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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 55

Trechos do diário de Élise de la Serre

25 de abril de 1790

Passaram-se seis meses desde que escrevi pela última vez em meu diário. Seis meses desde que mergulhei da Pont Marie, em uma noite gelada de outubro. Por um tempo, naturalmente, fiquei presa ao leito, sofrendo de uma febre que durou alguns dias após meu mergulho no Sena e tentando me curar das costelas quebradas. Meu pobre corpo enfraquecido tinha dificuldades para fazer estas coisas simultaneamente e, por um tempo, pelo menos segundo Hélène, minhas condições ficaram um tanto incertas. Tive de aceitar a palavra dela. Minha mente ficou fora de controle, e se não o corpo também, febril e alucinante, balbuciando coisas estranhas à noite, gritando, o corpo emaciado ensopado de um suor gélido. Minha lembrança dessa época se reduzia a ter despertado certa manhã, flagrando rostos preocupados acima de minha cama: Hélène, Jacques e o Sr. Weatherall, com Hélène dizendo “A febre cedeu”, e uma expressão de alívio passando por eles como uma onda. ii Alguns dias depois, o Sr. Weatherall veio ao meu quarto e se sentou na beira da cama. Tendíamos a não guardar cerimônias no chalé. Era um dos motivos pelos quais eu gostava dali. Tornava o fato de eu ser obrigada a estar ali, escondida de meus inimigos, um pouco mais suportável. Durante um bom tempo ele ficou simplesmente sentado, os dois em silêncio, do jeito que velhos amigos fazem quando o silêncio não é algo a se temer. Lá fora, vagavam os sons de Hélène e Jacques trocando provocações, passos além da janela, Hélène rindo e sem fôlego, e eu e o Sr. Weatherall nos encaramos e partilhamos um sorriso malicioso antes de ele baixar o rosto e continuar mexendo na barba, hábito recém-adquirido. E então, depois um tempo, falei: —Oque meu pai teria feito, Sr. Weatherall? Inesperadamente, ele riu. —Ele teria pedido ajuda de além-mar, criança. Da Inglaterra, provavelmente. Diga-me, em que estado se encontra sua relação com os Templários ingleses? Lancei-lhe um olhar paralisante. —Oque mais? —Bem, ele teria tentado arregimentar apoio. E antes que você diga alguma coisa, sim, o que mais pensa que estive fazendo enquanto você ficou aqui, gritando como louca e transpirando pela França? Estive tentando arregimentar apoio. —E? Ele suspirou. —Não há muito o que contar. Minha rede está se silenciando aos poucos. Abracei os joelhos e senti uma onda de dor nas costelas, ainda não inteiramente curadas. —Oque quer dizer com “silenciando aos poucos”? —Quero dizer que, depois de meses enviando cartas e recebendo respostas evasivas, ninguém quer saber, não é? Ninguém falará comigo... conosco... nem mesmo em segredo. Dizem que agora há um novo Grão-Mestre; que a era dos De la Serre chegou ao fim. Meus correspondentes não assinam mais as cartas. Imploram-me para que eu as queime depois de sua leitura. Quem quer que seja este novo líder, ele lhes mete medo. —“Que a era dos De la Serre chegou ao fim”. É o que eles dizem? —É o que dizem, criança, sim, e não estão totalmente errados. Soltei uma gargalhada curta e seca. — Sabe de uma coisa, Sr. Weatherall, não sei se fico ofendida ou grata quando as pessoas me subestimam. A era dos De la Serre não chegou ao fim. Diga isto a eles. Digalhes que a era dos De la Serre jamais terá um fim enquanto eu ainda respirar. Esses conspiradores acham que escaparão assim... Matando meu pai, depondo minha família da Ordem? Mesmo? Então merecem morrer só por causa da própria estupidez. Ele se aprumou. —Sabe o que é isso? Isso se chama vingança. Dei de ombros. — Pode chamar de vingança. Chamarei de resistência. De qualquer modo, não vai acontecer comigo sentada aqui... como você diria... “escarrapachada neste meu traseiro”, escondida nos terrenos de uma escola para meninas, arrastando-me por aí e torcendo para que alguém escreva para nossa caixa postal secreta. Pretendo resistir, Sr. Weatherall. Diga isso a seus contatos. Mas o Sr. Weatherall sabia ser convincente. Além disso, minhas habilidades estavam enferrujadas, minhas forças, esgotadas — as costelas ainda doíam, para começo de conversa —, então permaneci no chalé enquanto ele cuidava de seus afazeres, escrevendo as cartas, tentando angariar apoio para minha causa sob o manto do subterfúgio. Chegou a mim a notícia de que o último criado havia abandonado o château de Versalhes e eu ansiava para ir até lá, mas naturalmente não podia, não era seguro; assim, devo deixar o amado lar de minha família à mercê de saqueadores. Mas prometi ao Sr. Weatherall que seria paciente e estou sendo paciente. Por ora. 

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