14 de julho de 1789
Paris encontrava-se em tumulto enquanto eu andava pelas ruas. Já tem estado assim há
mais de duas semanas, desde que vinte mil dos homens do rei chegaram à cidade para dar
um fim às perturbações, bem como para ameaçar o conde de Mirabeau e seus suplentes
do Terceiro Estado. Depois, quando o rei exonerou seu ministro das finanças, Jacques
Necker, um homem que muitos acreditavam ser o salvador do povo francês, houve outros
levantes.
Dias atrás, a prisão da Abadia foi invadida para libertar os guardas detidos por se
recusarem a atirar em manifestantes. Ultimamente dizem que o soldado comum anda
entregando sua lealdade ao povo, e não ao rei. Aparentemente a Assembleia Nacional —
agora chamada de Assembleia Constituinte — está no poder. Criaram sua própria
bandeira: uma tricolore, que pode ser vista por toda parte. E se alguma vez houve um
símbolo do predomínio crescente da Assembleia, era esta bandeira.
Desde a revolta na prisão da Abadia, as ruas em Paris ficaram repletas de homens
armados. Treze mil deles se uniram à milícia do povo e percorrem os distritos à procura
de armas, as ordens para encontrar armas tornando-se cada vez mais sonoras e intensas.
E nesta manhã, chegaram a um crescendo.
Logo cedo, a milícia invadiu o Hôtel des Invalides e colocou as mãos em mosquetes,
dezenas de milhares de mosquetes, segundo dizem. Mas não tinham pólvora, então agora
precisam de pólvora. Onde haveria pólvora?
Na Bastilha. E era para lá que eu estava indo. De manhã cedo, em uma Paris fervendo
de fúria e vingança reprimida. Não era um bom lugar para se estar.
ii
Olhando em volta, enquanto me apressava pelas ruas, demorei para me dar conta, mas
depois vi que as multidões — um misto de corpos precipitados em um tumulto — na
realidade recaíam em dois grupos distintos: aqueles que pretendiam se preparar para o
problema iminente, protegendo-se, bem como às suas respectivas famílias e aos seus
bens, fugindo dos problemas porque desejavam evitar o conflito ou, como eu, porque
estavam com medo de ser o alvo do problema.
E aqueles que pretendiam criar o problema.
No entanto, o que distinguia os dois grupos? Armas. Os que carregavam armas —vi
forcados, machados e bastões sendo brandidos e erguidos — e a localização das armas.
Um sussurro se tornou um grito, que se tornou um clamor: onde estão os mosquetes?
Onde estão as pistolas? Onde está a pólvora? Paris estava a ponto de explodir.
Será que tudo aquilo poderia ter sido evitado?, perguntei-me. Poderíamos nós, os
Templários, ter evitado que nosso amado país chegasse àquele impasse pavoroso,
oscilando à beira de um precipício de mudanças jamais imaginadas?
Ouvi gritos — gritos por “liberdade!” misturados a relinchos e berros de animais
assustados e dispersos.
Cavalos resfolegavam, sendo impelidos por seus condutores em pânico e a
velocidades perigosas em meio às ruas lotadas. Pastores tentavam levar o gado assustado e
de olhos arregalados para a segurança. O fedor de esterco fresco era denso; porém, mais
do que isso, havia outro cheiro em Paris. O cheiro da rebelião. Não, não da rebelião, da
revolução.
E por que eu estava nas ruas, e não ajudando os criados a cobrir com tábuas as
janelas da propriedade dos De la Serre?
Por causa de Arno. Porque, embora eu odiasse Arno, não suportava ficar parada —
não enquanto ele corria perigo. A verdade era que eu nada tinha feito a respeito da carta
de Jennifer Scott. O que o Sr. Weatherall, minha mãe e meu pai teriam pensado sobre
isso? Eu, uma Templária —não, uma Grã-Mestre Templária, não menos do que isso —,
sabendo muito bem que um dos nossos estava a ponto de ser descoberto pelos
Assassinos e sem nada fazer — nada mesmo — a respeito? Esquivando-se nos andares
despovoados de sua propriedade em Paris como uma viúva excêntrica, velha e solitária?
Uma coisa direi desta rebelião: não há nada melhor para incitar uma garota à ação, e
muito embora meus sentimentos por Arno não tivessem mudado — não é como se de
repente eu tivesse deixado de odiá-lo por não ter entregado a carta —, eu ainda queria
alcançá-lo antes da turba.
Tinha esperanças de chegar antes deles, mas mesmo enquanto corria para Saint-
Antoine, ficou evidente que eu não estava à frente de uma maré de pessoas que seguiam
para a mesma direção; na verdade, eu fazia parte dela, unindo-me a um amontoado de
partisans, milicianos e mercadores de toda sorte, os quais brandiam armas e bandeiras e
avançavam para aquele grandioso símbolo da tirania do rei, a Bastilha.
Praguejei, sabendo que estava atrasada, mas permanecendo junto à multidão,
correndo entre grupos de pessoas e tentando, de algum modo, chegar à frente da turba.
Com as torres e baluartes da Bastilha visíveis ao longe, a multidão pareceu reduzir o
ritmo de repente e um grito se elevou. Na rua, encontrava-se uma carroça eriçada de
mosquetes, provavelmente retirados do arsenal, e havia homens e mulheres entregando-os
a um mar de mãos estendidas e agitadas. O clima era jovial, até mesmo comemorativo.
Havia a sensação de que seria fácil.
Passei abrindo caminho aos empurrões pelas fileiras de corpos apertados, ignorando
o palavreado que me lançavam. A turba era menos densa do outro lado, mas agora eu via
um canhão sendo levado pela rua. Era manobrado por homens a pé, alguns fardados,
alguns nos trajes de partisans, e por um momento perguntei-me o que ia acontecer, até que
o grito se elevou: “Os Gardes Françaises estão conosco!” E, dito e feito, ouvi histórias de
soldados voltando-se contra seus comandantes; ouvi o falatório de que cabeças de
homens foram empaladas.
Não muito longe, vi um cavalheiro bem-vestido que entreouviu o mesmo. Ele e eu
trocamos um breve olhar e vi o medo nos olhos dele. Ele estava pensando o mesmo que
eu: estaria ele em segurança? Até que ponto iriam aqueles revolucionários? Afinal, a causa
deles tinha sido apoiada por muitos nobres e integrantes dos outros Estados, e o próprio
Mirabeau era um aristocrata. Mas isto teria importância no levante? Quando chegasse a
hora da vingança, eles fariam distinção?
A batalha na Bastilha começou assim que cheguei lá. No caminho à prisão, tinha
ouvido que uma delegação da Assembleia havia sido convidada a entrar para discutir os
termos com seu diretor, De Launay. Porém, a delegação já estava ali dentro havia três
horas, fazendo o desjejum, e a multidão do lado de fora ficava cada vez mais indócil.
Nesse meio-tempo, um dos manifestantes subiu do telhado de uma perfumaria até as
correntes que seguravam a ponte levadiça e começou a cortar as correntes. Assim que
virei a esquina e a Bastilha entrou em meu campo de visão, ele finalizou a tarefa. A ponte
caiu com um forte estrondo que pareceu reverberar por toda a região.
Todos nós a vimos cair em um homem que estava embaixo. Um sujeito com azar
suficiente para estar no lugar errado na hora errada, que em um momento estava de pé na
margem do fosso, brandindo um mosquete e instigando aqueles que tentavam soltar a
ponte levadiça e, no instante seguinte, desaparecera em uma névoa de sangue e
emaranhado de membros projetando-se em ângulos horrendos sob a ponte.
Um urro da multidão se elevou. A vida perdida daquele infeliz não era nada
comparada à vitória de derrubar a ponte levadiça. No instante seguinte, a turba começou a
fluir pela abertura, entrando no pátio externo da Bastilha.
iii
E veio a reação. Ouvi um grito saído da direção das muralhas e um disparo de mosquete,
o qual foi seguido por uma nuvem de fumaça que se elevou como um sopro de pólvora
dos baluartes.
Abaixo, agachamo-nos para nos proteger enquanto balas de mosquete zuniam na
pedra e no calçamento ao redor, e ouvi mais gritos. Porém, aquilo não foi o bastante para
dispersar a multidão. Como quem cutuca um ninho de vespas com uma vareta, o tiroteio,
longe de dissuadir os manifestantes, só os deixou mais coléricos. Mais decididos.
Além disso, naturalmente, eles tinham canhões.
—Fogo! —Veio um berro de não muito longe dali, e vi os canhões pinoteando com
imensas nuvens de fumaça antes de as balas arrancarem pedaços da Bastilha. Adiante,
mais homens armados. Os mosquetes nas mãos dos invasores eriçavam-se acima de suas
cabeças como os espinhos de um ouriço.
Os milicianos haviam assumido o controle dos prédios à nossa volta, e havia fumaça
saindo das janelas. A casa do diretor da Assembleia estava em chamas, pelo que disseram.
O cheiro de pólvora misturava-se ao fedor de fumaça. Mais um grito de ordem veio da
Bastilha, e depois uma segunda saraivada de tiros. Abaixei-me atrás de uma mureta de
pedra. Ao meu redor, mais berros.
Enquanto isso, a multidão já atravessava uma segunda ponte levadiça e tentava
transpor um fosso. Atrás de mim, tábuas eram arrancadas e usadas para formar uma
ponte para o interior da prisão. Logo estariam passando.
Mais tiros foram disparados. Os canhões dos manifestantes responderam. Pedras
caíam à nossa volta.
Ali, em algum lugar, estava Arno. De espada em riste, juntei-me aos manifestantes que
jorravam para dentro.
Do alto, os disparos de mosquete cessaram, a batalha vencida por ora. Tive um
vislumbre do diretor da Assembleia, De Launay. Tinha sido preso e falavam em levá-lo ao
Hôtel de Ville, a prefeitura de Paris.
Por um momento permiti-me ter um instante de alívio. A revolução mantivera a
frieza; não haveria banho de sangue.
Mas eu estava enganada. Um grito se elevou. Como um idiota, De Launay deu um
pontapé em um homem da multidão e, enfurecido, o tal sujeito saltou para a frente e lhe
cravou uma faca no corpo. Os soldados que tentavam protegê-lo foram empurrados pela
turba e De Launay desapareceu debaixo de uma massa fervilhante de corpos. Vi lâminas
subindo e descendo em arco, jatos de sangue formando arco-íris e um grito demorado e
penetrante, como o de um animal ferido.
De súbito houve uma aclamação coletiva e uma estaca se elevou acima da multidão.
Nela estava a cabeça de De Launay, a carne do pescoço com um corte irregular e
ensanguentada, os globos oculares revirados nas órbitas.
A turba soltou gritos e uivos, os rostos sujos de sangue encarando alegremente seu
troféu enquanto este era sacudido para cima e para baixo na estaca, desfilando pelas
tábuas e pontes levadiças, sobre o corpo estropiado e esquecido do manifestante
esmagado pela ponte, tomando as ruas de Paris, onde sua visão inspiraria outros atos de
sanguinolência e barbárie.
Naquele momento, entendi que era o fim de todos nós. De todos os da França,
homens e mulheres, era o fim. Independentemente de inclinação política: mesmo que
falássemos da necessidade de mudança; mesmo que concordássemos que os excessos de
Maria Antonieta eram repugnantes e que o rei era ganancioso e inadequado, e mesmo que
apoiássemos o Terceiro Estado e a Assembleia, não importava, porque a partir daquele
momento nenhum de nós estava mais a salvo; éramos todos colaboradores ou opressores
aos olhos da turba, e agora ela estava no poder.
Houve outros gritos quando mais guardas da Bastilha foram linchados. Em seguida, vi
rapidamente um prisioneiro, um velho frágil que era baixado de uma escada que saía de
uma porta da prisão. Depois, com uma onda de emoções confusas —entre elas gratidão,
amor e ódio —, vi Arno no alto dos baluartes. Estava com um homem mais velho, ambos
correndo para o outro lado da fortaleza.
—Arno —gritei, mas ele não escutou. Havia barulho demais e ele estava muito longe.
Gritei novamente, “Arno”, e aqueles perto de mim viraram-se, desconfiados de meu
tom refinado.
Impotente, observei quando o primeiro homem se colocou à beira dos baluartes e
pulou.
Foi um salto de fé. O ato de fé de um Assassino. Então aquele era Pierre Bellec. Sem
dúvida, Arno hesitou e depois fez o mesmo. Mais um ato de fé de um Assassino.
Ele agora era um deles.
iv
Virei-me e corri. Precisava chegar em casa, dispensar os criados. Permitir que fugissem
antes que fossem apanhados pelo tumulto.
Multidões se afastavam da Bastilha, rumo à prefeitura. Eu já estava ouvindo que o
reitor dos mercadores de Paris, Jacques de Flesselles, tinha sido assassinado na escada do
Hôtel de Ville, que sua cabeça arrancada já estava sendo exibida pelas ruas.
Meu estômago revirou-se. Lojas e prédios estavam em chamas. Ouvi o barulho de
vidro se quebrando, vi gente correndo, carregando produtos saqueados. Durante
semanas, Paris passou fome. Naturalmente nós, em nossas propriedades rurais e de
costume, comíamos bem, mas o povo quase foi à inanição e, embora a milícia nas ruas
tivesse conseguido qualquer saque em larga escala, agora era impotente para isso.
Longe de Saint-Antoine, as multidões diminuíram, e havia carruagens e carroças na
rua, conduzidas principalmente por moradores da cidade que desejavam escapar dos
tumultos. Metiam seus pertences com pressa em qualquer meio de transporte que
encontrassem, tentando desesperadamente fugir. A maioria simplesmente era ignorada
pelas turbas, mas prendi a respiração ao ver uma enorme carruagem de dois cavalos,
completa, com um cavalariço de libré na frente, tentando abrir caminho lentamente pelas
ruas, sabendo de pronto que quem quer que estivesse em seu interior estava pedindo
para ter problemas.
Aquele sujeito não estava agindo com discrição. Como se a simples visão de sua
carruagem suntuosa já não bastasse para enfurecer a turba, o cavalariço gritava a
espectadores para que saíssem da rua, agitando seu chicote para eles como se tentando
afastar uma nuvem de insetos, enquanto era espicaçado o tempo todo por sua senhora de
cara vermelha, que espiava pela janela da carruagem, agitando um lenço de renda.
A arrogância e estupidez deles era impressionante, e mesmo eu, em cujas veias corria
sangue aristocrata, tive certa satisfação quando a multidão não lhes deu atenção alguma.
No entanto, em seguida, a turba virou-se contra eles. A situação já estava bastante
intensa e eles começaram a sacudir a carruagem em suas molas amortecedoras.
Pensei em avançar para ajudar, mas sabia que, se o fizesse, estaria assinando minha
sentença de morte. Em vez disso, só me restou observar o cavalariço ser arrancado de seu
assento imperioso, e o espancamento começou.
Ele não merecia aquilo. Ninguém merecia ser espancado por uma multidão, afinal era
algo indiscriminado e cruel, e impelido pelo puro desejo coletivo de sangue. Mesmo
assim, ele nada fez para se proteger de seu destino. Toda Paris sabia que a Bastilha havia
caído. O Ancien Régime já vinha se esfacelando, mas em apenas uma manhã ruíra
completamente. Fingir o contrário era loucura. Ou, neste caso, suicídio.
Ococheiro conseguiu fugir. Enquanto isso, integrantes da multidão subiam no alto da
carruagem, abrindo baús e atirando as roupas do teto enquanto buscavam bens de valor.
As portas foram arrancadas e uma mulher, aos protestos, arrastada de dentro da
condução. A multidão riu quando um dos manifestantes plantou um pé no traseiro da
senhora e ela caiu estatelada no chão.
Da carruagem, veio um berro de protesto:
—Mas o que significa tudo isso? —E meu coração afundou um pouco mais no peito
ao ouvir o tom habitual de indignação aristocrata naquela voz. Seria ele tão burro? Seria
tão burro a ponto de não perceber que ele e sua classe não possuíam mais o direito de
falar naquele tom? Ele e sua classe não estavam mais no poder.
Ouvi as roupas do sujeito sendo rasgadas enquanto o arrancavam da carruagem. Sua
mulher foi tocada dali, gritando pela rua, impelida por uma série de pontapés no traseiro,
e perguntei-me como ela se viraria sozinha por uma Paris caótica, bem diferente daquela
que ela conhecera em sua vida toda. Duvidei que fosse sobreviver até o fim do dia.
Ao prosseguir, minhas esperanças começaram a desvanecer. Pelo que parecia,
saqueadores brotavam das casas de ambos os lados da via. No ar, o estampido de
mosquetes e o barulho de vidro se quebrando continuavam, gritos triunfantes daqueles
que conseguiam o que queriam, gritos desanimados dos que não tinham tido sorte.
Agora eu estava correndo, a espada ainda em riste e pronta para enfrentar qualquer
um que se colocasse entre mim e meu château. Meu coração martelava nos ouvidos. Eu
rezava para que a criadagem tivesse conseguido ir embora; para que a turba ainda não
tivesse chegado à nossa propriedade. Só conseguia pensar no meu baú. O qual, dentre
outras coisas, continha as cartas de Haytham Kenway e o colar dado a mim por Jennifer
Scott. Algumas bugigangas que eu tinha guardado com o passar dos anos, coisas que
tinham significado para mim.
Chegando aos portões vi o mordomo, Pierre, parado com uma mala abraçada ao
peito, os olhos disparando de um lado a outro.
—Graças a Deus, mademoiselle —disse ao me ver, e olhei para além dele, meu olhar
percorrendo o pátio e subindo a escadaria, até a porta da frente do château.
Oque vi foi o pátio com meus pertences espalhados. A porta do château estava aberta
e notei a devastação em seu interior. Minha casa tinha sido saqueada.
—A turba entrou e saiu em minutos —disse Pierre, sem fôlego. —Colocamos tábuas
nas janelas e trancamos tudo, mas eles capturaram o jardineiro Henri e ameaçaram matá-
lo caso não abríssemos as portas. Não tivemos escolha, mademoiselle.
Assenti, pensando apenas no baú em meu quarto, parte de mim querendo correr
diretamente para lá, outra parte precisando entender melhor tudo aquilo.
—Você agiu corretamente —garanti a ele. —E quanto a seus pertences pessoais?
Ele levantou a mala que segurava.
—Está tudo aqui.
—Mesmo assim, deve ter sido uma experiência apavorante. Deve ir embora. Esta não
é uma boa hora para se associar à nobreza. Vá para Versalhes e cuidaremos para que
receba uma recompensa.
—E a senhora, mademoiselle? Não irá?
Olhei para a casa, sentindo o coração apertado ao ver os pertences de minha família
descartados como lixo. Reconheci um vestido que pertencera à minha mãe. Então eles
tinham ido aos andares superiores e saqueado os quartos também.
Apontei com minha espada.
—Vou entrar —falei.
— Não, mademoiselle, não posso permitir — disse Pierre. — Ainda há alguns
bandidos lá dentro, completamente embriagados, revirando os quartos, procurando mais
pertences para roubar.
—Por isso entrarei. Para impedir que o façam.
—Mas estão armados, mademoiselle.
—Eu também estou.
—Estão bêbados e são cruéis.
— Ora, eu estou furiosa e sou cruel. E isto é ainda melhor. — Olhei para ele. —
Agora, vá.
v
Ele não falou com seriedade quando disse sobre ficar na casa. Pierre era um bom
homem, mas sua lealdade tinha limites. Ele teria resistido aos saqueadores — mas não
tanto. Talvez fosse melhor eu não ter estado em casa quando os invasores chegaram.
Haveria banho de sangue. Talvez as pessoas erradas perdessem a vida.
À porta da frente, saquei a pistola. Com o cotovelo, abri mais a porta e pisei de
mansinho no hall de entrada.
Estava uma bagunça. Mesas viradas. Vasos quebrados. Saques indesejados jogados
para todo lado. Deitado de bruços, ali perto, estava um homem, roncando em um sono
embriagado. Arriado em um canto oposto, havia outro, este com o queixo encostado no
peito e uma garrafa de vinho vazia na mão. A porta da adega estava aberta e me aproximei
dali com cautela, pistolas erguidas. Esforcei-me, mas nada ouvi, cutuquei o bêbado mais
próximo com a ponta do pé e obtive um ronco mais alto por tê-lo incomodado.
Embriagado, sim. Cruel, não. Omesmo valia para o amiguinho dele perto da porta.
Exceto pelo ronco, o andar térreo estava em silêncio. Fui à escadaria que levava ao
porão e mais uma vez fiquei atenta aos ruídos, mas não ouvi nada.
Pierre tinha razão; eles provavelmente entraram e saíram em instantes, pilhando a
adega e a despensa, e sem dúvida roubando a prataria da copa. Minha casa era só mais um
passo pelo caminho.
Agora, rumo ao andar de cima. Voltei ao hall de entrada e tomei a escada, seguindo
diretamente para o meu quarto e encontrando-o em um estado semelhante ao restante da
casa, saqueado. Eles tinham encontrado o baú, mas evidentemente concluíram que seu
conteúdo não valia a pena, então contentaram-se apenas em espalhar tudo que havia
dentro pelo chão. Coloquei meu alfanje na bainha, a pistola no coldre e me pus de
joelhos, reunindo os papéis, arrumando-os e recolocando-os no baú. Felizmente o colar
estava no fundo, eles tinham deixado passar. Cuidadosamente, pus a correspondência por
cima dos fechos, alisando qualquer página amassada, mantendo as cartas juntas. Quando
terminei, tranquei o baú. Precisaria mandá-lo à Maison Royale para que ficasse seguro, tão
logo eu saísse e trancasse minha casa.
Eu estava entorpecida, percebi enquanto me colocava de pé e me sentava na beira da
cama para refletir. Só conseguia pensar em fechar as portas e arrastar-me a um canto
qualquer, evitando assim qualquer contato humano. Talvez fosse este o verdadeiro motivo
pelo qual havia mandado Pierre embora. Porque a pilhagem de minha casa dava-me outra
razão para lamentar, e eu queria me condoer sozinha.
Levantei-me e fui ao patamar de cima, olhando o hall de entrada logo abaixo do meu
ponto na varanda. O único barulho era o ruído distante da inquietação nas ruas, mas
agora a luz diminuía; começava a escurecer lá fora e eu precisava acender algumas velas.
Primeiro, porém, eu me livraria de meus hóspedes indesejados.
Oadormecido perto da porta pareceu acordar um pouco quando me aproximei ao pé
da escada.
— Se está acordado, sugiro que vá embora agora — falei, e minha voz soou alta no
hall. —E, se não estiver acordado, vou chutar suas bolas até que acorde.
Ele tentou levantar a cabeça, piscando, como se estivesse recuperando a consciência e
tentando se lembrar de onde estava e de como tinha ido parar ali. Tinha um braço preso
sob o próprio corpo e gemeu enquanto rolava para soltá-lo.
E então ele se levantou e fechou a porta.
Simples assim. Ele se levantou e fechou a porta.
vi
Levei mais ou menos um segundo para formular a pergunta, que era: como um homem
que estava prostrado e bêbado no chão do meu hall de entrada conseguiu se levantar, sem
nenhum vestígio de hesitação ou cambaleio, e fechou a porta sem se atrapalhar? Como ele
fez aquilo?
A resposta era que ele não estava bêbado. Jamais esteve. E o que tinha embaixo do
corpo era uma pistola, a qual ele ergueu com um ar quase despreocupado e apontou para
mim.
Merda.
Girei a tempo de ver que o segundo bêbado também ficou milagrosamente sóbrio e
estava de pé. Também portava uma pistola e a apontava igualmente para mim. Eu estava
em uma armadilha.
—Os Carroll, de Londres, mandam lembranças —disse o primeiro bêbado, o mais
velho e de peito mais largo dentre os dois, evidentemente o chefe, e ocorreu-me o puro
fato do inevitável. Sabíamos que os Carroll viriam atrás de nós, mais cedo ou mais tarde.
Estejam preparados, dissemos, e talvez pensássemos estar.
—E então... o que está esperando? —perguntei.
—As instruções são que você sofra antes de morrer —disse o chefe, tranquilamente e
sem maldade verdadeira —, além disso, a recompensa é por você, um tal Frederick
Weatherall e sua dama de companhia, Hélène. Achamos uma boa combinação arrancar de
você o paradeiro deles e ao mesmo tempo lhe causar sofrimento, como matar dois
coelhos com uma cajadada só.
Sorri para ele.
—Podem me causar quanta dor desejarem, podem me causar toda a dor do mundo,
não revelarei coisa alguma a vocês.
Atrás de mim, o outro soltou um “ohm”. O tipo de exclamação que você solta
quando vê um filhotinho particularmente fofo brincando com uma bola.
Ochefe tombou a cabeça de lado.
—Ele ri porque todos dizem isso. Todos que torturamos dizem isso. Mas assim que
trazemos os ratos famintos eles começam a se perguntar sobre a sensatez dessas palavras.
Olhei teatralmente à minha volta, virei-me para ele e sorri.
—Não vejo nenhum rato faminto.
— Ora, isso porque ainda não começamos. Temos um processo longo e renomado
em mente. Madame Carroll foi bem específica a esse respeito.
—Ela ainda está zangada por May, não é?
— Ela disse para lembrar a você de May durante o processo. Era a filha dela,
suponho.
—Sim, era.
—E você a matou?
—Matei.
—Ela a atacou?
—Eu diria que sim. Ia me matar.
—Então foi legítima defesa?
—Pode-se dizer que sim. Esta informação o faz mudar de ideia?
Ele sorriu. A pistola jamais hesitou.
— Não. Só me diz que você é do tipo espertinha e que precisaremos ter cuidado.
Assim, por que não começamos com a espada e a pistola? Jogue ambas no chão, por
gentileza.
Obedeci.
— Agora afaste-se delas. Vire-se, de frente para o corrimão, coloque as mãos na
cabeça e saiba que, enquanto o Sr. Hook aqui estiver procurando por armas escondidas
em você, ele terá minha cobertura com as pistolas. Gostaria que você se lembrasse de que
eu e o Sr. Hook estamos cientes de suas capacidades, Srta. de la Serre. Não cometeremos o
erro de subestimá-la só porque você é jovem e mulher. Não é verdade, Sr. Hook?
—É bem verdade, Sr. Harvey —disse Hook.
—É tranquilizador saber disso —falei e, com um olhar para o Sr. Hook, fiz o que ele
me mandou, indo até o corrimão e colocando as mãos na cabeça.
A luz era fraca no hall de entrada e, embora meus dois cordiais assassinos tivessem
levado isso em conta, tal fato ainda trabalhava em meu favor.
E havia mais uma vantagem: eu não tinha nada a perder.
Agora Hook estava atrás de mim. Ele chutou minhas armas para o meio da sala antes
de retornar, permanecendo a pouca distância.
—Tire o casaco —disse ele.
—Como disse?
—Você ouviu o homem —disse o Sr. Harvey —, tire o casaco.
—Terei de retirar as mãos da cabeça.
—Apenas tire o casaco.
Eu o desabotoei, deixando que caísse ao chão.
Na sala, o silêncio era intenso. Os olhos do Sr. Hook vagavam.
—Solte a blusa —disse o Sr. Harvey.
—Não pretende me fazer...?
— Apenas solte a blusa e puxe à altura da cintura para que possamos ver o cós da
calça.
Obedeci.
—Agora tire as botas.
Ajoelhei-me, pensando de imediato que poderia usar uma bota como arma. Mas não.
Assim que eu atacasse Hook, Harvey certamente atiraria em mim. Eu precisava de uma
tática diferente.
Sem as botas, eu me levantei, de meias, a blusa erguida para a inspeção.
—Muito bem —disse Harvey. —Vire-se. Mãos atrás da cabeça. Lembre-se do que eu
disse sobre tê-la sob vigilância.
Reassumi minha posição de frente para o corrimão enquanto Hook se aproximava de
minhas costas. Ele se ajoelhou, passando as mãos pelos meus pés em uma jornada que
foi da ponta dos dedos até meus calções. No alto, elas se demoraram...
—Hook... —alertou Harvey.
— Só estou sendo meticuloso — disse Hook, e pela direção que sua voz tomou
percebi que ele olhou para Harvey ao responder, o que me deu uma chance. Uma chance
mínima, mas ainda assim era uma chance. E eu a aproveitei.
Dei um salto, segurei um suporte do corrimão e no mesmo movimento agarrei o
pescoço de Hook entre minhas coxas, torcendo-o — uma torção forte, com o intuito de
lhe quebrar o pescoço, ao mesmo tempo em que o usava como escudo humano. Porém,
quebrar o pescoço de homens com uma chave de pernas nunca foi uma parte importante
do treinamento do Sr. Weatherall, e eu não tinha forças para torcer tanto assim. De
qualquer modo, agora ele estava entre mim e a pistola, e era este meu primeiro objetivo.
Seu rosto se avermelhou, as mãos em minhas coxas tentando libertá-lo enquanto eu o
apertava, na esperança de conseguir exercer pressão suficiente para ao menos fazê-lo
desmaiar.
Não tive tanta sorte assim. Ele se contorcia e puxava, e eu me agarrava com todas as
minhas forças ao suporte do corrimão, sentindo meu corpo se esticar e a madeira
começar a ceder enquanto ele tentava se desvencilhar. Nesse meio-tempo, Harvey ficou
praguejando, daí colocou a pistola no coldre e sacou uma espada curta.
Com um grito de esforço, aumentei a pressão de minhas coxas e ao mesmo tempo
puxei para cima. Assim que estiquei o corpo, o corrimão se quebrou e se soltou em
minhas mãos, e por um segundo fiquei montada em Hook tal como uma menina nos
ombros do pai, segurando o suporte do corrimão no alto e olhando de cima um Harvey
subitamente atordoado.
Osuporte desabou de vez. Caiu na cara de Harvey.
Eu não saberia dizer quais pedaços do suporte fincaram em quais partes da cara dele
e, particularmente, não queria saber.
Só o que posso dizer é que mirei em um olho, e embora a estaca fosse grossa demais
para penetrar a órbita, bem, ela cumpriu a tarefa, porque em um instante ele avançava
com a espada curta pronta para atacar e no seguinte tinha o olho cravado por uma estaca e
girava, com as mãos no rosto, preenchendo os últimos segundos de sua vida com gritos
arrepiantes.
Com uma torção dos quadris, fiz com que eu caísse no chão, levando Hook comigo.
Caímos de mau jeito, mas eu me afastei, lançando-me para minha espada e a pistola no
meio do piso. Minha pistola estava carregada e pronta, mas a de Hook também estava.
Tudo que pude fazer foi mergulhar para minha arma e rezar para alcançá-la antes que ele
se recuperasse para pegar a dele.
Consegui, depois me pus de costas e ergui a arma entre as mãos para ele —no exato
instante em que ele fez o mesmo. Pelo mais breve segundo, nós dois tivemos um ao outro
sob mira.
E então a porta se abriu e uma voz disse “Élise”, fazendo Hook se retrair. E foi então
que disparei.
Durante talvez meio segundo pensei ter errado completamente o tiro, mas logo o
sangue começou a esguichar dos lábios de Hook; ele baixou a cabeça e percebi que havia
lhe acertado com um tiro na boca.
vii
—Parece que cheguei bem a tempo —disse Ruddock mais tarde, depois que carregamos
os cadáveres de Hook e Harvey pelo pátio dos fundos até a rua, onde os largamos, em
meio a caixas e barris quebrados, e carroças tombadas. Dentro da casa, encontramos uma
garrafa de vinho na despensa, acendemos velas e nos sentamos no escritório da
governanta, de onde podíamos ficar de olho na escada dos fundos, para o caso de alguém
voltar.
Servi duas taças e empurrei uma a ele pelo tampo da mesa. Não preciso dizer que ele
parecia muito mais saudável do que da última vez em que nos encontramos,
considerando que à época ele estava dependurado em uma corda; no entanto, mesmo
levando tal fator em conta, ele tinha recuperado bem o porte. Parecia mais senhor de si.
Pela primeira vez desde nosso encontro em 1775, eu conseguia imaginar Ruddock como
um Assassino.
—Oque eles queriam, os seus dois amigos? —perguntou ele.
—Executar a vingança em nome de terceiros.
—Entendo. Você deixou alguém irritado, não é?
—Obviamente.
—Sim, de fato. Desconfio que você já tenha deixado um monte de gente irritada, não?
Como eu já disse, foi uma sorte eu ter chegado a tempo.
—Não se gabe. Eu tinha tudo sob controle —falei, bebericando meu vinho.
— Bem, então fico muito satisfeito em ouvir isso. Só me pareceu que a coisa toda
poderia ter outro desfecho e que minha entrada lhe deu o elemento surpresa necessário
para ganhar vantagem.
—Não abuse da sorte, Ruddock.
A verdade era que eu estava maravilhada por vê-lo. Mas se ele tinha levado minha
ameaça de persegui-lo a sério, ou se era um homem mais honrado do que eu supusera, o
fato era que ele estava ali agora. Não só isso: tinha vindo com o que se poderia chamar de
“notícias”.
—Descobriu alguma coisa?
—Decerto descobri.
—A identidade do homem que o contratou para matar a mim e a minha mãe?
Ele ficou desconcertado e pigarreou.
—Fui contratado para matar apenas sua mãe, não você.
Reprimi uma onda de irrealidade. Sentada na casa saqueada de minha família,
partilhando o vinho com um homem que confessava abertamente ter tentado matar minha
mãe e que, se tudo tivesse corrido de acordo com os planos, sem dúvida teria me largado
sozinha ali, chorando sobre o corpo dela.
Servi-me de mais vinho, preferindo beber a pensar, porque, se eu pensasse, talvez
passasse a me questionar como me deixei entorpecer a ponto de conseguir beber com
aquele homem; a ponto de pensar em Arno e não sentir emoção alguma; a ponto de
enganar a morte e nada sentir.
Ruddock continuou.
— O fato é que não sei exatamente quem me contratou, mas sei a quem ele estava
afiliado.
—E quem seria?
—Já ouviu falar do Rei dos Mendigos?
—Não, não posso dizer que sim... Mas esta é a pessoa a quem seu homem é afiliado?
—Pelo que sei, o Rei dos Mendigos queria sua mãe morta.
Aquela estranha onda de irrealidade surgiu mais uma vez. Ouvir aquilo do homem
contratado para levar a tarefa a cabo.
—A pergunta é, por quê —disse, bebendo um gole do vinho.
— Calma — pediu ele, e estendeu a mão para tocar meu braço. Parei, o copo ainda
nos lábios, fuzilando a mão dele com meu olhar até ele retirá-la de mim.
—Não volte a tocar em mim —alertei —, jamais.
—Desculpe-me. —Ele baixou o olhar. —Não era minha intenção ofender. É só que...
você parece estar bebendo depressa demais, só isso.
—Não ouviu os boatos? —falei com ironia. —Sou uma bêbada de certa reputação. E
posso lidar muito bem com meu vinho, obrigada.
—Eu só quero ajudar, mademoiselle. É o mínimo que posso fazer. Ao salvar minha
vida, você me deu uma nova perspectiva. Agora estou tentando me tornar gente.
—Fico satisfeita por você. Mas se eu pensasse que salvar sua vida significaria ganhar
um sermão sobre o vinho que bebo, eu não teria me dado ao trabalho.
Ele assentiu.
—Mais uma vez, peço desculpas.
Tomei outro gole de vinho, apenas para contrariá-lo.
—Agora me diga o que sabe sobre o Rei dos Mendigos.
—Ele é um homem difícil de se encontrar. Os Assassinos já tentaram matá-lo.
Arqueei uma sobrancelha.
— Você estava trabalhando para um inimigo jurado dos Assassinos? E devo supor
que guardará segredo sobre isto?
Ele ficou envergonhado.
—Certamente. Eram outros tempos, mais desesperados, minha dama.
Desprezei a ideia com um gesto.
—Então os Assassinos tentaram matá-lo. Por quê?
— Ele é cruel. Controla os mendigos da cidade, que são obrigados a lhe pagar um
tributo. Dizem que, se o tributo é insuficiente, o Rei dos Mendigos tem um homem
chamado La Touche para lhe amputar os membros, pois a boa gente de Paris
provavelmente fará doações mais generosas a um mendigo assim destituído.
Reprimi uma onda de repulsa.
— Por que motivo ambos, Assassinos e Templários, o quereriam morto? Ele não é
amigo de ninguém. — Retorci os lábios para ele. — Ou você está dizendo que só os
Assassinos de bom coração o queriam morto, enquanto nós, os Templários de coração
ruim, fizemos vista grossa?
Com um olhar de tristeza estudada, ele falou:
— E eu estaria em condições de fazer algum julgamento moral, minha dama? Mas o
fato é que, se os Templários fazem vista grossa à atividade dele, é porque ele é um deles.
— Que absurdo. Não teríamos relação com homem tão repugnante. Meu pai não o
teria admitido na Ordem.
Ruddockdeu de ombros e abriu as mãos.
—Lamento tremendamente se o que estou dizendo a deixa em choque, minha dama.
Talvez não deva tomar este fato como um reflexo de toda sua Ordem, e sim de elementos
perniciosos dentro dela. E por falar em “elementos perniciosos”...
Elementos perniciosos, pensei. Elementos perniciosos que tramaram contra minha mãe.
Seriam as mesmas pessoas que mataram meu pai? Se assim fosse, eu seria a próxima.
—Quer voltar a fazer parte dos Assassinos? —perguntei, servindo mais vinho a ele.
Ele assentiu.
Eu sorri.
— Bem, perdoe-me por minha grosseria, mas você tentou me matar uma vez, então
creio que a vantagem é minha. Mas se você tem alguma esperança de voltar a fazer parte
dos Assassinos, precisa cuidar desse cheiro.
—Cheiro?
— Sim, Ruddock, o cheiro. O seu cheiro. Você fedia em Londres, fedia em Rouen e
fede agora. Quem sabe um banho não lhe cairia bem? Um perfume? Ora essa, estou sendo
grosseira?
Ele sorriu.
—De maneira nenhuma, mademoiselle, agradeço por sua franqueza.
—Mas devo dizer que o motivo de você desejar voltar a ser um dos Assassinos está
além de minha compreensão.
—Como disse, mademoiselle?
Curvei-me para a frente, semicerrei os olhos e balancei o copo de vinho ao mesmo
tempo.
— Quero dizer que eu pensaria com muito cuidado na questão se estivesse no seu
lugar.
—Oque quer dizer exatamente?
Gesticulei de maneira afetada.
— Quero dizer que você está fora disso. Bem fora disso. Livre de tudo isso... —
gesticulei de novo —... dessas coisas. Assassinos, Templários. Bah, eles têm dogmas
suficientes para dez mil igrejas e o dobro de crenças equivocadas. Durante séculos, nada
fizeram além de brigar, e com que fim, hein? A humanidade continua, apesar disso. Veja
a França. Meu pai e seus conselheiros passaram anos discutindo a “melhor” direção para
o país e, no fim, a revolução se adiantou e aconteceu sem eles. Rá! Onde estava Mirabeau
quando tomaram a Bastilha? Ainda conseguindo votos em jogos de pela? Os Assassinos e
Templários são como dois carrapatos brigando pelo controle do gato, um exercício de
arrogância e futilidade.
—Mas mademoiselle, qualquer que seja o resultado, precisamos acreditar que temos
a capacidade de transformar para o melhor.
—Só se formos iludidos, Ruddock—falei. —Só se formos iludidos.
viii
Depois que dispensei Ruddock, concluí que estaria pronta para eles caso viessem, quem
quer que eles fossem: revolucionários saqueadores, agentes dos Carroll, um traidor de
minha própria Ordem. Eu estaria preparada para eles.
Por sorte, havia vinho mais do que suficiente na casa para me fortalecer para a espera.

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