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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 27

Trechos do diário de Élise de la Serre

14 de abril de 1778

 Ele veio me ver hoje. —Élise, seu pai está aqui —disse Ruth. Tal como acontecia com todos os outros, o comportamento dela se alterava na presença de meu pai, e ela se curvou e se retirou, deixando-nos a sós. —Olá, Élise —cumprimentou ele rigidamente da porta. Lembrei-me daquele fim de tarde, anos atrás, quando mamãe e eu voltamos de Paris, sobreviventes de um terrível ataque em uma viela, e de como ele era incapaz de parar de nos abraçar. Ele me apertou tanto que no fim da noite me desvencilhei só para poder tomar um pouco de ar. Agora, com ele parado ali, parecendo mais um preceptor do que um pai, eu teria dado qualquer coisa por um daqueles abraços. Ele se virou e começou a caminhar, as mãos entrelaçadas às costas. Parou, olhando pela janela, mas sem realmente enxergar os gramados além, e fiquei observando o rosto borrado no reflexo do vidro quando, sem se virar, meu pai falou: —Queria saber como você estava. —Estou bem, obrigada, papai. Houve uma pausa. Meus dedos mexiam no tecido de minha bata. Ele pigarreou. —Você é muito boa disfarçando seus sentimentos, Élise; são talentos como este que um dia usará como Grã-Mestre. Assim como sua força reconforta nosso lar, um dia ela será benéfica para a Ordem. —Sim, papai. Ele limpou a garganta novamente. — Mesmo assim, quero que você saiba que, em particular, ou quando você e eu estivermos a sós... é perfeitamente aceitável você demonstrar que não está bem. —Então confessarei que estou sofrendo, meu pai. Ele baixou a cabeça. Os olhos eram círculos escuros no reflexo do vidro. Eu sabia por que ele estava com dificuldade para me encarar. Era porque eu fazia com que ele se lembrasse dela. Eu o lembrava da esposa moribunda. —Eu também sofro, Élise. Sua mãe significa o mundo para nós dois. (E se houve um momento em que ele poderia se virar da janela, atravessar o quarto, pegar-me nos braços e permitir que partilhássemos da dor, o momento era esse. Mas ele não o fez.) (E se houve um momento em que eu podia ter lhe perguntado por quê, se ele sabia da minha dor, ele passava tanto tempo com Arno e não comigo, o momento era esse. Mas não perguntei.) Pouca coisa mais foi dita antes de ele sair. Algum tempo depois, soube que estava saindo para caçar —com Arno. Omédico chegou rapidamente. Ele nunca trazia boas novas. ii Em minha memória visual, revivo outro encontro, dois anos antes, quando fui chamada ao escritório de meu pai para uma audiência com ele e minha mãe, que estranhamente tinha uma expressão preocupada. Percebi que havia questões sérias a se discutir assim que Olivier tinha sido solicitado a se retirar, a porta fora fechada e meu pai me oferecera que eu me sentasse. —Sua mãe me disse que o treinamento está progredindo bem, Élise —começou ele. Assenti com entusiasmo, olhando de um a outro. —Sim, meu pai. O Sr. Weatherall disse que serei uma combatente danada de boa na espada. Meu pai ficou surpreso. — Entendo. Uma das expressões de Weatherall, sem dúvida. Bem, fico satisfeito em ouvir isso. Evidentemente você puxou à sua mãe. —Você mesmo não é nenhum desajeitado com uma lâmina, François —disse minha mãe, insinuando um sorriso. —Você me lembra que já faz um tempo desde que duelamos. —Devo entender isto como um desafio? Ele a olhou e por um momento o assunto sério foi esquecido. Eu fui esquecida. Por um segundo, havia apenas minha mãe e meu pai na sala, espirituosos e sedutores um com o outro. E então, com a mesma rapidez com que começou, o momento terminou e a atenção se voltou a mim. —Você está bem encaminhada para se tornar Templária, Élise. —Quando serei iniciada, papai? —perguntei. — Seu aprendizado terminará na Maison Royale em Saint-Cyr, em seguida você se tornará integrante plena da Ordem e treinará para assumir meu lugar. Assenti. —Primeiro, porém, há algo que precisamos lhe contar. —Ele olhou para minha mãe, os dois agora com uma expressão séria. —É sobre Arno... iii Na época, Arno era meu melhor amigo e, creio eu, a pessoa que mais amava depois de meus pais. Pobre Ruth. Teve de abandonar qualquer esperança duradoura de que eu me acomodaria à mocidade e começaria a me interessar por aquelas coisas igualmente femininas adoradas por outras de minha faixa etária. Com Arno na propriedade, eu não apenas tinha um companheiro de brincadeiras sempre que