RAZÃO E SENSIBILIDADE ARANHA
– EU SIMPLESMENTE NÃO CONSIGO ACREDITAR. – May Parker balançou a cabeça enquanto
colocava pratos cheios de seus famosos bolinhos de trigo na frente de Peter e MJ.
– Jonah Jameson pode ser bem, digamos, desbocado, e sei que ele nunca gostou
muito de você… quer dizer, do seu alter ego, querido. Mas eu não consigo
acreditar que ele colocaria outras pessoas em risco para atacar você.
Por mais maluca que sua vida ficasse, Peter sempre tentava arranjar tempo
para um brunch semanal na casa da sua tia May em Forest Hills. Os bolinhos de
trigo dela eram a comida mais reconfortante que existia, e aquela casa era
repleta de lembranças queridas de tia May e do tio Ben. Ele preferia não
conversar sobre trabalho, mas desde que tia May descobrira seu segredo, lhe
pedira para mantê-la informada de tudo que acontecia em sua vida, fosse como
Peter ou como Homem-Aranha. Houve muitos segredos entre eles por tempo
demais e, embora tia May tentasse esconder, Peter sabia que ela ficara magoada
pelos anos de mentiras. Por isso, nos últimos tempos, ele tentava ao máximo
manter tia May e MJ a par de tudo, e era mais seguro fazer isso ao vivo do que
pelo telefone. Então era melhor conversar sobre o trabalho mesmo.
– Não seria a primeira vez que ele vem atrás de mim, tia May. Lembra que
ele esteve envolvido na criação do Escorpião? Sem falar do Mosca Humana e dos
Esmaga-Aranhas. Spencer Smythe morreu por causa do trabalho dele com os
robôs. E o Escorpião matou o criador dele, Farley Stillwell.
– É pavoroso, eu sei. Mas o Sr. Jameson pediu ao Dr. Smythe que usasse
padrões de segurança tão baixos? Ele pediu para o Dr. Stillwell caçar o Escorpião?
– Não, mas a culpa ainda é dele.
– Talvez seja, e essa é uma questão para a consciência dele. Mas faz anos
que ele não tenta nada desse tipo, não é?
– E ele nunca foi tão longe – MJ acrescentou, com a boca cheia de bolinho de
trigo.
Tia May olhou feio para ela.
– Muito impressionante, Mary Jane. Falar com a boca cheia é algum tipo de
exercício de dicção para suas atuações? Porque se for, acho que posso deixar
passar dessa vez.
MJ tomou um gole de leite.
– Desculpe, tia May.
– Não se preocupe, querida.
– Vocês têm razão nesse ponto – Peter retomou. – Faz anos que Jonah não
vem atrás de mim e eu achei que ele tinha aprendido a lição. Mas meu sentidoaranha
nunca mente. Ele estava disparando feito louco perto dele. Isso significa
que ele é um perigo real e imediato.
– Peter andou pegando uns DVDs do Harrison Ford na biblioteca de novo –
MJ provocou. Muitas vezes era assim que ela lidava com assuntos estressantes:
usando seu jeito divertido como escudo. No passado, costumava ser uma forma de
negar a realidade, mas nos últimos tempos ela costumava usar isso apenas para
quebrar a tensão.
– Bom, você vai ter que me desculpar, mas ainda estou tentando entender o
que é e como funciona esse seu “sentido-aranha” – tia May disse. – Eu entendo o
básico, que ele alerta você do perigo, mas o que exatamente isso significa? É…
alguma coisa psíquica, como daquele adorável Doutor Estranho?
Peter demorou para encontrar uma resposta.
– Acho que não. Já me sugeriram essa possibilidade. Mas eu não acredito,
porque não faz sentido: não tem por que a mordida de uma aranha me dar
poderes psíquicos.
– Talvez a radiação tenha despertado alguma habilidade mutante latente? –
MJ sugeriu.
– Bom – tia May disse, com recato –, nunca ouvi falar de nada desse tipo na
família do Ben.
– Eu preferia não complicar as variáveis sem evidências – Peter interpôs. –
Acho melhor pensar que é literalmente baseado nos sentidos das aranhas, na
capacidade que aracnídeos têm de detectar coisas que os humanos normais não
conseguem. Por exemplo, as aranhas tem um olfato apurado e conseguem ver em
ultravioleta. Elas também são muito sensíveis às mínimas vibrações no ar e na
terra. Acho que esta deve ser a base: eu consigo sentir o movimento de tudo ao
meu redor, dizer as formas e posições das coisas pelo seu efeito na passagem do
ar, mesmo quando não estão no meu campo de visão. Consigo sentir as vibrações
quando alguém saca uma arma ou começa a apertar o gatilho. Talvez eu consiga
sentir o cheiro de pólvora e lubrificante. Mas, seja lá o que for que meu cérebro
faça para processar essa informação, ela está num nível instintivo, animal, então
não consigo registrar essas coisas conscientemente. Nem consigo saber direito o
que estou sentindo. Mas reconheço o perigo quando sinto.
– E você sente um… formigamento? Foi assim que você descreveu? Não
entendi direito.
– Ele me falou – começou MJ – que é o tipo de calafrio que desce pela
espinha quando você está com muito medo ou nojo de alguma coisa. Como um
arrepio.
