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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 51

25 de julho de 1789

Já era dia quando eles chegaram. Infiltraram-se no pátio, o barulho dos passos alcançando-me até onde eu os aguardava com uma pistola na mão, no hall escuro e coberto de tábuas. Eu, que estava à espera, prontinha para eles. E enquanto subiam a escada para a porta que eu havia deixado entreaberta de propósito, tal como vinha fazendo todo dia, puxei o cão da pistola e a ergui. A porta rangeu. Uma sombra caiu no retângulo de luz do sol refletido nas tábuas do piso e se alongou pelo chão enquanto uma figura atravessava a soleira e adentrava na escuridão de minha casa. — Élise — disse ele, e percebi que já fazia muito tempo que não ouvia outra voz humana, e como o som daquela era doce. E que alegria aquela voz pertencer a ele. Depois me lembrei de que ele poderia ter salvado meu pai e que não o fez, e que se uniu aos Assassinos. E, pensando bem, quem sabe os dois fatos não estivessem relacionados? E mesmo que não estivessem... Acendi uma lamparina, ainda apontando a arma para ele, satisfeita ao ver que ele teve um leve sobressalto quando a chama ganhou vida. Por alguns instantes simplesmente nos olhamos, os rostos inexpressivos, até que ele assentiu, apontando a pistola. —Que belo desejo de boas-vindas. Abrandei-me um pouco ao ver o rosto dele. Mas só um tantinho. —Todo cuidado é pouco. Especialmente depois do que aconteceu. —Élise, eu... — Já não fez o bastante para retribuir a gentileza de meu pai? — retruquei incisivamente. —Élise, por favor. Não pode acreditar que matei Monsieur de la Serre. Seu pai... Ele não era o homem que você pensava ser. Nenhum de nossos pais era quem aparentava. Segredos. Como eu detestava o sabor deles. Véritéscachées. Por toda minha vida. — Sei exatamente quem meu pai era, Arno. E sei quem era o seu. Imagino que isto fosse inevitável. Você, um Assassino, eu, uma Templária. Vi a percepção clarear lentamente no rosto dele. —Você...? —começou ele, gaguejando. Assenti. — Isto o choca? Meu pai sempre quis que eu seguisse os passos dele. Agora só me resta vingá-lo. —Eu juro que não tive nada a ver com a morte dele. —Ah, mas você teve... —Não. Não. Juro por minha vida que eu não... Logo a carta estava em minha mão. Agora eu a erguia. —Por acaso isto é...? —disse ele, semicerrando os olhos. —Uma carta endereçada a meu pai no dia de seu assassinato. Encontrei-a no chão do quarto dele. Lacrada. Quase senti pena de Arno, notando o sangue sumir de seu rosto enquanto ele entendia o que tinha feito. Afinal, ele também amara papai. Sim, eu quase senti pena dele. Quase. A boca de Arno tremia. Seus olhos estavam arregalados e vidrados. —Eu não sabia —disse ele por fim. —Nem meu pai —respondi simplesmente. —Como eu poderia saber? — Apenas vá embora — ordenei a ele. Detestei ouvir o choro em minha voz. Odiei Arno. —Apenas vá. E ele se foi. Então bloqueei a porta e em seguida desci a escadaria dos fundos ao escritório da governanta, onde arrumei minha cama. Ali, abri uma garrafa de vinho. O melhor para me ajudar a dormir. 

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