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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 35

8 de fevereiro de 1788

—Se ela será sua dama de companhia, então precisa aprender boas maneiras —observou Byron Jackson no jantar da noite anterior. Considerando o quanto ele havia bebido avidamente do frasco de vinho e de como comeu de boca aberta com os cotovelos apoiados na mesa, tal declaração soava carregada de um grau impressionante de hipocrisia. Olhei para Hélène. Ela tinha partido um pedaço de pão, mergulhado na sopa e estava prestes a enfiá-lo na boca, o naco pingando, quando parou; agora nos fitava por baixo dos cabelos, como se estivéssemos falando uma língua estrangeira e desconhecida. —Está ótima do jeito que é —falei, gesticulando mentalmente e com atrevimento para Madame Levene, meu pai, os Corvos e para cada criado de nossa casa em Versalhes, todos que se sentiriam repelidos pelas maneiras à mesa de minha nova amiga. —Ela pode ser ótima companhia para uma ceia a bordo de um barco de contrabando —observou Byron alegremente —, mas não será ótima quando tentar que ela passe como dama de companhia em Londres durante esta sua “missão secreta”. Lancei-lhe um olhar de irritação. —Não é uma missão secreta. Ele sorriu com malícia. —Mademoiselle não me engana. Seja como for, precisará ensinar a ela a se comportar em público. Para começar, precisa se dirigir à senhorita como “mademoiselle”. Precisa conhecer o básico da etiqueta e do decoro. —Sim, muito bem, obrigada, Byron —respondi com afetação. —Não preciso que fale de maneiras à mesa para mim. Eu mesma ensinarei. — Como preferir, mademoiselle — disse ele, e sorriu. Ele fazia muito isso. Tanto referir-se sarcasticamente a mim como “mademoiselle” quanto o sorriso. Quando a ceia acabou, Byron levou seu frasco de vinho e algumas peles de animais para o convés, e nos deixou à vontade para nos prepararmos para dormir. Fiquei me perguntando o que estaria fazendo lá em cima, o que estaria pensando. Velejamos durante todo o dia seguinte. Byron amarrou o leme com um cabo e nós dois treinamos um pouco de luta, minhas habilidades negligenciadas com a espada começando a retornar enquanto eu dançava pelas pranchas e nosso aço colidia. Percebi que ficou impressionado. Ele ria, sorria e me incentivava. Um parceiro de luta mais bonito do que o Sr. Weatherall, mas talvez um pouco menos disciplinado. Naquela noite, após jantarmos, Hélène retirou-se para sua cama nas condições apertadas que chamávamos de cabine, abaixo do convés, enquanto Byron saiu para manejar o leme. Só que, desta vez, peguei uma pele para me aquecer. —Alguma vez já usou sua espada com raiva? —questionou Byron quando me juntei a ele no convés superior. Estava pilotando com os pés e bebericando do cantil de couro cheio de vinho. —Por raiva, você quer dizer... —Vamos começar assim: já matou alguém? —Não. —Eu seria o primeiro, hein, caso tentasse tocá-la sem sua permissão? —Exatamente. —Bem, terei de providenciar para conseguir sua permissão, então, não terei? — Acredite, você nunca conseguirá tal feito. Estou prometida a outro. Por favor, desvie sua atenção para outro lugar. Aquilo era mentira, obviamente. Arno e eu não estávamos prometidos um ao outro. Mesmo assim, no momento em que me coloquei de pé no convés e o mar tingido pela lua engoliu o casco e a noite praticamente me envolveu, tive de lutar contra uma onda repentina de saudades de casa, e com a noção de que, acima de tudo, eu sentia muita falta de Arno. Pela primeira vez compreendi que meu amor por ele ia além da amizade infantil. Eu não simplesmente “amava” Arno. Eu de fato o amava. Diante de mim, Byron assentiu, como se tivesse sido capaz de ler meus pensamentos e de notar que eu falava sério, percebendo então que eu era um troféu fora de alcance. —Compreendo – disse ele. – Este “outro” é um sujeito de sorte. Empinei o queixo. —Como queira. Ele assumiu um ar de seriedade e ergueu a ponta de sua lâmina. —Vamos começar. Então... Já travou uma luta de espadas contra alguém? —É claro. —Um adversário que pretendesse machucar? —Não —confessei. —Muito bem. Já sacou sua espada a fim de se proteger? —Certamente. —Quantas vezes? —Uma. —E esta foi a única vez, não? Na taberna? Franzi os lábios. —Foi. —E não se saiu muito bem, não é? —Não. —E por que foi assim, o que acha? —Sei por que foi assim, obrigada —falei. —Não preciso ouvir de gente como você. —Diga logo, e me dê uma desculpa que me faça rir. —Porque eu hesitei. Ele assentiu cautelosamente, bebeu de seu cantil, depois o entregou a mim. Tomei um gole caprichado, sentindo o álcool se espalhar tepidamente pelo meu corpo. Eu não era burra. Sabia que o primeiro passo para conseguir a permissão de uma mulher para levá-la à cama era embriagando-a. Mas estava frio e ele era uma companhia agradável, embora um pouco frustrante e... ah, e nada. Eu simplesmente bebi. —É bem verdade. Oque acha que deveria ter feito em vez de hesitar? —Escute, não preciso... —Não precisa? Mas você quase foi massacrada lá. E sabe o que teriam feito com você depois de levá-la daquele pátio. Mademoiselle não estaria no convés superior bebendo vinho com o capitão. Teria passado a viagem no convés inferior, deitada de costas, entretendo a tripulação. Todos os membros da tripulação. E quando chegasse a Dover, mental e fisicamente abatida, eles a venderiam como gado. As duas. Você e Hélène. Tudo se não fosse pela minha presença na taberna. E você ainda não acha que tenho o direito de lhe dizer onde errou? —Eu errei entrando na taberna, em primeiro lugar, diabos —retruquei. Ele arqueou uma sobrancelha. —Já esteve na Inglaterra? —perguntou. —Não, mas foi um inglês que me ensinou minhas habilidades na espada. Ele gargalhou. — E o que diria se estivesse aqui é que sua hesitação quase lhe custou a vida. Uma espada curta não é uma arma de advertência. É uma arma de ação. Se puxá-la, deve usar, não deve apenas agitá-la a esmo. — Ele baixou os olhos, bebeu um gole demorado do cantil de couro e o passou a mim. —Há muitos motivos para se matar um homem: dever, honra, vingança. Todos podem fazê-la parar para pensar. E virar motivo para uma reflexão de culpa depois. Mas a autoproteção ou a proteção de outrem, ou seja, matar em nome da proteção, é o único motivo que jamais deve lhe render preocupações. ii No dia seguinte, Hélène e eu nos despedimos de Byron Jackson na praia em Dover. Ele tinha muito trabalho a fazer, dissera, a fim de passar ao largo dos postos aduaneiros, sendo assim Hélène e eu teríamos de nos virar sozinhas. Ele aceitou as moedas que lhe dei com uma mesura elegante, e assim seguimos nosso caminho. Ao tomarmos a trilha que saía da praia, virei-me e o vi nos observando partir, acenei e fiquei satisfeita ao vê-lo retribuir o gesto. Depois ele deu meia-volta e se foi, então pegamos a inclinação para o alto do penhasco, o farol de Dover como nosso guia. Embora tivessem me falado que a viagem de carruagem a Londres pudesse ser perigosa graças a salteadores, nossa jornada ocorreu sem incidentes e enfim chegamos, encontrando em Londres uma cidade muito semelhante à Paris que eu havia deixado, com um manto de névoa escura pairando sobre os telhados e um rio Tâmisa ameaçador com seu tráfego pesado. Omesmo fedor de fumaça, excremento e cavalo molhado. Em um coche, falei ao condutor com perfeição na língua: —Com licença, senhor, poderia, por favor, transportar a mim e minha companheira à casa dos Carroll, em Mayfair? —Quequefoiqueocêdisse? —Ele nos espiou pela portinhola de comunicação. Em vez de tentar outra vez, simplesmente lhe entreguei uma folha de papel. Depois, quando já estávamos em movimento, Hélène e eu fechamos as cortinas e nos revezamos cobrindo a portinhola de comunicação enquanto nos trocávamos. Retirei meu então muito amassado e surrado vestido do fundo de meu embornal e de imediato me arrependi por não ter reservado tempo para dobrá-lo com mais cuidado. Enquanto isso, Hélène descartava o vestido de camponesa em favor de meus calções, camisa e colete — não era uma melhoria muito grande, considerando a sujeira que eu havia conseguido acumular nos últimos três dias, mas teria de servir. Enfim fomos deixadas na casa dos Carroll em Mayfair, onde o condutor abriu a porta e nos lançou o agora familiar olhar esbugalhado que sempre se apresentava quando duas meninas vestidas de forma diferente se materializaram diante de seus olhos. Ofereceu-se para bater na porta e nos apresentar, mas o dispensei lhe dando uma moeda de ouro. E então, paradas entre as duas colunatas da entrada, minha nova dama de companhia e eu respiramos fundo, ouvindo passos se aproximarem e a porta ser aberta por um homem de cara redonda usando fraque e cheirando levemente a polidor de prata. Apresentei-me e ele assentiu, reconhecendo meu nome, ao que parecia. Em seguida nos levou por um opulento hall de entrada, rumo a um corredor acarpetado, onde nos pediu que esperássemos do lado de fora do que aparentemente era uma sala de jantar, o som da conversa educada e do tilintar civilizado de talheres emanando dali. Com a porta entreaberta, eu o ouvi dizer, “Minha senhora, há uma visita. Uma Mademoiselle de la Serre, de Versalhes, está aqui para vê-la”. Houve um momento de silêncio consternado. No corredor, flagrei os olhos de Hélène e me perguntei se eu aparentava a mesma preocupação que ela. E aí o mordomo reapareceu, acenando para nós. “Entrem”, e obedecemos, vendo os ocupantes sentados à mesa de jantar, tendo acabado de desfrutar de uma boa refeição: o Sr. e a Sra. Carroll, já se mostrando boquiabertos; May Carroll, que bateu palmas com um prazer sarcástico: —Ah, é a Fedelha —cacarejou ela. E, com o humor que eu estava, poderia facilmente ter me aproximado e lhe dado um tabefe por toda sua chatice; e o Sr. Weatherall, que já se levantava, ruborizado, trovejando: —Mas que raios pensa que está fazendo aqui?

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