– Mais ou menos – Peter corrigiu. – Só que é… mais profundo, mais intenso.
Parte do motivo pelo qual eu o chamo de sentido-aranha é porque, quando é
muito forte, sinto que há mil aranhas andando dentro do meu cérebro. – Ele notou
a reação das duas. – Desculpa, não devia ter falado isso enquanto vocês estão
comendo.
– Não tem problema, querido. Meu apetite não é mais o que era
antigamente. Pode continuar.
– E esse é só o aspecto físico. Não é só uma questão de perceber o perigo,
mas também de reagir a ele. Quando o sentido-aranha dispara, minha adrenalina
sobe e consigo desviar de qualquer que seja a ameaça. Esse instinto já salvou
minha vida várias vezes. Ele permite que eu comece a desviar do trajeto das balas
antes mesmo que elas saiam da arma.
– Então sou imensamente grata a ele – tia May disse.
– Eu também – acrescentou MJ.
– Não esqueça do Peter aqui.
– Mais uma coisa – tia May retomou. – Já matei aranhas o bastante nas
minhas décadas de faxina para saber que elas não têm nenhuma capacidade
sobrenatural de desviar do perigo. A menos que você tenha um ponto cego para
jornais gigantes enrolados que esqueceu de mencionar, Peter.
Ele riu.
– Não, acho que ninguém nunca tentou isso comigo ainda. – Ele ponderou por
um momento. – Acho que faz sentido que algo tão pequeno quanto uma aranha
precise de uma maior consciência a possíveis ameaças em seu ambiente e um forte
reflexo de fuga. Quer dizer, não há dúvida de que elas podem sentir seu jornal
vindo se aproximando. Talvez elas não consigam escapar a tempo porque é
grande demais em comparação ao tamanho delas. Nem eu consigo me mover tão
rápido, tanto que várias coisas muito grandes já caíram em cima de mim.
– Então o sentido-aranha não é infalível – tia May apontou.
– Ele sempre me alerta do perigo, mas nem sempre consigo escapar. Eu sei
aonde a senhora quer chegar, tia May, mas ele não me dá sinais falsos. Sempre
que ignorei os avisos dele no passado, me arrependi.
– Então, acho que ainda estou confusa, Peter, querido. Eu entendo que ele
avise você se, por exemplo, eu de repente tentar acertar uma frigideira em sua
cabeça. Mas e se eu só pensar em fazer isso, você também sentiria?
Peter riu.
– Esse… meio que não é um bom exemplo. Lembra quando a senhora
trabalhava como governanta na casa do Doutor Octopus? E você quebrou aquele
vaso na minha cabeça?
Tia May fez uma careta.
– Bom, claro que eu não sabia que era você na época, Peter. E não sabia que o
Doutor Octopus era um demônio. Mas, enfim, eu sinto muito, muito mesmo.
– A senhora estava fazendo o que achava certo, tia May. Enfim, meu sentidoaranha
não reage a você ou a outras pessoas muito próximas a mim, mesmo
quando elas estão tentando me atacar. Acho que porque eu me sinto seguro com
elas.
Ela sorriu.
– É muito doce da sua parte, querido.
– Ei! – MJ exclamou. – Eu sei que disparei o seu sentido-aranha pelo menos
uma vez… e foi só quando bati em você com um travesseiro!
– Bom, eu, hmm… quer dizer, eu…
Tia May deu um tapinha carinhoso na mão dela.
– Não leve para o lado pessoal, querida. Os maridos sempre têm um
pouquinho de medo das suas esposas. E é melhor assim para a gente, não é?
Depois de um momento, MJ riu, tirando-o da situação difícil.
– Não se preocupa, tigrão. Na verdade, eu fico lisonjeada. Afinal, eu sou uma
força a ser temida.
Tia May se virou para ele novamente.
– Mas pode responder a minha pergunta, Peter?
– Ah, claro. Então, com qualquer outra pessoa, eu consigo sentir que elas são
perigosas mesmo se não estiverem fazendo nada especialmente perigoso na hora.
Pode ter alguma coisa a ver com os feromônios delas; como eu disse, as aranhas
têm um excelente olfato. Ou talvez minha sensibilidade à vibração me faça notar
agressividade na linguagem corporal delas ou reconhecer a maneira como os
inimigos conhecidos se movem sob um disfarce. Ou, caramba, talvez seja psíquico
mesmo; não posso descartar essa possibilidade completamente, por mais
improvável que seja. Qualquer que seja o motivo, eu simplesmente sei quando
alguém é perigoso, mesmo quando não estão tentando me atacar.
– Então, quando o Sr. Jameson mandou o Escorpião atrás de você, ou aqueles
robôs Esmagadores horrendos, seu sentido-aranha, err, “formigou” perto dele?
– Sim, eu… – Peter começou, lembrando. – Na verdade, não. – Quando
Jameson contratou Stillwell para criar o Escorpião, ele tentou levar HomemAranha
para uma armadilha, agindo com uma simpatia surpreendente. Peter
lembrou de ter ficado desconfiado só por isso, mas relembrando naquele
momento, ele se deu conta de que não houvera nenhum formigamento de alerta.
Mesmo em uma situação ocorrida anos depois, quando Jameson confrontou Peter
com fotos que provavam que ele era o Homem-Aranha (antes de Peter fazê-lo
acreditar que aquelas fotos eram forjadas), ele também disparou o sentido de
perigo de Peter, embora este sempre o alertasse quando sua identidade corria
risco de exposição. – Para falar a verdade, não lembro de Jameson já ter
disparado meu sentido-aranha antes. Talvez porque ele não tente me atacar
pessoalmente. A única vez em que senti um zumbido de alerta com ele foi quando
não era ele de verdade, quando o Camaleão se passou por ele durante algumas
semanas. Meus sentidos-aranha devem ter reconhecido o Camaleão sob o
disfarce.
– Bom, será que não pode ser isso então? – MJ perguntou. – O Camaleão não
pode ter substituído Jameson de novo?
– Da última vez que ouvi, ele ainda estava numa cela em Ravencroft. Acho
que vou ter que dar uma checada.
– Ou ele também pode ser um robô – continuou MJ. – Ou até mesmo um
clone.
Peter olhou feio para ela.
– MJ!
Ela se encolheu.
– Desculpa, eu sei. Nunca, nunca mesmo, mencionar clones.
– Bom, pelo menos você poderia estudar a possibilidade, Peter.
Ele se voltou para a tia May.
– Vou considerar todas as possibilidades. Mas também é possível que esse
seja o verdadeiro J. Jonah Jameson e que ele finalmente tenha despirocado de
vez. O ódio dele por mim sempre beirou a psicose, e talvez fosse só questão de
tempo até que perdesse a cabeça. Pode crer que isso acontece com uma
frequência deprimente na minha vida. E, se agora ele enlouqueceu mesmo, esse
pode ser o motivo pelo qual de repente começou a disparar meu sentido de
perigo. Mas seja lá o que possa ter lhe acontecido, tenho certeza que ele tem
alguma relação com os robôs. E eu vou descobrir qual é, mesmo que tenha que
virar Manhattan de ponta cabeça.
Tia May se levantou da mesa.
– Então você vai precisar de mais bolinhos de trigo.
Ele sorriu para MJ.
– Adoro essa mulher.
• • • •
Antes que Homem-Aranha pudesse começar suas investigações, Peter Parker
precisava passar no hospital para visitar seus alunos. Ele tentava visitá-los
diariamente, sempre que seus deveres de combate ao crime lhe permitiam. A
recuperação da maioria deles era encorajadora. Susan Labyorteaux e Koji Furuya
já haviam recebido alta, embora Koji fosse usar muletas por um tempo. Susan só
tinha sofrido uma fratura simples no braço esquerdo, além de vários cortes e
hematomas. Seus pais declararam um milagre ela ter sido poupada de coisa pior, e
Peter não podia cercear a crença deles, embora achasse que um Deus benevolente
e disposto a intervir na vida das pessoas não se limitaria a ajudar apenas a pessoa
que professasse mais alto sua fé. Mas Susan foi melhor do que seus pais,
afirmando que todos os alunos tinham sido poupados por Deus, com uma ajudinha
do Homem-Aranha. Peter gostara disso. Em sala de aula, ele e Susan viviam se
digladiando em questões de ciência contra religião, mas ele estava começando a
entender que ela era o exemplo das melhores qualidades da fé. Só teria de se
esforçar mais para ajudar a menina a reconhecer que estar aberta a novas ideias
não era incompatível com a fé, independentemente do que os pais dela dissessem.
Joan Rubinoff e Angela Campanella continuavam internadas, tratando
ferimentos mais graves. Angela, uma loira jovial e popular, vinha conseguindo
manter o bom humor habitual apesar dos tubos enfiados em seu corpo, sem
dúvida graças ao mar de flores, balões e bichinhos de pelúcia com que seus muitos
amigos e admiradores haviam povoado o quarto dela, além da multidão de
colegas que vinha visitá-la (embora Peter suspeitasse que a maioria dos meninos
a visitava, na verdade, com a esperança de dar uma olhada embaixo de sua
camisola de hospital). Por outro lado, Joan, que costumava ser tão engraçada,
havia ficado mais triste e deprimida. Peter desconfiava que a adolescente de
óculos e cabelos crespos recebia poucas visitas além dos seus avós dedicados e, na
maior parte das vezes, ficava se remoendo ao ver a multidão de admiradores de
Angela do outro lado do corredor. Peter se lembrou de si mesmo nos velhos
tempos, quando usava o bom humor para esconder sua dúvida e sua tristeza
interior. Talvez houvesse uma maneira, ele pensou, de levar Joan a descobrir a
mesma autoconfiança que ele tinha agora. Claro que tem um jeito, ele disse a si
mesmo. Dá um tempo que você consegue pensar em alguma coisa.
Mas Bobby Ribeiro era o pior caso. Ele sofrera um traumatismo craniano
quando os escombros caíram em sua cabeça e ainda estava em coma. Respirava
sem a ajuda de aparelhos, e seu corpo estava se curando, mas os médicos não
sabiam informar se seu cérebro se recuperaria ou em que grau se daria essa
recuperação. Aquela mente brilhante, ativa e disposta a discordar, que dava
tantas dificuldades e esperanças ao professor Peter, jazia agora adormecida e
poderia nunca se recuperar.
A mãe de Bobby, Consuela, passava todos os dias cuidando do filho, com um
bebê a tiracolo que não parava de chorar, deixando seus outros quatro filhos aos
cuidados da irmã, já que o pai a abandonara antes do nascimento do mais jovem
Ribeiro.
