Powered By Blogger

sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 46

5 de maio de 1789

Em um pátio do Hôtel des Menus-Plaisirs, em Versalhes, o rei se dirigia ao encontro de 1.614 homens dos Estados Gerais. Era a primeira vez que representantes dos três Estados —o Clero, a nobreza e o povo —se reuniam oficialmente desde 1614, e a imensa câmara abobadada estava lotada, fileira após fileira, de franceses esperançosos, na expectativa de que o rei dissesse algo —qualquer coisa —que ajudasse a tirar seu país do pântano em que aparentemente atolara. Algo que lhes apontasse a saída. Sentei-me ao lado de meu pai durante o discurso e nós dois vibramos positivamente com esperança antes do início, uma sensação que logo se dissipou quando nosso amado líder começou a falar de forma monótona —e assim continuou, sem parar —, sem dizer nada de importante, sem oferecer conforto ao oprimido Terceiro Estado, o povo. Do outro lado, sentados juntos, estavam os Corvos. Messieurs Lafrenière, Le Peletier e Sivert e Madame Levesque, todos ostentando carrancas que combinavam com o negrume de seus trajes. Ao me sentar, captei os olhares deles e fiz uma mesura breve e deferente, escondendo meus verdadeiros sentimentos por trás de um sorriso falso. Em troca, assentiram com sorrisos falsos também, e senti os olhares pousados em mim, avaliandome enquanto tomava meu lugar. Quando fingi inspecionar algo a meus pés, olhei-os disfarçadamente de sob minhas madeixas. Madame Levesque cochichava algo com Sivert. Recebeu um meneio de cabeça como resposta. Quando acabou o discurso enfadonho, os Estados começaram a trocar berros. Meu pai e eu saímos do Hôtel des Menus-Plaisirs, dispensamos nossas carruagens e fomos a pé pela avenue de Paris, daí tomamos uma senda que levava aos gramados dos fundos de nosso château na cidade. Conversamos amenidades enquanto caminhávamos. Ele me perguntou sobre meu último ano na Maison Royale, mas desviei a conversa para águas menos perigosas e repletas de mentiras, e assim, por um tempo, recordamo-nos de quando mamãe era viva e de quando Arno se juntou à casa. E então, assim que abandonamos as multidões e os campos abertos de um lado, e do outro, o palácio sempre nos observando, ele tocou no assunto: meu fracasso em trazer Arno para nós. —Quer dizer doutriná-lo —corrigi à menção da ideia. Meu pai suspirou. Estava com seu chapéu preferido, um preto de pele de castor que ele agora tirava, primeiro coçando a peruca, que o irritava, depois passando a mão na testa e olhando a palma como se esperando encontrá-la úmida de suor. — Preciso lembrar-lhe, Élise, de que há uma possibilidade muito real de os Assassinos alcançarem Arno primeiro? Você se esquece de que passei muito tempo com ele. Estou ciente de suas habilidades. Ele é... talentoso. É só uma questão de tempo até os Assassinos se darem conta disto também. —Papai, e se eu estiver a ponto de trazer Arno para a Ordem... Ele soltou uma gargalhada curta e sem humor. —Bem, sendo assim, já não era sem tempo. Continuei: — O senhor disse que ele é talentoso. E se Arno de alguma forma for capaz de combinar os dois Credos? E se ele for o único capaz disso? — Suas cartas — disse meu pai, assentindo pensativamente —, você falou sobre isso em suas cartas. —Pensei muito nesta questão. — Sei que pensou. Suas concepções, elas têm um idealismo juvenil, mas também demonstram certa... maturidade. Ofereci um agradecimento mental (isso sem falar no pedido de desculpas) a Haytham Kenway. — Talvez seja de seu interesse saber que marquei um encontro com o Grão-Mestre Assassino, o conde de Mirabeau. —continuou meu pai. —Marcou? Ele levou o dedo aos lábios. —Sim, marquei. — Porque deseja que nossas duas Ordens comecem a negociar? — perguntei, agora aos sussurros. — Porque creio que podemos ter alguns pontos em comum no que diz respeito ao futuro de nosso país. Talvez, querido diário, você esteja se perguntando se minha conversão à ideia da unidade Assassinos-Templários tem algo a ver com o fato de eu ser uma Templária e Arno, um Assassino. Não, esta é a resposta. Qualquer visão minha para o futuro seria para o bem de todos. Mas se isso significasse que Arno e eu pudéssemos ficar juntos, sem fingimentos nem mentiras entre nós, naturalmente eu a adotaria também, mas apenas como um efeito colateral agradável. Garanto-lhe. ii Mais tarde, no palácio, houve uma cerimônia —minha iniciação na Ordem. Meu pai vestia o traje cerimonial do Grão-Mestre: um manto longo e esvoaçante, forrado de arminho, com uma estola de seda no pescoço, colete abotoado e fivelas dos sapatos brilhando de tão polidas. Enquanto ele me dava o broche Templário da iniciação, eu encarava seus olhos sorridentes; ele estava tão bonito, tão orgulhoso. Eu não fazia ideia que seria a última vez que o veria vivo. Mas durante a iniciação não houve qualquer sinal de nossa discordância. Em vez de esgotamento, havia orgulho nos olhos de papai. É claro que outros estavam presentes também. Os pavorosos Corvos, assim como outros cavaleiros da Ordem, e todos tinham sorrisos débeis e ofereciam cumprimentos não sinceros, no entanto a cerimônia pertencia à família De la Serre. Senti o espírito de minha mãe vigiando-me enquanto enfim faziam de mim uma cavaleira Templária, e jurei defender o nome De la Serre. iii Mais tarde, na “soirée privativa” realizada em homenagem à minha iniciação, senti-me uma mulher transformada enquanto circulava pela festa. Sim, talvez achassem que eu não podia ouvi-los fofocando por trás de seus leques, dizendo uns aos outros que eu havia passado meus dias bebendo e jogando. Cochichavam sobre a compaixão que sentiam por meu pai. Faziam comentários pejorativos sobre minhas roupas. Mas as palavras deles eram uma gota no oceano. Minha mãe detestava aquelas mulheres da corte e me criou para não dar crédito a nada que dissessem. Suas lições me servem bem. Elas agora não podem me magoar. E então eu o vi. Vi Arno. iv Levei-o a uma dança animada, é claro, em parte pelos velhos tempos e especialmente para me recompor antes de encontrá-lo novamente. Ha ha. Parece que a presença de Arno na festa não estava oficialmente ratificada. Ou era isso, ou, fiel ao seu estilo, ele havia feito um inimigo. Conhecendo Arno, provavelmente um pouco das duas coisas. Na realidade, andei rapidamente pelos corredores, suspendendo minhas saias, costurando entre os convivas, mantendo-o bem atrás de mim, de modo que parecíamos estar em uma espécie de procissão. Naturalmente não seria bom para a filha recém-iniciada do Grão-Mestre Templário ser vista exibindo tal comportamento, até mesmo incentivando-o. (Vê, Sr. Weatherall? Vê, meu pai? Eu estava amadurecendo. Estava crescendo.) E assim resolvi encerrar a perseguição, entrei em uma sala lateral e aguardei que Arno aparecesse. Depois o arrastei para dentro e enfim coloquei-me de frente para ele. —Você parece ter causado um alvoroço e tanto —falei, absorvendo sua presença. —Oque posso dizer? Você sempre foi uma péssima influência... —Você era pior. —Eu lhe disse. E então nos beijamos. Não sei exatamente como aconteceu. Em um instante éramos amigos matando a saudade e no seguinte éramos amantes. Nosso beijo foi longo e apaixonado e, quando por fim nos separamos, olhamo-nos por alguns minutos. —Está usando um dos trajes de meu pai? —provoquei. — Você está de vestido? — retorquiu ele. Graças a isto, ele ganhou um tapinha brincalhão. —Nem comece. Sinto-me uma múmia embrulhada nessa coisa. —Deve ser uma grande ocasião para você estar tão elegante. —Ele sorriu. — Não é nada disso. A bem da verdade, é um monte de cerimônia e pompa. Tudo muito enfadonho. Arno sorriu. Ah, o velho Arno. A antiga diversão voltava à minha vida. Era como se ele fosse o sol após um dia de chuva —era como voltar para casa de uma longa viagem e enfim ver a porta da frente à distância. Nós nos beijamos de novo e nos abraçamos com força. —Bem, quando você não me convida para suas festas, todos sofrem —brincou ele. —Eu tentei, mas papai foi inflexível. —Seu pai? Do outro lado da porta vinha o som abafado da orquestra, o riso dos convivas andando de um lado a outro pelo corredor, passadas pesadas, correria, guardas ainda em busca de Arno. Depois, de repente, a porta estremeceu, alguém batia do outro lado e uma voz irritada chamou: —Quem está aí dentro? Arno e eu nos entreolhamos, sendo crianças mais uma vez — crianças flagradas roubando maçãs ou surrupiando tortas da cozinha. Se eu pudesse engarrafar este momento, eu o faria. Algo me diz que jamais voltarei a sentir uma felicidade como esta. v Empurrei Arno pela janela, peguei um cálice e abri a porta de rompante, fingindo uma expressão desequilibrada. —Ah, meu Deus. Esta não é a sala de bilhar, é? —falei alegremente. Os soldados se revelaram desconfortáveis ao me flagrarem ali. E deveriam sentir-se desse jeito mesmo. Afinal, aquela “soirée privativa” estava sendo dada em minha homenagem. —Estamos perseguindo um intrujão, Mademoiselle de la Serre. A senhora o viu? Lancei um olhar deliberadamente vago ao sujeito. — Esturjão? Não, não creio que eles saibam subir escadas, e como teriam saído do Zoológico Real? Os homens trocaram um olhar hesitante. — Não um esturjão, um intrujão. Uma pessoa suspeita. A senhora viu alguém com este perfil? A essa altura os guardas estavam ansiosos e tensos. Sentindo que sua presa estava próxima, ficaram irritados com minha estagnação. —Ah, lá está Madame de Polignac. —Baixei a voz a um sussurro. —Tem uma ave no cabelo dela. Creio que a roubou do Zoológico Real. Sem mais poder controlar a irritação, outro dos guardas avançou. — Por favor, dê um passo para o lado a fim de que possamos verificar esta sala, mademoiselle. Balancei-me como bêbada e talvez, assim eu esperava, levemente provocante. — Receio que só encontrará a mim. — Sorri radiante para ele, dando-lhe pleno benefício de meu sorriso, para não falar de meu decote. —Fiquei procurando pela sala de bilhar por quase uma hora. Os olhos do guarda vagaram. —Podemos lhe mostrar onde fica, mademoiselle —disse ele com uma mesura breve —e trancaremos esta porta para evitar quaisquer outros mal-entendidos. Enquanto os guardas me acompanhavam, eu tinha esperanças, primeiramente, de que Arno fosse conseguir pular para o pátio e, em segundo lugar, que algo acontecesse para distrair os guardas, evitando assim que me levassem pelo longo caminho até a sala de bilhar. Existe um ditado: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir. Consegui a distração que queria quando ouvi um grito: —Meu Deus, ele matou o Lorde de la Serre. E meu mundo inteiro mudou. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário