15 de abril de 1778
—Antes de partir, há algo que preciso lhe dizer, Élise.
Ela segurou minha mão e seu aperto era muito frágil. Meus ombros se sacudiram
quando comecei a soluçar.
—Não, por favor, mãe, não...
—Acalme-se, criança, seja forte. Seja forte por mim. Estou sendo levada de você, mas
veja isso como um teste de sua força. Deve ser forte, não só por si mas pelo seu pai.
Minha partida o torna vulnerável às vozes elevadas da Ordem. Você deve ser uma voz no
outro ouvido, Élise. Deve pressionar pela terceira via.
—Não posso.
—Você pode. E um dia será Grã-Mestre e liderará a Ordem obedecendo aos próprios
princípios. Os princípios nos quais você crê.
—Eles são seus, mãe.
Ela soltou minha mão e acariciou meu rosto. Seus olhos estavam turvos e o sorriso
flutuava em seu rosto.
—São princípios fundamentados na compaixão, Élise, e você tem muito dela. Muito.
Saiba que tenho muito orgulho de você. Eu não poderia ter desejado uma filha mais
maravilhosa. Vejo em você o melhor de seu pai e o melhor de mim. Não poderia ter
pedido mais, Élise, e morrerei feliz... por ter conhecido você e honrada por ter
testemunhado o nascimento de sua grandeza.
—Não, mãe, por favor, não.
As palavras eram pronunciadas entre os soluços que assolavam meu corpo. Minhas
mãos agarraram o braço dela por entre os lençóis. Seu braço tão fino sob os lençóis.
Como se, segurando-o, eu pudesse evitar a partida de sua alma.
Ocabelo ruivo dela estava espalhado pelo travesseiro. Os olhos tremulavam.
— Chame seu pai, por favor — disse ela numa voz que estava fraca e suave demais,
como se a vida estivesse lhe escapando. Corri à porta, abri-a, chamei por uma das Maries,
pedindo que buscasse meu pai, bati a porta e voltei para o lado de minha mãe, mas era
como se o fim estivesse chegando rapidamente agora, e conforme a morte se estabelecia,
ela me fitava com olhos lacrimosos e o sorriso mais terno que eu já tinha visto.
—Cuidem um do outro, por favor —disse ela —, eu amo demais vocês dois.

Nenhum comentário:
Postar um comentário