– Alguma mudança? – Peter perguntou, ao encontrá-la lá naquele dia.
– Nada – ela respondeu em espanhol, abanando a cabeça. – Não sei o que
fazer. Não tenho dinheiro para deixar o menino aqui mais tempo. Mas como eu
vou cuidar dele em casa, com tantos outros?
Peter pensou na sorte de Flash Thompson por ter uma estrutura de apoio,
sem mencionar uma amiga rica como Liz, disposta a financiar seu tratamento em
casa.
– Se tiver alguma coisa que eu possa fazer, é só me avisar.
Ela balançou a cabeça.
– Não estou pedindo caridade. Aquele homem, Jameson – ela disse,
pronunciando o J espanhol –, tentou me oferecer dinheiro. Disse que era para
compensar por ter colocado a foto de Roberto na internet, onde qualquer
pervertido podia ver. Mas ele queria uma entrevista em troca! Mais exploração!
Falei para ele enfiar o dinheiro naquele lugar.
Peter cerrou os dentes.
– Bom para você. – Ele pousou a mão no ombro dela. – Fique tranquila, Sra.
Ribeiro, porque eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para encontrar o
responsável pelo que aconteceu com essas crianças e fazer com que ele responda
pelos seus atos.
Ela lançou um olhar fixo e penetrante para ele.
– Chega de palavras vazias, Señor Parker. Você é um professor, não la policia.
Não se gabe de coisas que não pode fazer. Isso não vai ajudar meu filho.
Não, Peter respondeu em silêncio enquanto se afastava. Talvez eu não possa
ajudar o menino. Mas vou sim fazer com que a justiça seja feita. Custe o que custar.
– Não leve para o lado pessoal. – Ele se virou e viu que Dawn Lukens se
aproximava, com o rosto triste em vez de seu sorriso costumeiro, e o cabelo
castanho e ondulado solto. – Todos estamos nos sentindo frustrados e impotentes
por isso. Desejando que houvesse alguma coisa que pudéssemos fazer para
ajudar, mas sabendo que não há nada a não ser esperar e torcer.
– Há algo que podemos fazer – ele assegurou, impaciente com a atitude
derrotista dela. – Podemos ajudar as crianças a passar por isso, mostrando nossa
confiança. Sendo fortes por elas.
Dawn balançou a cabeça.
– Não sei se consigo mais, Peter. – Ela suspirou. – Eu tinha tantos ideais
quando comecei. Queria moldar a mente dos jovens, inspirar a curiosidade deles,
compartilhar meu amor por Shakespeare, Twain, Donne, Frost… Queria ser um
tipo diferente de professora, uma amiga que dividiria a jornada com eles, e não
uma tirana. Em vez disso, passo metade do meu tempo confiscando celulares,
separando brigas e rezando para que ninguém tenha uma arma na sala de aula…
lutando uma batalha perdida para manter esses alunos focados na lição de casa
quando eles estão lutando contra a miséria, sofrendo com gangues e aturando
pais desempregados. – Ela parou e olhou para o quarto de Bobby. – E agora isso.
– Não seja tão dura consigo mesma – ele disse. – Você é uma boa professora.
Os alunos te respeitam.
– Esse é o problema. Não acho que mereço mais esse respeito… se é que
algum dia mereci. Meus alunos não param de me perguntar por que isso
aconteceu e não sei mais o que dizer para eles. Não sei o que dizer sobre nada.
Não tenho mais respostas. Acho que não posso mais continuar nesse emprego.
Ele a observou.
– Dê algum tempo. As coisas vão melhorar. Tenho certeza.
Ela lhe lançou um olhar feio.
– Você não entende, né? Acha que tudo é tão fácil. Você é jovem, não passa
de um amador. Pensei que aprenderia a ter alguma humildade com essa
experiência, mas está em negação.
– Não estou – ele disse, reconhecendo tarde demais a ironia em sua resposta,
mas continuando mesmo assim. – Aconteceu uma coisa terrível aqui. Isso eu
entendo… mais do que qualquer pessoa que você conheça. Mas também entendo
que a gente não ganha nada se culpando por isso. Isso só nos impede de encontrar
soluções de verdade.
– Nem tudo tem uma solução, Peter! Bobby Ribeiro pode nunca acordar de
novo! Que tipo de solução a gente pode dar a nossos alunos para algo assim?
Peter conteve sua resposta agressiva, lembrando a si mesmo que estava no
controle da situação. Ele era o mocinho e seu trabalho era ajudar as pessoas
necessitadas e confusas. Mas ela não estava disposta a dar ouvidos ao que ele
tinha a dizer.
– Acho que você precisa fazer o que achar melhor. Se acha que não pode mais
ajudar essas crianças – ele acrescentou, com a voz branda –, talvez precise
encontrar uma maneira de fazer uma contribuição significativa. Mas eu não
tomaria nenhuma decisão apressada se fosse você.
Ela não pareceu tranquilizada.
– Olha, Peter… Eu sei que você tem boas intenções. Mas não largue seu
emprego para virar psicólogo, tá? – Ela lhe deu as costas e foi embora, deixando-o
desconcertado.
Bom, enfim, ele pensou. Eu tentei. Talvez depois ela entenda, quando não estiver
tão abalada.
Ele começou a caminhar em direção à saída. Fiz tudo que eu podia aqui. Mas
Dawn está errada. Existe sim uma coisa que eu posso fazer para ajudar. Ela pode
achar que não tem nenhuma resposta, mas eu sei onde procurar as minhas.
• • • •
Uma passada rápida no Instituto Ravencroft confirmou que Dmitri Smerdyakov,
também conhecido como o Camaleão, também conhecido como milhares de outras
pessoas em épocas diferentes, estava encarcerado em segurança e não tinha
qualquer condição de fingir ser outra pessoa. Riscando essa possibilidade da lista,
Aranha passou os dias seguintes recolhendo informações sobre os suspeitos
habituais em casos como aquele. Ele achava uma perda de tempo, pois tinha
certeza de que Jameson estava envolvido de alguma forma e teria preferido
manter o foco nele. No entanto, investigou os outros construtores de robôs que
conhecia só para contentar MJ e tia May e mostrar que estava considerando
todas as opções.
A primeira parada, obviamente, foi Alistaire Alphonso Smythe, o inventor
maluco que herdara a franquia de Esmaga-Aranhas do falecido pai. Até onde
Peter sabia, Smythe ainda estava encarcerado na Ilha Ryker desde seu último
embate, mas como seus velhos inimigos pareciam ressurgir de maneira
inesperada, ele sabia que precisava confirmar. Felizmente, ele tinha experiência
em invadir aquela penitenciária em particular, embora não com frequência
suficiente para que os diretores tivessem colocado tecnologias à prova de Aranha
no prédio ou treinassem os guardas a ficar de olho nos telhados.
Ele chegou à cela de Smythe e a encontrou ocupada pelo presidiário esperado.
Smythe havia mudado muito o visual ao longo dos anos, mas Aranha o reconheceu
pelo seu último confronto: magro, de pele pálida, com o cabelo castanho
desgrenhado na altura dos ombros. A única coisa que estava faltando eram os
óculos. Ele andava de um lado para o outro da cela, como um animal selvagem
enjaulado, absorvido em seus pensamentos, até que Aranha avançou e chegou ao
seu campo de visão. Smythe ergueu os olhos estreitados, sem precisar de uma
visão apurada para reconhecer quem estava agachado de cabeça para baixo no
teto.
– Homem-Aranha! – ele exclamou entre cuspes.
– Ahh, agora sim – o Aranha respondeu. – Finalmente um bandido que
entende a etiqueta dessas coisas. Eu apareço, o bandido olha para cima, grita meu
nome e faz xixi nas calças.
– Não fique se achando, aracnídeo. Mesmo que não houvesse reforçado entre
a gente, você não me daria medo.
– E também é por isso que eu gosto de vilões mais instruídos. Muita gente lá
fora não sabe a diferença entre inseto e aracnídeo. Mas você sempre acerta, e só
quero que você saiba, Aly, que eu fico grato com isso.
– Continue falando, Homem-Aranha. Os guardas vão passar a qualquer
minuto.
– Ah, só passei aqui para bater um papinho. Como você está, Aly? Está
gostando da comida da prisão? Se exercitando bastante? Fazendo novos amigos?
Construiu algum robô bom recentemente?
Smythe estreitou os olhos.
– Ahh. Sim, ouvi falar das suas briguinhas. E você acha que eu teria alguma
coisa a ver com aquilo? Daqui?
– Não seria a primeira vez que um preso daqui faz uso criativo das máquinas
da oficina.
– Sim, as fugas do Doutor Octopus e do Abutre são verdadeiras lendas na
prisão. É por isso que eles não deixam mais presidiários tecnicamente bemdotados
usarem a oficina sem forte supervisão. De qualquer modo, fico ofendido
que você atribua aquelas máquinas toscas a mim. Pode confiar, Homem-Aranha,
quando você encontrar a morte nas mãos de um Esmaga-Aranha, vai saber que é
obra minha. E além disso, você não estava acusando Jameson de estar por trás
dos ataques?
– Estou explorando várias pistas diferentes – Aranha replicou.
– Humpf! Você é realmente maluco o bastante para achar que eu trabalharia
com aquela escória da humanidade? Com o homem que causou a morte do meu pai
jogando-o contra você, para começo de conversa?
– Ei, foi ele quem abordou Jonah!
Mas Smythe o ignorou.
– O homem responsável pela minha prisão? Que me bateu com um taco de
beisebol na última vez em que a gente se encontrou? Quero aquele canalha
morto, Homem-Aranha! Talvez mais do que quero você morto, embora isso esteja
sujeito a mudanças.
– Ei, Aly, você devia me agradecer! Você era um gorducho preguiçoso, mas
depois de todos esses anos me caçando, ganhou até um tanquinho.
– Na verdade eu preferia ser um gorducho preguiçoso, Homem-Aranha. Dava
muito menos trabalho. Contudo, não posso relaxar até ver você e Jameson
mortos. Só espero que seja lá quem estiver atrás desses robôs cuide de pelo
menos metade dessa tarefa por mim.
– E quem seria essa pessoa?
Smythe deu uma risada ameaçadora.
– Bem que eu queria saber, Homem-Aranha, assim teria o prazer de não te
contar. Mas vou ter que me contentar com o prazer de saber que você está
completamente perdido.
Homem-Aranha esperou, mas Alistaire não disse mais nada.
– Ah, vá. Não ganho nem uma gargalhada malévola? O que aconteceu com a
etiqueta?
Mas seu sentido-aranha começou a formigar e, um segundo depois, ele ouviu
o som de passos.
– Talvez os guardas lhe deem uma lição sobre a etiqueta de entrar onde não
é chamado. Adeus, Homem-Aranha.
Aranha saiu dali às pressas, mas ainda tinha mais uma parada a fazer antes
de sair da prisão. Ele precisava confirmar que Electro ainda estava encarcerado.
Encontrou-o em uma ala reservada aos prisioneiros “especiais”, numa cela com
paredes de borracha equipada especialmente para ele. Não pôde resistir a fazer
uma pequena provocação por trás do grosso painel de vidro insulado.
– Você em uma sala de borracha. Não sei por que, Faísca, mas combina tanto
com você!
– Você! – Dillon rosnou e cerrou os punhos; seu cabelo se arrepiou e crepitou.
Mas nada além disso aconteceu; os Vingadores haviam garantido que ele fosse
descarregado e, sem acesso a uma fonte de energia, não teria como carregar a
bateria química viva que era seu corpo. Tudo que ele tinha agora era a carga que
seu próprio sistema nervoso conseguia criar. O isolamento servia mais para
impedir que ele influenciasse sistemas elétricos fora da cela do que para impedir
que ele fugisse como um raio.
Mas Dillon se acalmou e riu.
– Pode me zoar o quanto quiser, Cabeça de Teia; o fato é que eu derrotei
você. De novo. E, dessa vez, você nem me deu trabalho.
– Talvez, mas o que você ganhou com isso? Você não ficou com os diamantes,
perdeu seus brinquedos moderninhos e apanhou de uma menina!
– É, sim. Mas ouvi dizer que você continua tendo problemas com robôs.
Aranha se aproximou.
– Onde você ouviu isso?
Dillon deu de ombros.
– Por aí.
– Se você souber de alguma coisa…
– Do que eu saberia daqui? Nem tenho TV ou rádio. Alguns policiais me
interrogaram, só isso. Este é o problema dos meus poderes: quando estou aqui,
não tem telefone, luz, automóvel, nenhum luxozinho. – Ele abriu um sorriso
afetado. – Só me dá mais motivo para querer dar o fora.
O Aranha inclinou a cabeça.
– Então por que os policiais te interrogaram?
– Porque eles são burros. Sempre investigam todas as pistas, mesmo as mais
idiotas. Eu roubei uns robôs, planejei um assalto e você entrou no caminho, então
obviamente, quando algum maluco manda um robô especialmente para te matar,
precisam saber se eu sei de alguma coisa. Falei para eles o que eu sei: que eles são
um bando de babacas sem noção. – Ele riu consigo mesmo. – Caramba, não preciso
te matar, já acabei com a tua raça.
– Que ótimo! Então agora você pode se aposentar e largar a vida do crime.
– Até parece.
O Aranha saiu antes que os guardas chegassem. Ele estava cansado do jeito
arrogante de Electro e não havia mais nada a descobrir ali. Mesmo que Electro
tivesse aprendido a controlar robôs a distância, ele não tinha como construir
nenhum deles.
• • • •
– Então quem sobra? – MJ perguntou quando estavam se deitando na noite
seguinte, praticamente a primeira chance que tiveram de conversar desde o
brunch no dia anterior, embora tivessem esperado para conversar depois de
tratarem de prioridades conjugais mais urgentes. E ele a tinha deixado falar
antes, já que parecia chateada. Ela tinha ido visitar uma pequena livraria que
conhecia, a qual antes fora um teatro, localizada um pouco ao sul do Distrito
Teatral, que reunia estudantes de artes dramáticas. Eles deram muito apoio a ela
no começo de sua carreira, mas ela constatara que, em uma estranha
demonstração de elitismo reverso, passaram a ser frios agora que ela estava
conseguindo trabalhos relativamente frequentes nos palcos. Pelo jeito, achavam
que atores profissionais se achavam bons demais para se rebaixar a fazer uma
visita, e o fato de MJ ter ido por vontade própria, aberto um espaço na sua
agenda lotada para passar e dizer “oi”, não causou nenhuma reação calorosa da
parte deles. Mas ela decidira seguir o exemplo de Peter e não se deixar abater
pela negatividade deles, resolvendo deixar para lá e simplesmente não se
incomodar mais. Talvez ela realmente fosse melhor do que eles, mesmo que não
pelos motivos que eles pensavam.
Mas, apesar de sua demonstração de indiferença, MJ ficou feliz em mudar de
assunto e falar sobre a investigação de Peter, ajudando-o a repassar a lista de
suspeitos.
– Tem o Consertador – Peter disse, referindo-se a Phineas Mason, um
inventor extraordinário que fornecia equipamentos, armas e outros aparelhos
mecânicos para diversos criminosos. – Robôs não costumam ser o tipo dele, mas
ele já construiu um ou dois, pelo que sei.
– Mas por qual motivo? Quero dizer, ele pode não ser seu maior fã, mas
nunca foi diretamente atrás de você, foi? Ele é um homem de negócios, então
cadê o lucro nisso?
