1º de julho de 1789
Parece que a França desmorona em volta de mim. A louvada Assembleia dos Estados
Gerais proporcionou o nascimento terrível da cura para a insônia mascarada de discurso
do rei, e certamente toda a farsa rapidamente decaiu a um desfile de bate-boca e brigas, e
nada foi realizado.
Como? Porque, antes da reunião, o Terceiro Estado estava furioso. Estavam furiosos
porque eram os mais pobres e os que pagavam os maiores impostos, e embora
compusessem a maioria dentre os Estados Gerais, tinham menos poder de voto do que a
nobreza e o Clero.
Depois da reunião, ficaram ainda mais furiosos. Porque o rei não abordara nenhuma
das preocupações deles. Eles iam fazer alguma coisa. Todo o país —a não ser que fossem
burros ou deliberadamente estúpidos e teimosos —sabia que algo ia acontecer.
Mas eu não me importava.
Em 17 de junho, o Terceiro Estado votou para se intitular Assembleia Nacional, uma
assembleia do “povo”. Houve algum apoio dos outros Estados, mas na realidade era o
homem comum encontrando sua voz.
Não me importei.
O rei tentou impedi-los, fechando a sala de reuniões, a Salle des États, mas foi como
tentar fechar a porta do estábulo depois que o cavalo já fugiu. Sem se deixar abalar, o
povo fez sua assembleia em uma quadra coberta de pela, e no dia 20 de junho a
Assembleia Nacional fez o juramento. O Juramento do Jogo da Pela, assim chamaram, o
que soa bem cômico, mas na realidade não o era.
Não quando você parar para pensar que eles pretendiam criar uma nova constituição
para a França.
Não quando se você pensar que falava do fim da monarquia.
Mas eu não me importei.
Em 27 de junho o nervosismo do rei era mais evidente do que nunca. Enquanto
mensagens de apoio para a Assembleia jorravam de Paris e de outras cidades francesas, os
militares chegavam a Paris e Versalhes. Havia uma tensão palpável no ar.
E também não me importei com isso.
É claro que deveria ter me importado. Deveria ter tido a força de caráter para deixar
meus problemas pessoais de lado. Mas a verdade era que eu não conseguia.
Não conseguia porque meu pai estava morto e a tristeza tinha voltado à minha vida
como uma forma escura e viva dentro de mim; que acorda comigo pela manhã,
acompanha-me durante o dia, depois fica inquieta à noite, impedindo-me de dormir,
alimentando meus remorsos e meus desgostos.
Passei tantos anos sendo uma decepção para ele. A oportunidade de ser a filha que ele
merecia foi arrancada violentamente de mim.
E, sim, tenho consciência de que nossos lares em Versalhes e em Paris foram
negligenciados, seus terrenos um reflexo do meu estado de espírito. Fico em Paris, mas as
cartas de Olivier, nosso mordomo em Versalhes, chegam duas vezes por semana, cada vez
mais preocupadas e estridentes, relatando detalhes sobre criadas e lacaios que vão embora
e não são substituídos. Mas não me importo.
Aqui, na propriedade de Paris, proibi a criadagem de entrar em meus aposentos e
esgueiro-me pelos andares térreos à noite, sem desejar ver outra viva alma. Bandejas
trazendo comida e correspondência são colocadas à minha porta, e às vezes ouço a criada
cochichando com a dama de companhia, e posso imaginar o que dizem a meu respeito.
Mas não me importo.
Recebi cartas do Sr. Weatherall. Dentre outras coisas, ele quer saber se eu visitaria
Arno na Bastilha, onde ele está preso, suspeito de assassinar meu pai, ou mesmo se estou
tomando medidas para protestar por sua inocência.
E eu deveria escrever e dizer ao Sr. Weatherall que a resposta é não, porque logo
depois do assassinato de meu pai voltei a Versalhes, fui ao escritório dele e encontrei uma
carta que havia sido colocada por baixo da porta. Uma carta dirigida a meu pai, que dizia:
Grão-Mestre de la Serre,
Soube por meus agentes que um indivíduo de nossa Ordem trama contra o senhor.
Peço-lhe para fazer sua guarda na noite da iniciação. Não confie em ninguém. Nem
mesmo naqueles que o senhor chama de amigos. Que o pai da compreensão o guie.
L
Escrevi a Arno. Uma carta na qual o acusava de ser responsável pela morte de meu
pai. Uma carta na qual eu disse não querer vê-lo nunca mais. Mas não a enviei.
Em vez disso, meus sentimentos por ele apodreciam. No lugar de um amigo de
infância e, recentemente, amante, entrou um invasor, um órfão digno de pena que chegou
e roubou o amor de meu pai, e depois ajudou a matá-lo.
Arno está na Bastilha. Ótimo. Espero que apodreça por lá.

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