COM A TEIA INFERNAL
FOI SÓ DE MANHÃ que o Homem-Aranha finalmente conseguiu voltar ao prédio onde
morava como Peter Parker. Torcendo para que seu encharcado sentido-aranha
tivesse secado o suficiente para alertá-lo se alguém estivesse olhando, ele desceu
pela escada de incêndio até seu apartamento. Por sorte, o único espectador era
Barker, o estranho e feio rottweiler que morava no apartamento da frente, cuja
principal atividade parecia ser a de ficar olhando ameaçadoramente para a janela
de Peter, isso quando não estava usando fantasias feitas por sua dona aficionada,
Caryn, ou fazendo barulhos estranhos em seu apartamento. Apesar de o sentidoaranha
não mostrar, às vezes Peter suspeitava de que Barker fosse um supervilão
disfarçado.
Porém, mesmo se fosse, Peter estava cansado demais para se preocupar
naquele momento, então simplesmente entrou pela janela do seu apartamento e
arrancou a máscara que já cheirava a mofo.
– Querida, cheguei – ele gritou, quase sem voz.
Ele esperava receber um abraço caloroso de sua linda esposa, um sermão
carinhoso por fazê-la ficar acordada a noite toda preocupada com ele e, depois,
tomar um banho matutino quente e agradável, juntos. Em vez disso, Mary Jane
apenas olhou rapidamente da porta do quarto, deixando cair as mechas ruivas, e
disse, distraidamente:
– Oi, querido. Noite difícil?
– Já tive melhores – ele respondeu, tirando as luvas e a camisa. – Tentei
subir pela parede, veio a chuva forte e me derrubou. Você nem imagina o que
aconteceu depois. Vem aqui que eu te conto tudo.
– Ahh, não posso. Estou atrasada para o ensaio. – Ela entrou apressada no
quarto e deu um selinho rápido em seus lábios, mas saiu antes que ele pudesse
retribuir o beijo.
– Ei, é só isso que eu ganho?
– Desculpa… não posso chegar ao ensaio cheirando a super-herói molhado. À
noite a gente conversa, tigrão. Te amo. Tchau! – E assim ela se foi.
Depois de alguns segundos, Peter fechou a boca, abaixou a mão estendida e
soltou um suspiro. Não era o que ele estava esperando, mas não podia pensar só
em si mesmo. MJ podia ser sua companheira amorosa e tudo mais, mas tinha sua
própria vida para cuidar. Depois de anos como supermodelo bem-sucedida e atriz
inexperiente, era difícil para ela encontrar diretores de elenco que a levassem a
sério e a vissem como mais do que só um rostinho bonito (ainda mais com aquele
rosto maravilhoso, os cabelos ruivos longos e cheios de brilho, e aquelas pernas
infinitas e… enfim). Além da ponta numa novela alguns anos atrás, ela encontrou
dificuldades em ser escalada para qualquer papel que não fosse o da mocinha de
roupas curtas em filmes de ação de qualidade duvidosa. E ela estava cada vez
mais ciente de que, ao chegar perto dos trinta, o prazo de validade de uma
supermodelo e atriz iniciante em Hollywood era muito limitado; ela acabaria
tendo que diversificar a atuação para conseguir se sustentar. Por isso,
recentemente, havia começado uma carreira no teatro para aumentar seus
ganhos como atriz e variar as opções de carreira em longo prazo. Somando com os
trabalhos de modelo ocasionais que ainda fazia para pagar as contas, ela andava
mais ocupada do que nunca.
A verdade era que MJ andava absorvida pelo trabalho nos últimos tempos.
Sua versão de Lady Macbeth havia sido muito malvista pelos críticos, que
disseram que o elenco era ruim e que ela não passava de um rostinho lindo com
quase nada por trás. (Os trocadilhos foram previsíveis, pelo menos para quem
conhecia o bardo: “Era uma flor sem serpente”, “Tirai-me a sensualidade!”).
Desde então, ela vinha se esforçando muito para melhorar sua atuação e estava
se dedicando de corpo e alma à sua nova peça, aproveitando ao máximo o seu
papel de coadjuvante. Ela parecia dedicar cada minuto disponível de sua vida à
fase de ensaio, fosse com o elenco no teatro, ou em casa, decorando as falas.
Havia alguns momentos – mais do que alguns, na verdade – em que Peter
ficava magoado por ter de disputar o tempo dela. Ele havia ficado sem Mary Jane
por tempo demais. No ano anterior, um homem a sequestrara e forjara sua
morte, mantendo-a prisioneira por meses até que o Homem-Aranha finalmente a
resgatasse. Ele havia sentido um alívio profundo por tê-la de volta, mas isso não
durou muito. Ela precisou de um tempo para se recuperar do trauma e se
reencontrar na vida, para superar a sensação de desamparo que havia sofrido por
tanto tempo. Por isso, ela o deixou temporariamente, mudou-se para Los Angeles
e trabalhou para construir para si uma vida que não fosse apenas a de Sra.
Homem-Aranha.
Ela atingiu seu objetivo; seu trabalho podia até não ter sido tão formidável
quanto ela esperava, mas foi o suficiente para que se desse conta de que era
forte e inteligente o bastante para se virar sozinha e suportar as provações da
vida. E Peter finalmente havia reconquistado MJ ao convencê-la, não muito
tempo atrás, de que precisava da sua força e seu amor para seguir em frente.
Todos os dias, ele era grato por ela ter voltado aos seus braços. Mas o fato de
que a nova carreira dela deixasse tão pouco tempo para ele era frustrante, ainda
mais porque sentia que havia acabado de reencontrá-la. Ele sabia, porém, que
Mary Jane se sentia da mesma maneira em relação à sua carreira de Aranha e,
mesmo assim, aceitava e o apoiava apesar de tudo. Peter devia fazer o mesmo.
Além disso, ela tinha razão. Ele ergueu o uniforme, observou-o, deu uma
cheiradinha e fez uma careta.
– Ela está certa, Peter. Às vezes ser o Homem-Aranha fede. – Ele espirrou
violentamente. – E se consigo sentir o cheiro com o nariz entupido… nossa!
Além disso, ele percebeu que tinha menos de uma hora para chegar ao
Midtown High (o colégio em que trabalhava e que, apesar do nome, ficava no
Queens), ou seus alunos especiais de biologia ficariam sem professor… de novo.
Ele já havia tido problemas demais em manter seu trabalho de meio período como
professor com suas faltas frequentes e sua pouca habilidade para inventar boas
desculpas. O único motivo pelo qual o Midtown High o mantinha lá era porque
havia poucos professores de ciência decentes no sistema público escolar, pelos
menos com coragem o suficiente para assumir os alunos problemáticos e de
bairros pobres da classe dele. Anos de batalhas contra o Duende Verde, o Doutor
Octopus, Kraven, o Caçador, e Venom o prepararam para o desafio de enfrentar
uma turma de adolescentes mal-humorados, desconfiados e possivelmente
armados e tentar convencê-los a abrir a cabeça para ideias novas. Quer dizer, não
o havia preparado tanto assim. Lutar contra supervilões era mais fácil, na
verdade, já que podia simplesmente dar um soco na cara deles se não quisessem
cooperar.
Além disso, ele também tinha a adrenalina para mantê-lo na luta. Hoje,
depois de uma noite insone sob a chuva forte, uma ducha rápida, um café, um pão
e mais um café para continuar acordado, ele precisava ficar de frente para uma
sala cheia de adolescentes incrédulos e cabeças-duras e convencê-los de que sabia
do que estava falando… ou, ao menos, de que estava acordado. Ele vinha se
esforçando muito nos últimos meses para vencer o ceticismo dos alunos e sabia
que, se demonstrasse qualquer sinal de fraqueza, correria o risco de perder o
controle sobre eles. Ainda que, com o forte resfriado que havia pegado, fosse
difícil até mesmo falar alguma coisa coerente. Graças aos céus tenho anos de
aprendizagem e experiência em falar com clareza através de uma máscara.
No entanto, sua aula sobre organismos geneticamente modificados não saiu
como o esperado. Susan Labyorteaux, uma aluna loira, mais velha e meio
gordinha, de uma família muito religiosa, não reagiu bem à matéria, assim como
não havia gostado de suas aulas anteriores sobre evolução.
– A gente não devia mexer na forma como Deus criou a natureza – insistiu
ela. – A gente não tem esse direito.
– Verdade – concordou Bobby Ribeiro, um garoto magro de família afrocubana.
– E vai saber que tipo de monstros a gente acabaria criando? Esses
malditos cientistas não deviam mexer com o que não entendem. – Alguns dos
alunos concordaram, balançando a cabeça e emitindo sons de aprovação.
– Bom, vocês não são as primeiras pessoas a serem contra – Peter disse. –
Muitas lojas não vendem comidas transgênicas, e existem até leis que restringem
o seu uso. E você está certo, Bobby, tem várias coisas que podem dar errado se as
pessoas não tomarem cuidado. Mas a verdade é que a gente sempre comeu
alimentos transgênicos. – Com a reação de espanto dos alunos, ele explicou: –
Sério: quase todos os itens alimentícios que a gente come foram alterados de sua
forma natural ao longo de séculos de domesticação e reprodução seletiva. Veja as
bananas, por exemplo. Elas são simples, convenientes, uniformes. Têm umas belas
cascas de proteção que podem ser retiradas com facilidade e até umas alcinhas
naturais. Vocês acham que a natureza fez as bananas assim?
– Foi Deus quem fez – disse Susan.
– É, eu vi isso em um filme do George Burns – interveio Joan Rubinoff, a
piadista da sala. Susan não riu com o resto da classe, mas também não ficou brava
com Joan, já que, apesar de suas crenças apaixonadas, era bastante tranquila com
essas coisas.
– Na verdade, não foi Deus quem fez – discordou Peter –, pelo menos não
diretamente. As bananas selvagens são pequenas, duras, verdes e quase não são
comestíveis. As bananas que comemos hoje em dia são produtos de séculos de
reprodução artificial. Poxa, elas nem conseguem mais se reproduzir naturalmente,
porque não têm sementes. Elas são literalmente clones de outras plantas, no
sentido original de clone: uma planta que nasce de uma muda, não no sentido da
ovelha Dolly. Na verdade, isso é preocupante porque, se surgisse uma doença
capaz de infectar as bananas, poderia matar todas as bananeiras do mundo, pois
nenhuma delas seria geneticamente diferente o bastante para sobreviver. E isso
destruiria a economia de países inteiros, sem falar dos cafés da manhã de todo o
mundo.
– Bom, isso mostra por que é errado brincar de Deus – disse Susan. – A gente
não consegue ser tão bom.
Peter sempre achou esse argumento meio estranho. Afinal, os humanos são
filhos de Deus, certo? E a maioria dos pais quer que seus filhos sigam seus passos,
não é verdade? Mas ele imaginou que o que Susan queria dizer era que a
humanidade era infantil demais para ter essa responsabilidade.
– Talvez – reconheceu Peter. – Mas você consegue sugerir uma forma de
consertar o problema sem usar engenharia genética para aumentar a variedade
das bananas?
– Não – admitiu ela. – Mas isso não significa que não exista.
– Verdade. Mesmo assim, as bananas são apenas um caso. – Ele continuou a
dar-lhes mais exemplos de como os humanos vinham “mexendo com a natureza”
há séculos. Contou para os alunos que as cenouras naturais eram roxas e que
foram criadas laranjas especialmente para prestar homenagem à casa real de
Orange. Embora, com a gripe a palavra tenha soado mais como “Ordje”.
– Mas não é a mesma coisa – insistiu Bobby. – Isso é apenas cruzar plantas
naturalmente, e não enfiar instrumentos para mexer nos genes delas.
Como sempre, Bobby era rápido para encontrar um contra-argumento. Peter
admirava a inteligência do menino, seu pensamento independente, sua insistência
em fazer perguntas em vez de apenas anotar passivamente o que os professores
falavam sem se dar ao trabalho de pensar naquilo como algo mais do que uma
resposta idiota para a próxima prova. Mas ele era difícil de convencer, ainda mais
naquele dia, em que Peter estava com dificuldades de fazer até seu próprio
cérebro funcionar.
– Bem, hmm… – Ele levou um momento para lembrar da resposta que havia
preparado para tal argumento. – Você falou de enfiar instrumentos. Bom, a
questão é que os principais instrumentos usados na engenharia genética são, na
verdade, vírus. E, para eles, colocar novas sequências nos genes de outros
organismos é natural. Os cientistas estimam que até… hmm… oito por cento do
genoma humano normal consiste em genes que os retrovírus vêm dividindo há
milhões e milhões de anos. Dá para dizer que as técnicas genéticas modernas são
só uma maneira de aproveitar esse processo natural para fins humanos, em vez
de fins virais. – No fundo da sua mente, ele ponderou uma nova dúvida que
poderia ser explorada se um dia ele dispusesse seu corpo para a ciência. Será que
a aranha irradiada continha um retrovírus em seu sistema? Será que foi o vírus, e
não a aranha, que foi alterado pela radiação? Será que esse vírus se espalhou pelo
seu corpo como uma infecção e inseriu genes retirados da aranha nos genes dele?
Ele percebeu que estava viajando e que a turma o olhava com expectativa.
– De qualquer forma, hmm, para o nosso propósito, a principal diferença
entre reprodução seletiva e splicing genético é que o splicing é muito mais preciso.
Em vez de misturar dois genomas inteiros e torcer para que o resultado seja bom,
com poucos efeitos colaterais, dá para entrar e mudar exatamente o que você
quer e deixar o resto em paz. É como a diferença entre fazer uma microcirurgia e
cortar um osso inteiro.
– Tá, tá – disse Bobby. – Mas, com tanto controle, e se alguém quiser usar
esse conhecimento para ferrar com os genes das pessoas de propósito? Por
exemplo, mudar seus bebês para torná-los brancos? – Muitos alunos expressaram
seu descontentamento com essa possibilidade.
– Bem, esse é um ótimo argumento – reconheceu Peter. – A precisão torna
essa técnica muito mais poderosa, o que significa que, sem dúvidas, pode causar
danos ainda maiores se cair em mãos erradas. Mas também pode fazer muita
coisa boa nas mãos de pessoas certas.
Uma nova ideia passou por sua cabeça e sua hesitação o abandonou.
– Como meu tio Ben costumava dizer, “com grandes poderes, vêm grandes
responsabilidades”. O poder não é exatamente ruim, é só poderoso. Se ele fará o
bem ou o mal dependerá da maneira e da responsabilidade de seu uso. Algum de
vocês é diabético? – perguntou ele. Alguns alunos levantaram a mão, incluindo
Susan. – As injeções de insulina que salvam a vida de vocês todos os dias são
resultados de engenharia genética. Elas são feitas pelas bactérias E. Coli que
foram modificadas para produzir insulina humana. Até algumas décadas atrás,
vocês teriam que usar insulina extraída do pâncreas de uma vaca, de um porco ou
de um peixe. E poderiam ter uma reação alérgica perigosa.
Ele contou que a terapia genética era capaz de criar curas para o câncer,
fibrose cística, Parkinson e outras doenças. Falou da pesquisa sobre a criação de
frutas com genes que as farão produzir vacinas orais naturalmente para que as
pessoas em países mais pobres sejam vacinadas de maneira fácil e barata através
das plantações que elas mesmas cultivam, em vez de depender de uma
infraestrutura médica pela qual não têm como pagar – se é que essa
infraestrutura exista em seus países. Esse foi um argumento que tocou muitos dos
alunos, cuja maioria vivia em condições não muito melhores do que as encontradas
em países do Terceiro Mundo. (Bobby Ribeiro morava com seis outros membros
da sua família em um pequeno quarto de um cortiço que era um pouco melhor do
que uma caixa de papelão embaixo do viaduto. Jenny Hardesty sequer tinha isso,
morava com um grupo de crianças sem-teto e sem pais que se abrigavam em
prédios desapropriados e tentavam se manter longe da polícia até fazerem
dezoito anos e conseguirem se sustentar.) A ideia de ser vacinado com uma
banana ou uma maçã, em vez de agulhas afiadas, também lhes era interessante.
– Mas e os mutantes? – argumentou Bobby. – Ou aquelas aberrações como
Hulk e o Homem-Aranha? Eles são a prova de que mexer com genes é perigoso.
– Sim, pode ser. – Peter sem dúvida entendia as preocupações do garoto,
tendo enfrentado vários resultados perigosos de ciência genética que deram
errado, sem falar que ele mesmo já havia se transformado em um ou dois deles
(às vezes, seu tronco ainda coçava em recordação dos quatro braços extras que
teve por um curto período). – Mas muitos mutantes e outros seres geneticamente
alterados usam seus poderes para o bem. Ou pelo menos tentam. Organismos
geneticamente modificados podem tanto salvar o mundo quanto ameaçá-lo. Como
eu falei, não é o poder que faz a diferença, é a responsabilidade. – Claro que não
poderia simplesmente falar que ele próprio era um organismo geneticamente
modificado, ainda mais porque o Homem-Aranha era considerado por muitos mais
uma ameaça do que um herói, graças aos anos de campanha difamatória feita
pelo Clarim Diário.
O sinal tocou cedo demais, como sempre, e ele só pôde torcer para que
tivesse dado informações suficientes para que seus alunos tomassem decisões
sábias sobre o assunto. Afinal, quando crescessem, poderiam ser eles as pessoas
que tomariam as decisões sobre pesquisa genética e determinariam se ela teria a
chance de salvar vidas ou seria proibida em função do medo do desconhecido.
Mesmo num mundo de super-humanos e pretensos deuses, o conhecimento ainda
era o maior poder.
E isso o fez lembrar:
– Não se esqueçam – ele gritou para os alunos que saíam às pressas –,
amanhã tem excursão para a Biblioteca Pública de Nova York! Lembrem de estar
com os documentos de persimão assinados! – Eu acabei de falar “persimão” em vez
de “permissão”? Ahhh, preciso dormir!
Infelizmente, ele ainda precisava dar aula de ciência geral para o primeiro
ano no último horário e, portanto, ainda não podia voltar para casa. Em vez disso,
seguiu para a sala dos professores, torcendo para que estivesse silenciosa o
bastante para que pudesse tirar um cochilo no sofá velho. Claro, “silêncio” era
algo relativo, considerando o ronco constante da geladeira antiga que mais
parecia o barulho de uma motocicleta. Contudo, Peter, na maior parte de seus
vinte e poucos anos, morou em apartamentos minúsculos com paredes finas como
papel e, por necessidade, havia aprendido a dormir com o pior barulho de trânsito
– particularmente desde que iniciara suas patrulhas noturnas lhe era comum
dormir durante as horas do tráfego matinal mais intenso. Estranhamente, seu
sentido-aranha o havia ajudado também com essa habilidade; ele estava tão
acostumado a confiar no sentido para alertá-lo do perigo que não acordava
facilmente com outros estímulos, mesmo barulhos altos. Desde que não houvesse
ninguém na sala interessado em conversar com ele, poderia contar com uma breve
soneca.
Ao chegar, encontrou a sala vazia, exceto por Dawn Lukens, a professora de
inglês de quarenta e poucos anos que mais parecia um duende e tinha o talento
inexplicável de manter os alunos na linha apesar de sua baixa estatura e de sua
voz infantil. Ela era uma colega simpática, mas, naquele momento, Peter torceu
para que o ignorasse e permanecesse navegando na internet com seu laptop,
graças ao sinal de wi-fi que ela havia ajudado a convencer a diretoria da escola a
instalar em Midtown High, tanto para servir às necessidades educacionais dos
alunos como para saciar seu próprio vício na rede. Vício na rede. Hah. Rede, teia,
tudo a mesma coisa. Quem sou eu para julgar? Como sempre, ele ficou tentado a
perguntar quantos websites sobre o Homem-Aranha existiam, mas a vontade de
minimizar sua relação com o infame escalador de paredes era maior do que seu
amor por trocadilhos ruins. Só um pouco maior.
Por isso, lançou-lhe um cumprimento de cabeça rápido, mas educado, seguido
por um bocejo planejado, na esperança de que ela entendesse a indireta e o
deixasse se jogar no sofá. Em vez disso, ela disse:
– Ei, Pete, dá uma olhada nisso aqui. Você trabalhava para esse homem, não?
– Hmm? – Lamentando em silêncio seu sono há muito perdido, ele deu a volta
– Hmm? – Lamentando em silêncio seu sono há muito perdido, ele deu a volta
para olhar por sobre o ombro dela e recuou diante da cara de poucos amigos que
apareceu na tela. Com um corte de cabelo que mais parecia um pincel de barbear,
um bigode que saiu de moda desde a época de Hitler e um charuto tão
repugnante quanto a expressão no rosto – era J. Jonah Jameson, claro. Graças a
Deus ele não tentou sorrir para a câmera; seria a única coisa mais assustadora do
que a carranca dele.
A relação de Peter com o irascível editor do Clarim Diário de Nova York era
tão longa e esquizofrênica quanto sua carreira de combate ao crime. Desde o
início, por motivos que Peter nunca chegou a entender, Jameson considerou o
Homem-Aranha inimigo número um do Estado e repetiu essa opinião aos quatro
ventos. O número de palavras da retórica anti-Homem-Aranha que ele havia
redigido em editoriais, falado em anúncios de TV especialmente comprados e
desferido em piadas particulares para a equipe do jornal conseguia competir com
a coleção da Biblioteca Pública de Nova York em nível de verbosidade. Sua
demagogia e as polêmicas que havia criado desfizeram as primeiras tentativas de
Peter de transformar o Homem-Aranha numa atração de TV e o transformaram
no combatente ao crime mais odiado da cidade. No entanto, ao mesmo tempo em
que destruía uma carreira de Peter, Jameson lhe dava outra, já que ele sempre
podia pagar por fotos do Homem-Aranha para acompanhar sua cobertura
tendenciosa da ameaça escaladora de paredes. Peter Parker sempre estivera em
uma posição única para tirar essas fotos, visto que havia comprado uma
minicâmera que carregava no cinto, colocava no automático e prendia com a teia
num lugar estratégico para tirar fotos das suas superbatalhas. Peter não gostava
muito de ajudar Jonah a destruir seu alter ego, mas esse trabalho o ajudara a
pagar as contas por longos anos de dureza e dificuldades. (E, pelo menos,
Jameson sempre escrevia o nome dele do jeito certo, com hífen e A maiúsculo.
Como dizem, isso é o mais importante. Muitas pessoas escreviam
“Homemaranha”, que, na cabeça de Peter, mais parecia o nome de algum bicho
esquisito. “Olha, querido, tem uma homemaranha no teto!”)
– Sim, minha história com JJJ é antiga – foi tudo o que ele disse a Dawn. –
Ninguém consegue esquecer que trabalhou para esse homem, nem com anos de
terapia. No que ele foi se meter agora?
– Na blogosfera. Ele finalmente se rendeu ao século vinte e um e começou um
blog. O Alerta.
– Sério? – perguntou Peter. – É uma surpresa Jonah se render a essa teia de
informações. Dawn riu. Mas enfim, Peter pensou, como ele poderia resistir a uma
chance nova de dizer o que pensa?
Atraído para aquilo como um curioso olha para um acidente de trânsito, ele se
debruçou, sem conseguir resistir ao que Jolly Jonah tinha a dizer. Por algum
motivo estranho, ele quase sentia falta dos acessos de fúria do velho resmungão.
Como era de se esperar, o tema da coluna era o Homem-Aranha, especificamente
suas ações ao frustrar o roubo da noite anterior na Macy:
(…) Como eu sempre disse, aquele escalador de paredes vil não tira o cavalinho da
(…) Como eu sempre disse, aquele escalador de paredes vil não tira o cavalinho da
chuva. Por mim tudo bem – estou torcendo para um caso terminal de pneumonia.
Mas aquele porco ilustre não se contenta em sofrer sozinho, ele tem que fazer
outros sofrerem com ele! Primeiro, teve a coragem de atacar um segurança ferido
chamado Eddie Barnes, um homem corajoso atingido em serviço, mas
impulsionado pela busca de justiça enquanto seu sangue jorrava de um ferimento
quase fatal. Este sim é um herói, senhoras e senhores, não aquelas aberrações
excêntricas que se escondem por trás de máscaras ridículas e aterrorizam a boa
gente de Nova York com suas brigas egoístas sem fim! Talvez o Homem-Aranha
tenha reconhecido isso e atacado o corajoso Eddie Barnes por pura inveja! Porém,
o mais provável é que ele estivesse mancomunado com os criminosos, agindo na
retaguarda e usando suas teias repugnantes para se livrar do perseguidor.
Mas não existe honra entre os bandidos; por isso, minutos depois, o
aracnídeo rançoso se voltou contra seus cúmplices, sem dúvida querendo todo o
dinheiro do roubo para si e fazendo parecer que havia capturado os criminosos.
Como sempre, ele persiste em suas tentativas de fazer a boa gente de Nova York
acreditar que ele está do lado da lei e da ordem. Ha! O Homem-Aranha está mais
para a ilegalidade e para o caos, como provaram suas ações naquela rua
movimentada de Manhattan! Vandalizando de maneira indiscriminada os veículos
de motoristas inocentes no caminho, ele entrou em um tiroteio contra seus antigos
parceiros de crime, colocando a vida de inúmeros civis em perigo! Quando um
bravo taxista, Nicholas Kaproff, ousou erguer a voz em protesto, o Homem-Aranha
começou a despedaçar seu carro, e teria feito o mesmo com o próprio Nick caso a
Polícia de Nova York não tivesse chegado na cena do crime. Felizmente, eles
afugentaram aquele hipócrita do Homem-Aranha antes que ele pudesse fugir com o
dinheiro.
Mas como cidadãos honestos como Eddie Barnes ou Nick Kaproff podem
buscar a compensação pelos danos impostos a eles? Como podem apresentar
queixas ou processar um covarde que se esconde atrás de uma máscara de meia e
sempre foge da cena do crime? Como (…)
O texto continuava nessa veia por algum tempo. No entanto, Peter não
precisou ler mais; fazia tempo que tinha decorado o jeito JJJ de agir. Embora,
aparentemente, a nova mídia que o homem das três aproximantes palatais
encontrou para expor seu ponto de vista parecia ter inspirado uma nova
criatividade nele.
– Aracnídeo rançoso? Acho que essa eu nunca ouvi.
– Mesmo assim – Dawn disse –, apesar de todo o exagero, ele meio que tem
razão. Mesmo que o Homem-Aranha não estivesse trabalhando com os ladrões,
ele também causou danos. Muitas das mercadorias roubadas foram destruídas no
meio da briga. E o que os super-heróis têm na cabeça para achar que podem sair
destruindo a propriedade alheia e usar como armas quando bem entenderem?
Parece que eles se importam mais em mostrar como são poderosos do que em
deter os crimes. O Homem-Aranha pode até achar que estava fazendo o bem
ontem à noite, mas os métodos dele deixam muito a desejar.
Peter ficou de boca fechada, sem confiar em si mesmo para dar uma resposta.
Ele vinha tentando ver com bom humor o novo palanque de Jameson para
ataques aracnofóbicos, mas as críticas de sua colega, de quem ele gostava,
ficaram atravessadas em sua garganta. Ele tinha feito tudo o que podia para
manter as pessoas em segurança e sentira a necessidade de atacar o mais forte e
rápido possível para evitar fatalidades com balas perdidas. Ele não tinha outra
escolha. Ou tinha?
Deitou-se no sofá por um tempo, mas não conseguiu pregar os olhos.

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