4 de maio de 1789
Esta manhã acordei cedo, vesti-me e fui de encontro ao meu baú, à porta da frente do
chalé. Tinha esperanças de escapulir em silêncio, mas quando me esgueirei para o hall de
entrada estavam todos ali: Madame Levene e Jacques; Hélène e o Sr. Weatherall.
OSr. Weatherall estendeu a mão. Olhei para ele.
—Sua espada. —insistiu ele. —Deixe-a aqui. Cuidarei bem dela.
—Mas assim vou ficar sem...
Ele pegou outra espada. Meteu as muletas nas axilas e estendeu a arma para mim.
—Um alfanje —falei, virando-o nas mãos.
— De fato é — disse o Sr. Weatherall. — Uma adorável arma de luta. Leve e fácil de
manejar, ótima para combate corpo a corpo.
—É lindo.
— É claro que é. Ficará lindo se você cuidar bem dele. E nada de dar nomes a ele,
ouviu bem?
— Prometo. — Fiquei na ponta dos pés para lhe dar um beijo. — Obrigada, Sr.
Weatherall.
Ele ficou vermelho.
—Sabe, agora você é adulta, Élise. Uma adulta que salvou minha vida. Pode parar de
me chamar de Sr. Weatherall. Pode me chamar de Freddie.
—Você sempre será o Sr. Weatherall para mim.
— Ah, faça como quiser, maldição. — Ele fingiu se exasperar e aproveitou a
oportunidade para se virar e enxugar uma lágrima.
Dei um beijo em Madame Levene e lhe agradeci por tudo. Com os olhos brilhando,
ela me manteve à distância de um braço, como se querendo me examinar.
— Eu lhe pedi para voltar de Londres uma pessoa transformada e você me deu
orgulho. Saiu daqui uma menina furiosa, voltou uma jovem mulher. Você é uma honra
para a Maison Royale.
Afastei a mão estendida de Jacques e, em vez disso, tomei-o em um abraço e lhe dei
um beijo, que o fez ruborizar e lançar um olhar de soslaio a Hélène, e em um instante
percebi que havia alguma coisa entre eles.
—Ele é um sujeito adorável —cochichei ao ouvido de Hélène enquanto lhe dava um
beijo de despedida; e comerei meu chapéu, ou darei a mão à vara, se não estiverem juntos
quando de minha próxima visita.
Por falar em chapéu, coloquei o meu e peguei o baú. Jacques avançou para tirá-lo de
mim, mas o impedi.
—É muita gentileza sua, Jacques, mas quero chegar à carruagem sozinha.
E assim o fiz. Levei minha mala à saída de serviço, perto dos portões da Maison
Royale. O prédio da escola na encosta do morro me observava e, onde antigamente eu
teria enxergado malignidade em seu olhar, no momento eu via conforto e proteção —os
quais agora eu estava abandonando.
É claro que a distância entre a Maison Royale e a minha casa não era grande. Eu mal
tinha me acomodado quando chegamos à entrada arborizada de nosso château, que logo
adiante parecia um castelo com seus torreões e torres, presidindo os jardins que se
estendiam para todos os lados.
Ali fui recebida por Olivier e, depois de entrar, cumprimentada pela criadagem,
alguns que eu conhecia bem — Justine, sua visão me inundando com lembranças de
minha mãe —e alguns rostos desconhecidos. Quando meu baú foi levado ao quarto, dei
uma volta pela casa. Eu sempre voltava nos feriados da escola, naturalmente. Aquele não
era bem um grande retorno. Mesmo assim, parecia um. E pela primeira vez em anos subi
a escadaria aos aposentos de mamãe e fui até seu quarto.
O fato de estar arrumado, porém deixado tal como estava quando ela era viva, criou
uma sensação forte e quase dominadora de sua presença, como se ela pudesse entrar a
qualquer momento, encontrar-me sentada na beiradinha de sua cama e se pôr a meu lado,
passando o braço ao meu redor. “Estou muito orgulhosa de você, Élise. Nós dois
estamos.”
Fiquei um tempo ali, com o braço fantasma de mamãe em meu ombro. Só percebi
que chorava quando senti as lágrimas fazendo cócegas em minhas bochechas.

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