25 de janeiro de 1788
Logo depois do almoço, Judith veio me ver. A mesmíssima Judith de quem ouvi o boato
sobre o amante de Madame Levene. Nem minha inimiga nem admiradora, Judith manteve
o rosto impassível quando me deu a notícia de que a diretora queria me ver prontamente
em sua sala, a fim de falar do roubo de uma ferradura da porta do dormitório.
Fiz uma expressão temerosa, como quem diz “Ah, meu Deus, de novo não. Quando
esta tortura terá fim?”, quando na realidade eu não poderia estar mais empolgada.
Madame Levene estava em minhas mãos. Entregue a mim em uma bandeja estava a
oportunidade de ouro de dar a ela a boa nova de que eu sabia tudo sobre seu amante,
Jacques, porque enquanto ela achava que me castigaria com a vara por roubar a ferradura
do dormitório, na realidade eu não ficaria com a habitual ardência na palma da mão e
uma sensação fervilhante de injustiça, mas com uma carta para meu pai. Uma carta na
qual Madame Levene lhe informaria que sua filha Élise estava de partida para
aprendizagem individual de inglês em... adivinhe só.
Isto é, se tudo saísse de acordo com meus planos.
Já à porta da sala dela, bati fortemente, entrei e depois, com os ombros eretos e o
queixo empinado, atravessei o cômodo até onde ela estava sentada, diante da janela, e
joguei a ferradura em sua mesa.
Houve um instante de silêncio. Aqueles olhos de miçanga fixaram-se no pedaço
indesejado de ferro enferrujado em sua mesa, depois se ergueram aos meus, mas em vez
do olhar habitual de desdém e ódio mal disfarçado, havia outra coisa ali —uma emoção
indecifrável que eu jamais tinha visto nela.
— Ah — disse ela com um leve tremor na voz —, muito bem. Você devolveu a
ferradura roubada.
— Era por isso que queria me ver, não? — falei cautelosamente, de súbito menos
segura de mim.
—Foi o que eu disse a Judith como justificativa para vê-la, sim. —Ela estendeu a mão
por baixo da mesa e ouvi o som de uma gaveta se abrindo. —Mas havia outra razão.
Senti um arrepio, mal me atrevi a perguntar:
—E o que é, madame?
—Isto —disse ela, colocando algo na mesa à sua frente.
Era meu diário. Senti meus olhos se arregalarem e de repente fiquei sem ar. Meus
punhos se flexionavam.
—A senhora... —experimentei, mas não consegui terminar. —A senhora...
Ela ergueu um dedo ossudo e trêmulo para mim e seus olhos faiscaram quando a voz
se elevou, sua raiva fazendo par com a minha.
—Não me venha com o papel de vítima, jovenzinha. Não depois do que li.
O dedo bateu na capa do diário. Ali dentro estavam meus pensamentos mais íntimos,
arrancados de seu esconderijo, debaixo de meu colchão. Examinados por minha inimiga
mais odiada.
Meu mau humor agora aumentava. Eu lutava para controlar a respiração e meus
ombros se erguiam e caíam, os punhos ainda se abrindo e fechando.
— O quanto... o quanto a senhora leu? —consegui questionar.
—O suficiente para saber que você planejava chantagear-me —disse ela sucintamente.
—Nem mais, nem menos.
Mesmo no calor de minha fúria, a ironia não me passou despercebida. Ambas fomos
apanhadas —içadas a meio caminho entre a vergonha de nossos atos e o ultraje pelo que
nos fizeram. Eu mesma sentia uma forte mistura de fúria, culpa e puro ódio e, em minha
mente, delineava minha imagem saltando sobre a mesa, as mãos agarrando o pescoço dela
enquanto seus olhos se esbugalhavam por trás dos óculos redondos...
Em vez disso, simplesmente a encarei, incapaz de compreender o que acontecia.
—Como pôde?
— Porque eu vi você, Élise de la Serre. Eu a vi esgueirando-se em volta do chalé
naquela noite. Eu a vi espionando a mim e Jacques. Então pensei, sensatamente, que seu
diário poderia me esclarecer suas intenções. Nega que pretendia me chantagear, De la
Serre? —Seu rubor aumentava. —Chantagear a diretora da escola?
Mas nossa fúria estava em conflito.
—Ler meu diário é imperdoável —censurei, enfurecida.
A voz dela se elevou.
— O que você planejava fazer era imperdoável. Chantagem. — Ela cuspiu a palavra
como se não conseguisse acreditar. Como se nunca tivesse conhecido tal conceito.
