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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 33

21 de janeiro de 1788

E assim veio o dia da chegada do emissário. Mantive-me longe de problemas na semana anterior à vinda dele. De acordo com as outras meninas, eu estava mais calada do que o normal. Algumas perguntavam quando a “antiga Élise” voltaria; as suspeitas de sempre tagarelavam que eu finalmente tinha sido domada. Veremos. Na realidade, o que fazia era me preparar, mental e fisicamente. O emissário estaria esperando uma submissão dócil. Estaria esperando uma adolescente assustada, com medo de ser expulsa, infeliz e satisfeita em aceitar qualquer punição em vez de enfrentar o outro castigo. Oemissário esperaria lágrimas e arrependimento. Ele não receberia isto. Fui convocada à sala, informada para esperar e obedeci. Minhas mãos seguravam a bolsa, onde eu escondia uma ferradura tomada “de empréstimo” do alto da porta do dormitório. Nunca havia me trazido sorte alguma. Agora era sua chance. Do vestíbulo, ouvi duas vozes, Madame Levene com suas boas-vindas obsequiosas e lisonjeiras ao emissário de meu pai, dizendo-lhe que “A infame aguarda seu castigo em minha sala, monsieur” e depois a voz mais grave e murmurada do emissário respondendo, “Obrigado, madame”. Ofegante, reconheci a voz e ainda tinha a mão na bolsa, chocada, quando a porta se abriu e de dentro dela apareceu o Sr. Weatherall. Ele fechou a porta e me atirei a ele, arrancando-lhe o fôlego com a força de minhas emoções, os ombros agitados por causa dos soluços que vieram antes que eu tivesse a oportunidade de contê-los. Meus ombros se ergueram enquanto chorava no peito dele, devo dizer: jamais fiquei tão satisfeita em ver alguém na vida como naquele momento. Ficamos daquele jeito por algum tempo, eu chorando silenciosamente junto ao meu protetor até que por fim consegui recuperar o controle. Ele me colocou à distância de um braço para encarar meus olhos e então, colocando o dedo nos lábios, desabotoou o paletó, tirou-o e o pendurou no gancho atrás da porta para que cobrisse o buraco da fechadura. Olhando para trás, disse em voz alta: — Faz muito bem em chorar, mademoiselle, pois seu pai está por demais furioso com você para resolver a questão por conta própria. Estava tão tomado de emoção que pediu para que eu, seu preceptor — ele deu uma piscadela —, aplique o castigo em seu lugar. Mas primeiro, deve escrever a ele uma carta de profundas desculpas. E quando terminar, darei seu castigo, que você pode esperar ser o mais severo que já experimentou. Ele me conduziu a uma carteira escolar em um canto da sala, onde me posicionei com papel, tinta e pena, caso a diretora precisasse de um pretexto para nos interromper. Em seguida puxou uma cadeira, pôs os cotovelos no tampo da mesa e, aos sussurros, começamos a conversar. —Estou feliz em vê-lo —falei a ele. Ele riu baixinho. — Não posso dizer que estou surpreso. Afinal, você esperava levar uma sova daquelas. — Na verdade — disse eu, abrindo a bolsa e revelando a ferradura —, é bem o contrário. Ele franziu o cenho. Não era a reação que eu queria. —E depois, Élise? —sussurrou ele, irritado, batendo o indicador na mesa para dar ênfase. — Você teria sido expulsa da Maison Royale. Sua educação... atrasada. Sua iniciação... atrasada. Sua ascensão para ser a Grã-Mestre... atrasada. No que exatamente este caminho teria resultado, hum? —Sinceramente, não me importo. —Não se importa, hein? Você não se importa mais com seu pai? —Sabe muito bem que me importo com meu pai, diabos. Ele zombou do meu palavreado. — E eu sei muito bem que você se importa com sua mãe também, maldição. E o nome da família está envolvido nisso. Sendo assim, por que você se esforça tanto para arrastá-lo para a lama? Por que está tentando assegurar que jamais chegará a Grã-Mestre? — É meu destino ser Grã-Mestre — respondi, percebendo, com uma pontada desagradável, que eu me assemelhava a MayCarroll. —Odestino pode mudar, criança. —Não sou mais uma criança —lembrei a ele. —Tenho 20 anos. Ele se entristeceu. —Você sempre será uma criança para mim, Élise. Não se esqueça de que consigo me lembrar da garotinha aprendendo a manejar a espada no bosque. A aluna mais capaz que já tive, mas também a mais impulsiva. Muito cheia de si. —Ele me olhou de relance. — Tem treinado com sua espada? Zombei da pergunta. —Aqui? Como poderia fazer isso? Com sarcasmo, ele fingiu refletir. — Ora, vejamos. Hum, que tal manter-se discreta para que cada movimento seu não seja vigiado? Assim mademoiselle poderia escapulir de vez em quando, em vez de sempre se colocar no centro das atenções. A espada dada a você por sua mãe teve exatamente este propósito. Senti-me culpada. —Bem, não. Como sabe, eu não andei treinando. —E assim suas habilidades têm sido negligenciadas. —Então por que me mandar a uma escola onde isto tendia a acontecer? —A questão é que não tendia a acontecer. Você não deveria deixar que acontecesse. Você deve ser a Grã-Mestre. —Bem, isso pode mudar, de acordo com você —rebati, sentindo que tinha vencido a discussão. Ele não titubeou. —E mudará, se você não se empenhar e se corrigir. Aqueles que você chama de os Corvos... os Messieurs Lafrenière, Le Peletier e Sivert e Madame Levesque... estão loucos para vê-la fracassar. Pensa que tudo na Ordem é acolhedor? Que todos estão espalhando flores para sua coroação como a “rainha legítima”, como nos livros de história? Nada pode estar mais longe da verdade. Cada um deles gostaria de encerrar o reinado dos De la Serre e assim carregar o título de Grão-Mestre para a própria família. Cada um deles procura motivos para destituir seu pai e arrebatar o título para si. A política deles difere daquela de seu pai, lembra-se? A confiança deles em seu pai está por um fio. Ter uma filha errante é última coisa da qual ele precisa. Além disso... —Oquê? Ele olhou para a porta. Sem dúvida Madame Levene estava com a orelha apertada nela, e foi para os ouvidos dela que o Sr. Weatherall falou em voz alta: —...e certifique-se de que usará sua melhor caligrafia, mademoiselle. Baixando o tom, ele se curvou para mais perto de mim. —Lembra-se dos dois homens que atacaram vocês, não? —Como poderia me esquecer? —Bem —continuou o Sr. Weatherall —, prometi à sua mãe que encontraria o sujeito que usava trajes de médico, e creio ter encontrado. Eu o olhei feio. — Sim, está bem — admitiu ele —, é verdade que demorei algum tempo. Mas encontrei-o, é isso o que importa. Nossos rostos estavam tão próximos que quase se tocavam. Eu sentia cheiro de vinho no hálito dele. —Quem é ele? —perguntei. — Seu nome é Ruddock e ele é de fato um Assassino, ou, pelo menos, era. — Ele continuou: — Ao que parece, foi excomungado da Ordem. Esteve tentando voltar desde então. —Por que foi excomungado? —Angariava descrédito à Ordem. Gosta de um jogo de azar, pelo que dizem. Mas não tem a sorte ao seu lado. Está atolado em dívidas até os olhos, relatam. —É possível que ele esperasse matar minha mãe como meio de cair nas boas graças de sua Ordem? OSr. Weatherall lançou-me um olhar impressionado. — Poderia muito bem ser o caso, embora não consiga deixar de pensar que tenha sido uma estratégia um tanto estúpida da parte dele. Pode ser que matar sua mãe o colocasse em uma desgraça ainda maior. Ele não tinha como saber. — Ele meneou a cabeça. — Esperar para ver se o assassinato é visto sob um prisma favorável e depois reclamar o crédito por ele, talvez. Mas, não, não enxergo desta forma. A mim, parece-me que andou oferecendo seus serviços a quem pagava mais, tentando liquidar as dívidas de jogo. Calculo que nosso amigo Ruddock trabalhava de forma independente. —Então os Assassinos não estavam por trás do atentado? —Não necessariamente. —Você contou aos Corvos? Ele balançou a cabeça. —E por que não? Foi cauteloso. —Sua mãe tinha certas... desconfianças com relação aos Corvos. —Que tipo de desconfianças? —Lembra-se de certo François Thomas Germain? —Não sei se me recordo. —Um sujeito de aparência feroz. Ele ficava por perto quando você era uma alpinista de formigueiro. —Alpinista do quê? — Não importa. Mas este François Thomas Germain era representante de seu pai. Tinha ideias duvidosas e seu pai o expulsou da Ordem. Agora ele está morto. Mas sua mãe sempre se perguntava se os Corvos teriam alguma empatia por ele. Assustei-me, incapaz de acreditar no que ouvia. —Não pode acreditar que os conselheiros de meu pai tramariam a morte de minha mãe. É verdade que eu sempre detestei os Corvos, mas também sempre detestei Madame Levene e era incapaz de imaginá-la tramando meu assassinato. A ideia era forçada demais. OSr. Weatherall prosseguiu: — A morte de sua mãe teria sido adequada para os fins destas pessoas. Os Corvos podem muito bem ser conselheiros de seu pai no nome, mas depois que Germain foi expulso, era à sua mãe que ele dava ouvidos, acima de todos os outros, inclusive eles. Com ela fora do caminho... — Mas ela está “fora do caminho”. Ela morreu e meu pai continuou fiel aos seus princípios. — É impossível saber o que acontece, Élise. Talvez ele tenha se revelado menos maleável do que o esperado. —Não, ainda não faz sentido para mim —falei, balançando a cabeça. —Nem sempre as coisas fazem sentido, meu amor. Os Assassinos tentando matar sua mãe não fazia sentido, mas todos acreditaram veementemente nisso. Não, por enquanto mantenho minhas desconfianças, a não ser que tenha provas em contrário e, se isto valer para você também, não correrei riscos antes de estarmos bem informados. Por dentro, eu sentia um vazio estranho, a sensação de que uma cortina tinha sido puxada, expondo incertezas. Podia haver gente dentro de nossa organização que nos queria mal. Eu precisava descobrir —precisava descobrir de uma forma ou de outra. —E papai? —Oque tem ele? —Não falou com ele de suas desconfianças? Como os olhos fixos no tampo da mesa, ele meneou a cabeça em negativa. —Por quê? — Bem, primeiro porque são apenas desconfianças e, conforme você observou, são suspeitas muito desvairadas. Se não forem confirmadas... e muito provavelmente não serão... eu pareceria um completo idiota; se confirmadas, então só terei servido para alertar a respeito delas, e enquanto se ocupam do escárnio porque eu não tinha nem um fiapo de prova, fazem planos para me eliminar. E também... —Oquê? —Eu mesmo não tenho me desempenhado bem desde que sua mãe morreu, Élise — confessou ele. —Voltando aos velhos hábitos, pode-se dizer, e nisto destruindo as pontes que construí com meus companheiros Templários. Há algumas semelhanças entre mim e o Sr. Ruddock. —Entendo. E é por isso que sinto cheiro de vinho em seu hálito? —Cada um lida com a tristeza à sua maneira, criança. —Ela morreu há quase dez anos, Sr. Weatherall. Ele soltou uma risada curta, melancólica. — Acha que meu luto é demasiado para o seu gosto, não é? Bem, posso dizer o mesmo de você, desperdiçando o que resta de sua educação, fazendo inimigos quando deveria fazer ligações e contatos. Não zombe de gente como eu, Élise. Não até que sua própria casa esteja em ordem. Franzi o cenho. —Precisamos saber quem estava por trás daquele atentado. —É exatamente o que estou fazendo. —Como? — Este sujeito, Ruddock, está escondido em Londres. Temos contatos em Londres. Os Carroll, se você se recorda. Já os avisei de minha chegada. Nunca estive tão segura de algo nesta vida. —Irei com você. Ele me olhou com irritação. —Não, maldição, não irá, ficará aqui e terminará seus estudos. Pelo amor de Deus, menina, que raios seu pai diria? — Que tal dizermos a ele que farei uma visita educacional a Londres a fim de aprimorar meu inglês? Oprotetor bateu o dedo na mesa. —Não. Que tal não fazermos nada do gênero? Que tal você ficar aqui? Neguei balançando a cabeça. — Não, irei com você. Este homem vem assombrando meus pesadelos há anos, Sr. Weatherall. — Fixei nele meu melhor olhar de súplica. — Tenho alguns fantasmas que preciso colocar para descansar. Ele revirou os olhos. — Essa rasteira você não me passa. Você se esquece de que a conheço bem. É mais provável que você esteja buscando empolgação, e você deseja sair deste lugar. — Muito bem, está certo — concordei —, mas, convenhamos, Sr. Weatherall. Sabe como é difícil ter pessoas como Valerie me ridicularizando e não poder lhe dizer que, um dia, quando ela estiver parindo rebentos do filho bêbado de um marquês, eu serei líder dos Templários? Esta fase de minha vida está demorando demais para se concluir. Estou desesperada para que comece a próxima. —Terá de esperar. —Só me falta um ano —pressionei. —Chamam de conclusão por boas razões. Não pode terminar nada se não terminar. —Eu não ficaria fora tanto tempo. — Não. E, de qualquer modo, mesmo que... mesmo que eu concordasse, jamais conseguiria que aquela ali dissesse sim. — Podemos falsificar cartas — insisti. — Monsieur pode interceptar qualquer coisa que ela enviar ao meu pai. Imagino que tenha andado interceptando as cartas... —É claro que sim. Por que acha que estou aqui, e não ele? Mas ele descobrirá, cedo ou tarde. A certa altura, Élise, de um modo ou de outro, suas mentiras serão expostas. —E aí será tarde demais. Ele se encheu de uma fúria renovada, a pele avermelhando-se em contraste aos bigodes brancos. — É isso... É exatamente disso que estou falando. Você é muito cheia de si e se esquece de suas responsabilidades. Isto a deixa imprudente e, quanto mais imprudente se revela, mais arrisca a posição de sua família. Agora eu desejaria jamais ter-lhe dito nada, maldição. Pensei que uma conversa seria capaz de meter algum juízo em você. Eu o fitei, uma ideia se formando em minha cabeça e, em uma atuação que teria impressionado Valerie, fingi concluir que ele tinha razão, que me lamentava e exibi todas aquelas outras coisas que ele desejava ver em meu rosto. Ele assentiu e lançou a voz para a porta: — Muito bem, enfim você terminou. Levarei esta carta a seu pai, acompanhada da notícia de que lhe dei seis golpes da vara. Balancei a cabeça e ergui dedos desesperados. Ele empalideceu. —Quero dizer, doze golpes da vara. Balancei a cabeça intensamente. Ergui os dedos de novo. —Quero dizer, dez golpes da vara. Fingindo-me chorosa, exclamei: —Ah, não, monsieur, dez golpes, não. —Ora, é esta a vara usada para castigar vocês, meninas? Ele foi à mesa de Madame Levene, que estava à vista do buraco da fechadura, e pegou a vara em seu lugar de honra, atravessada na mesa. Ao mesmo tempo, usou a cobertura de suas costas e a perícia nas mãos para puxar a almofada da cadeira da diretora e deslizá-la pelo chão até mim. Foi tudo muito fácil. Como se fizéssemos todos os dias. Que belo time formávamos. Peguei a almofada e a coloquei na mesa enquanto ele se aproximava com a vara, e mais uma vez estávamos fora de vista do buraco da fechadura. —Muito bem —disse ele em voz alta, para os ouvidos de Madame Levene, com uma piscadela para mim. Coloquei-me de lado enquanto ele dava dez golpes fortes na almofada, eu soltando gritinhos adequados depois de cada um deles. E, afinal, quando se tratava de ruídos autênticos de dor, quem os conhecia melhor do que eu? Podia imaginar Madame Levene praguejando enquanto toda a ação acontecia fora de sua vista, sem dúvida planejando alterar a disposição da mobília assim que possível. Quando acabou, forcei-me a pensar em minha mãe para me obrigar a chorar e, recolocando a almofada e a vara em seus respectivos lugares, abrimos a porta. Madame Levene estava de pé no vestíbulo, a certa distância. Compus minha expressão a fim de aparentar uma pessoa recentemente castigada, lancei-lhe um olhar cheio de ódio com meus olhos avermelhados e então, cabisbaixa e resistindo à tentação de dar uma piscadela de despedida ao Sr. Weatherall, escapuli dali como se ávida para lamber minhas feridas. Na realidade, eu tinha uma coisinha no que pensar. 23 de janeiro de 1788 Vejamos. Como isso começou? É verdade — com Judith Poulou dizendo que Madame Levene tinha um amante. Foi só o que disse Judith, certa noite, após o apagar das luzes, que Madame Levene tinha “um amante na mata” e a maioria das meninas basicamente zombou da ideia. Mas não eu. Lembrei-me de uma noite há um tempinho quando, logo depois da ceia, espionei a temida diretora por uma janela do dormitório, enrolando-se em um xale e descendo a escadaria do internato às pressas, misturando-se à escuridão em seguida. Havia algo em seu comportamento que me fez pensar que ela não pretendia apenas tomar ar. O jeito como olhava de um lado a outro. Como seguia para o caminho que levava à noite dos campos desportivos e, sim, talvez, à mata no perímetro. Consumiu-me duas noites de vigilância, mas na última noite a vi mais uma vez. Como antes, ela saiu do internato e com o mesmo ar furtivo, embora não o suficiente para detectar uma janela sendo aberta no prédio acima nem meu corpo dependurado nela, descendo pela treliça ao chão e partindo em seu encalço. Enfim colocava meu treinamento em ação. Tornei-me um espectro na noite, mantendo-a à vista, seguindo-a silenciosamente enquanto ela usava a luz da lua para encontrar o caminho pelo gramado até o perímetro dos campos desportivos. Era um terreno aberto e eu me zanguei por um momento —depois fiz o que minha mãe e o Sr. Weatherall me ensinaram. Avaliei a situação. Madame Levene com a luz da lua às suas costas — seus velhos olhos auxiliados pelos óculos contra os meus olhinhos jovens. Resolvi me manter atrás dela, guardando certa distância, de modo que ela era pouco mais do que uma sombra adiante. Vi o brilho do luar em seus óculos quando ela se virou para verificar se não estava sendo seguida e fiquei imóvel, tornando-me parte da noite, rezando para que meus cálculos estivessem corretos. E estavam. A bruxa continuou até a linha das árvores e foi tragada pelas formas irregulares de troncos e arbustos. Acelerei o passo e a segui, encontrando o mesmo caminho que ela tomara, cortando o bosque, tornando-me um fantasma. A rota fazia eu me lembrar dos anos em que segui trilhas semelhantes para ver o Sr. Weatherall. Uma trilha que costumava terminar com meu protetor empoleirado e à espera em seu toco de árvore, sorrindo, livre, e depois curvado pelo peso da morte de mamãe. Até então, eu jamais havia sentido cheiro de vinho em seu hálito. Bani a lembrança quando vi o pequeno chalé do jardineiro mais à frente e percebi aonde a diretora estava indo. Parei de imediato e, de minha posição atrás de uma árvore, observei-a bater suavemente e a porta ser aberta. Eu a ouvi dizer um “Mal pude esperar para vê-lo” e houve um som distinto de um beijo —um beijo —, depois desapareceu no interior do casebre, a porta se fechando. Então aquele era o amante da mata. Jacques, o jardineiro, de quem eu pouco sabia além do que via ao longe enquanto cumpria seus deveres. De uma coisa eu sabia: era muito mais jovem do que Madame Levene. Mas que cavalo azarão ela era. Voltei sabendo que os boatos eram verídicos. E, infelizmente para ela, não só eu era a única de posse da informação como me apetecia usá-la para conseguir o que quisesse. De fato, era exatamente o que eu pretendia fazer. 

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