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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 8

COM A TEIA INFERNAL

FOI SÓ DE MANHÃ que o Homem-Aranha finalmente conseguiu voltar ao prédio onde morava como Peter Parker. Torcendo para que seu encharcado sentido-aranha tivesse secado o suficiente para alertá-lo se alguém estivesse olhando, ele desceu pela escada de incêndio até seu apartamento. Por sorte, o único espectador era Barker, o estranho e feio rottweiler que morava no apartamento da frente, cuja principal atividade parecia ser a de ficar olhando ameaçadoramente para a janela de Peter, isso quando não estava usando fantasias feitas por sua dona aficionada, Caryn, ou fazendo barulhos estranhos em seu apartamento. Apesar de o sentidoaranha não mostrar, às vezes Peter suspeitava de que Barker fosse um supervilão disfarçado. Porém, mesmo se fosse, Peter estava cansado demais para se preocupar naquele momento, então simplesmente entrou pela janela do seu apartamento e arrancou a máscara que já cheirava a mofo. – Querida, cheguei – ele gritou, quase sem voz. Ele esperava receber um abraço caloroso de sua linda esposa, um sermão carinhoso por fazê-la ficar acordada a noite toda preocupada com ele e, depois, tomar um banho matutino quente e agradável, juntos. Em vez disso, Mary Jane apenas olhou rapidamente da porta do quarto, deixando cair as mechas ruivas, e disse, distraidamente: – Oi, querido. Noite difícil? – Já tive melhores – ele respondeu, tirando as luvas e a camisa. – Tentei subir pela parede, veio a chuva forte e me derrubou. Você nem imagina o que aconteceu depois. Vem aqui que eu te conto tudo. – Ahh, não posso. Estou atrasada para o ensaio. – Ela entrou apressada no quarto e deu um selinho rápido em seus lábios, mas saiu antes que ele pudesse retribuir o beijo. – Ei, é só isso que eu ganho? – Desculpa… não posso chegar ao ensaio cheirando a super-herói molhado. À noite a gente conversa, tigrão. Te amo. Tchau! – E assim ela se foi. Depois de alguns segundos, Peter fechou a boca, abaixou a mão estendida e soltou um suspiro. Não era o que ele estava esperando, mas não podia pensar só em si mesmo. MJ podia ser sua companheira amorosa e tudo mais, mas tinha sua própria vida para cuidar. Depois de anos como supermodelo bem-sucedida e atriz inexperiente, era difícil para ela encontrar diretores de elenco que a levassem a sério e a vissem como mais do que só um rostinho bonito (ainda mais com aquele rosto maravilhoso, os cabelos ruivos longos e cheios de brilho, e aquelas pernas infinitas e… enfim). Além da ponta numa novela alguns anos atrás, ela encontrou dificuldades em ser escalada para qualquer papel que não fosse o da mocinha de roupas curtas em filmes de ação de qualidade duvidosa. E ela estava cada vez mais ciente de que, ao chegar perto dos trinta, o prazo de validade de uma supermodelo e atriz iniciante em Hollywood era muito limitado; ela acabaria tendo que diversificar a atuação para conseguir se sustentar. Por isso, recentemente, havia começado uma carreira no teatro para aumentar seus ganhos como atriz e variar as opções de carreira em longo prazo. Somando com os trabalhos de modelo ocasionais que ainda fazia para pagar as contas, ela andava mais ocupada do que nunca. A verdade era que MJ andava absorvida pelo trabalho nos últimos tempos. Sua versão de Lady Macbeth havia sido muito malvista pelos críticos, que disseram que o elenco era ruim e que ela não passava de um rostinho lindo com quase nada por trás. (Os trocadilhos foram previsíveis, pelo menos para quem conhecia o bardo: “Era uma flor sem serpente”, “Tirai-me a sensualidade!”). Desde então, ela vinha se esforçando muito para melhorar sua atuação e estava se dedicando de corpo e alma à sua nova peça, aproveitando ao máximo o