– Você tem razão. – Peter riu baixinho. – Na verdade, a maior parte dos
negócios dele vem de pessoas à procura de armas mais fortes para acabar comigo.
Acho que foi graças a mim que ele pagou a faculdade dos netos. Se é que ele tem
netos.
– Se tiver, eles devem ter os brinquedos mais legais.
– Enfim, pedi para Felicia dar uma olhada. – MJ esfriou com a menção da exnamorada.
Mas Felicia Hardy havia feito negócios com o Consertador no passado,
comprando equipamentos que aumentavam poderes para compensar a perda dos
seus superpoderes e permitir que ela continuasse atuando como Gata Negra. –
Eles têm uma relação profissional, então talvez descubra se ele está envolvido
nisso. Mas eu acho improvável.
– Então quem mais é suspeito? – MJ refletiu. – E o Mestre dos Robôs?
Peter balançou a cabeça.
– Eu dei uma olhada. Stromm ainda está dormente.
– Dormente?
Peter deu um tapa na própria cabeça.
– Não te contei? Aconteceu um pouco antes de eu descobrir que você estava
viva. – MJ fez uma careta ao ser lembrada do sequestro.
Peter continuou contando sobre seu último encontro com Mendel Stromm, o
industrial e inventor que havia se voltado para o crime com o codinome de Mestre
dos Robôs. Em vez de tentar atacá-lo com robôs, como fizera no passado, Stromm
tinha entrado em contato com o Homem-Aranha em busca de ajuda. Um
programa de computador que Stromm criara à sua própria imagem o tinha
transformado em ciborgue, tentando controlar a sua mente e desmontar seu
corpo até que ele se tornasse nada mais do que uma cabeça presa a um
equipamento de suporte à vida em um esconderijo sob a subestação elétrica de
uma das maiores empresas de energia de Nova York. O programa havia feito
experiências com a rede de energia da cidade para tentar tomar controle sobre
ela e, no processo, sobrecarregara as linhas de energia da Times Square, causando
uma tempestade de sobretensões elétricas, pondo em risco centenas de vidas
apenas para aprender a andar. Stromm havia lhe contado sobre a ambição do
programa de se reproduzir e tomar conta das redes de computadores do mundo. A
única maneira de impedir que o violento programa se espalhasse, dissera ele,
seria matar o próprio Stromm, livrando-o do sofrimento no processo. Incapaz de
tirar uma vida, mesmo naquelas circunstâncias, Peter pedira a um amigo
programador que desenvolvesse um vírus que congelasse Stromm e seu sósia de
inteligência artificial em um circuito recursivo que, basicamente, o deixaria em
coma até que Peter encontrasse uma maneira de resgatar o Stromm humano sem
liberar o programa Stromm no mundo. Infelizmente, as complicações da sua vida
deixaram pouco tempo para que ele pensasse numa solução e, embora sempre
estivesse com o problema em mente, não tinha feito nenhum avanço. – Stromm
ainda está em coma e faz tempo que desmontei todo o equipamento que não
fazia parte do seu suporte de vida. Então não pode ser ele.
– Quem mais?
– Bom… tem o Edwin Hills, o bilionário dos computadores. Quando você
estava em Hollywood, ele mandou um robô atrás de mim como parte de um
esquema maluco para encenar batalhas entre heróis e vilões para canais de TV
alternativos e fazer apostas para ver quem ganhava. Só que o robô dele era tão,
mas tão tosco… Não era nem feito para lutar. Ou seja, ele anunciava os ataques
antes de cometê-los! Um nerd que nem ele nunca criaria algo tão maligno quanto
aquele robô cortador.
– E o Doutor Octopus? Ele inventou aquelas armas.
– Mas nunca fez muita coisa com robôs. Ele é egoísta demais para deixar uma
máquina matar o Aranha por ele, com exceção dos tentáculos, mas ele acha que
aqueles braços de metal fazem parte de si. E ele ainda está nas notícias depois
daquele lance do Triple X; se ele tivesse fugido depois daquilo, a gente ficaria
sabendo.
– Algum outro robô no seu vasto passado?
Peter tinha pouco a contar além de alguns encontros aleatórios. Havia
inúmeros supervilões com o conhecimento técnico – o Mago, o Arcade e até
mesmo o Doutor Destino –, mas nenhum deles tinha motivos que ele conseguisse
discernir. O Mago costumava atacar o Quarteto Fantástico, e Arcade era
especializado em sósias androides e armadilhas mortais extremamente
elaboradas. E o Destino mal dava atenção para o Homem-Aranha. Certa vez, ele
dera na cara do ditador latveriano, mas isso tinha sido depois de salvar a vida
dele, o que, segundo a noção bizarra de honra do Destino, os tinha deixado
quites.
– E, no fim das contas, Jameson foi o único que disparou meu sentido-aranha.
Ele é meu maior suspeito.
– Ele não é um construtor de robôs.
– Mas a mulher dele é.
– Marla? Você acha que ela está por trás disso também?
– É o que vou descobrir amanhã.
– Mas ela não tem nada contra o Homem-Aranha.
– Mas é casada com Jonah. As pessoas vivem fazendo coisas pelos cônjuges
que não fariam por outros motivos.
MJ abriu um sorriso malicioso.
– Nem me diga. Sou uma das especialistas nesse assunto.
– Bom – Peter disse, acariciando o cabelo dela –, mas existem certas
compensações, não?
– Ahh, pode apostar – ela respondeu, com uma risada sonora. – Essa sua
flexibilidade de aranha tem algumas utilidades bem interessantes.
– Sei fazer algumas coisas bem legais com minha teia também. Eu adoraria
mostrar…
– Talvez… se você se comportar muito bem.
• • • •
O Homem-Aranha sempre se sentia um pouco desconfortável quando seu
trabalho o levava para o Upper East Side. Aqueles provavelmente eram os
terrenos mais caros em todo o país, a região favorita de políticos e pessoas
influentes, e Aranha sempre se sentia como se precisasse colocar uma gravata e
abotoaduras brancas sobre o uniforme antes de ir para lá. Era um tanto nobre
demais para um menino de classe média vindo do Queens.
Mas esse, ele se lembrou, era o antigo e inseguro Homem-Aranha. O que faz
com que as pessoas que moram aqui sejam melhores do que eu?, ele se perguntou
enquanto passava pela Museum Mile em meio ao ar fresco da manhã. A maioria
deles herdou a riqueza, ganhou aparecendo na frente das câmeras ou se aproveitando
de um jeito ou de outro de pessoas. Tipo, se liga, muitos deles são políticos! E um
deles é o J. Jonah Jameson.
Além disso, ele já tinha morado por um curto período perto dali, quando a
carreira de MJ era particularmente lucrativa. E isso não me fazia nem um pouco
melhor do que sou agora, morando em um prédio velho de frente para um rottweiler
maluco que fica tramando contra mim. Sou eu que mantenho essa cidade segura
para eles. Por isso, tenho tanto direito de estar aqui quanto qualquer outra pessoa.
Ainda mais porque sua vida estava em jogo. Ele estava decidido a descobrir se
Marla Jameson era a pessoa por trás da construção dos robôs. Então, empoleirouse
do outro lado da rua do prédio em cuja cobertura moravam ela e Jonah, e ficou
à espreita.
Depois de um tempo, viu uma figura conhecida – de quarenta e poucos anos,
cabelo curto e óculos, séria, mas bonita – saindo do saguão e sendo levada por
dois seguranças até um carro que esperava por ela. Jonah previu que eu
apareceria, ele pensou. Mandou proteger Marla. Mas tudo bem… não quero atacar
a mulher dele, só ver aonde ela está indo. Ele sabia que ela tinha um laboratório na
Universidade Empire State, mas se estava trabalhando em um projeto secreto,
era possível que agisse em alguma outra instalação.
Em silêncio, ele desceu pela lateral do prédio a fim de se aproximar o
bastante para lançar um rastreador aranha no carro dela. Ele confiava em sua
capacidade de rastrear o carro visualmente, mas caso o perdesse no trânsito ou
fosse distraído por algum crime no caminho, o sinal do rastreador o ajudaria a
reencontrá-lo.
No entanto, antes que conseguisse disparar o rastreador, um dos guardas o
avistou e gritou:
– Homem-Aranha, nordeste, alto! – Maldição. Jonah tinha feito um bom
trabalho explicando a eles o que procurar. Tanto esforço para fazer uma abordagem
sutil. Ele não teria como seguir Marla agora.
Então, decidiu conduzir uma entrevista improvisada. Os guardas o cercavam,
mas ele lançou teia em suas armas e pousou em cima do carro.
– Precisamos conversar, Sra. Jameson – ele disse, ao mesmo tempo em que
sentia um zumbido de perigo vindo dela, assim como havia sentido perto de
Jonah. – Qual é a sua relação com os ataques de robôs? – ele exigiu saber.
Mas o sinal de perigo se intensificou, alertando Aranha para novas ameaças
vindas de todos os lados. Outras tropas de segurança estavam surgindo do saguão
e das laterais do prédio, e um impulso repentino levou Aranha a olhar para o
peito, onde vários pontos de raios laser se convergindo.
– Para o chão, Homem-Aranha, ou vamos abrir fogo! – alguém gritou.
– Vocês querem que eu deite no chão? Mas estou tão confortável em pé! – Ele
fez menção de encolher os ombros enquanto falava, mas apenas o suficiente para
posicionar os braços de maneira a disparar uma rede de teia à sua frente como um
escudo. Um instante depois, pulou para trás do carro e se escondeu sob ele,
escorregando por debaixo do veículo estacionado à sua frente, tudo em questão
de segundos. Ao olhar para trás, viu os guardas levando Marla de volta para o
prédio. Ele disparou um rastreador para ser fixado sob o chassi do carro de Marla,
mesmo sabendo que seria bem improvável que desse certo, afinal, achava que a
equipe de segurança de Jameson encontraria e neutralizaria o rastreador antes
de deixar que ele voltasse a ser usado. Ele tinha perdido a sua chance e, seja lá o
que Marla estivesse planejando, ela seria ainda mais cuidadosa dali em diante. Em
vez de tentar confrontar os seguranças, Aranha continuou rastejando sob os
carros até encontrar uma boca de esgoto por onde descer.
Mas agora sei que ela e Jonah estão armando alguma coisa, ele pensou a
caminho da estação de metrô mais próxima da Avenida Lexington para pegar uma
carona para casa. Talvez seja a coisa mais importante que eu precisava descobrir
aqui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário