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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 14

TEIA DA CONFUSÃO


NAMANHÃSEGUINTE, a postagem abaixo estava no blog O Alerta: Muitos comentaristas desta página reclamaram que dedico postagens demais à minha “obsessão” pelo Homem-Aranha. Alguns até chegaram ao ponto de fazer insinuações obscenas sobre o “verdadeiro” motivo porque passo tanto tempo pensando no aracnídeo. Embora eu não ficasse surpreso se o próprio HomemAranha tivesse feito essas afirmações. Aqui nessa coisa triste chamada internet, seria fácil para ele me assediar anonimamente. Aceito isso e me consolo com o fato de que, pelo menos aqui, ele não pode me calar à força. (As pessoas pensam que a teia dele é um tipo de arma moderna no combate ao crime, mas posso afirmar que, pela minha longa experiência com aquele vândalo, ele vive usando sua teia para pregar peças cruéis em jornalistas incautos, muitas vezes invadindo seus escritórios particulares para deixar “surpresinhas” em suas cadeiras, isso quando não os ataca fisicamente com aquela teia, fazendo com que corram risco de morrerem asfixiados.) Mas estou desviando do assunto. O fato é que eu adoraria ter a chance de falar sobre outros assuntos além de aberrações mascaradas com dedos adesivos. Tenho muitas outras coisas a dizer para o povo desta cidade, deste país e deste planeta. Teria o maior prazer em publicar minhas opiniões relativas ao que o prefeito, o governador e especialmente o presidente estão fazendo de errado, por que este país, antes grandioso, está entrando pelo cano, e sobre o que exatamente precisa ser feito para que os jovens de hoje tomem tento e ajam corretamente. Eu adoraria passar meu tempo falando com vocês sobre verdadeiros heróis, os policiais, os bombeiros e os cidadãos comuns que saem às ruas e protegem pessoas sem se esconder atrás de superpoderes ou acessórios fetichistas, pessoas que simplesmente cumprem suas funções sem buscar glória ou fama. Sempre que pude, tentei ao máximo discutir essas ideias nesta página. É o próprio Homem-Aranha que impossibilita isso. Ele continua a perturbar esta cidade com suas rixas infinitas contra cientistas malucos e aberrações mascaradas, e na última semana, esses ataques de robôs se agravaram ainda mais. Os cidadãos e prédios de Manhattan foram colocados em perigo, e Homem-Aranha esteve no centro de todos os incidentes. Se não os estiver maquinando pessoalmente, sem dúvida os provocou em parte por suas rivalidades contínuas. Porém, desta vez, em sua última batalha, ele levou tudo a um extremo fatal, gerando uma cascata de cacos de vidro que cruelmente tirou a vida de Paul Berry, um recém-aposentado engenheiro elétrico que havia se dado bem na vida e só agora começa a aproveitar sua idade crepuscular ao lado da esposa, Iona. Infelizmente, essa não é nem de perto a primeira vez que inocentes perdem a vida por causa das lutas do Homem-Aranha. Mas raras foras as vezes em que ele foi tão insensível e oportunista em relação a isso. Raras foram as vezes em que ele esteve tão disposto a explorar a morte de um homem inocente para seus próprios objetivos perversos. Se você assistiu aos noticiários ontem à noite, viu o Homem-Aranha pulando na frente de uma câmera para dar sua versão do incidente antes que alguém tivesse a chance de juntar os fatos. Ele alegou que a pessoa por trás dos ataques dos robôs pretendia “distorcer” os fatos do incidente contra ele. Isso apenas um dia depois que invadiu uma entrevista coletiva dada por mim e insinuou que eu tinha alguma relação com esses ataques. Sim, senhoras e senhores, o verdadeiro plano do Homem-Aranha está claro agora e mostra o quão distorcido ele se tornou. Ele pretende acusar a mim, J. Jonah Jameson, de ser o responsável por essas agressões. Ele quer desonrar seu crítico mais ferrenho e não descarta explorar a morte de um ser humano para tanto. É essa a ação de um herói? De fato, admito que houve o tempo em que participei de alguns experimentos robóticos voltados para a captura humana e o desmascaramento do Homem-Aranha. Na maioria dessas ocasiões, havia mandados de prisão expedidos contra ele, de modo que eu estava apenas cumprindo meu dever como cidadão proeminente de Nova York. E nunca apoiei ou participei de qualquer ataque contra qualquer pessoa que não o próprio Homem-Aranha. Foi ele mesmo quem agravou a situação nos últimos dias. Sem se contentar mais em pregar peças de mau gosto contra mim, ele agora busca me culpar por uma série de ataques fatais contra nossa cidade, ataques pelos quais ele próprio é responsável, de uma forma ou de outra. Essa nova agressividade, essa nova tática de usar a imprensa para difamar seus opositores, esse maior desprezo pela vida humana apontam em uma direção que tenho medo de contemplar. O Homem-Aranha sempre foi detestável, irresponsável e nunca passou de um vândalo de meia-tigela cujo poder subiu à cabeça. Agora, porém, ele parece estar ficando cada vez mais insano, cada vez mais perigoso. Temo pela minha própria segurança agora, e pela segurança da minha família. Mas não pensem que vou recuar. Já enfrentei bandidos, mafiosos, espiões, assassinos e monstros ao longo da minha carreira, e nunca deixei que me impedissem de realizar meu trabalho de jornalista. Sempre estive disposto a dedicar minha vida à busca da verdade e, se for derrubado por ter a coragem de falar a verdade sobre a ameaça que é o Homem-Aranha, não consigo pensar em uma maneira mais honrosa de cair. Mas homens melhores do que ele já tentaram acabar com J. Jonah Jameson, e ainda estou aqui. E pretendo continuar aqui, falando a verdade e colocando vândalos, covardes e criminosos em seu devido lugar por um bom tempo ainda. Então, você acha que pode me enfrentar, Homem-Aranha? Vá em frente e tente. – Talvez eu devesse mesmo publicar respostas no blog de Jameson – Peter falou para MJ naquela noite, no breve intervalo entre o retorno dela dos ensaios e a saída dele para suas funções de Homem-Aranha. Ele já estava colocando o uniforme e MJ aproveitava a oportunidade para admirar seu corpo musculoso e flexível, ainda que fizesse caretas discretas ao ver os cortes e machucados que o decoravam, uma visão rotineira a que ela ainda não tinha se acostumado. – Não anonimamente, mas como Homem-Aranha. Eu poderia provar que sou eu mesmo lembrando-o de algum detalhe particular ou coisa parecida, como aquela vez em que o prendi com teia no teto. Ou aquela outra em que eu o prendi com teia no teto. – A passos rápidos, ele atravessou o pequeno apartamento e MJ precisou sair do caminho. – Se eu postasse de um local diferente a cada vez, ficaria difícil para ele me rastrear pelo IP. – Você não devia estar lá fora investigando em vez de estar se incomodando com isso? – Eu preciso parar de deixar que Jameson monopolize a imprensa. Desta vez, vou publicar meu lado da história para que todo mundo veja. Deixar que as pessoas decidam a verdade por si mesmas. Ela sorriu. – Por que você não contrata um assessor de imprensa e acaba logo com isso? – Não pense que nunca considerei isso. Estou pensando em fazer isso pessoalmente, afinal, até onde as pessoas sabem, Peter Parker foi o paparazzo particular do Homem-Aranha durante a maior parte da carreira dele. MJ sempre ficava incomodada quando Peter falava de si mesmo na terceira pessoa, ainda mais como duas pessoas diferentes. Ela sabia que era uma maneira conveniente (às vezes, ela desejava que alguém inventasse novos pronomes para super-heróis), mas não conseguia deixar de se preocupar com o esforço de se manter uma dupla identidade. No entanto, desde que começara a atuar, ela se pegava caindo no mesmo comportamento, preferindo se referir a suas personagens pelo nome em vez de “eu”. Ela ficava um pouco mais tranquila quando pensava no Homem-Aranha e, às vezes, até na imagem pública de Peter Parker como papéis que seu marido representava. Mesmo assim, havia momentos em que preferia que ele não fosse um ator tão metódico. Esse era um dos momentos em que ela ficava com medo de que ele estivesse imerso demais no papel de Aranha. – Peter Parker também é meu marido – ela o lembrou – e Mary Jane Watson-Parker não quer que “ele” chame muito a atenção das pessoas para a relação “dele” com o Homem-Aranha. Já me preocupo demais com você embaixo da máscara – ela continuou, suavizando o tom de voz e segurando as mãos. – Preferia que menos pessoas atacassem você quando tirasse a máscara. Ele sorriu. – Ei, não se preocupe, MJ. Eu sei me cuidar. – Ele retomou suas preparações, pegando um novo lote de cartuchos de fluido de teia do aglomerado de tubos e frascos que usava para misturá-los. Era “a destilaria”, como ela havia passado a chamar, porque a lembrava das instalações que Hawkeye e outros personagens daquela série M*A*S*H usavam. – Então, qual é o plano para hoje? – ela perguntou. – Uma patrulha rápida e – Então, qual é o plano para hoje? – ela perguntou. – Uma patrulha rápida e de volta para a caminha, talvez? – Ela terminou a frase com um murmúrio convidativo na voz. – Vamos ver. Talvez eu fique de vigia na casa do Jameson por um tempo. Ela franziu a testa. – Ainda não consigo acreditar que J. Jonah Jameson esteja por trás disso tudo. Quer dizer, ele não é nenhum Mahatma Gandhi, mas nunca matou ninguém. – As pessoas mudam, MJ. Eu mudei, você mudou, nós dois para melhor. Mas às vezes as pessoas mudam para pior. Pense no Norman Osborn. Harry Osborn. Miles Warren. Curt Connors. Existem monstros dentro de todos nós. – Pense um pouco, Peter. Você só tem uma intuição. Sempre que tentou encontrar alguma evidência sólida para apoiar essa teoria, apareceu alguma coisa para te impedir. – Pois essa é a minha evidência, MJ. Eu vou atrás do velhote e sou atacado. Causa e efeito. Além disso, não existem outros suspeitos viáveis. – Então talvez seja alguém novo. – É o Jameson, MJ! Tenho certeza! O sentido-aranha não mente. É ele, e eu vou provar! Vou mostrar para o mundo o hipócrita mentiroso que ele é! – Então é esse o problema? – ela perguntou, com as mãos nos quadris. – O que é mais importante para você, Peter, salvar vidas ou o seu ego? – É isso que eu faço, MJ. Encontro os bandidos e acabo com eles. – Mas você anda tão mudado ultimamente, Peter. Você está ficando tão… – Confiante? Decidido? – Agressivo. Inflexível. Você anda se jogando com tudo no trabalho e eu fico pensando que talvez devesse parar um pouco e olhar o quadro geral. – Só porque eu não estou mais recitando Hamlet antes de toda luta não significa que não vejo o quadro geral. Pelo contrário. Finalmente deixei de permitir que as pessoas me convencessem de que estou sempre errado. – Mas você não está sempre certo também. – O que você está querendo dizer? – ele perguntou, incisivo. – Você acha que eu fiz besteira? Não venha me dizer que você acredita mesmo naquela mulher do jornal! – Você está falando da Iona Berry? – Ela estava nervosa, abalada. Não sabia o que estava falando. – Então por que você falou dela? – MJ quis saber. – Só falei que você não está sempre certo e você pensou nela na hora. – O que você quis dizer, então? – Não quis dizer nada específico. Mas parece que você não tira isso da cabeça. – Ela colocou a mão no ombro dele. – Parece que você acha que não agiu rápido o suficiente. – Eu reagi o mais rápido que pude. – Então você não parou para se gabar? – É óbvio que não. Claro, eu falei aquelas besteiras de sempre. Mas achei que ele estava fugindo. Não consigo ler mente de robô. Não tinha como saber que ele quebraria o vidro. Ninguém teria como saber. – Por que você pensou que ele estava fugindo? – Ela não sabia bem por que – Por que você pensou que ele estava fugindo? – Ela não sabia bem por que estava questionando tanto Peter sobre esse ponto. Parecia meio desleal. E, no entanto, também parecia necessário. – Ele tinha acabado de me ver destruindo seu parceiro. Aquelas coisas se adaptavam ou estavam sendo controladas por seres humanos. Seja como for, reagiam ao que viam. Ele sabia que sofreria o mesmo destino se eu fosse atrás dele, por isso fugiu. – Você quer dizer que ele mudou de tática. Atacou civis para distrair você. – Sim, mas ele estava indo na direção contrária de mim. Fazia sentido supor que ele estava batendo em retirada. – Não é você que vive dizendo que ninguém devia supor nada? – ela perguntou, tentando manter a voz suave. – Escuta, o que você está tentando fazer aqui? Me convencer de que eu poderia ter salvado aquele cara, mas não salvei? – Não é isso que estou dizendo. Só estou falando… que antes você costumava ser tão cuidadoso, e estou com medo do que possa acontecer se você ficar convencido demais. Ele a olhou de cara feia. – Não faz nem uma semana que você me falou que estava feliz porque eu tinha parado de duvidar de mim mesmo o tempo todo. Parece até que você mudou de ideia. – Eu só estou… – Não. Estou cansado disso. Estou cansado de levar a culpa pela maneira como todo mundo ferra com a minha vida. A culpa disso tudo é do Jameson por mandar aqueles robôs atrás de mim! Ele é o assassino aqui. Ele que é o vilão da história. MJ olhou para ele com tristeza. Ela conhecia bem o som de alguém se recusando a encarar a realidade. Ela fizera o mesmo durante anos, escondendo-se de uma vida familiar problemática atrás de uma fachada superficial e extrovertida. Sempre que alguma coisa de ruim acontecia em sua vida, sempre que alguém que ela amava sofria, ela fugia em busca da próxima festa, onde dançava e fazia piadas até esquecer. Ela havia abandonado a irmã grávida e solteira quando ela mais precisava, um ato pelo qual ainda tinha dificuldade para se perdoar. E, quando descobrira que Peter era o Homem-Aranha, na mesma época em que estava se apaixonando por ele, havia fugido daquela relação, refugiando-se na vida rica e glamorosa de supermodelo. Levara anos para amadurecer a ponto de parar de fugir de seus problemas, admitir que estava errada e aceitar que, às vezes, era preciso se sentir mal pelas coisas. E Peter Parker a havia ajudado muito a alcançar essa maturidade. Mas agora, as ações de Peter estavam começando a lembrá-la de seu antigo eu. Ela o conhecia bem demais para acreditar que ele fosse capaz de esquecer tão facilmente qualquer culpa por Paul Berry ou por seus alunos. A culpa estava ali, e ele estava evitando sentir. – Ninguém está falando que você é o vilão da história, Peter – ela disse. – Mas você nunca teve medo de admitir seus erros antes. – Por que você está se esforçando tanto para me convencer de que eu errei? Você é minha mulher, MJ. Você deveria estar me apoiando agora. – Eu estou tentando te apoiar, Peter. Mas isso não significa que vou concordar cegamente com tudo o que você fala! – Ela se controlou. – Olha, ninguém pode estar certo o tempo todo. É por isso que é bom ter alguém do nosso lado, certo? Estamos juntos nessa. – Ah, estamos? Então por que só vi você por uns cinco minutos nos últimos três dias? – Você sabe como meus ensaios tomam tempo. – Eu sei bem disso. Essa é qual? Sua terceira peça em dois meses? Assim que você termina uma, já sai procurando outra. Como assim? Você não pode tirar uma folga? – Você sabe que peças não pagam tão bem quanto filmes. Você prefere que eu passe quatro meses em Hollywood a cada trabalho? – Então trabalhe mais como modelo. – E desistir de crescer como atriz? – Quanto mais você cresce como atriz, mais diminui como esposa! Eu preciso de você aqui, MJ! – Ah, sério? – ela retrucou. – Porque parece que você não precisa de mais ninguém, Sr. Super-Herói Que Não Erra Nunca! – Bom, talvez eu nunca erre mesmo! – Ele terminou de colocar os disparadores de teia e vestiu as luvas. – Então esse é o novo Peter Parker, hein? Acho que eu gostava mais do velho! – Talvez seja porque ele deixasse você passar por cima dele. Assim como passa por cima de todo mundo. Agora chega! Ele colocou a máscara, se fechando. Em seguida, partiu em uma direção por onde ela não poderia seguir, janela afora e noite adentro. Do outro lado da rua, Barker começou a latir, e seus resmungos ásperos contra a invasão em seu espaço aéreo soaram para MJ como ecos das palavras entre ela e Peter. – Ah, cala a boca, cachorro idiota! – MJ gritou, pois não havia mais com quem gritar. Logo em seguida ela se arrependeu, respirou fundo e saiu para a sacada minúscula. – Ahh, Barker, foi sem querer – ela falou para o rottweiler, que a encarava desconfiado. – Desculpa. Você não é um cachorro idiota. Nós, as pessoas, é que somos idiotas. – Ela se agarrou aos sarrafos de metal da sacada quando as lágrimas começaram a cair incontrolavelmente. – Desculpa. Desculpa. • • • • – O que eu estou dirigindo aqui? – berrou J. Jonah Jameson ao entrar com tudo na redação do Clarim Diário. – Um jornal ou um museu de cera? Mexam-se e façam alguma coisa de útil! Eu quero respostas! Quero escancarar essa história dos robôs! – Na verdade, os repórteres não estavam exatamente parados; a redação estava movimentada como sempre àquela hora do dia. No entanto, esse movimento não o estava levando aonde ele queria chegar, ou seja, a respostas sobre a relação entre Homem-Aranha e os ataques de robôs. Por isso, ele precisava insistir mais. – Urich! O que há de novo sobre aqueles roubos de empresas de alta tecnologia? – Estou saindo para seguir uma pista, chefe. – Isso pode esperar dois minutos! Você achou alguma coisa que ligue o Homem-Aranha aos roubos? – Nada – disse Urich, com seu rosto perpetuamente enrugado. – Nenhum sinal de resíduo de teia, nenhum escombro que pareça ter sido puxado por um fio forte e fino. Os depósitos foram invadidos com força bruta, e os danos sugerem que alguma coisa mecânica foi usada. Não tem nada que sugira a maneira de agir do Aranha. – Se ele está trabalhando com robôs, mudou a maneira de agir. Ele está escondendo. Escuta, partes dos roubos foram encontrados nos destroços dos robôs, certo? – Uma parte sim, pelo menos no seu escritório e no Fifth Avenue Tower. Mas foram roubadas muitas outras coisas que ainda não apareceram. – Ele pode estar construindo outros, então. – Alguém pode estar, sim – Urich retrucou com a voz cínica, mas enfim, ele sempre falava com um tom cínico, então Jameson deixou passar. – Mas por que construir os robôs para destruir? – Para parecer um herói por derrotar aquelas geringonças. – Muito trabalho para fazer, considerando que ele já tem malucos demais em cima dele uma ou duas vezes por semana. Jameson fez uma careta. – Escuta, pago você para ser editor ou repórter? Pare de perder tempo e vai gastar essa sola de sapato! Não volte aqui até ter furos nela, está me ouvindo? – Depois de motivar Urich a sair e encontrar alguns indícios (aqueles repórteres preguiçosos e molengas de hoje em dia precisavam de estímulo para fazer qualquer coisa), Jameson voltou a atenção para outro lugar. – Brant! Alguma novidade sobre os adolescentes internados? – Rubinoff vai receber alta em alguns dias – Betty respondeu sem sair da mesa. – Campanella está estável e melhorando. Nenhuma mudança no caso Ribeiro – ela acrescentou, com a voz triste. – E Campanella continua sendo a única que aceitou dar entrevista. – Duplique a oferta para os outros. Não é exploração se forem bem pagos, e olha que isso já é um roubo. Vamos pagar a faculdade desses moleques se tivermos que gastar mais. Melhor a gente do que o Globo, então cai em cima! Pare de ficar sentada nessa mesa, você não é mais minha secretária, então vai! Vai, vai, vai! Ele parou ao ver um perfil conhecido e grisalho atravessando a redação. – Robbie! – ele chamou, caminhando para encontrar seu editor-chefe. – Que ideia é essa de mudar minha manchete para a matéria de capa sobre a tal da Berry? – Ele brandiu uma cópia do boneco provisório de primeira capa da edição seguinte, que mostrava uma foto do rosto mascarado do herói ao lado da manchete: HOMEM-ARANHA É PROCESSADO POR HOMICÍDIO CULPOSO. – A ideia – respondeu Robbie – é que colocar só a palavra “Homicídio!” ao lado de uma foto do Aranha é uma acusação direta demais. – Quero minha manchete de volta, Robbie! Quero esse jornal atrás de todos os passos de Iona Berry! – Esse não era nem de longe o primeiro processo contra o Homem-Aranha, mas até então, ninguém nunca tinha conseguido levar o Cabeça de Teia ao tribunal. Legalmente, o simples fato de não comparecer teria levado a uma condenação, mas rastrear o herói e obrigá-lo a pagar a indenização era outra questão. Além disso, Matt Murdock, aquele advogado de coração mole, costumava pegar casos relacionados a super-heróis (por “uma questão de princípio”, segundo ele) e, em nome do Aranha, conseguia que ele fugisse de processos como aquele. Jonah pretendia instigar um protesto público contra essa injustiça, usando o caso Berry como símbolo de todos os outros para ter certeza que dessa vez chegassem a algum lugar. – Jonah, na minha sala, por favor. – A voz de Robertson era calma, mas determinada. Sem parar de resmungar, Jameson seguiu Robbie até seu escritório e fechou a porta. – Quantas vezes vamos ter essa conversa, Jonah? – Robbie perguntou, com a voz mais acalorada. – Faz anos que você saiu da supervisão editorial direta do Clarim. Você mesmo reconheceu que sua objetividade não era confiável depois do escândalo do Escorpião. E você me colocou no comando porque confiava que eu manteria a neutralidade de que um jornal precisa. Mas, nesses últimos anos, você voltou a agir daquele jeito, como se ainda editasse o jornal. Eu aceito isso porque entendo que não faz parte da sua natureza guardar sua opinião para si mesmo e também porque confio no seu julgamento, na maioria das vezes. Mas numa situação como essa, Jonah, em que você faz parte da história, eu preciso bater o pé pelo bem do Clarim. Preciso insistir para que você mantenha suas mãos longe da cobertura da história dos robôs e de tudo relacionado a ela. Você pode continuar falando o que quiser no seu editorial, sem ultrapassar os limites da calúnia. Mas precisa deixar o resto do jornal em minhas mãos. Porque nem eu nem você vamos querer lidar com a merda que vai subir de novo, com o mal que vai ser feito contra a reputação desse jornal se você não se afastar. Jameson vinha sentindo um calor subindo sob o colarinho ao longo do discurso de Robbie, enquanto se preparava para uma resposta mordaz… mas percebeu que não tinha nada a dizer. Aquele homem havia ganhado seu respeito e sua confiança, talvez mais do que qualquer outro ser humano. Claro, Jameson amava e confiava em sua mulher, mas… Robbie era um jornalista. O melhor jornalista com que Jameson já havia trabalhado. E jornalismo era o primeiro nome de J. Jonah Jameson. Depois de um momento, Jameson suspirou. – Eu sei, Robbie. Você tem razão. É só que… preciso fazer alguma coisa. Homem-Aranha está saindo do controle. Ele está atrás de mim, Robbie. Está atrás da minha mulher. Não posso ficar de mãos atadas. – Entendo como você se sente, Jonah. Mas, ouvindo o que ele falou, parece que ele acha que você começou tudo isso. Talvez intensificar as coisas não seja o melhor a se fazer. Pode ser pior, na verdade. – Eu quero que ele venha atrás de mim, Robbie. Marla vai sair da cidade; ela vai estar segura. Mas quero que ele se concentre em mim, para não machucar mais ninguém. Quero tirar aquele bicho da toca. E acabar com ele. Robertson meneou a cabeça. – Você já errou em relação a ele antes. Por que tem tanta certeza dessa vez? Ele nunca foi um assassino. Poxa, ele já salvou sua vida várias vezes! Ele me salvou da prisão! Ele deve ter salvado metade das pessoas neste prédio, sem falar do próprio prédio! – E metade das vezes salvou de lunáticos que estavam atrás dele! Sim, eu sei que ele se acha um herói, Robbie. E às vezes, isso significa que ele tem sorte e salva uma ou outra vida. Mas ele é uma bomba-relógio. Alguma mutação ou acidente bizarro deu poder a ele, e ele se diverte mostrando como é forte e corajoso correndo pela cidade, batendo em seus companheiros bandidos e aberrações. Não se esqueça que ele não começou como combatente ao crime. Ele começou tentando ficar rico e famoso. Jameson relembrou aqueles primeiros tempos, em que um misterioso “Masked Marvel” havia estreado em uma competição de luta-livre, humilhando seu rival alegremente. Em uma semana, ele começou a aparecer em programas noturnos de entrevista e competições de monster truck como “O Espetacular Homem-Aranha”, usando sua fantasia intimidadora e extravagante, sua habilidade de escalar paredes e seus disparadores de teia chamativos que, sem dúvida, havia pegado emprestado ou roubado de algum lugar. Na época, Jameson mal tomou conhecimento da existência dele, achando-o no máximo patético e detestável quando se dava ao trabalho de pensar na febre do momento. Mas então veio a notícia: o jovem rebelde e vaidoso havia se intrometido em uma operação policial, colocando vidas em risco ao invadir de maneira irresponsável um depósito onde um assassino armado estava se protegendo dos policiais. Foi somente a sorte que protege os criminosamente burros que possibilitou que o Homem-Aranha acabasse com o pistoleiro sem ser morto ou causar a morte de outras pessoas. Ironicamente, era o mesmo homem que havia assassinado o tio de Peter Parker poucas horas antes, e Jameson às vezes se perguntava se tinha sido algum tipo de gratidão inadequada o que levara à fascinação de Parker por fotografar o teioso. (Inclusive, houve o tempo em que ele havia cogitado, de maneira tola, que o próprio Parker pudesse ser o Homem-Aranha, usando uma câmera automática para tirar aquelas fotos malfeitas. Mas ele tinha visto os dois juntos mais de uma vez. Além disso, a tia de Parker era uma mulher doce e elegante – pelo menos até recentemente, quando mudara o tom e passara a defender as palhaçadas do Homem-Aranha. Senilidade era uma coisa triste. De todo modo, não haveria como uma mulher de classe como aquela ter criado um vândalo grosseiro como o escalador de paredes.) Nos dias que se seguiram, Homem-Aranha começara uma cruzada súbita contra o submundo, ao mesmo tempo em que continuava com suas incursões no show business. Foi então que Jameson começou a perceber o perigo representado por aquele homem, aquele caçador de glórias que não buscava nada além de lucrar com seus poderes. Ele tinha visto que a perseguição do lançador de teias contra os criminosos não passava de mais uma tentativa de alcançar fama e fortuna, imitando os super-heróis que haviam começado a surgir nos últimos tempos. (Tanto que o Homem-Aranha tinha tentado quase imediatamente entrar para o Quarteto Fantástico, abandonando o objetivo quando descobriu que não havia dinheiro envolvido no trabalho.) E Jameson sabia que alguém assim podia acabar machucando as pessoas. Por isso, Jameson havia começado a escrever editoriais advertindo as pessoas sobre a ameaça do Homem-Aranha. Ele não podia correr o risco de permitir que o escalador de paredes levasse o público a crer que era um herói. Infelizmente, seus esforços saíram pela culatra; a publicidade negativa havia tornado HomemAranha uma persona non grata no show business, deixando-o livre para assumir o combate ao crime em tempo integral. Jameson ainda especulava se o HomemAranha teria tirado essa ideia da cabeça e voltado para o show business se ele não tivesse acabado com essa carreira do aracnídeo. Mas a possibilidade de ser ele o responsável por isso só tornava ainda mais imperativo que fosse ele quem reparasse o erro. – Ele está em busca da glória, Robbie – Jameson continuou. – E não se importa com quantas leis ou quantos bens quebre no caminho. Ele acha que está acima da lei, acima de todos nós que rastejamos aqui em baixo enquanto ele se balança acima das nossas cabeças e ri da nossa cara. Não há nada que impeça o Homem-Aranha, então por que ele não passaria dos limites? – Por que o Capitão América, ou Thor ou Reed Richards não passaram dos limites? – Robertson perguntou. – Os heróis poderiam ter dominado o planeta milhares de vezes se quisessem e ninguém teria como impedir. Mas eles não dominaram porque acreditam que seus poderes foram feitos para o bem. Jameson riu com escárnio. – Ninguém é herói, Robbie. Os heróis são só uns valentões ególatras com um bom assessor de imprensa. Todos temos nosso lado negro, nosso egoísmo, nossa raiva, nosso ódio. – Claro, mas nós nos controlamos. – A sociedade nos controla. Nós não fazemos as coisas torpes que queremos fazer porque tem gente olhando. Porque vamos ser punidos por isso: vamos para cadeia, vamos ser demitidos, perder nossa posição social, ser olhados com desprezo ou repugnância pelas outras pessoas. É nosso medo de não conseguir sair impunes que nos mantém sob controle. Ele balançou a cabeça, pensando em seu pai, o herói de guerra, e nas coisas nada heroicas que fazia quando ninguém estava vendo: as bebedeiras, a traição, as surras. – Mas, se ninguém puder ver, se acharmos que podemos sair impunes, fazemos qualquer coisa. Para alguém que se esconde atrás de uma máscara… alguém que a polícia não consegue identificar, alguém cujos próprios amigos e parentes não devem saber o que faz… não há consequências a serem enfrentadas. Nada os impede. E, quanto mais ele conseguir sair impune, mais vai gostar de fazer essas coisas e mais longe ele vai. Jameson lembrava de uma época em que teve inveja do Homem-Aranha. Ele salvara a vida do filho astronauta de Jameson, John, apesar do mal que o próprio Jameson havia feito à carreira dele. Embora JJJ tenha condenado publicamente o aracnídeo, culpando-o por ter sabotado a nave espacial de John em primeiro lugar em vez de dar a impressão de que estivera errado em seus avisos, em algum grau ele havia ficado grato. E, por um tempo, desejou em segredo se deixar convencer que Homem-Aranha era um herói afinal, um homem melhor do que Jameson por estar disposto a arriscar a própria vida para salvar os outros enquanto Jameson estava interessado apenas no lucro e no sucesso. Mas isso não durou. Jameson se esforçou para se aperfeiçoar, para provar que não era um homem pior do que o escalador de teias. Ele havia se tornado um defensor dos direitos civis e da segurança pública. Havia fundado instituições de caridade de todo tipo. Tinha trazido Robbie, o melhor e mais honesto jornalista do pedaço, a bordo para aumentar a respeitabilidade do Clarim. Havia deixado para trás suas primeiras tentativas infantis de mandar aberrações superpoderosas ou robôs Esmaga-Aranhas atrás do Cabeça de Teia, percebendo que, ao fazer isso, só se rebaixaria ao nível do aracnídeo. E ele havia percebido uma coisa. Por mais boas ações que praticasse, ele ainda as fazia em nome do lucro, mesmo que fosse pelo lucro pessoal de se sentir melhor em relação a si mesmo e ao que os outros pensavam dele. E isso também o fez perceber outra coisa: o Homem-Aranha não era melhor do que ele. O Homem-Aranha também havia começado a carreira atrás de dinheiro fácil. E se, no fundo, J. Jonah Jameson continuava sendo um oportunista atrás de dinheiro, apesar de todos os empreendimentos de caridade e campanhas heroicas que realizava pelo bem da cidade, o Homem-Aranha devia ser igual também. A única diferença era que Jameson mostrava o rosto. Era o seu próprio egoísmo que o mantinha na linha, porque ele sabia as consequências que teria de enfrentar se desviasse do caminho certo. Ele declarou seus pensamentos para Robbie: – Todo mundo sabe quem é o Quarteto Fantástico. Muitos dos Vingadores não têm identidades secretas, e o governo sabe quem eles são. Pessoas assim, pessoas que têm a coragem de mostrar a cara e aceitar a responsabilidade por suas ações, são dignas de confiança, pelo menos enquanto pudermos vigiá-las. Mas um solitário superpoderoso praticando justiça por conta própria com uma máscara ridícula? Aquilo é uma bomba prestes a explodir, Robbie. Não tem nada que o impeça. – E, sem nada que o impedisse, Jameson sabia que, mais cedo ou mais tarde, o Homem-Aranha faria… enfim, exatamente o que o próprio Jameson faria se achasse que poderia sair impune. Faria o que quisesse, roubaria o que quisesse e acabaria com todos no caminho. Jameson nunca assumiria para Robbie, nunca assumiria para ninguém, mas este era o verdadeiro motivo porque odiava e temia o Homem-Aranha: porque ele o entendia. Porque sabia que, no fundo, eles eram iguais. Que os céus tivessem piedade dos dois.


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