seu papel de coadjuvante. Ela parecia dedicar cada minuto disponível de sua vida à fase de ensaio, fosse com o elenco no teatro, ou em casa, decorando as falas. Havia alguns momentos – mais do que alguns, na verdade – em que Peter ficava magoado por ter de disputar o tempo dela. Ele havia ficado sem Mary Jane por tempo demais. No ano anterior, um homem a sequestrara e forjara sua morte, mantendo-a prisioneira por meses até que o Homem-Aranha finalmente a resgatasse. Ele havia sentido um alívio profundo por tê-la de volta, mas isso não durou muito. Ela precisou de um tempo para se recuperar do trauma e se reencontrar na vida, para superar a sensação de desamparo que havia sofrido por tanto tempo. Por isso, ela o deixou temporariamente, mudou-se para Los Angeles e trabalhou para construir para si uma vida que não fosse apenas a de Sra. Homem-Aranha. Ela atingiu seu objetivo; seu trabalho podia até não ter sido tão formidável quanto ela esperava, mas foi o suficiente para que se desse conta de que era forte e inteligente o bastante para se virar sozinha e suportar as provações da vida. E Peter finalmente havia reconquistado MJ ao convencê-la, não muito tempo atrás, de que precisava da sua força e seu amor para seguir em frente. Todos os dias, ele era grato por ela ter voltado aos seus braços. Mas o fato de que a nova carreira dela deixasse tão pouco tempo para ele era frustrante, ainda mais porque sentia que havia acabado de reencontrá-la. Ele sabia, porém, que Mary Jane se sentia da mesma maneira em relação à sua carreira de Aranha e, mesmo assim, aceitava e o apoiava apesar de tudo. Peter devia fazer o mesmo. Além disso, ela tinha razão. Ele ergueu o uniforme, observou-o, deu uma cheiradinha e fez uma careta. – Ela está certa, Peter. Às vezes ser o Homem-Aranha fede. – Ele espirrou violentamente. – E se consigo sentir o cheiro com o nariz entupido… nossa! Além disso, ele percebeu que tinha menos de uma hora para chegar ao Midtown High (o colégio em que trabalhava e que, apesar do nome, ficava no Queens), ou seus alunos especiais de biologia ficariam sem professor… de novo. Ele já havia tido problemas demais em manter seu trabalho de meio período como professor com suas faltas frequentes e sua pouca habilidade para inventar boas desculpas. O único motivo pelo qual o Midtown High o mantinha lá era porque havia poucos professores de ciência decentes no sistema público escolar, pelos menos com coragem o suficiente para assumir os alunos problemáticos e de bairros pobres da classe dele. Anos de batalhas contra o Duende Verde, o Doutor Octopus, Kraven, o Caçador, e Venom o prepararam para o desafio de enfrentar uma turma de adolescentes mal-humorados, desconfiados e possivelmente armados e tentar convencê-los a abrir a cabeça para ideias novas. Quer dizer, não o havia preparado tanto assim. Lutar contra supervilões era mais fácil, na verdade, já que podia simplesmente dar um soco na cara deles se não quisessem cooperar. Além disso, ele também tinha a adrenalina para mantê-lo na luta. Hoje, depois de uma noite insone sob a chuva forte, uma ducha rápida, um café, um pão e mais um café para continuar acordado, ele precisava ficar de frente para uma sala cheia de adolescentes incrédulos e cabeças-duras e convencê-los de que sabia do que estava falando… ou, ao menos, de que estava acordado. Ele vinha se esforçando muito nos últimos meses para vencer o ceticismo dos alunos e sabia que, se demonstrasse qualquer sinal de fraqueza, correria o risco de perder o controle sobre eles. Ainda que, com o forte resfriado que havia pegado, fosse difícil até mesmo falar alguma coisa coerente. Graças aos céus tenho anos de aprendizagem e experiência em falar com clareza através de uma máscara. No entanto, sua aula sobre organismos geneticamente modificados não saiu como o esperado. Susan Labyorteaux, uma aluna loira, mais velha e meio gordinha, de uma família muito religiosa, não reagiu bem à matéria, assim como não havia gostado de suas aulas anteriores sobre evolução. – A gente não devia mexer na forma como Deus criou a natureza – insistiu ela. – A gente não tem esse direito. – Verdade – concordou Bobby Ribeiro, um garoto magro de família afrocubana. – E vai saber que tipo de monstros a gente acabaria criando? Esses malditos cientistas não deviam mexer com o que não entendem. – Alguns dos alunos concordaram, balançando a cabeça e emitindo sons de aprovação. – Bom, vocês não são as primeiras pessoas a serem contra – Peter disse. – Muitas lojas não vendem comidas transgênicas, e existem até leis que restringem o seu uso. E você está certo, Bobby, tem várias coisas que podem dar errado se as pessoas não tomarem cuidado. Mas a verdade é que a gente sempre comeu alimentos transgênicos. – Com a reação de espanto dos alunos, ele explicou: – Sério: quase todos os itens alimentícios que a gente come foram alterados de sua forma natural ao longo de séculos de domesticação e reprodução seletiva. Veja as bananas, por exemplo. Elas são simples, convenientes, uniformes. Têm umas belas cascas de proteção que podem ser retiradas com facilidade e até umas alcinhas naturais. Vocês acham que a natureza fez as bananas assim? – Foi Deus quem fez – disse Susan. – É, eu vi isso em um filme do George Burns – interveio Joan Rubinoff, a piadista da sala. Susan não riu com o resto da classe, mas também não ficou brava com Joan, já que, apesar de suas crenças apaixonadas, era bastante tranquila com essas coisas. – Na verdade, não foi Deus quem fez – discordou Peter –, pelo menos não diretamente. As bananas selvagens são pequenas, duras, verdes e quase não são comestíveis. As bananas que comemos hoje em dia são produtos de séculos de reprodução artificial. Poxa, elas nem conseguem mais se reproduzir naturalmente, porque não têm sementes. Elas são literalmente clones de outras plantas, no sentido original de clone: uma planta que nasce de uma muda, não no sentido da ovelha Dolly. Na verdade, isso é preocupante porque, se surgisse uma doença capaz de infectar as bananas, poderia matar todas as bananeiras do mundo, pois nenhuma delas seria geneticamente diferente o bastante para sobreviver. E isso destruiria a economia de países inteiros, sem falar dos cafés da manhã de todo o mundo. – Bom, isso mostra por que é errado brincar de Deus – disse Susan. – A gente não consegue ser tão bom. Peter sempre achou esse argumento meio estranho. Afinal, os humanos são filhos de Deus, certo? E a maioria dos pais quer que seus filhos sigam seus passos, não é verdade? Mas ele imaginou que o que Susan queria dizer era que a humanidade era infantil demais para ter essa responsabilidade. – Talvez – reconheceu Peter. – Mas você consegue sugerir uma forma de consertar o problema sem usar engenharia genética para aumentar a variedade das bananas? – Não – admitiu ela. – Mas isso não significa que não exista. – Verdade. Mesmo assim, as bananas são apenas um caso. – Ele continuou a dar-lhes mais exemplos de como os humanos vinham “mexendo com a natureza” há séculos. Contou para os alunos que as cenouras naturais eram roxas e que foram criadas laranjas especialmente para prestar homenagem à casa real de Orange. Embora, com a gripe a palavra tenha soado mais como “Ordje”. – Mas não é a mesma coisa – insistiu Bobby. – Isso é apenas cruzar plantas naturalmente, e não enfiar instrumentos para mexer nos genes delas. Como sempre, Bobby era rápido para encontrar um contra-argumento. Peter admirava a inteligência do menino, seu pensamento independente, sua insistência em fazer perguntas em vez de apenas anotar passivamente