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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 47

1º de julho de 1789

Parece que a França desmorona em volta de mim. A louvada Assembleia dos Estados Gerais proporcionou o nascimento terrível da cura para a insônia mascarada de discurso do rei, e certamente toda a farsa rapidamente decaiu a um desfile de bate-boca e brigas, e nada foi realizado. Como? Porque, antes da reunião, o Terceiro Estado estava furioso. Estavam furiosos porque eram os mais pobres e os que pagavam os maiores impostos, e embora compusessem a maioria dentre os Estados Gerais, tinham menos poder de voto do que a nobreza e o Clero. Depois da reunião, ficaram ainda mais furiosos. Porque o rei não abordara nenhuma das preocupações deles. Eles iam fazer alguma coisa. Todo o país —a não ser que fossem burros ou deliberadamente estúpidos e teimosos —sabia que algo ia acontecer. Mas eu não me importava. Em 17 de junho, o Terceiro Estado votou para se intitular Assembleia Nacional, uma assembleia do “povo”. Houve algum apoio dos outros Estados, mas na realidade era o homem comum encontrando sua voz. Não me importei. O rei tentou impedi-los, fechando a sala de reuniões, a Salle des États, mas foi como tentar fechar a porta do estábulo depois que o cavalo já fugiu. Sem se deixar abalar, o povo fez sua assembleia em uma quadra coberta de pela, e no dia 20 de junho a Assembleia Nacional fez o juramento. O Juramento do Jogo da Pela, assim chamaram, o que soa bem cômico, mas na realidade não o era. Não quando você parar para pensar que eles pretendiam criar uma nova constituição para a França. Não quando se você pensar que falava do fim da monarquia. Mas eu não me importei. Em 27 de junho o nervosismo do rei era mais evidente do que nunca. Enquanto mensagens de apoio para a Assembleia jorravam de Paris e de outras cidades francesas, os militares chegavam a Paris e Versalhes. Havia uma tensão palpável no ar. E também não me importei com isso. É claro que deveria ter me importado. Deveria ter tido a força de caráter para deixar meus problemas pessoais de lado. Mas a verdade era que eu não conseguia. Não conseguia porque meu pai estava morto e a tristeza tinha voltado à minha vida como uma forma escura e viva dentro de mim; que acorda comigo pela manhã, acompanha-me durante o dia, depois fica inquieta à noite, impedindo-me de dormir, alimentando meus remorsos e meus desgostos. Passei tantos anos sendo uma decepção para ele. A oportunidade de ser a filha que ele merecia foi arrancada violentamente de mim. E, sim, tenho consciência de que nossos lares em Versalhes e em Paris foram negligenciados, seus terrenos um reflexo do meu estado de espírito. Fico em Paris, mas as cartas de Olivier, nosso mordomo em Versalhes, chegam duas vezes por semana, cada vez mais preocupadas e estridentes, relatando detalhes sobre criadas e lacaios que vão embora e não são substituídos. Mas não me importo. Aqui, na propriedade de Paris, proibi a criadagem de entrar em meus aposentos e esgueiro-me pelos andares térreos à noite, sem desejar ver outra viva alma. Bandejas trazendo comida e correspondência são colocadas à minha porta, e às vezes ouço a criada cochichando com a dama de companhia, e posso imaginar o que dizem a meu respeito. Mas não me importo. Recebi cartas do Sr. Weatherall. Dentre outras coisas, ele quer saber se eu visitaria Arno na Bastilha, onde ele está preso, suspeito de assassinar meu pai, ou mesmo se estou tomando medidas para protestar por sua inocência. E eu deveria escrever e dizer ao Sr. Weatherall que a resposta é não, porque logo depois do assassinato de meu pai voltei a Versalhes, fui ao escritório dele e encontrei uma carta que havia sido colocada por baixo da porta. Uma carta dirigida a meu pai, que dizia: Grão-Mestre de la Serre, Soube por meus agentes que um indivíduo de nossa Ordem trama contra o senhor. Peço-lhe para fazer sua guarda na noite da iniciação. Não confie em ninguém. Nem mesmo naqueles que o senhor chama de amigos. Que o pai da compreensão o guie. L Escrevi a Arno. Uma carta na qual o acusava de ser responsável pela morte de meu pai. Uma carta na qual eu disse não querer vê-lo nunca mais. Mas não a enviei. Em vez disso, meus sentimentos por ele apodreciam. No lugar de um amigo de infância e, recentemente, amante, entrou um invasor, um órfão digno de pena que chegou e roubou o amor de meu pai, e depois ajudou a matá-lo. Arno está na Bastilha. Ótimo. Espero que apodreça por lá. 

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