Empertiguei-me.
—Eu não pretendia lhe fazer mal. Era um meio para se atingir um fim.
—Ouso dizer que a perspectiva de me prejudicar a deleitava, Élise de la Serre. —Ela
brandiu meu diário. —Li exatamente o que você pensa de mim. Seu ódio... não, pior, seu
desprezo por mim se derrama de cada página.
Dei de ombros.
—Isto a surpreende? Afinal, a senhora não odeia amim?
— Ah, menina estúpida — ela estava furiosa —, é claro que não a odeio. Sou sua
diretora. Quero o melhor para você. E para sua informação, também não fico escutando à
porta de ninguém.
Lancei um olhar de dúvida.
—A senhora me pareceu bem feliz quando pensou em minha punição iminente.
Ela baixou o olhar.
— No calor do momento, todos nós dizemos coisas que não deveríamos, e
arrependo-me desta observação. Mas o fato é que, embora você de maneira nenhuma seja
a pessoa de quem eu mais goste no mundo, sou sua diretora. Sua guardiã. E você, em
particular, chegou a mim como uma menina ferida, recém-saída da perda de sua mãe.
Você, em particular, precisava de atenção especial. Ora, sim, minhas tentativas de ajudar
tiveram de assumir a forma de uma batalha de vontades e suponho que isto não seja
surpreendente e, sim, suponho que você deva pensar que a odeio... ou devia pensar,
quando você era mais jovem e chegou aqui. Mas agora você é uma dama, Élise, deveria
saber se comportar. Não li mais de seu diário do que precisava a fim de determinar sua
culpa, mas li o suficiente para saber que seu futuro está numa direção diferente daquela
da maioria de nossas alunas e, por isso, fico satisfeita. Ninguém com o seu espírito deve
se acomodar a uma vida de domesticidade.
Tive um sobressalto, incapaz de acreditar no que ouvia, e ela permitiu que eu
absorvesse as palavras antes de continuar, com a voz mais mansa:
— E agora nos encontramos em uma situação complicada, pois ambas fizemos algo
terrível e ambas temos o que a outra quer. De você, quero silêncio sobre o que viu; e você
quer de mim uma carta a seu pai. —Ela me passou o diário por sobre a mesa. —Eu lhe
darei a carta. Mentirei por você. Direi a ele que passará parte de seu último ano em
Londres, a fim de que possa fazer o que precisa. E quando você tiver exorcizado o que a
compele a ir, tenho confiança de que será uma Élise de la Serre diferente que voltará a
mim. Uma Élise que manteve o espírito da garotinha, mas abandonou a jovem de cabeça
quente.
A carta estaria comigo à tarde, disse ela, e me levantei para sair, mais calma, a
vergonha deixando minha cabeça pesada. Quando cheguei à porta, ela me deteve:
—Mais uma coisa, Élise. Jacques não é meu amante. É meu filho.
Não creio que minha mãe teria muito orgulho de mim nessa hora.
7 de fevereiro de 1788
i
Agora estou a uma boa distância de Saint-Cyr. E depois de dois dias tumultuados, escrevo
este texto em...
Bem, não. Não vamos entregar nada ainda. Voltemos a quando tomei minha
carruagem, saindo do pavoroso Le Palais de la Misère, sem olhadelas para trás, nem
amigas desejando-me bon voyage, nem Madame Levene parada à janela, acenando-me com
um lenço. Tão somente eu em uma carruagem e com meu baú amarrado no teto.
—Chegamos —disse o cocheiro quando paramos nas docas em Calais.
Era tarde e o mar era um tremeluzir escuro e ondulante para além das pedras do
calçamento do porto e dos mastros vacilantes de navios ancorados. No alto, gaivotas
guinchavam, e ao redor havia o povo das docas, cambaleando de uma taberna a outra, a
noite em plena atividade, um alvoroço turbulento no ar. Meu cocheiro lançou olhares
reprovadores de um lado a outro, depois subiu no estribo para soltar meu baú e o deitou
no calçamento do porto. Abri minha porta e ele esbugalhou os olhos. Eu não era mais a
menina que ele havia buscado.
Por quê? Porque durante a jornada, eu me transformei. Havia tirado o maldito
vestido e agora usava calções, uma camisa, colete e sobrecasaca. Arranquei a touca
pavorosa, prendi o cabelo para trás. E agora, ao sair da carruagem, metia o tricorne na
cabeça, curvando-me para meu baú e abrindo-o, tudo sob o olhar atônito do cocheiro.
