade, era fino, podendo ser facilmente derrubado por uma rajada
súbita. Voar pendurado nos fios de teia era uma maneira emocionante e
libertadora de viajar, cinquenta vezes melhor do que qualquer montanha-russa –
totalmente ao ar livre, subindo e descendo em velocidade assombrosa sem
nenhum impedimento, sem o mau cheiro do escapamento dos carros, da fumaça
dos cigarros e das contínuas disputas de trânsito entre motoristas, pedestres e
ciclistas hipercompetitivos. Mas esse seria um comportamento suicida se não fosse
pelo “sentido-aranha” de Peter, a consciência extraordinariamente acima do
comum do seu entorno, adquirido após a fatídica mordida de uma aranha
radioativa anos atrás, junto com a força e a agilidade aracnídeas proporcionais. O
zumbido do sentido-aranha em sua cabeça o alertava do ataque iminente de seus
muitos inimigos, permitia que desviasse de balas antes que fossem disparadas e
assim por diante, mas também o ajudava em situações mais banais, como sentir
que o fio de teia que ele estava prestes a disparar seria soprado em outra direção
por uma súbita mudança do vento, o que lhe dava a chance de ajustar a mira para
compensar.
Bom, não se pode acertar todas! pensou Aranha, quando uma rajada
extremamente forte soprou assim que apontou o disparador da palma da mão e
deixou que o fluido de teia subisse num longo fio de secagem rápida em direção
ao New Yorker Hotel. O vento jogou a teia de volta sobre o seu ombro e ele
imediatamente soltou o disparador para que ela voasse livre depois que a válvula
de corte a soltasse. Sua vasta experiência lhe havia ensinado a não liberar um fio
de teia antes que o próximo se ancorasse; assim, deixou que o balanço o levasse
para o alto enquanto mirava e disparava mais uma vez. A teia atingiu o topo do
hotel em estilo art deco, com sua forma zigurate, num ponto mais alto do que ele
pretendia, de modo que se ele avançasse, ela ficaria pendurada no canto do
terraço inferior. Então ele se antecipou a isso, deixando que a teia o fizesse
balançar até a lateral para pousar na face do prédio que dava para a 8
a Avenida,
agarrando-se à parede com suas mãos e pés.
E estava escorregando. Em geral, seus dedos conseguiam aderir a
praticamente qualquer superfície. Mas o vento estava acompanhado por um
aguaceiro que ficava cada vez mais forte, deixando a parede de tijolos do hotel
escorregadia. Ainda não estava tão ruim; ele só precisava de um pouco mais de
pressão para se segurar.
– Mas se a chuva continuar a piorar – ele murmurou para seu reflexo
mascarado numa janela escura – talvez seja melhor pegar a linha F para casa. – O
lampejo de um raio e o estrondo subsequente do trovão, perto demais para deixá-
lo tranquilo, mostrou que talvez fosse melhor voltar de metrô mesmo. Assim
como uma teia de verdade, sua teia sintética não conduzia eletricidade quando
estava seca, mas poderia conduzir uma boa carga quando molhada. E os raios
costumavam atingir o topo dos prédios, o que fazia deles o lugar menos propício
para se pendurar em climas como aquele.
Infelizmente, ele não tinha uma muda de roupas à mão para poder pegar o
metrô como Peter Parker. Saíra em patrulha diretamente de seu apartamento no
LoHo, mas só se deu conta de que havia esquecido de olhar a previsão do tempo
quando já estava a meio caminho de Greenwich Village. E ele não podia ligar para
Mary Jane para trazer roupas, porque, como quase sempre nos últimos tempos,
sua querida esposa havia saído para ensaiar sua mais nova peça off-Broadway. Ele
já havia tentado enfiar a cabeça em duas janelas e perguntar se alguém faria a
gentileza de colocar a TV no canal da previsão do tempo, mas teve a má sorte de
os moradores dos dois apartamentos pertencerem ao segmento considerável da
população de Nova York que o considerava uma ameaça, e não um herói. O
primeiro o havia ameaçado com um bastão de beisebol, e o segundo acordara a
vizinhança inteira com seus gritos e acusações de tentativa de assalto. Nas duas
vezes, ele preferiu bater em retirada a ficar e dar explicações aos vizinhos e à
polícia. E, desde então, vinha se mantendo ocupado provando que seus detratores
estavam errados (não que eles fossem notar) com vários atos de bravura contra
as forças do crime e do caos, de modo que, embora tivesse sentido que a
tempestade estava por vir, não pôde apressar-se a caminho de casa a tempo de
evitar a chuva.
– Por que o sentido-aranha não veio com uma previsão do tempo de longo
alcance? – ele perguntou ao universo enquanto lançava outro fio de teia,
certificando-se de que este havia se ancorado com firmeza no Five Penn Plaza
antes de movimentar-se novamente. – Chuvas esparsas esta tarde, com trinta por
cento de chance de Escorpião. Amanhã, espera-se uma chuva de balas de calibre
38. E agora, fique com Joey para as notícias do esporte. – Certo, ele estava
falando sozinho. Era um hábito que o fazia relaxar quando ficava nervoso. Ele
falava sozinho com bastante frequência.
Agora, a chuva caía com mais força, os raios estavam mais constantes e ele
tentou acelerar o ritmo em direção ao seu apartamento, virando para o leste a
fim de saltar sobre o Madison Square Garden e continuar na diagonal por alguns
quarteirões em direção à Broadway, planejando seguir por ela e depois pela
Bowery para chegar em casa. Mas, no meio do caminho entre a 7
a
e a 8
a
Avenidas, sentiu um conhecido e tênue zumbido de perigo eriçando os pelos da
sua nuca. A chuva interferia em seus sentidos aracnídeos, bem como em seus
sentidos normais, mas não a ponto de turvar uma pontada tão forte como aquela.
Ele a sentiu como um especialista: aguda, furiosa, mas distante, um ato de
violência humana a dois quarteirões dali, não direcionado a ele – pelo menos não
por enquanto. Uma fração de segundo depois, o som de um disparo e gritos
chegou a seus ouvidos, e em seguida, novamente, ecoado pelo edifício Two Penn
Plaza atrás dele. Pela maneira como o alarme se intensificou quando ele virou,
poderia localizar o incidente melhor do que se seguisse apenas os sons. Seus
instintos o levaram de volta para o norte, em direção ao Herald Square.
Enquanto se aproximava, os arrepios do sentido-aranha foram acompanhados
por uma ansiedade familiar. Não o tipo de nervosismo que uma pessoa normal e
sã (o tipo que não sairia em público vestindo elastano vermelho e azul) sentiria
ao mergulhar de cabeça num tiroteio; ele havia presenciado tantos outros e
enfrentado coisas tão piores que não tinha mais medo. O que o aterrorizava era a
dúvida: Será que vou chegar tarde demais? Se eu não tivesse me deixado arrastar
pelo vento e pela chuva, será que poderia ter chegado aqui a tempo de sentir o perigo
antes do disparo? Será que uma pessoa acabou de morrer porque não consegui fazer
o que devia… de novo?
Homem-Aranha sabia que não poderia estar em todos os lugares ao mesmo
tempo, que não poderia salvar todas as pessoas. Fazia tempo que ele havia se
acostumado a essa terrível verdade. Mas ele não conseguia se perdoar pelas vidas
que poderia ter salvado e não conseguiu.
Depois você pensa nisso, Pete. Naquele momento, se havia outras vidas em
jogo, ele não iria desapontá-las.
Ao se aproximar da Broadway e começar a descer, avistou sua presa. Uma
gangue de ladrões estava saindo da Macy’s, correndo em direção a uma van de
fuga enquanto um segurança trêmulo se esforçava para atirar neles com a pistola.
A outra mão do guarda apertava seu braço direito, cuja manga estava manchada
de sangue – um ferimento pequeno, pouco mais do que um raspão, já que ele
ainda conseguia empunhar a pistola. Um suspiro de alívio saiu dos lábios do
Aranha. Ninguém havia morrido… ainda. Mas aquele era um cruzamento cheio de
gente, e a mira do guarda estava trêmula. A polícia de Nova York era treinada
para não disparar no meio de uma multidão, mas será que aquele segurança
particular teria o mesmo bom senso?
Aranha não podia correr esse risco. Ele precisava pegar tanto os bandidos
quanto os guardas desprevenidos. Caindo sobre o toldo verde de metal que cobria
as portas de entrada, ergueu a barra da roupa, expondo seu cinto de utilidades, e
ligou o aranha-sinal (nome que ele admitia ser bastante pretensioso para o que
não passava de um holofote na fivela de um cinto barato com uma máscara de
aranha transparente sobre a lente), mirando nos bandidos. Mas nada aconteceu.
Que droga! Acabou a bateria!
Ele não podia perder mais tempo. Saltando para pousar em cima da janela de
frente para o guarda, apertou os dedos médios no disparador de teia com uma
pressão firme e contínua, fazendo com que o fluido saísse como uma corrente
grossa e gosmenta que entupiu o cano da pistola do guarda.
– Espere! – ele gritou. – Tem muita gente em volta! Deixa que eu cuido deles!
– Vai se ferrar! – o guarda gritou de volta. – Você deve ser um deles!
– Deixe-me adivinhar: mais um assinante satisfeito do Clarim Diário. – O
guarda estava tentando livrar a arma da teia gosmenta. Para impedir que ele
puxasse o gatilho por acidente e perdesse a mão com um tiro que saísse pela
culatra, Aranha disparou um fino fio para apanhar a arma e jogá-la longe,
fazendo com que caísse sobre a superfície plana do toldo verde da entrada, em
segurança e fora de alcance. Em seguida, disparou outro feixe de teia para cobrir
o braço ferido do guarda como um curativo improvisado. – Isso deve conter o
sangramento até a ambulância chegar. Escreve isso na sua próxima carta para o
editor.
Naquele momento a van dos bandidos cantava pneu em meio ao tráfego da
Broadway, e então Aranha partiu em perseguição. Entretanto, durante sua
conversinha com o guarda, a chuva havia ficado mais forte. Ele tentou disparar
um fio de teia para deter a van em fuga. Sua fórmula de teia original não teria se
solidificado sob a chuva pesada, mas fazia tempo que ele havia superado esse
problema. Contudo, sólida ou não, a fina teia foi jogada ao chão pela torrente
d’água antes que pudesse alcançar a van. Aranha foi obrigado a perseguir os
ladrões a pé. Felizmente, superforça também significava supervelocidade – não
no nível do Mercúrio, mas mais do que o suficiente para alcançar a van no trânsito
de Manhattan sob uma tempestade. Principalmente porque ele podia saltar de
capota em capota sobre os carros. Uma torrente de buzinas e xingamentos de
motoristas irritados seguia atrás dele. Ah, os Rouxinóis da Broadway.
Por fim, pousou sobre a van em fuga enquanto o veículo rasgava por
Koreatown. Depois de abrir as portas traseiras, abaixou a cabeça para ver o que
estava enfrentando. Com os anos de experiência, o fato de estar olhando de
cabeça para baixo não era nenhum problema, mas as gotas de chuva que
encharcavam as lentes de sua máscara eram outra questão. Tudo à sua frente era
um borrão nebuloso e turvo em movimento. Por sorte, não havia chuva entre ele
e os ocupantes da van, de modo que seu sentido-aranha conseguiu alertá-lo do
disparo iminente e ele teve tempo de erguer a cabeça antes que os tiros soassem.
– É o inseto! – alguém gritou dentro da van.
O inseto? Para onde esse mundo está indo? Antigamente, toda vez que ele
atacava uma quadrilha, podia contar que alguém gritaria “Homem-Aranha!”,
como um apresentador chamando uma nova atração. Hoje em dia, pelo jeito, eles
não lhe davam o menor valor. Cadê o respeito?
Ele nem precisou dos sentidos de aranha para saber o que aconteceria em
seguida; tinha assistido a tantos filmes de ação que já era óbvio. Bandidos num
carro com um herói no capô disparavam contra o teto. Esses bandidos devem ter
assistido aos mesmos filmes, pois a chuva de balas disparadas debaixo veio logo
em seguida, contrapondo-se à chuva que caía do céu. Mas Aranha já estava
saltando para fora do caminho, começando a dar a volta na traseira da van como
um ginasta em uma barra. Enquanto os ladrões atiravam para cima, ele poderia
entrar pelas portas traseiras e derrubar os dois com um chute duplo.
Mas não foi bem assim que aconteceu. Ele havia se acostumado a confiar na
adesão da ponta dos seus dedos em vez de se segurar com firmeza e, no calor do
momento, esqueceu-se de que não poderia utilizar esse reflexo por conta da
chuva. Todos os seus dedos se aderiram a poças de moléculas d’água e, em vez de
dar um mortal duplo para dentro da van, Homem-Aranha caiu com tudo no
asfalto duro e escorregadio. Apenas o som de uma buzina e de pneus cantando o
avisou do carro que avançava contra ele, e graças somente a seus reflexos
superdesenvolvidos que ele conseguiu rolar para fora do caminho a tempo. Mas os
ferimentos no meu orgulho podem ser fatais. Ótimo movimento, Cabeça de Teia. E,
além de tudo, agora estou com o tema de Rouxinol da Broadway na cabeça.
– É isso aí – disse ele, colocando-se de pé e pulando sobre os capôs dos carros,
voltando a perseguir a van. The rumble of the subway train… a-jing-a-jing… the
rattle of the ta-a-xis… pare com isso!