desejava, mas um companheiro menino. Os sonhos de Ruth estavam arruinados. Refletindo agora, suponho que me aproveitei bastante dele. Como órfão, ele chegou a nós perdido, carente de orientação e eu, é claro, como Templária novata e uma menina egoísta, fiz com que ele se tornasse propriedade “minha”. Éramos amigos e da mesma idade, mas mesmo assim meu papel era de irmã mais velha, o qual eu assumia com muita satisfação. Adorava vencê-lo em pretensas lutas de espada. Durante as sessões de treinamento do Sr. Weatherall, eu era uma iniciante medrosa que tendia aos erros e, tal como ele observava com frequência, era levada pelo coração e não pela cabeça; porém, nos falsos combates com Arno, minhas habilidades de iniciante me tornavam uma mestra deslumbrante e manipuladora. Em outros jogos — pular corda, amarelinha, peteca — éramos equivalentes. Mas eu sempre vencia nas lutas de espada. Quando o tempo estava bom, andávamos pelos jardins da propriedade, espionando Laurent e outros criados da área externa, atirando pedras no lago. Quando chovia, ficávamos dentro de casa e jogávamos gamão, bola de gude ou cartas. Rodávamos aros pelos grandes corredores do andar térreo e perambulávamos pelos andares superiores, escondendo-nos de criadas e correndo aos risos quando nos enxotavam. E era assim que eu passava meus dias: pela manhã era instruída, preparada para minha vida adulta de liderança dos Templários franceses; era à tarde que eu deixava tais responsabilidades e, em vez de ser uma adulta à espera, voltava a ser criança. Mesmo então, embora nunca tivesse articulado tal pensamento, eu sabia que Arno representava minha válvula de escape. E naturalmente ninguém deixou de perceber o quanto Arno e eu nos tornamos próximos. —Bem, nunca vi você tão feliz —disse Ruth com resignação. —Certamente você gosta muito de seu novo parceiro de brincadeiras, não é mesmo, Élise? —falou minha mãe. (Agora — vendo Arno lutando com meu pai no pátio e ouvindo que eles têm saído para caçar juntos —pergunto-me: será que mamãe teve um pouquinho de ciúmes por eu ter um companheiro na vida? Agora sei como minha mãe pode ter se sentido.) Entretanto, nunca me ocorreu que minha amizade com Arno pudesse ser motivo de preocupação. Não até aquele exato momento em que estive diante de meus pais na sala e eles me falaram que tinham algo a dizer a respeito dele. iv —Arno é descendente de Assassinos —afirmou meu pai. E um pedacinho do meu mundo ficou abalado. —Mas... —comecei a dizer e tentei conciliar duas imagens em minha mente: uma de Arno com os sapatos reluzentes de fivela, colete e casaco, disparando pelos corredores do château, rodando o aro com o bastão. A outra do doutor Assassino na viela, com a cartola na neblina. —Os Assassinos são nossos inimigos. Meus pais trocaram um olhar. —Os objetivos deles se opõem aos nossos, é bem verdade —disse ele. Minha mente disparava. —Mas... Mas isso significa que Arno irá querer me matar? Minha mãe aproximou-se para me reconfortar. —Não, querida, não, não significa nada disso. Arno ainda é seu amigo. Embora o pai dele, Charles Dorian, tenha sido um Assassino, o próprio Arno nada sabia de seu destino. Sem dúvida lhe contariam, com o tempo, talvez em seu décimo aniversário, do mesmo jeito que planejávamos fazer com você. Mas ele entrou nesta casa inconsciente do que o futuro lhe reservava. —Ele não é um Assassino então. É simplesmente filho de um Assassino. Mais uma vez eles se entreolharam. — Ele terá determinadas características inatas, Élise. De muitas formas, Arno foi e sempre será um Assassino... ele apenas não sabe disso. —Mas se não souber, então jamais seremos inimigos. —Correto —disse meu pai. —Na realidade, acreditamos que a natureza dele possa ser dominada pela criação. —François... —interviu minha mãe num tom de alerta. — O que quer dizer, meu pai? — perguntei, meus olhos disparando dele para ela, notando o desconforto na expressão de minha mãe. —Quero dizer que você tem certa influência sobre ele, não tem? —disse meu pai. Senti que ruborizava. Era tão visível assim? —Talvez, pai... —Ele a admira, Élise, e por que não? É recompensador de se ver. Muito estimulante. —François... —repetiu minha mãe, mas ele interrompeu a censura levantando a mão para ela. —Por favor, querida, deixe isso comigo. Fiquei observando a ambos com cautela. — Não há motivos para que você, como amiga e companheira de brincadeiras de Arno, não possa começar a educá-lo em nosso feitio. —A doutriná-lo, François? —Um lampejo de raiva de minha mãe. —A guiá-lo, minha querida. —Guiá-lo de maneira que contrarie sua natureza? — Como podemos saber? Talvez Élise tenha razão e ele só venha a se tornar um Assassino se assim for direcionado. Talvez possamos salvá-lo das garras de sua gente. —Os Assassinos não sabem que ele está aqui? —perguntei. —Acreditamos que não saibam. —Então não há motivos para que ele precise ser descoberto. —Isto é bem verdade, Élise. —Assim, ele não precisa ser... coisa alguma. Uma expressão denotando confusão passou pelo rosto de meu pai. —Lamento, querida, não compreendi. O que eu queria dizer era: “Deixe-o fora disso. Deixe Arno por minha conta, sem relação com o modo como vemos o mundo, como queremos modelar o mundo, deixe que a parte de minha vida que partilho com Arno seja livre de tudo isso.” —Acho —disse minha mãe —que o que Élise está tentando dizer é... —Ela abriu as mãos. —Qual é o motivo da pressa? Ele franziu os lábios, um pouco insatisfeito com o muro de resistência erguido por suas mulheres. — Ele é meu tutelado. Uma criança desta casa. Será criado segundo as doutrinas da casa. Para falar com franqueza, precisamos fisgá-lo antes que os Assassinos o façam. —Não temos motivos para temer que os Assassinos um dia descubram sua existência —insistiu ela. —Não podemos ter certeza. Se o encontrarem, os Assassinos o levarão para a Ordem. Ele não será capaz de resistir. —Se ele não será capaz de resistir, então como pode ser direito conduzi-lo ao outro lado? — supliquei, embora meus motivos para tanto fossem mais pessoais do que ideológicos. —Como pode ser correto que contrariemos o que o destino tem reservado para ele? Ele me encarou com um olhar severo. —Você quer que Arno seja seu inimigo? —Não —declarei, exaltada. —Sendo assim, a melhor maneira de ter certeza disto é atraindo-o para nossa forma de pensar. — Sim, François, mas não agora — interrompeu minha mãe —, não tão depressa, sim? Não quando as crianças são tão jovens. Ele olhou de um rosto queixoso a outro e pareceu se abrandar. — Vocês duas — disse ele com um sorriso —, muito bem. Por ora, façam como desejarem. Analisaremos a situação posteriormente. Lancei um olhar de gratidão a minha mãe. Oque eu faria sem ela? v Minha mãe adoeceu logo depois disso e ficou confinada a seus aposentos, que permaneciam às escuras dia e noite, naquela parte da casa excluída a todos exceto a sua criada, Justine, a meu pai e a mim, e a três enfermeiras contratadas para cuidar dela, todas chamadas Marie. Ela começava a deixar de existir para o restante da casa. Embora minha rotina matinal permanecesse a mesma —ficando eu com meu preceptor e depois no bosque, à margem de nossos jardins, aprendendo luta de espada com o Sr. Weatherall —, eu não passava mais as tardes com Arno; em vez disso, passava junto ao leito de minha mãe, segurando a mão dela enquanto as Maries ocupavam-se à nossa volta. Vi quando ele começou a gravitar para meu pai. Observei meu pai encontrar conforto longe do estresse da doença de minha mãe ao se colocar como guardião de Arno. Meu pai e eu tentávamos superar a perda gradual de mamãe, ambos encontrando diferentes meios para tal. Oriso em minha vida foi esmorecendo gradualmente. vi Eu costumava ter um sonho. Só não era um sonho porque estava acordada. Suponho que você dirá ser uma fantasia. Nela, eu estava sentada em um trono. Sei que impressão isto pode passar, mas, afinal, se não se puder admitir isto a um diário, quando será feito? Estou sentada em um trono, diante de meus súditos que, no devaneio, não têm identidade, mas imagino serem Templários. Reúnem-se diante de mim, a Grã-Mestre. E percebe-se que não é um devaneio particularmente sério porque estou sentada diante deles como uma menina de 10 anos, o trono grande demais para mim, minhas pernas no ar, meus braços muito curtos para alcançarem os braços da cadeira. Sou a monarca menos monárquica que se possa imaginar, mas é um devaneio e assim costumam ser às vezes. O que importa neste aqui não é o fato de eu ter me transformado em rei, nem o fato de ter adiantado minha ascendência a Grã-Mestre em décadas. O significativo nisso tudo para mim, e a isto me apego, é que, sentados em cada lado do meu trono, estão minha mãe e meu pai. Quanto mais fraca e próxima da morte ela fica, e quanto mais ele gravita para perto de Arno, a impressão deles ao meu lado fica cada vez mais indistinta.

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