4 de julho de 1789
É doloroso para o Sr. Weatherall caminhar tanto. Não só isso, mas a região da Maison
Royale onde eles moravam, bem distante da escola e proibida às alunas, não era
exatamente a mais bem-cuidada; era difícil para ele usar muletas ali.
Todavia, ele adorava caminhar quando eu o visitava. Só eu e ele. E eu me perguntava se
era porque víamos um ou outro cervo juntos, observando-nos das árvores, ou se talvez
porque chegávamos a uma clareira banhada pelo sol com um tronco de árvore para se
sentar, fato que nos fazia recordar dos anos que passamos treinando.
Seguimos até lá nesta manhã, e o Sr. Weatherall sentou-se com um suspiro agradecido
enquanto aliviava o peso do pé saudável e, com toda certeza, senti uma onda de nostalgia
por minha antiga vida, quando meus dias eram ocupados com luta de espada com ele e
brincadeiras com Arno. Quando mamãe ainda estava viva.
Eu sentia falta deles. Sentia muita saudade deles.
—Arno deve ter entregado a carta, não? —perguntou ele depois de um tempo.
—Não. Ele devia ter dado a meu pai. Olivier o viu com uma carta.
—Então ele devia e não o fez. E como você se sente em relação a isso?
Minha voz saiu baixa:
—Traída.
—Acredita que a carta poderia ter salvado seu pai?
—Creio que sim.
—E por isso ficou tão calada sobre a pequena questão de seu namorado atualmente
residir na Bastilha?
Eu não disse palavra. Não havia o que dizer. OSr. Weatherall passou um instante com
o rosto virado para um facho de luz do sol que rompia o dossel das árvores — a luz
dançando por seus bigodes e pelas dobras de pele dos olhos fechados —, absorvendo o
dia com um sorriso quase beatífico. Depois, com um breve meneio de cabeça,
agradecendo a mim por permitir-lhe o silêncio, ele estendeu a mão.
—Deixe-me ver a carta de novo.
Procurei em meu colete e lhe entreguei.
—Quem você imagina ser este “L”?
OSr. Weatherall arqueou uma sobrancelha ao me devolver a carta.
—Quem você pensa ser “L”?
— O único “L” em quem consigo pensar é nosso amigo Monsieur Chretien
Lafrenière.
—Mas ele é um Corvo.
—E isto não satisfaz a teoria de que os Corvos conspiravam contra sua mãe e seu pai?
Segui a linha de raciocínio dele.
—Não, só pode significar que alguns deles conspiravam contra minha mãe e meu pai.
Ele riu, coçou a barba.
— Tem razão. “Um indivíduo”, segundo a carta. Mas, pelo que sabemos, ninguém
propôs um novo Grão-Mestre ainda.
—Não —falei baixinho.
—Bem, eis a questão... Agora você é a Grã-Mestre, Élise.
—Eles sabem disso.
— Sabem? Então você me enganou. Diga-me, quantas reuniões teve com seus
conselheiros?
Eu o fitei com olhos semicerrados.
—Mereço meu período de luto.
— Ninguém está afirmando o contrário. Mas já faz dois meses, Élise. Dois meses e
você não conduziu um só assunto dos Templários. Nem um. A Ordem sabe que você é
Grã-Mestre no título, mas você não fez nada para tranquilizá-los de que a direção está em
mãos seguras. Se houver um golpe... Se outro cavaleiro avançar e se declarar Grão-Mestre,
bem, não encontrará muita contestação de sua parte, não é mesmo?
“Uma coisa é o luto por seu pai, porém você precisa honrá-lo. Você é a última na
linhagem dos De la Serre. A primeira Grã-Mestre da França. Precisa sair daqui e provar
que é digna deles, em vez de ficar zanzando aparvalhada por seu château.
— Mas meu pai foi assassinado. Que exemplo eu daria se deixasse seu assassinato
impune?
Ele soltou uma risada breve.
—Ora, corrija-me se eu estiver enganado, mas você não está exatamente fazendo nem
uma coisa nem outra no momento, está? Omelhor curso de ação: você assume o controle
da Ordem e ajuda a orientá-la durante os tempos difíceis à espera. O segundo melhor
curso de ação: você mostra um pouco do espírito dos De la Serre e torna público que
persegue o assassino de seu pai... e talvez ajude a desentocar este “indivíduo”. O pior
curso de ação: você permanece sentada lastimando pela morte de seu pai e de sua mãe.
Assenti.
—Oque devo fazer então?
—Primeiro, deve entrar em contato com Lafrenière. Não mencione a carta, mas diga
que está ávida para assumir o comando da Ordem. Se ele for leal à família, estenderá a
mão. Em segundo lugar, encontrarei um lugar-tenente para você. Alguém que eu saiba
merecer nossa confiança. Terceiro, você deve pensar também em visitar Arno. Deve se
lembrar de que não foi ele quem matou seu pai. A pessoa que matou seu pai foi aquela
que literalmente matou seu pai.

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