Meu baú cheio das roupas que eu detestava e bugigangas que eu pretendia jogar fora,
afinal. Só precisava de meu embornal, isto é, a minha bolsa de alça — dele e da espada
curta que retirei das profundezas do baú e prendi na cintura, permitindo que o embornal
caísse sobre ela e a escondesse.
—Pode ficar com o baú, se quiser —falei. De dentro do colete, tirei uma bolsinha de
couro e catei algumas moedas.
— Então... quem está aqui para acompanhá-la? — perguntou ele, embolsando as
moedas e olhando em volta, de cara amarrada para os celebrantes noturnos que andavam
pelas docas.
—Ninguém.
Ele me olhou de viés.
—Isso é alguma brincadeira?
—Não, por que seria?
—Não pode andar pelas docas sozinha a esta hora.
Joguei outra moeda em sua mão. Ele a olhou.
—Não —disse ele com firmeza —, infelizmente, não posso permitir.
Joguei mais uma moeda em sua mão.
—Muito bem então —concordou ele —, a decisão é sua. Mas fique longe das tabernas
e perto das lamparinas. E fique alerta junto às docas, são altas e irregulares, e muitos
infelizes caíram por chegar perto demais para espiar pela beira. E não encare ninguém nos
olhos. Ah, e faça o que fizer, mantenha esta bolsa escondida.
Sorri com doçura, sabendo que eu pretendia aceitar todos os conselhos, exceto a
parte sobre as tabernas, pois era exatamente nelas que eu queria ir. Vi a carruagem se
afastar e segui diretamente para a mais próxima delas.
A primeira na qual entrei não tinha nome, mas havia uma placa de madeira,
pendurada acima das janelas, bem no alto, com duas galhadas grosseiramente desenhadas,
então resolvi intitulá-la Os Chifres. Enquanto eu estava do lado de fora criando coragem
para entrar, a porta se abriu, deixando sair uma lufada de ar quente, um som exuberante
de piano e o fedor de cerveja, bem como um homem e uma mulher desequilibrados e
com as bochechas rosadas, segurando-se um no outro. No instante em que a porta se
abriu, tive o vislumbre do interior da taberna, e foi como olhar uma fornalha antes de a
porta voltar a ser fechada rapidamente e o silêncio retornar ao porto, o barulho do
interior da taberna reduzido a um balbuciar de fundo.
Preparei-me. Muito bem, Élise. Você queria se livrar daquela escola afetada, das regras e
regulamentos que detestava. Do outro lado desta porta, está o extremo oposto da escola. A
pergunta é: você é realmente tão forte como pensa ser?
(A resposta, eu estava prestes a descobrir, era não.)
Entrar ali foi como penetrar em um novo mundo, formado inteiramente de fumaça e
barulho. Risos roucos, guinchos de aves, piano e cantoria de bêbados assaltaram meus
ouvidos.
Era uma sala pequena, com uma varanda em uma extremidade e gaiolas de pássaros
penduradas em vigas e cheia de bêbados. Homens reclinavam-se nas mesas ou no chão e a
varanda estava lotada de pessoas espichando-se para importunar quem estava abaixo.
Fiquei junto da porta, demorando-me nas sombras. Os bêbados próximos olharam-me
com interesse e ouvi um assobio galanteador cortar o barulho, depois atraí o olhar de
uma criada de avental que se virou depois de baixar duas canecas de cerveja em uma mesa,
a cerveja felizmente prendendo a atenção dos homens sentados ali.
—Procuro pelo capitão de um navio que esteja partindo para Londres pela manhã —
falei em voz alta.
Ela enxugou as mãos no avental e revirou os olhos.
—Algum capitão em especial? Algum navio em especial?
Balancei a cabeça. Isso não importava.
Ela assentiu, olhando-me de cima a baixo.
—Vê aquela mesa no fundo? —Semicerrei os olhos através da fumaça e dos corpos
saltitando, enxergando a mesa bem no canto. —Vá até lá, fale com aquele que chamam de
Intermediário. Diga-lhe que Clémence a enviou.
Olhei mais atentamente, vendo três homens sentados de costas para a parede, com
cortinas de fumaça conferindo-lhes a aparência de fantasmas, como espíritos bebedores
de regresso, amaldiçoados a assombrar a taberna pela eternidade.
—Qual deles é o Intermediário? —perguntei a Clémence.
Ela sorriu com malícia ao se afastar.
—É o que está no meio.
Sentindo-me exposta, parti para o Intermediário e seus dois amigos. Rostos se
voltavam para cima enquanto eu passava pelas mesas.
—Ora, ora, que coisinha atraente para estar num lugar como este —ouvi, bem como
algumas outras sugestões mais indecentes, as quais o recato me proíbe de partilhar.
Agradeci a Deus pela fumaça, pela luz baixa, pelo barulho e pelo estado geral de
embriaguez que pendia sobre o lugar. Significava que só aqueles mais próximos de mim
demonstravam interesse.
Cheguei aos três homens-espíritos e me coloquei diante da mesa, onde estavam
postados de frente para o salão com seus canecos, arrastando o olhar das festividades
para mim. Enquanto outros olhavam de modo enviesado, faziam caretas ou sugestões
bêbadas e grosseiras, eles simplesmente olhavam, avaliando-me. O Intermediário, mais
baixo que seus dois companheiros, olhou para além de mim e me virei a tempo de ter um
vislumbre da criada sorridente, que escapulia dali.
Ai, ai. De repente tive a consciência de como estava longe da porta. Ali, nas
profundezas da taberna, era ainda mais escuro. Os ébrios atrás pareciam ter se fechado
sobre mim. As chamas de tochas bruxuleavam nas paredes e os rostos dos três homens
me observavam. Pensei no conselho de minha mãe, perguntei-me o que o Sr. Weatherall
diria. Permaneça impassível, porém vigilante. Avalie a situação. (E ignore aquela sensação
ranheta de que você devia ter feito tudo isso antes de entrar na taberna.)
—E o que uma jovem bem-vestida faz totalmente sozinha em um lugar como este? —
disse o homem do meio. Sem sorrir, pegou um cachimbo de haste longa no bolso do
peito e o encaixou em um espaço entre os dentes tortos e escurecidos, mascando-o com
uma gengiva rosada.
—Disseram-me que o senhor pode me ajudar a encontrar o capitão de um navio —
disse eu.
—E o que você poderia querer com um capitão?
—Uma passagem para Londres.
—Para Londres?
—Sim.
—Quer dizer, Dover?
Senti que ruborizava e engoli minha estupidez.
—É claro —confirmei.
Os olhos do Intermediário dançavam de divertimento.
—E você precisa de um capitão para esta viagem, não?
—Exatamente.
—Ora, por que simplesmente não toma o paquete?
A sensação de incompetência tinha voltado.
—Opaquete?
OIntermediário reprimiu uma risadinha.
—Não importa, menina. De onde você é?
Alguém me empurrou rudemente por trás. Repeli com o ombro e ouvi um bêbado
bater em uma mesa próxima, derramando bebidas e sendo xingado pelo tormento, antes
de se dobrar no chão.
—De Paris —respondi ao Intermediário.
— Paris, hein? — Ele tirou o cachimbo da boca e um fio de baba caiu na mesa
enquanto ele o usava como ponteiro. — De uma das áreas mais salubres da cidade,
porém, estou certo, a julgar por sua aparência, quero dizer.
Eu nada falei.
Ocachimbo tinha voltado. A gengiva cor-de-rosa.
—Qual é o seu nome, menina?
—Élise —informei a ele.
—Sem sobrenome?
Fiz uma expressão evasiva.
—Eu poderia reconhecer seu sobrenome?
—Valorizo minha privacidade, apenas isso.
Ele assentiu um pouco mais.
— Bem — disse ele —, creio que posso encontrar para você um capitão com quem
falar. Na realidade, eu e meus amigos sairemos para nos encontrar com este cavalheiro
para uma ou duas cervejas. Por que não se junta a nós?
Ele fez menção de se levantar...
Estava tudo errado. Fiquei tensa, consciente do clamor à minha volta, empurrada por
bêbados e, ainda assim, de algum modo, totalmente isolada; depois fiz uma leve mesura,
sem desviar o olhar deles.
—Agradeço por seu tempo, cavalheiros, mas pensei melhor.
O Intermediário pareceu surpreso e seus lábios se abriram em um leve sorriso,
revelando mais do cemitério de dentes. Foi a mesma coisa que o peixinho viu —segundos
antes de ser devorado por um tubarão.
—Pensou melhor, é? —rebateu ele com um olhar de soslaio à esquerda e à direita,
para os dois companheiros maiores. —Oque quer dizer? Concluiu que não quer mais ir
a Londres? Ou que eu e meus amigos não parecemos suficientemente capazes de navegar
para o seu gosto?
— Algo assim — falei, e fingi não notar o sujeito à esquerda dele empurrando a
cadeira para trás como se estivesse prestes a se levantar, e o homem do outro flanco
inclinando-se quase imperceptivelmente para a frente.
—Desconfia de nós, é isso?
— Pode ser — concordei, com o queixo empinado. Cruzei os braços e aproveitei a
oportunidade para colocar a mão direita mais próxima da guarda de minha espada.
—E por que isso? —perguntou ele.
—Bem, o senhor não me perguntou quanto posso pagar, para começar.
Agora os lábios dele se abriam em um sorriso.
—Ah, você terá sua cabine para Londres.
Fingi não compreender o que ele insinuava.
— Ora, está tudo muito bem e agradeço por seu tempo, mas providenciarei minha
passagem eu mesma.
Agora ele ria abertamente.
—Mas era exatamente cuidar de sua passagem o que tínhamos em mente.
Mais uma vez deixei passar.
—Partirei agora, messieurs —avisei, com uma leve mesura, virando-me para tomar o
caminho de volta pela multidão.
— Não, não vai — disse o Intermediário e, com um aceno, mandou seus cães para
mim.
Eles se levantaram, com as mãos nas espadas à cintura. Recuei um passo para trás e
para o lado, sacando minha própria espada e brandindo-a para o primeiro, um
movimento que os fez parar de pronto.
— Ooh — disse um deles, e os dois começaram a rir. Aquilo me abalou. Por um
segundo não soube como reagir quando o Intermediário meteu a mão em seu casaco e
sacou uma adaga curva, e o segundo homem fechou a cara e avançou.
Tentei repeli-lo com a espada, mas não fui agressiva o suficiente; além disso, havia
muita gente em volta. O que deveria ter sido um golpe de alerta confiante se revelou
ineficaz.
“Você a usará para treinar.”
Mas não usei. Em quase dez anos de escola, quase não treinei com minha espada e,
embora em determinada ocasião, quando o dormitório estava em silêncio, eu tivesse
tirado a caixa de seu esconderijo, embora a tivesse aberto para examinar o aço novo e
passar os dedos pela inscrição na lâmina, raras vezes a levei a um lugar privativo a fim de
praticar meus exercícios. Só o suficiente para evitar que minhas habilidades ficassem
completamente calcificadas, mas não para que não enferrujassem.
E por isso, ou por inexperiência, ou mais provavelmente por uma combinação de
ambos, eu estava lamentavelmente despreparada para dar conta daqueles três homens. E,
quando veio, não foi um golpe esplêndido de espada que me colocou esparramada nas
tábuas molhadas, fétidas e tomadas de serragem da taberna, mas um empurrão com as
duas mãos do primeiro dos brutamontes a me alcançar. Ele vira o que eu não tinha visto.
Atrás de mim jazia o mesmo bêbado que eu rechaçara antes e, quando deslizei um passo
para trás, meus tornozelos o encontraram, daí perdi o equilíbrio, caí e no instante
seguinte estava deitada por cima dele.
—Monsieur —falei, na esperança de que de algum modo meu desespero penetrasse o
véu do álcool, mas os olhos dele estavam vidrados e o rosto, encharcado de bebida.
No segundo seguinte, eu estava berrando de dor, sentindo o calcanhar de uma bota
pousando no dorso de minha mão, triturando a carne e fazendo-me soltar a espada.
Outro pé afastou minha amada espada; olhei e tentei me levantar, porém mãos me
agarraram e me puxaram para cima. Meus olhos desesperados foram da multidão que se
retraía, a maioria rindo e desfrutando do espetáculo, ao bêbado prostrado e então à
minha espada curta, que agora estava embaixo da mesa, fora de alcance. Eu esperneava e
me contorcia. Diante de mim estava o Intermediário, brandindo a faca, os lábios
repuxados em um sorriso sem humor, os dentes ainda mascando em volta da haste do
cachimbo. Ouvi uma porta se abrir atrás de mim, uma rajada súbita de vento frio, então
fui arrastada para a noite.
Tudo aconteceu muito rapidamente. Em um instante eu estava na taberna lotada, no
seguinte em um pátio quase vazio, apenas eu, o Intermediário e os dois brutamontes.
Empurraram-me ao chão e ali fiquei por um segundo, resmungando e tentando tomar ar,
procurando mostrar bravura, mas, intimamente, pensando: burra... Garotinha burra,
inexperiente e arrogante.
Mas que diabos eu tinha na cabeça?
O pátio se abria para o porto na frente da taberna, onde a poucos metros passava
gente que ignorava ou não se importava com meus apuros. Não muito longe dali, havia
uma pequena carruagem. Agora o Intermediário subia nela, um de seus brutamontes
agarrando-me rudemente pelos ombros enquanto o outro abria a porta. Tive o vislumbre
de outra mulher dentro dela, mais jovem do que eu, talvez com 15 ou 16 anos, cabelos
louros caindo pelos ombros, usando avental marrom esfarrapado, o traje de uma
camponesa. Seus olhos estavam arregalados e assustados, e a boca se abriu em um apelo
abafado pelos meus próprios gritos. O brutamontes carregou-me facilmente, mas quando
tentou me jogar para dentro da carruagem, meus pés encontraram escora na lateral, os
joelhos se dobraram e me impulsionei, forçando-o de volta ao pátio e fazendo-o
praguejar. Usei a força de nosso ímpeto a meu favor, girando novamente para que desta
vez ele perdesse o equilíbrio e nós dois caíssemos no chão.
Nossa dança foi recebida com uma gargalhada do Intermediário, de lá do alto da
carruagem, bem como do brutamontes que segurava a porta, e por trás da alegria deles
pude ouvir o choro da garota e compreendi que se os bandidos conseguissem me enfiar
dentro da carruagem, ambas estaríamos perdidas.
E então a porta dos fundos da taberna foi aberta, interrompendo o riso dos dois com
uma lufada de barulho, calor e fumaça, e uma figura cambaleou para fora, já colocando as
mãos nos calções.
Era o mesmo bêbado. Ele parou de pernas separadas, prestes a se aliviar na parede da
taberna, virando a cabeça para olhar para trás.
— Está tudo bem por aí? — grasnou ele, a cabeça tombando ao voltar ao assunto
importantíssimo que envolvia abrir os botões de suas calças.
—Não, monsieur —comecei, mas o brutamontes agarrou-me e cobriu minha boca,
abafando meu apelo.
Contorci-me e tentei mordê-lo, em vão. Sentado no banco do condutor, o
Intermediário olhava a todos de cima: eu, presa ao chão e amordaçada pelo primeiro
brutamontes; o bêbado ainda mexendo nos calções; o segundo brutamontes aguardando
suas instruções, de cara virada para cima. O Intermediário passou um dedo ao longo da
garganta.
Aumentei os esforços para me libertar, gritando de encontro à mão que cobria minha
boca e ignorando a dor causada pelos cotovelos e joelhos dele enquanto me contorcia no
chão, na esperança de me soltar de algum modo ou de pelo menos fazer estardalhaço
suficiente para atrair a atenção do bêbado.
Lançando um olhar para a entrada do pátio, o segundo brutamontes sacou a espada
silenciosamente, depois avançou para o bêbado distraído. Vi a menina na carruagem. Ela
havia se deslocado pelo banco e agora olhava para fora. Grite, alerte-o. Eu queria berrar
para ela, mas não conseguia, e assim me contentei em ranger os dentes, tentando beliscar
a carne da mão suada em minha boca. Por um segundo nossos olhos se encontraram e
tentei motivá-la simplesmente com o poder de meu olhar, piscando furiosamente,
arregalando os olhos e apontando-os para o bêbado concentrado em seus calções, a
morte iminente.
Mas ela não pôde fazer nada. Estava assustada demais. Assustada demais para gritar e
se mexer, e o bêbado ia morrer, e os brutamontes iam nos meter na carruagem e depois
em um navio, e então... Bem, vendo por este ângulo, eu gostaria muito de estar de volta à
escola.
A lâmina se ergueu. Mas então algo aconteceu — o bêbado girou o corpo, mais
depressa do que eu teria imaginado ser possível e em suas mãos estava minha espada
curta, que faiscou, provando o sangue pela primeira vez enquanto ele a passava pelo
pescoço do brutamontes, o qual se abriu, espirrando uma névoa carmim no pátio.
Por talvez meio segundo, a única reação foi de choque, e o único ruído foi o som
molhado da seiva abandonando o corpo do bandido. E então, com um rugido de fúria e
desafio, o segundo brutamontes tirou o joelho do meu pescoço e saltou para o bêbado.
Permiti-me acreditar que a embriaguez era uma simulação e que ele na realidade era
um espadachim habilidoso fingindo estar embriagado. Mas não, percebi, enquanto ele
estava parado ali, gingando de um lado a outro e tentando focalizar no capanga que
avançava: ele poderia muito bem ser um espadachim habilidoso, mas certamente estava
bêbado. Enfurecido, o primeiro brutamontes o atacou, brandindo a espada. Não foi
bonito e, embora ébrio, meu salvador pareceu se esquivar facilmente, golpeando de través
com minha espada curta, pegando o braço do bandido e provocando um grito de dor.
Acima de mim, ouvia um “Rá!” e olhei a tempo de ver o Intermediário sacudindo as
rédeas. Para ele, a batalha estava encerrada e o sujeito não queria sair de mãos vazias.
Enquanto a carruagem avançava para a entrada, com a porta do passageiro chacoalhando,
coloquei-me de pé rapidamente e corri atrás dela, alcançando seu interior exatamente
quando chegávamos à entrada estreita.
Eu tinha só uma chance. Um instante.
—Segure minha mão —gritei, e graças a Deus ela foi mais resoluta do que antes. Com
os olhos desesperados e assustados, deu um berro gutural, se atirou pelo banco e
segurou minha mão estendida. Atirei-me para trás e puxei a moça pela porta da carruagem
assim que o veículo passou pela entrada do pátio e se foi, estrepitando pelas pedras do
calçamento do cais. À minha esquerda, veio um grito. Era o outro brutamontes. Vi sua
boca se abrir no choque do desamparo.
Oespadachim embriagado o fez pagar por seu momento de ultraje. Atravessou-o com
minha espada, que provou o sangue pela segunda vez naquela noite.
Certa vez, o Sr. Weatherall me fez prometer jamais dar um nome à minha espada.
Agora, enquanto via o capanga deslizar da lâmina ensanguentada e se amarfanhar, morto,
no chão, eu entendia o porquê.
ii
—Obrigada, monsieur —falei em meio ao silêncio que caiu sobre o pátio, na esteira da
batalha.
Oespadachim bêbado me olhou. Tinha cabelos longos, presos em um rabo de cavalo,
maçãs do rosto proeminentes e olhar vago.
—Podemos saber seu nome, Monsieur? —berrei.
Seria possível que estivéssemos em um evento social civilizado se não fosse pelos dois
cadáveres esparramados no chão —isto e o fato de o sujeito segurar uma espada vermelha
de sangue. Ele fez menção de me entregar a espada, mas daí percebeu que ela precisava de
uma limpeza, procurou algo para asseá-la e então, sem nada encontrar, conformou-se
com o corpo do brutamontes mais próximo. Quando terminou, levantou um dedo, disse,
“com licença”, virou-se e vomitou na parede da taberna.
A loura e eu nos olhamos. O dedinho do bêbado ainda estava erguido enquanto ele
tossia o que restava do vômito, cuspindo um último bocado, virando-se logo em seguida
e se recompondo antes de tirar um chapéu imaginário, fazer uma mesura exagerada e se
apresentar.
—Sou o capitão Byron Jackson. Ao seu dispor.
—Capitão?
—Sim... Era o que eu estava tentando lhe dizer na taberna quando você me empurrou
com tanta grosseria.
Empertiguei-me.
—Não fiz tal coisa. Osenhor foi muito rude. Empurrou-me. Estava bêbado.
— Correção, eu estou bêbado. E talvez também seja rude. Porém, não há como
disfarçar o fato de que, embora bêbado e rude, também tenha tentado ajudar. Ou, no
mínimo, tenha tentado mantê-la longe das mãos daqueles depravados.
—Bem, o senhor não conseguiu isso.
—Sim, consegui —disse ele, ofendido, depois pareceu pensar. —No fim, consegui. A
propósito, é melhor irmos embora antes que estes cadáveres sejam descobertos pelos
soldados. Deseja uma passagem a Dover, é isso mesmo?
Ele me viu hesitar e agitou um braço para os dois corpos.
— Certamente dei provas de minha adequação como acompanhante. Garanto-lhe,
mademoiselle, que, apesar das aparências em contrário, de minha embriaguez e talvez de
certos modos grosseiros, eu voo com os anjos. Só que minhas asas estão um pouco
chamuscadas.
—Por que eu deveria confiar no senhor?
—Não precisa confiar em mim. —Ele deu de ombros. —Não é da minha conta em
quem você confia. Volte lá e poderá pegar o paquete.
— O paquete? — repeti, irritada. —Oque é este paquete?
— O paquete é qualquer navio que leva correspondência ou carga a Dover.
Praticamente todo homem aqui trabalha em um paquete, e estarão em vias de se
embriagar porque as marés e os ventos desta noite estão perfeitos para uma travessia.
Assim, de qualquer modo, volte para lá, mostre sua moeda e pode conseguir uma
passagem. Quem sabe? Você pode, inclusive, ter sorte e se flagrar na companhia de outras
viajantes refinadas como você. —Ele fez uma careta. —Pode ser que não, é claro...
—E o que o senhor ganha se eu acompanhá-lo?
Ele coçou a nuca, parecendo se divertir.
—Um mercador solitário ficaria muito feliz com a companhia na travessia.
—Desde que o mercador solitário não tenha ideias.
—Tais como?
—Tais como meios de se passar o tempo.
Ele fez uma expressão magoada.
—Posso lhe garantir que a ideia nunca passou pela minha cabeça.
—E o senhor, naturalmente, jamais cogitaria dizer uma inverdade?
—Certamente não.
—Tal como alegar ser um mercador, quando na realidade é um contrabandista.
Ele levantou as mãos.
— Ah, que elegância. Ela nunca ouviu falar do paquete e acha-se capaz de velejar
diretamente a Londres, mas me toma por um contrabandista.
—Então o senhor é contrabandista?
—Escute, quer a passagem ou não?
Pensei no assunto por um ou dois segundos.
—Sim —respondi, e me aproximei para recuperar minha espada.
—Diga-me, que inscrição é esta perto do cabo? —perguntou ele, entregando-a. —Eu
mesmo leria, naturalmente, se não estivesse embriagado.
—Tem certeza de que é por isso que não consegue ler? —questionei, provocando-o.
— Ah, céus. Realmente minha dama foi enganada por minhas péssimas maneiras. O
que posso fazer para convencê-la de que sou de fato um cavalheiro?
—Pode tentar se comportar como tal.
Peguei a espada estendida e, segurando-a frouxamente, li a inscrição no punho. “Que
o pai da compreensão a guie. Com amor, mamãe.” Depois, antes que ele pudesse dizer
alguma coisa, posicionei a ponta da espada junto ao seu pescoço e apertei contra a pele.
— E juro pela vida de minha mãe, se fizer alguma coisa que me prejudique, eu o
atravessarei com isto —rosnei.
Ele ficou tenso, estendeu as mãos e olhou da lâmina para mim com olhos um tanto
risonhos demais para o meu gosto.
— Eu prometo, mademoiselle. Embora seja tentador tocar em uma criatura tão
primorosa, tratarei de manter minhas mãos junto de mim. De qualquer modo — disse
ele, olhando por sobre meu ombro —e sua amiga?
—Meu nome é Hélène —respondeu a garota de cabelos louros ao se aproximar. Sua
voz tremia. —Tenho uma dívida para com a mademoiselle por salvar minha vida. Agora
pertenço a ela.
—O quê?
Baixei a espada e me virei para a moça.
—Não, não tem. Você não tem. Deve encontrar sua própria gente.
—Não tenho ninguém. Eu sou sua, mademoiselle —afirmou ela, e nunca vi um rosto
tão fervoroso.
—Creio que isto acerta tudo —disse Byron Jackson de trás de mim. Olhei dele para
ela, sem saber o que dizer.
E com isso, consegui uma dama de companhia e um capitão.
iii
Byron Jackson, por acaso, era de fato um contrabandista. Um inglês passando-se por
francês. Ele enchia sua pequena embarcação, o Granny Smith, com chá, açúcar e qualquer
outra coisa que fosse altamente tributada por seu governo, daí velejava pela costa leste da
Inglaterra, e depois, por meios que ele descreveria apenas como “mágicos”,
contrabandeava tudo para a casa dos clientes.
Hélène, por sua vez, era uma camponesa que perdera os pais, e assim viajara a Calais
na esperança de localizar o último parente vivo que lhe restava, seu tio Jean. Queria
encontrar uma nova vida com ele; em vez disso, ele a vendeu ao Intermediário. E é claro
que o Intermediário iria querer seu dinheiro de volta, e o tio Jean havia gastado o valor
em mais ou menos um dia depois de recebê-lo, portanto seria problemático caso Hélène
ficasse. Deste modo, deixei que tivesse uma dívida para comigo e assim formamos um
grupo de três ao partirmos de Calais antes da hora. O Granny Smith é uma escuna
pequena de dois mastros – e apenas nós três estamos a bordo –, no entanto é robusta e
incrivelmente acolhedora.
E agora ouço a ceia sendo posta. Nosso generoso anfitrião nos prometeu um belo
banquete. Ele tem bastante comida, segundo diz, suficiente para a travessia de dois dias.

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