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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 43

12 de janeiro de 1789

Estava escuro e enfumaçado na The Butchered Cow, conforme imaginei que sempre fosse, e a escuridão era opressiva, apesar do barulho no lugar. Sabe do que me lembrou? Da taberna em Calais. Só que a taberna Os Chifres era afastada dos campos severos e da vida ainda mais severa os campos de Rouen. Eu tinha razão. Oinverno havia chegado cruel. Mais do que nunca. O cheiro de cerveja parecia pender pelas tábuas úmidas como uma névoa; estava entranhado nas paredes, na madeira e nas mesas às quais os bebedores sentavam-se — não que se importassem. Alguns estavam debruçados sobre seus canecos, tão curvados que a aba do chapéu quase tocava o tampo da mesa, falando baixinho e matando a noite com resmungos e falatório; outros estavam em grupos, sacudindo dados em copos ou rindo e brincando. Batiam os canecos vazios na mesa e pediam mais cerveja, levada a eles pela única mulher no ambiente, uma criada sorridente que tinha tanta prática em servir cerveja quanto em escapulir dançando das mãos dos homens. Foi nesta taberna que vim parar, escapando de um vento amargo que assoviava e rodopiava enquanto eu abria a porta, parando por um segundo à soleira, batendo os pés para me livrar da neve. Eu usava uma capa que quase arrastava no chão, um capuz puxado, escondendo meu rosto. A tagarelice ruidosa na taberna de repente foi silenciada, substituída por um murmúrio. As abas dos chapéus baixaram ainda mais; os homens olhavam enquanto eu me virava para fechar a porta, parando em seguida por um instante nas sombras. Atravessei o ambiente, as botas estalando nas tábuas, até um balcão onde estavam o estalajadeiro, o garçom e dois fregueses segurando canecos, um deles olhando o chão, o outro observando, com olhos pétreos e boca firme. Junto ao balcão, puxei o capuz para trás e revelei o cabelo ruivo, que sacudi um pouco para soltar. A criada franziu os lábios e levou as mãos à boca quase que por reflexo, o peito balançando um pouco por causa do gesto. Olhei cuidadosamente pelo cômodo, demonstrando que não me deixaria intimidar pelo ambiente. Os homens também me fitavam com cautela, não mais examinando os tampos das mesas, fascinados e em transe com a recém-chegada. Alguns lamberam os lábios e houve muitos cutucões, alguns risinhos. Observações obscenas foram trocadas. Apreendi tudo e virei-me para dar as costas ao salão, aproximandome do balcão, onde um dos fregueses havia se afastado para permitir que eu me acomodasse. O outro, porém, continuou onde estava, de forma que se colocou perto de mim, me olhando deliberadamente de cima a baixo. — Boa noite — cumprimentei o atendente do bar —, espero que possa me ajudar... Procuro por um homem. —Falei aquilo em voz alta o bastante para que toda a taberna ouvisse. — Parece que você veio ao lugar certo — disse o bêbado com nariz de batata a meu lado, asperamente, embora tivesse feito o gracejo para todos ali, que trovejaram com uma gargalhada. Sorri, ignorando-o. —Ele atende pelo nome de Bernard —acrescentei. —Tem uma informação que me é necessária. Disseram-me que eu poderia encontrá-lo aqui. Todos os olhos se viraram para um canto da taberna, onde Bernard estava sentado, de olhos arregalados. —Obrigada —agradeci. —Bernard, talvez possamos sair por um momento a fim de conversarmos. Bernard me encarou, mas não se mexeu. —Vamos, Bernard, eu não mordo. E então o Nariz de Batata se afastou do balcão e ficou de frente para mim, encarandome. Seu olhar ficou mais feroz, se é que era possível, mas o sorriso estava relaxado e ele oscilava ligeiramente, ali de pé. — Ora, espere aí um minuto, garotinha — disse ele, com um tom de escárnio. — Bernard não vai a lugar nenhum, principalmente não antes de você nos dizer o que tem em mente. Franzi o cenho um pouco. Olhei-o com ar de superioridade. —E que tipo de parentesco você tem com Bernard? —perguntei educadamente. —Bem, parece que acabo de tornar-me guardião dele —respondeu o Nariz de Batata. —Protegendo-o de uma meretriz ruiva que parece muito cheia de si, se me permite dizer. Houve uma gargalhada de toda a taberna. —Meu nome é Élise de la Serre, de Versalhes. —Sorri. —Para ser franca, se não se importa que eu diga, é o senhor que está cheio de si. Ele bufou. —Duvido que seja esta a verdade. Pelo que vejo, logo será o fim da linha para gente como você e de sua laia. —Ele jogou as últimas palavras por sobre o ombro, arrastandoas um pouco. —Osenhor ficaria surpreso —respondi tranquilamente. —Nós, as meretrizes ruivas, temos o hábito de concluir um trabalho. O trabalho, neste caso, é falar com Bernard. Pretendo que ele seja concluído. Sendo assim, sugiro que volte à sua cerveja e deixe-me cuidar de meus afazeres. —E que afazeres seriam esses? Pelo que posso ver, o único afazer de uma mulher em uma taberna é servir a cerveja, e receio que este cargo já esteja ocupado. —Mais risadas, desta vez lideradas pela criada. —Ou talvez você tenha vindo nos entreter. É isso mesmo, Bernard, você pagou uma cantora para esta noite? —O Nariz de Batata lambeu os lábios, que já estavam úmidos. — Ou talvez outro tipo de diversão? — Escute, o senhor está embriagado, esquece-se de suas maneiras, e já que é assim, também vou me esquecer do que disse, com a condição de que você fique de fora. Minha voz saiu dura como aço, os homens na taberna perceberam. Mas não o Nariz de Batata, que manteve-se alheio à mudança no clima, ainda fazendo chacota. —Talvez você esteja aqui para nos entreter com uma dança —disse ele em voz alta. — E o que você esconde aí embaixo? —E, com isso, ele estendeu a mão para puxar minha capa. Aí ficou chocado. Minha mão foi à dele. Semicerrei os olhos. Daí o Nariz de Batata recuou e pegou uma adaga no cinto. — Ora, ora — disse ele em voz alta —, parece-me que a meretriz ruiva porta uma espada. — Ele acenou com a faca. — Qual é a necessidade de carregar uma espada, mademoiselle? Suspirei. —Ah, não sei. Caso precise cortar um queijo? Por que isto importaria ao senhor? — Ficarei com ela, se não se importa — disse ele —, depois você poderá seguir seu caminho. Atrás de mim, os outros fregueses observavam de olhos arregalados. Alguns começaram a sair, sentindo que era improvável que a visitante cedesse sua arma de boa vontade. Em vez disso, depois de um momento de pretensa reflexão, estendi a mão à capa. O Nariz de Batata gesticulava com a adaga de modo ameaçador, mas mesmo assim estendi as palmas das mãos e agi lentamente, puxando a capa para trás. Por baixo, eu vestia um colete de couro. A guarda da espada estava junto à minha cintura. Alcancei-a com o braço oposto, sem jamais tirar os olhos do Nariz de Batata. — A outra mão — disse o Nariz de Batata, sorrindo devido à própria astúcia, insistindo com a faca. Obedeci. Com o dedo e o polegar, usei a outra mão para retirar a espada pelo punho, delicadamente. Ela deslizou lentamente da bainha. Todos prenderam a respiração. Aí, com um movimento súbito de meu pulso, virei a espada para cima e a retirei da bainha, de forma que logo ela estava em meus dedos, e no seguinte já não estava mais. Aconteceu em um piscar de olhos. Por uma fração de segundo, o Nariz de Batata ficou boquiaberto, encarando o local onde a espada deveria estar; depois seus olhos se desviaram a tempo de flagrá-la descendo para a mão que segurava a faca. Mão esta que ele tirou do caminho, a espada batendo na madeira, onde ficou presa, vibrando ligeiramente. Um sorriso de vitória já começava a se formar na boca do Nariz de Batata antes que ele percebesse que tinha se exposto, sua faca apontando para o lado errado, dando-me espaço suficiente para avançar, girar e golpeá-lo no nariz com meu braço. O sangue jorrou de seu nariz e ele revirou os olhos. Os joelhos encontraram as tábuas enquanto ele arriava, parecendo hesitar enquanto eu avançava, pousando minha bota no peito dele a fim de empurrá-lo gentilmente para trás; daí pensei melhor, afasteime e, em vez disso, dei-lhe um chute no rosto. Ele caiu de cara e ficou imóvel, respirando, porém desmaiado. Houve silêncio na taberna enquanto eu acenava para Bernard e recuperava minha espada. Bernard já estava cambaleando obedientemente para o meu lado enquanto eu guardava minha espada na bainha. —Não se preocupe —falei a ele quando guardou alguma distância, o pomo de Adão subindo e descendo —, você não corre perigo... A não ser que pretenda me chamar de meretriz ruiva. —Olhei para ele. —Pretende me chamar de meretriz ruiva? Bernard, mais jovem, mais alto e mais magro do que o Nariz de Batata, meneou a cabeça vigorosamente. —Ótimo, vamos resolver isso lá fora. Olhei em volta, verificando se havia mais algum desafiante — os fregueses, o proprietário e a criada... todos tinham encontrado algo de interesse para examinar a seus pés e, satisfeita, conduzi Bernard para fora. — Muito bem — falei assim que chegamos lá —, disseram-me que você pode saber algo do paradeiro de um amigo meu... Ele atende pelo nome de Mowles.

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