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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 21

AÍ VEM O HOMEM - ARANHA 


–ENTÃO,SEUSENTIDO-ARANHA finalmente voltou ao normal? – perguntou tia May. – Sim, sim – Peter respondeu. Ele estava deitado na cama, apoiado sobre travesseiros, com Mary Jane sentada ao seu lado, acariciando seu cabelo, enquanto tia May servia uma bandeja com sua famosa canja de galinha. Seria o paraíso se ele não estivesse sentindo dores em todo o corpo. Mas isso também iria passar. – Reed Richards tirou os restos do chip de mim, mas já estava desligado de vez. E ele não encontrou nenhum sinal de dano permanente no meu sistema nervoso. – Hmm… mas você recuperou seu sentido, não? – tia May perguntou. – Não acha que a gente devia testar? – ela perguntou, erguendo uma colherada de canja quente e arqueando a sobrancelha, como se pedisse permissão para jogar em cima dele. – Não, não, não precisa! – Peter disse. – O Tocha teve a mesma ideia e, acredite em mim, estou pronto para o perigo de novo. – Ele coçou a orelha que a bola de fogo de Johnny Storm havia chamuscado de leve. – Bom, fico feliz em saber – tia May disse, colocando a colher de volta dentro da tigela. – E fico feliz que o chip era uma via de mão única – acrescentou MJ. – Já tem bandidos demais sabendo sua identidade. E eu não gostaria de ter alguém espiando a gente durante… bom, você sabe – tia May desviou os olhos, escondendo um sorriso. – Mesmo que fosse só um programa de computador. – Pelo que eu ouvi dizer – Peter respondeu –, Electro não vai lembrar de nada. Parece que os últimos meses foram bastante confusos para ele. Não tem nem sinal de que ele lembra como controlar máquinas a distância nem nada desse tipo. – E o Consertador? – MJ acrescentou. – Ah. Nem sinal dele. Mas não estou muito preocupado. Ele foi só mais uma peça nessa história toda. Ele percebeu o que estava acontecendo e deu o fora. – Peter havia entrado em contato com Felicia Hardy, que não soube explicar direito como tinha perdido o rastro dele. Ela suspeitava que Mason havia mandado o robô para umas férias a fim de acobertar sua partida, depois providenciou para que ele fosse enviado de volta como carga, o que seria mais barato e explicaria por que Felicia não notara seu retorno (isso supondo que ele ainda estivesse vivo). Talvez tivesse mandado o robô de volta para servir como isca para o Mestre dos Robôs, caso seu ex-cliente tentasse se vingar pela deserção. Eles nunca saberiam ao certo a menos que encontrassem o verdadeiro Mason, o que não era tão importante assim. – Então ele ainda está à solta e continua sendo um chato, mas acho que vai ficar na miúda por um tempo. – Ele suspirou. – É incrível como a gente passa tanto tempo se esforçando para fazer as coisas voltarem ao “normal”. Mary Jane se debruçou e deu um beijo na bochecha dele. – Bom, eu particularmente estou feliz por você ter voltado a ser como era. O nosso “normal” estava indo muito bem, obrigada. – Você tem razão, estava mesmo. E me desculpem pelo jeito como eu agi. Eu deveria ter dado ouvido a vocês, confiado em vocês. Estava lutando tanto para me esconder da minha própria culpa, para não admitir meus erros, que fugi de tudo que pudesse ajudar a ver as coisas de um ângulo melhor. Principalmente de vocês. – Não foi culpa sua, querido – disse tia May. – Aquele chip no seu pescoço estava te deixando confuso. – Só porque eu deixei. Todo mundo me falou que os avisos do meu sentidoaranha não eram lógicos, mas eu não dei ouvidos. E eu também deveria ter notado isso! Agora eu entendo que, toda vez que tinha um formigamento de perigo com Jonah ou a mulher dele, foi só depois que vi ou ouvi a chegada deles. Só depois que a inteligência artificial no chip registrou a presença deles e ativou o sentido. Se eles realmente fossem perigosos, eu teria percebido que estavam se aproximando antes de ver ou ouvir os dois. Isso deveria ter feito com que eu me tocasse de que havia alguma coisa errada com esses sinais de perigo. Mas não parei para questionar os sinais porque eles estavam me falando o que eu queria ouvir. Eu tive como certo de que estava com a razão e me aproveitei de tudo que reforçasse isso, mesmo que não fizesse sentido. Eu estava agindo… feito Jameson. Ele balançou a cabeça. – Inacreditável. Eu estava sendo cabeça-dura e paranoico, precisei do Jameson para descobrir o verdadeiro vilão e me fazer ver as coisas com clareza, e foi Electro quem salvou o mundo. Isso sim que é inversão de papéis. Tia May abriu um dos seus sorrisos sábios e astutos. – Bom, isso mostra que todo mundo sempre pode receber uma ajudinha de vez em quando, mesmo que de origens inesperadas. Por isso é tão importante ver o melhor em todas as pessoas. – E estar disposto a admitir o que não é tão bom na gente mesmo – Peter acrescentou. – Bom, em uma coisa você estava certo – MJ disse. – O Consertador fazia parte de tudo. Peter balançou a cabeça. – Eu tropecei na resposta certa pelos motivos errados. Isso não é estar certo. – Não? – Não. Pelo mesmo motivo que falo para os meus alunos que precisam mostrar o trabalho nas provas. – Pensei que isso fosse para ter certeza de que eles não colavam. – É só uma parte do porquê… devia ser, pelo menos. O verdadeiro motivo é que a resposta não é verdadeiramente certa a menos que você entenda o que ela significa e por que ela está certa. Afinal, o que importa não é uma única resposta, mas saber como encontrar as respostas para os problemas que é preciso resolver na vida. Tia May piscou, afastando as lágrimas, sorrindo para ele. – Tio Ben estaria muito orgulhoso do homem que você virou, Peter. Eu estou. Ele pegou a mão dela. – Obrigado, tia May. Em seguida, MJ pegou sua outra mão e se aconchegou nele. E subitamente o “normal” não parecia nada ruim. Não vai durar, seu ceticismo interno lhe disse. Eu sei, ele respondeu. E ficou Não vai durar, seu ceticismo interno lhe disse. Eu sei, ele respondeu. E ficou feliz pela dúvida. Porque permitia que ele desse muito mais valor ao que tinha agora… e garantia que estaria pronto para defender sua vida da próxima vez que alguma coisa viesse ameaçá-la. • • • • – Achei – disse Dawn Lukens, lendo o artigo da Wikipédia na tela do seu laptop. Ela andava mais bem-humorada ultimamente, depois que Bobby Ribeiro acordara e havia mostrado sinais de que não demoraria a se recuperar por completo. Além disso, as contas médicas dele haviam sido pagas por um doador anônimo e, como os pedidos de entrevista do Clarim haviam parado mais ou menos na mesma época, Peter tinha uma leve suspeita de que sabia quem era o doador. Todos os outros alunos tinham recebido alta do hospital, embora Angela Campanella ainda tivesse que ficar se recuperando em casa por mais uma ou duas semanas. Claro, não faltavam meninos da escola para levar as lições de casa para ela e não estudar junto com ela. – Um arenque vermelho – Dawn continuou – é um arenque ou salmão defumado. Parece que eram arrastados pelas trilhas das raposas para que os cães de caça não encontrassem o rastro delas. Peter ponderou sobre isso por um momento. – Quer saber? Isso levanta mais dúvidas do que dá respostas. – Bom, parece que ninguém tem muita certeza sobre a origem da expressão. Também tem uma canção de ninar americana que fala que existem tantos morangos no mar quanto arenques na madeira. – Viu? – Peter disse a ela. – Até que você tem algumas respostas, afinal. Ela ficou vermelha. – Olha… Desculpa pelo que te falei no hospital… Peter ergueu a mão para interromper. – Você tinha todo o direito. Você tinha razão: eu estava me recusando a encarar a realidade. Compensando minha sensação de culpa, tentando fingir que tinha todas as respostas. Acho que eu estava exagerando. – Você não estava tão mal. – Bom, você não viu o meu pior. – Pensativo, ele olhou para ela por um instante. – Como você está? Ainda pensa em desistir de dar aulas? Ela demorou um pouco para responder. – Eu fiz o que você falou… esperei para decidir. Você não estava tão equivocado naquele dia. Mas… ainda tenho as minhas dúvidas. Não acho mais que eu possa dar respostas a esses alunos. – Talvez não seja esse o trabalho de um professor – ele disse, devagar. – Talvez seja mais importante ajudar os alunos a aprender a fazer boas perguntas. A admitir que eles não têm todas as respostas para que mantenham a mente aberta a novas possibilidades. Talvez a melhor coisa que a gente possa fazer por elas é admitir que também estamos aprendendo, mostrar que não tem problema nenhum em dizer “não sei”. Ela o examinou por um tempo, depois sorriu. – Uma coisa que eu não tenho vergonha de admitir é que eu estava errada em relação a você. Fico feliz por isso. – Não se preocupe – ele respondeu. – Estou acostumado com essa coisa das pessoas estarem erradas em relação a mim. Mas não ligo mais para isso, porque sei como é ser uma delas. • • • • J. Jonah Jameson andava bastante quieto no Alerta ultimamente. Ele não tinha exatamente aparecido e pedido desculpas por acusar Homem-Aranha de envolvimento com os robôs, mas também não andava atacando o herói com tanta ferocidade. Então, Aranha decidiu fazer uma visita para ele e descobrir se havia alguma maneira de aumentar ainda mais o entendimento a que eles haviam chegado depois da fuga da prisão. A sala de Jonah ainda tinha alarmes nas janelas, então Aranha esperou no teto da garagem acima do carro dele. Quando JJJ se aproximou no fim da tarde, Aranha se anunciou: – Estou vendo que você não está mais cercado por seguranças. Eu fico lisonjeado. Jonah não ficou particularmente espantado; parecia até estar esperando por isso. – Não fique – ele disse, num rosnado mais calmo do que o normal. – Aqueles homens estavam me custando uma fortuna. – Sei. Desculpa por isso. – Limpando a garganta, desceu para ficar frente a frente com Jonah. – Estou falando sério. Vim aqui para pedir… desculpas por ter acusado você. Desculpa por ter ido atrás de você e da sua mulher. E… – Esta era a parte mais difícil. – E queria agradecer por me ajudar a ver as coisas direito. Eu não teria conseguido sem você. Jonah relaxou o peito estufado e sorriu, o que era raro. – Ora, ora, ora. Ouvir você falar isso é música para os meus ouvidos, HomemAranha. O que você acha de procurarmos umas câmeras para você repetir na frente delas? – Não força, Jonah. – Ele riu. – Olha… Quero acreditar que nós dois podemos aprender alguma lição com essa história toda. Nós quase não pegamos o bandido porque estávamos ocupados demais achando que tínhamos razão em relação ao outro. Talvez seja hora de admitir que podemos aprender um com o outro. Talvez seja hora da gente começar a confiar um no outro. O sorriso de Jameson logo se desfez, sendo substituído por uma expressão incrédula. – Você está tirando sarro da minha cara? – ele vociferou. – Acha que vou confiar em você depois da maneira como você agiu? Atormentando pessoas inocentes por causa de suspeitas infundadas? Agindo por impulso sem pensar nas consequências? Colocando a vida de inocentes em risco enquanto lutava com robôs no meio da cidade? – Mas Jonah… – Não vem com essa, escalador de paredes! Eu sei o que você vai dizer, que o bandido estava mexendo com seu “sentido-aranha”. Mas isso não é desculpa! Foi você quem decidiu influenciar esses instintos. E isso prova que tudo que sempre falei sobre você é verdade. Você pode achar que é um dos mocinhos, mas na verdade não passa de um moleque egocêntrico e inconsequente que acha que isso tudo não passa de uma brincadeira! – Não é justo! Eu faço isso para proteger as pessoas! – Pessoas como Paul Berry? Algum dia você vai virar homem e fazer a coisa certa por aquela viúva ou vai continuar se escondendo atrás dessa máscara? – O que aconteceu com o marido dela é algo com que vou ter que conviver pelo resto da minha vida, Jonah. E vou fazer o possível para ajudar aquela mulher. Mas existe muita coisa em jogo para eu expor minha identidade no tribunal. – Então é isso. Você vai fazer tudo o que puder, desde que isso não te custe nada. – Jameson escarneceu. – Você se acha heroico, mas pensa que seu poder pode te fazer sair impune de tudo. Você não entende o que significa assumir responsabilidade pelas consequências do que você faz! É isso que te torna uma ameaça, Homem-Aranha, e alguém precisa ficar repetindo isso para você, dizendo isso para o mundo todo até você acordar, prestar atenção e jogar essa máscara idiota no lixo de uma vez por todas! Homem-Aranha olhou fixamente para ele, pasmo. Poder… responsabilidade. Ele nunca tinha ouvido Jameson usar aqueles termos antes. Ele nunca havia entendido por que aquele homem o atacava de maneira tão ferrenha. E, sem dúvida, nunca havia pensado por um momento sequer que J. Jonah Jameson o lembraria do tio Ben. Um pensamento passou pela sua cabeça. Jameson nunca disparou meu sentidoaranha. Não de verdade. Talvez isso significasse alguma coisa. Se o que Jonah estava tentando lhe dizer não era uma ameaça, talvez ele devesse dar ouvidos. Ele tem razão, Aranha se deu conta. Se as duas últimas semanas provam alguma coisa, é que eu posso fazer muita besteira na vida. Todo dia, corro o risco de passar dos limites… a menos que seja lembrado constantemente do que posso me tornar. Ou a menos que tenha uma mosca particular na minha sopa. Homem-Aranha riu, pegando Jameson de surpresa. Depois, assustou ainda mais o pobre dono do jornal, lançando os braços em torno dele e dando um beijo na sua boca através da máscara. – Nunca mude, bigodudo! – ele gritou, saltando para a beirada do estacionamento. – Você é perfeito do jeitinho que você é! Enquanto lançava a teia para atravessar a cidade, pôde ouvir os berros de Jameson: – Não duvide disso, seu lunático escalador de paredes! Enquanto você continuar à solta, vou seguir todos os seus movimentos! Você nunca vai ter um momento de paz da incansável perseguição de J. Jonah Jameson! E tudo estava bem na vida do Homem-Aranha.

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