o que os professores falavam sem se dar ao trabalho de pensar naquilo como algo mais do que uma resposta idiota para a próxima prova. Mas ele era difícil de convencer, ainda mais naquele dia, em que Peter estava com dificuldades de fazer até seu próprio cérebro funcionar. – Bem, hmm… – Ele levou um momento para lembrar da resposta que havia preparado para tal argumento. – Você falou de enfiar instrumentos. Bom, a questão é que os principais instrumentos usados na engenharia genética são, na verdade, vírus. E, para eles, colocar novas sequências nos genes de outros organismos é natural. Os cientistas estimam que até… hmm… oito por cento do genoma humano normal consiste em genes que os retrovírus vêm dividindo há milhões e milhões de anos. Dá para dizer que as técnicas genéticas modernas são só uma maneira de aproveitar esse processo natural para fins humanos, em vez de fins virais. – No fundo da sua mente, ele ponderou uma nova dúvida que poderia ser explorada se um dia ele dispusesse seu corpo para a ciência. Será que a aranha irradiada continha um retrovírus em seu sistema? Será que foi o vírus, e não a aranha, que foi alterado pela radiação? Será que esse vírus se espalhou pelo seu corpo como uma infecção e inseriu genes retirados da aranha nos genes dele? Ele percebeu que estava viajando e que a turma o olhava com expectativa. – De qualquer forma, hmm, para o nosso propósito, a principal diferença entre reprodução seletiva e splicing genético é que o splicing é muito mais preciso. Em vez de misturar dois genomas inteiros e torcer para que o resultado seja bom, com poucos efeitos colaterais, dá para entrar e mudar exatamente o que você quer e deixar o resto em paz. É como a diferença entre fazer uma microcirurgia e cortar um osso inteiro. – Tá, tá – disse Bobby. – Mas, com tanto controle, e se alguém quiser usar esse conhecimento para ferrar com os genes das pessoas de propósito? Por exemplo, mudar seus bebês para torná-los brancos? – Muitos alunos expressaram seu descontentamento com essa possibilidade. – Bem, esse é um ótimo argumento – reconheceu Peter. – A precisão torna essa técnica muito mais poderosa, o que significa que, sem dúvidas, pode causar danos ainda maiores se cair em mãos erradas. Mas também pode fazer muita coisa boa nas mãos de pessoas certas. Uma nova ideia passou por sua cabeça e sua hesitação o abandonou. – Como meu tio Ben costumava dizer, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. O poder não é exatamente ruim, é só poderoso. Se ele fará o bem ou o mal dependerá da maneira e da responsabilidade de seu uso. Algum de vocês é diabético? – perguntou ele. Alguns alunos levantaram a mão, incluindo Susan. – As injeções de insulina que salvam a vida de vocês todos os dias são resultados de engenharia genética. Elas são feitas pelas bactérias E. Coli que foram modificadas para produzir insulina humana. Até algumas décadas atrás, vocês teriam que usar insulina extraída do pâncreas de uma vaca, de um porco ou de um peixe. E poderiam ter uma reação alérgica perigosa. Ele contou que a terapia genética era capaz de criar curas para o câncer, fibrose cística, Parkinson e outras doenças. Falou da pesquisa sobre a criação de frutas com genes que as farão produzir vacinas orais naturalmente para que as pessoas em países mais pobres sejam vacinadas de maneira fácil e barata através das plantações que elas mesmas cultivam, em vez de depender de uma infraestrutura médica pela qual não têm como pagar – se é que essa infraestrutura exista em seus países. Esse foi um argumento que tocou muitos dos alunos, cuja maioria vivia em condições não muito melhores do que as encontradas em países do Terceiro Mundo. (Bobby Ribeiro morava com seis outros membros da sua família em um pequeno quarto de um cortiço que era um pouco melhor do que uma caixa de papelão embaixo do viaduto. Jenny Hardesty sequer tinha isso, morava com um grupo de crianças sem-teto e sem pais que se abrigavam em prédios desapropriados e tentavam se manter longe da polícia até fazerem dezoito anos e conseguirem se sustentar.) A ideia de ser vacinado com uma banana ou uma maçã, em vez de agulhas afiadas, também lhes era interessante. – Mas e os mutantes? – argumentou Bobby. – Ou aquelas aberrações como Hulk e o Homem-Aranha? Eles são a prova de que mexer com genes é perigoso. – Sim, pode ser. – Peter sem dúvida entendia as preocupações do garoto, tendo enfrentado vários resultados perigosos de ciência genética que deram errado, sem falar que ele mesmo já havia se transformado em um ou dois deles (às vezes, seu tronco ainda coçava em recordação dos quatro braços extras que teve por um curto período). – Mas muitos mutantes e outros seres geneticamente alterados usam seus poderes para o bem. Ou pelo menos tentam. Organismos geneticamente modificados podem tanto salvar o mundo quanto ameaçá-lo. Como eu falei, não é o poder que faz a diferença, é a responsabilidade. – Claro que não poderia simplesmente falar que ele próprio era um organismo geneticamente modificado, ainda mais porque o Homem-Aranha era considerado por muitos mais uma ameaça do que um herói, graças aos anos de campanha difamatória feita pelo Clarim Diário. O sinal tocou cedo demais, como sempre, e ele só pôde torcer para que tivesse dado informações suficientes para que seus alunos tomassem decisões sábias sobre o assunto. Afinal, quando crescessem, poderiam ser eles as pessoas que tomariam as decisões sobre pesquisa genética e determinariam se ela teria a chance de salvar vidas ou seria proibida em função do medo do desconhecido. Mesmo num mundo de super-humanos e pretensos deuses, o conhecimento ainda era o maior poder. E isso o fez lembrar: – Não se esqueçam – ele gritou para os alunos que saíam às pressas –, amanhã tem excursão para a Biblioteca Pública de Nova York! Lembrem de estar com os documentos de persimão assinados! – Eu acabei de falar “persimão” em vez de “permissão”? Ahhh, preciso dormir! Infelizmente, ele ainda precisava dar aula de ciência geral para o primeiro ano no último horário e, portanto, ainda não podia voltar para casa. Em vez disso, seguiu para a sala dos professores, torcendo para que estivesse silenciosa o bastante para que pudesse tirar um cochilo no sofá velho. Claro, “silêncio” era algo relativo, considerando o ronco constante da geladeira antiga que mais parecia o barulho de uma motocicleta. Contudo, Peter, na maior parte de seus vinte e poucos anos, morou em apartamentos minúsculos com paredes finas como papel e, por necessidade, havia aprendido a dormir com o pior barulho de trânsito – particularmente desde que iniciara suas patrulhas noturnas lhe era comum dormir durante as horas do tráfego matinal mais intenso. Estranhamente, seu sentido-aranha o havia ajudado também com essa habilidade; ele estava tão acostumado a confiar no sentido para alertá-lo do perigo que não acordava facilmente com outros estímulos, mesmo barulhos altos. Desde que não houvesse ninguém na sala interessado em conversar com ele, poderia contar com uma breve soneca. Ao chegar, encontrou a sala vazia, exceto por Dawn Lukens, a professora de inglês de quarenta e poucos anos que mais parecia um duende e tinha o talento inexplicável de manter os alunos na linha apesar de sua baixa estatura e de sua voz infantil. Ela era uma colega simpática, mas, naquele momento, Peter torceu para que o ignorasse e permanecesse navegando na internet com seu laptop, graças ao sinal de wi-fi que ela havia ajudado a convencer a diretoria da escola a instalar em Midtown High, tanto para servir às necessidades educacionais dos alunos como para saciar seu próprio vício na rede. Vício na rede. Hah. Rede, teia, tudo a mesma coisa. Quem sou eu para julgar? Como sempre, ele ficou tentado a perguntar quantos websites sobre o Homem-Aranha existiam, mas a vontade de minimizar sua relação com o infame escalador de paredes era maior do que seu amor por trocadilhos ruins. Só um pouco maior. Por isso, lançou-lhe um cumprimento de cabeça rápido, mas educado, seguido por um bocejo planejado, na esperança de que ela entendesse a indireta e o deixasse se jogar no sofá. Em vez disso, ela disse: – Ei, Pete, dá uma olhada nisso aqui. Você trabalhava para esse homem, não? – Hmm? – Lamentando em silêncio seu sono há muito perdido, ele deu a volta – Hmm? – Lamentando em silêncio seu sono há muito perdido, ele deu a volta para olhar por sobre o ombro dela e recuou diante da cara de poucos amigos que apareceu na tela. Com um corte de cabelo que mais parecia um pincel de barbear, um bigode que saiu de moda desde a época de Hitler e um charuto tão repugnante quanto a expressão no rosto – era J. Jonah Jameson, claro. Graças a Deus ele não tentou sorrir para a câmera; seria a única coisa mais assustadora do que a carranca dele. A relação de Peter com o irascível editor do Clarim Diário de Nova York era tão longa e esquizofrênica quanto sua carreira de combate ao crime. Desde o início, por motivos que Peter nunca chegou a entender, Jameson considerou o Homem-Aranha inimigo número um do Estado e repetiu essa opinião aos quatro ventos. O número de palavras da retórica anti-Homem-Aranha que ele havia redigido em editoriais, falado em anúncios de TV especialmente comprados e desferido em piadas particulares para a equipe do jornal conseguia competir com a coleção da Biblioteca Pública de Nova York em nível de verbosidade. Sua demagogia e as polêmicas que havia criado desfizeram as primeiras tentativas de Peter de transformar o Homem-Aranha numa atração de TV e o transformaram no combatente ao crime mais odiado da cidade. No entanto, ao mesmo tempo em que destruía uma carreira de Peter, Jameson lhe dava outra, já que ele sempre podia pagar por fotos do Homem-Aranha para acompanhar sua cobertura tendenciosa da ameaça escaladora de paredes. Peter Parker sempre estivera em uma posição única para tirar essas fotos, visto que havia comprado uma minicâmera que carregava no cinto, colocava no automático e prendia com a teia num lugar estratégico para tirar fotos das suas superbatalhas. Peter não gostava muito de ajudar Jonah a destruir seu alter ego, mas esse trabalho o ajudara a pagar as contas por longos anos de dureza e dificuldades. (E, pelo menos, Jameson sempre escrevia o nome dele do jeito certo, com hífen e A maiúsculo. Como dizem, isso é o mais importante. Muitas pessoas escreviam “Homemaranha”, que, na cabeça de Peter, mais parecia o nome de algum bicho esquisito. “Olha, querido, tem uma homemaranha no teto!”) – Sim, minha história com JJJ é antiga – foi tudo o que ele disse a Dawn. – Ninguém consegue esquecer que trabalhou para esse homem, nem com anos de terapia. No que ele foi se meter agora? – Na blogosfera. Ele finalmente se rendeu ao século vinte e um e começou um blog. O Alerta. – Sério? – perguntou Peter. – É uma surpresa Jonah se render a essa teia de informações. Dawn riu. Mas enfim, Peter pensou, como ele poderia resistir a uma chance nova de dizer o que pensa? Atraído para aquilo como um curioso olha para um acidente de trânsito, ele se debruçou, sem conseguir resistir ao que Jolly Jonah tinha a dizer. Por algum motivo estranho, ele quase sentia falta dos acessos de fúria do velho resmungão. Como era de se esperar, o tema da coluna era o Homem-Aranha, especificamente suas ações ao frustrar o roubo da noite anterior na Macy: (…) Como eu sempre disse, aquele escalador de paredes vil não tira o cavalinho da (…) Como eu sempre disse, aquele escalador de paredes vil não tira o cavalinho da chuva. Por mim tudo bem – estou torcendo para um caso terminal de pneumonia. Mas aquele porco ilustre não se contenta em sofrer sozinho, ele tem que fazer outros sofrerem com ele! Primeiro, teve a coragem de atacar um segurança ferido chamado Eddie Barnes, um homem corajoso atingido em serviço, mas impulsionado pela busca de justiça enquanto seu sangue jorrava de um ferimento quase fatal. Este sim é um herói, senhoras e senhores, não aquelas aberrações excêntricas que se escondem por trás de máscaras ridículas e aterrorizam a boa gente de Nova York com suas brigas egoístas sem fim! Talvez o Homem-Aranha tenha reconhecido isso e atacado o corajoso Eddie Barnes por pura inveja! Porém, o mais provável é que ele estivesse mancomunado com os criminosos, agindo na retaguarda e usando suas teias repugnantes para se livrar do perseguidor. Mas não existe honra entre os bandidos; por isso, minutos depois, o aracnídeo rançoso se voltou contra seus cúmplices, sem dúvida querendo todo o dinheiro do roubo para si e fazendo parecer que havia capturado os criminosos. Como sempre, ele persiste em suas tentativas de fazer a boa gente de Nova York acreditar que ele está do lado da lei e da ordem. Ha! O Homem-Aranha está mais para a ilegalidade e para o caos, como provaram suas ações naquela rua movimentada de Manhattan! Vandalizando de maneira indiscriminada os veículos de motoristas inocentes no caminho, ele entrou em um tiroteio contra seus antigos parceiros de crime, colocando a vida de inúmeros civis em perigo! Quando um bravo taxista, Nicholas Kaproff, ousou erguer a voz em protesto, o Homem-Aranha começou a despedaçar seu carro, e teria feito o mesmo com o próprio Nick caso a Polícia de Nova York não tivesse chegado na cena do crime. Felizmente, eles afugentaram aquele hipócrita do Homem-Aranha antes que ele pudesse fugir com o dinheiro. Mas como cidadãos honestos como Eddie Barnes ou Nick Kaproff podem buscar a compensação pelos danos impostos a eles? Como podem apresentar queixas ou processar um covarde que se esconde atrás de uma máscara de meia e sempre foge da cena do crime? Como (…) O texto continuava nessa veia por algum tempo. No entanto, Peter não precisou ler mais; fazia tempo que tinha decorado o jeito JJJ de agir. Embora, aparentemente, a nova mídia que o homem das três aproximantes palatais encontrou para expor seu ponto de vista parecia ter inspirado uma nova criatividade nele. – Aracnídeo rançoso? Acho que essa eu nunca ouvi. – Mesmo assim – Dawn disse –, apesar de todo o exagero, ele meio que tem razão. Mesmo que o Homem-Aranha não estivesse trabalhando com os ladrões, ele também causou danos. Muitas das mercadorias roubadas foram destruídas no meio da briga. E o que os super-heróis têm na cabeça para achar que podem sair destruindo a propriedade alheia e usar como armas quando bem entenderem? Parece que eles se importam mais em mostrar como são poderosos do que em deter os crimes. O Homem-Aranha pode até achar que estava fazendo o bem ontem à noite, mas os métodos dele deixam muito a desejar. Peter ficou de boca fechada, sem confiar em si mesmo para dar uma resposta. Ele vinha tentando ver com bom humor o novo palanque de Jameson para ataques aracnofóbicos, mas as críticas de sua colega, de quem ele gostava, ficaram atravessadas em sua garganta. Ele tinha feito tudo o que podia para manter as pessoas em segurança e sentira a necessidade de atacar o mais forte e rápido possível para evitar fatalidades com balas perdidas. Ele não tinha outra escolha. Ou tinha? Deitou-se no sofá por um tempo, mas não conseguiu pregar os olhos.

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