Mas estava ficando cada vez mais difícil de enxergar; suas lentes não só
estavam cobertas de chuva, como também, naquele clima frio e molhado, elas
estavam começando a embaçar por dentro conforme sua respiração acelerava. Ele
caiu por cima de um táxi amarelo e desceu deslizando sobre o capô.
– Hah! – o taxista gritou. – Belo salto, babaca-aranha!
– É, enfim… use menos cera da próxima vez! E dê o fora daqui, eles estão
armados!
– Ei, não me diga para onde ir, sua aberração! E saia do meu táxi antes que eu
ligue o taxímetro!
Cerrando os dentes de frustração, Aranha secou a lente direita com a luva,
segurou-a com firmeza e a arrancou da máscara para ver onde estava indo.
Enfiou a lente no cinto de utilidades para guardá-la em segurança e partiu
novamente atrás da van. Mas sua visão não melhorou muito, uma vez que não
havia nada impedindo as grossas gotas de chuva de cair em seu olho direito,
fazendo-o arder. Ele precisava manter a mão sobre o olho exposto enquanto
corria. Nota: inventar um guarda chuva que caiba no cinto. Não… numa noite como
esta, ele seria levado pelo vento em dois segundos.
Os atiradores estavam novamente disparando ao léu do fundo da van. Preciso
parar esses caras antes que eles matem alguém! Mas como? A chuva estava caindo
sobre ele com tanta força que o lembrou de sua última batalha com o HomemHídrico.
Suas teias eram inúteis, seus dedos viscosos eram inúteis, seu sentidoaranha
era inútil… e estou morrendo de frio nessa roupa encharcada. Ele podia
fazer o que sempre fazia quando era obrigado a deixar os bandidos fugirem:
disparar o rastreador-aranha na van. Mas a chuva violenta interferiria no
rastreador, assim como estragara suas teias. O que restava?
Só a força proporcional de uma aranha, idiota!, ele percebeu. Precisava jogar
algo grande contra os atiradores, e rápido. Mas o quê? Olhou para baixo em busca
de uma tampa de bueiro, mas o tiroteio havia parado o trânsito e todas as tampas
de bueiro por perto estavam solidamente plantadas embaixo dos pneus dos
carros.
E então, uma buzina soou atrás dele, seguida por uma voz familiar:
– Ei, babaca-aranha, eu tenho que trabalhar! Sai do caminho, caramba!
Pela primeira vez naquela noite, o Homem-Aranha sorriu. Aquilo era perfeito
demais.
A reação do taxista quando Aranha arrancou o capô do seu táxi não foi uma
imagem que os antigos colegas de Peter Parker, do jornal, teriam achado digna de
ser impressa. Tampouco a reação dos ladrões da van quando viram o capô voando
na direção deles, mais rápido do que seus olhos conseguiam acompanhar. Mas seus
palavrões foram interrompidos abruptamente quando o capô os nocauteou,
jogando-os contra o fundo da van. Infelizmente, o taxista não calou a boca tão
facilmente. Mas, pelo menos, ele ainda estava vivo.
A van deu uma guinada; o motorista, assustado com o impacto atrás dele,
bateu a van na traseira de um carro estacionado. Aranha correu para confrontar o
motorista, abrindo a porta, mas o encontrou zonzo e com o rosto enfiado no
airbag inflado. Os disparadores de teia do Aranha ainda estavam cheios d’água,
então ele deu um soco forte o bastante no queixo do bandido para que ele
desmaiasse até a chegada da polícia, que, a julgar pelas sirenes que ele podia
ouvir naquele instante sob o som da chuva e dos trovões, estaria ali a qualquer
momento.
Ele demorou um pouco para dar uma olhada nos dois ladrões no fundo da van,
já que os havia atingido com bastante força com aquele capô de táxi. Um deles
estava com as costelas quebradas e o outro com um braço quebrado por tentar
impedir a colisão, mas seus órgãos vitais estavam bem. Foi um alívio. Ele não
gostava de pegar tão pesado quando podia evitar, não contra meros mortais, e se
contentava em ter uma arma potente e não letal à qual recorrer na maioria das
ocasiões, como as suas teias. Mas as circunstâncias não haviam lhe deixado
escolha a não ser empregar uma força maior para proteger transeuntes inocentes.
Ele teve sorte dos ferimentos não terem sido mais graves.
No entanto, sabia que era improvável que os policiais achassem o mesmo, por
isso bateu em retirada, correndo para o beco mais próximo. As paredes ainda
estavam escorregadias demais para que pudesse escalá-las, então pulou para a
escada de incêndio mais próxima (um salto curto para alguém capaz de pular três
andares com um único impulso) e subiu com dificuldade até o topo. Saltando de
telhado em telhado, foi se afastando da área, sabendo que a polícia iria procurá-
lo, querendo, como sempre, levar o Aranha para um “interrogatório” sobre o
incidente. Na verdade, eles tinham um pouco de razão; muitas vezes, os bandidos
que ele capturava não demoravam a voltar às ruas porque não podiam ser
condenados sem o seu depoimento. Mas cair nas mãos da polícia significava expor
sua identidade. Na primeira vez em que isso aconteceu, anos atrás, o
compreensivo capitão da polícia George Stacy havia proibido a remoção de sua
máscara até a consulta jurídica sobre suas liberdades civis. Aranha escapou logo
em seguida, antes que resolvessem a questão. Mas o capitão Stacy foi morto há
muito tempo, e hoje eram poucos os policiais que se preocupavam em proteger
sua identidade. E as liberdades civis não estavam exatamente na moda nos
últimos tempos, muito menos quando o assunto dizia respeito aos superpoderosos.
Apesar do risco de deixar bandidos impunes, ele simplesmente não poderia
revelar sua identidade e atuar com liberdade. Havia muitas pessoas com quem se
preocupava, pessoas que, sem dúvida, se tornariam alvos caso seus inimigos
soubessem sua identidade secreta. O que já havia acontecido várias vezes.
Será que estou fazendo a coisa certa?, ele se perguntou pela milionésima vez
enquanto corria para debaixo de uma caixa d’água e esperava a chuva diminuir.
Sair por aí atrás de uma máscara, batendo em bandidos sem respeitar as leis? Eu
poderia trabalhar para o governo, colocar meus entes queridos num programa de
proteção a testemunhas. Poderia tentar entrar para os Vingadores e trabalhar como
parte do sistema. Poderia vender minha fórmula de teia para a polícia, deixar que a
usassem para pegar criminosos enquanto fico em casa e cuido da minha família.
Mas sempre que os pensamentos de Peter Parker seguiam nesse rumo, eles
voltavam para o único argumento do qual nunca conseguia escapar. Uma vez ele
se dispôs a deixar a luta para outra pessoa. Uma vez, depois de ter conseguido
seus poderes e começado a usá-los para ganhar dinheiro como uma atração de TV,
ele havia ficado de braços cruzados e deixado um bandido escapar, embora
tivesse o poder de impedi-lo. E foi esse mesmo bandido que matou o seu tio Ben.
Enquanto eu tiver esse grande poder, preciso aguentar a grande responsabilidade
que vem com ele. Não posso correr o risco de deixar outra pessoa morrer porque
deixei de agir. Ele sabia disso, mesmo sem precisar dizer. E foi por isso que havia
começado a usar sua identidade de Homem-Aranha e seus poderes para combater
o crime, por isso que continuara o combate até hoje, apesar de todos os perigos e
dificuldades. Embora sempre se perguntasse se seus métodos de lidar com seus
poderes eram realmente os mais responsáveis, todas as tentativas anteriores
haviam sido limitantes e muito comprometedoras. Havia coisas que ele só
conseguia fazer agindo sozinho, à margem da lei, em nome de uma justiça mais
básica.
Mas será que desse jeito vale a pena? Existe alguma alternativa melhor que não
consigo ver?
Como sempre, a única resposta a essa pergunta foi um silêncio ensurdecedor.
Seguido por um espirro também ensurdecedor, para o qual ele mal teve tempo de
erguer a máscara.
– Exatamente o que eu precisava… ficar resfriado. – Tudo o que ele queria
agora era ir para casa, tirar aquela roupa molhada de Aranha e entrar numa
banheira quente. Com sorte, na companhia da maravilhosa Sra. Mary Jane
Watson-Parker. Era ela que fazia tudo valer a pena, que lhe dava forças e
esperanças apesar de tudo. Era a única pessoa por quem ele deixaria de ser o
Homem-Aranha e, no entanto, eram o apoio e a compreensão dela em relação à
sua vida dupla que lhe possibilitavam continuar como o Homem-Aranha. Era a
expectativa de ir para casa, para seus braços no fim da noite, que lhe dava forças
para continuar lutando contra todas as dificuldades e nunca ceder à derrota. Esse
simples pensamento o aqueceu e o motivou a se apressar novamente a caminho
de casa. Faltavam apenas uns vinte quarteirões.
Mas, de repente, alarmes soaram na direção contrária, então uma gritaria
começou, e o Aranha soltou um suspiro longo, dando meia-volta. MJ teria que
esperar um pouco mais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário