Powered By Blogger

sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 53

5 de outubro de 1789

Escrevi antes que a queda da Bastilha havia marcado o fim do governo do rei e, embora assim o tivesse feito em um sentido — naquele de questionar o poder dele, testá-lo, e prová-lo falho —, oficialmente pelo menos, se não na realidade, ele continuava no poder. À medida que as notícias da queda da Bastilha percorriam a França, o mesmo acontecia com um boato de que o exército do rei executaria uma terrível vingança sobre todos os revolucionários. Mensageiros chegavam a aldeias com a pavorosa notícia de que o exército estava tomando a área rural. Apontavam o pôr do sol e diziam que era um vilarejo em chamas ao longe. Os camponeses pegaram em armas para combater um exército que nunca chegou. Queimaram os escritórios de cobrança de impostos. Combateram a milícia local enviada para domar a perturbação da ordem. Em apoio, a Assembleia aprovou uma lei, uma “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, a fim de impedir que os nobres exigissem impostos, dízimo e trabalho dos camponeses. A lei foi redigida pelo marquês de Lafayette, que também havia ajudado a redigir a constituição americana, e tal declaração destruía o privilégio dos nobres e tornava todos os homens iguais perante a lei. Também fez da guilhotina o instrumento oficial da morte na França. ii Mas que destino dar ao rei? Oficialmente, ele ainda possuía poder de veto. Mirabeau, que quase tinha formado uma aliança com meu pai, argumentou que os protestos deviam cessar e que o rei ainda deveria governar, como antes. Neste objetivo, teria o apoio de meu pai caso ele estivesse vivo, e quando me perguntei se uma aliança entre Assassinos e Templários poderia ter mudado as coisas, vi-me certa de que sim, e percebi então ser esta a razão do assassinato de meu pai. Havia outros — sendo o principal deles o médico e cientista Jean-Paul Marat que, embora não fosse membro da Assembleia, tinha encontrado uma voz — afirmando que os poderes do rei deveriam ser inteiramente retirados; que ele devia ser solicitado a sair de Versalhes para Paris e ali continuar puramente em um papel de conselheiro. A visão de Marat era a mais radical. Para mim, isto era importante, porque nem uma vez ouvi alguém falar do rei sendo deposto do modo como entreouvira em minha infância. Vamos colocar de outra maneira. Os revolucionários mais passionais de Paris nunca propuseram nada tão radical como o que foi sugerido pelos conselheiros de meu pai em nossa propriedade em Versalhes, em 1778. E perceber isto provocou um arrepio em minha espinha conforme o dia do conselho Templário se aproximava. Os Corvos tinham sido convidados, naturalmente, embora eu me visse obrigada a parar de usar tal apelido para eles, afinal agora eu era a Grã-Mestre deles. O que eu devia dizer é que onze dos associados e conselheiros próximos de meu pai seriam solicitados a comparecer, bem como representantes de outras famílias de alta posição entre os Templários. Quando estivessem reunidos, eu lhes diria que agora eu estava no comando. Alertaria que a traição não seria tolerada e que se o assassino de meu pai viesse daquele grupo, ele (ou ela)seria exposto e punido. Era este o plano. E, em momentos íntimos, eu o imaginava se desenrolando desta forma. Imaginava a reunião ocorrendo em nosso château em Versalhes, exatamente como eu dissera ao Sr. Weatherall naquele dia na Maison Royale. No fim, porém, decidimos que era preferível um território mais neutro e escolhemos nos reunir no Hôtel de Lauzun, na Île Saint-Louis. Era de propriedade do marquês de Pimôdan, um cavaleiro da Ordem conhecido por sua empatia pelos De la Serre. Portanto, não era inteiramente neutro. Porém, era mais neutro pelo menos. OSr. Weatherall protestou, insistindo na necessidade de manter a discrição. Sou grata por isso, a julgar pelo modo como as coisas se desenvolveram. iii Algo aconteceu naquele dia. Ultimamente, parecia que algo acontecia todo dia, mas naquele em especial —ou, para ser exata, ontem e hoje —ocorreu algo mais grandioso do que o normal, um acontecimento que deu início a uma série de ações quando, apenas dias antes, o rei Luís e Maria Antonieta beberam vinho demais em uma festa em homenagem ao regimento de Flandres. Reza a história que o casal real, enquanto festejava, pisou cerimonialmente em um emblema revolucionário, ao passo que outros ali viravam o emblema para exibir seu verso, atitude considerada antirrevolucionária. Tão arrogante. Tão estúpido. Em suas atitudes, o rei e sua consorte lembravam-me da mulher nobre e de seu cavalariço no dia da queda da Bastilha, ainda agarrados ao antigo estilo. E é claro que os moderados, aqueles como Mirabeau e Lafayette, devem ter lançado as mãos para o céu de incredulidade e frustração com o descuido do monarca, porque a atitude do rei caiu como uma luva diretamente nas mãos dos radicais. O povo estava com fome e o rei dava um banquete. Pior ainda, ele pisoteara um símbolo da Revolução. Os líderes da Revolução apelaram por uma marcha em Versalhes e milhares deles, principalmente mulheres, fizeram a viagem de Paris até lá. Guardas que dispararam nos manifestantes foram decapitados e, como sempre, suas cabeças erguidas em estacas. Foi o marquês de Lafayette que convenceu o rei a falar à multidão, e sua apresentação foi acompanhada pela presença de Maria Antonieta, cuja coragem de enfrentar a turba pareceu neutralizar grande parte da fúria. Depois disso, rei e rainha foram levados de Versalhes a Paris. A viagem lhes consumiu nove horas e, uma vez em Paris, foram instalados no Palácio das Tulherias. O acontecimento pôs a cidade no mesmo tumulto vivido desde a queda da Bastilha, três meses antes, e as ruas foram tomadas de grupos armados e sans-culottes, homens, mulheres e crianças. Lotaram a Pont Marie enquanto Jean Burnel e eu fazíamos a travessia da mesma, tendo abandonado nossa carruagem e resolvido chegar ao Hôtel de Lauzun a pé. —Está nervosa, Élise? —perguntou ele, o rosto brilhando de empolgação e orgulho. —Devo lhe pedir que trate a mim como Grã-Mestre, por favor —disse-lhe. —Perdoe-me. —E não, não estou nervosa. Liderar a Ordem é meu direito inato. Aqueles membros da Ordem que comparecerem encontrarão em mim uma paixão renovada pela liderança. Posso ser jovem, posso ser mulher, mas pretendo ser a Grã-Mestre que a Ordem merece. Senti que ele se enchia de orgulho por mim e mordi o lábio, algo que fazia quando estava tensa, como naquele momento. Apesar do que eu dissera a Jean, que era por demais parecido com um cachorrinho obediente e amoroso, eu estava, como diria o Sr. Weatherall, “tremendo feito vara verde”. —Queria poder estar lá —dissera o Sr. Weatherall, embora tivéssemos concordado que era melhor que ele ficasse para trás. Sua preleção começou quando me apresentei para a inspeção. —Oque quer que faça, não espere milagres —dissera ele. —Se conseguir arrebanhar os conselheiros e, digamos, cinco ou seis outros integrantes da Ordem, já bastará para pender a Ordem a seu favor. E não se esqueça de que você a abandonou por muito tempo para simplesmente ir lá e exigir seu direito inato. De todo modo, use o choque pela morte de seu pai como motivo para sua morosidade, mas não espere que seja o remédio que vai curar todos os males. Você deve um pedido de desculpas à Ordem, então é melhor começar arrependida, e não se esqueça de que precisará defender seus argumentos. Será tratada com respeito, mas é jovem, é mulher e foi negligente. Apelos para levá-la a julgamento não seriam levados a sério, mas também não seriam ridicularizados. Eu o fitei de olhos arregalados. —“Levar a julgamento”? —Não. Eu não acabei de dizer que não seriam levados a sério? —Sim, mas depois você disse que... —Sei o que eu disse depois disso —falou ele com impaciência. —E você precisa se lembrar de que deixou a Ordem sem uma liderança firme durante vários meses... Durante uma época de revolução, ainda por cima. Sendo ou não De la Serre. Com direito inato ou não. Este fato não cairá bem. Só resta a você ter esperanças. Eu estava pronta para partir. —Muito bem, está tudo esclarecido para você? —disse ele, apoiando-se nas muletas para retirar uma felpa do ombro de meu casaco. Verifiquei minha espada e a pistola, joguei uma sobrecasaca por cima, escondendo as armas e a vestimenta de Templária, em seguida puxei o cabelo para trás e coloquei um tricorne. — Creio que sim — sorri juntamente a um suspiro fundo e tenso —, preciso ficar pesarosa, sem excesso de confiança, grata a quem demonstrar apoio. —Interrompi-me. — Quantos confirmaram presença? —Ojovem Burnel recebeu doze “afirmativas”, inclusive de nossos amigos, os Corvos. É a primeira vez que se tem notícia de um Grão-Mestre convocando uma reunião desta maneira, sendo assim você pode confiar na presença de alguns ali apenas por curiosidade, mas isto pode funcionar a seu favor. Fiquei na ponta dos pés para lhe dar um beijo e me embrenhei noite afora, correndo para onde a carruagem me aguardava, com Jean no assento do condutor. OSr. Weatherall tinha razão a respeito de Jean. Sim, sem dúvida nenhuma ele era um apaixonado, mas também era leal e tinha trabalhado incansavelmente para angariar apoio para a reunião. Seu objetivo, é claro, era conquistar minhas boas graças, tornar-se um de meus conselheiros, mas ele não era o único. Pensei nos Corvos e lembrei-me de seus sorrisos e cochichos quando voltei de minha iniciação; da desconfiança que agora girava em torno deles; da presença do tal Rei dos Mendigos. —Élise... —chamou o Sr. Weatherall da porta. Virei-me. Com impaciência, ele gesticulou para que eu retornasse e eu disse a Jean para esperar, correndo de volta. —Sim? Ele estava sério. —Olhe para mim, criança, olhe nestes olhos e lembre-se de que você é digna disto. Você é a melhor guerreira que já treinei. Tem os miolos e o encanto de sua mãe e de seu pai combinados. Tem capacidade para isso. É capaz de liderar a Ordem. Por aquilo, ele ganhou mais um beijo, então saí correndo outra vez. Olhando para a casa, dei um último aceno e vi Hélène e Jacques na janela; já à porta da carruagem, virei-me, tirei o chapéu e fiz uma mesura teatral. Eu me sentia bem. Tensa, mas bem. Já era hora de acertar as coisas. iv E agora Jean Burnel e eu atravessávamos a Pont Marie, a qual estava sombria porém iluminada pelas tochas da multidão, e chegávamos à Île Saint-Louis. Pensei na casa de minha família, deserta e abandonada ali perto, mas tratei de afastar o assunto da cabeça. Enquanto andávamos, Jean permanecia ao meu lado, a mão por baixo do casaco, pronta para sacar a espada caso fôssemos interpelados. Enquanto isso, eu fitava ao redor, esperançosa, desejando ver outros cavaleiros da Ordem em meio à turba, rumo ao Lauzun. Parece estranho contar agora —e quero dizer estranho no sentido de irônico —, mas ao nos aproximarmos do local parte de mim se atrevia a ter esperanças de uma grandiosa transformação — uma exibição imensa e histórica de apoio ao nome De la Serre. E embora agora pareça fantasioso ter pensado nisto, em especial por saber a perspectiva histórica, ao mesmo tempo, bem... Por que não? Meu pai era um líder amado. Os De la Serre, uma dinastia familiar respeitada. Talvez uma Ordem carente de liderança se voltasse para mim, honrando o legado do nome de meu pai. Como em quase toda parte na ilha, a rua diante do Lauzun estava movimentada. Havia um portão de madeira com uma portinhola engastado em um muro alto e tomado de hera que cercava o pátio. Olhei a rua de um lado a outro, vendo dezenas e dezenas de pessoas chegando, mas nenhuma se vestia como nós. Jean olhou para mim. Esteve calado desde que eu o repreendera e agora eu me sentia mal por isso, em particular quando notei a tensão dele e entendi que era por minha causa. —Está pronta, Grã-Mestre? —disse ele. —Estou, obrigada, Jean —respondi. —Então, por favor, permita-me bater. O portão foi aberto por um criado elegantemente trajado com colete e luvas brancas. Ao vê-lo, com sua faixa cerimonial bordada à cintura, animei-me. Eu estava no lugar certo, pelo menos, e eles estavam prontos para me receber. Baixando a cabeça, ele deu um passo de lado para permitir nossa entrada no pátio. Ali, olhei em volta, notando janelas e varandas cobertas por tábuas em torno de um espaço central abandonado, tomado de folhas secas, vasos de plantas revirados e várias caixas quebradas. Em outros tempos poderia muito bem haver uma fonte tilintando delicadamente ali naquele mesmo lugar, e o som de aves noturnas proporcionaria um fim tranquilo a mais um dia civilizado no Hôtel de Lauzun. Porém não mais. Agora só estávamos Jean e eu, o criado e o marquês de Pimôdan, que estivera parado de lado, trajado em seu manto, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Ele se aproximou para nos cumprimentar. —Pimôdan —falei calorosamente. Abraçamo-nos. Beijei o rosto dele e, ainda estimulada pela visão de nosso anfitrião e seu criado em suas vestimentas templárias, permiti-me acreditar que meu nervosismo antes da reunião era por nada. Que tudo correria bem, e que mesmo aquele silêncio aparente não passava de um costume da Ordem. Mas daí, quando Pimôdan disse “É uma honra, Grã-Mestre”, as palavras me soaram vazias e ele se afastou rapidamente para nos guiar pelo pátio, e meu nervosismo anterior à reunião voltou dez vezes maior. Olhei para Jean, que fez uma careta, tenso com a situação. —Os outros estão reunidos, Pimôdan? —perguntei enquanto passávamos por portas duplas que levavam ao prédio principal. Ocriado as abriu e nos conduziu para dentro. — A sala está preparada para a senhora, Grã-Mestre — respondeu Pimôdan evasivamente quando atravessamos a soleira e adentramos em uma sala de jantar sombria, com janelas tapadas por tábuas e lençóis cobrindo a mobília. O criado fechou as portas duplas e esperou ali, permitindo que Pimôdan nos levasse a uma outra porta grossa e quase decorativa na parede oposta. —Sim, mas quais membros estão presentes? —perguntei. As palavras saíram roucas. Minha garganta estava seca. Ele nada respondeu, então agarrou uma argola de ferro imensa na porta e a girou. O estrondo metálico soou como um tiro de pistola na sala. —Monsieur Pimôdan... —insisti. A porta se abriu para uma escada descendente feita de pedra, o caminho iluminado por archotes bruxuleantes embutidos nas paredes. A chama alaranjada dançava de encontro à pedra áspera. —Venha —disse Pimôdan, ainda me ignorando. Segurava alguma coisa, percebi. Um crucifixo. E já bastava. Eu estava farta. —Pare —ordenei. Pimôdan deu outro passo como se não tivesse me ouvido, então joguei minha sobrecasaca para trás, saquei a espada e encostei a ponta em sua nuca. Aquilo o deteve. Atrás de mim, Jean Burnel sacou a espada. —Quem está aí embaixo, Pimôdan? —exigi saber. —Amigo ou inimigo? Silêncio. —Não queira me testar, Pimôdan —rosnei, cutucando-lhe o pescoço —, se eu estiver enganada, pedirei minhas mais humildes desculpas, mas até este momento tenho a sensação de que há algo muito errado aqui e quero saber o porquê. Os ombros de Pimôdan se ergueram quando ele suspirou, como alguém prestes a se livrar do fardo de um enorme segredo. —É porque não há ninguém aqui, mademoiselle. Gelei e comecei a ouvir um zumbido estranho em meus ouvidos enquanto me esforçava para compreender. —Oquê? Ninguém? —Ninguém. Virei-me um pouco para Jean Burnel, que nos encarava, incapaz de acreditar nos próprios ouvidos. — E o marquês de Kilmister? — questionei —, Jean-Jacques Calvert e seu pai? O marquês de Simonon? Pimôdan afastou o pescoço de minha lâmina para menear a cabeça lentamente. —Pimôdan? —insisti, cutucando-lhe as costas. —Onde estão meus partidários? Ele abriu as mãos. — Só o que sei é que houve um ataque de sans-culottes ao château dos Calvert esta manhã —disse ele. —Jean-Jacques e o pai pereceram em um incêndio. Dos outros, nada sei. Meu sangue gelou. Então falei a Burnel: — Um expurgo. Isto é um expurgo. — E então a Pimôdan: — E lá embaixo? Meus assassinos esperam por mim lá embaixo? Agora ele se virava um pouco na escadaria. —Não, mademoiselle —disse —, não há nada lá embaixo, exceto alguns documentos que precisam de sua atenção. Mas assim que disse aquilo, ele fez que sim com a cabeça, encarando-me diretamente com olhos arregalados e medrosos. E aquilo foi uma migalha de conforto, suponho, que um último vestígio de lealdade ainda restasse naquele homem acovardado; o qual pelo menos não me permitiria descer e adentrar no covil de meus assassinos. Girei o corpo, empurrei Jean Burnel escada acima, depois bati a porta e puxei o ferrolho. O criado permaneceu junto às portas duplas na sala de jantar, ostentando uma expressão perplexa diante da guinada súbita nos acontecimentos. Enquanto Jean e eu atravessávamos o cômodo às pressas, saquei a pistola e apontei para o criado, desejando poder arrancar a expressão presunçosa dele à bala, mas conformando-me apenas em gesticular para que ele abrisse as portas. Ele obedeceu e saímos do hotel, chegando ao pátio escuro. As portas se fecharam às nossas costas. Pode chamar de sexto sentido se assim o desejar, mas eu soube de imediato que havia algo errado, e no instante seguinte senti algo em volta de meu pescoço. Eu sabia exatamente o que era. Eram ligaduras de categute, jogadas com precisão de uma sacada. No meu caso, não uma precisão perfeita: apanhou a gola de meu casaco, o nó não se apertou muito bem, dando-me preciosos segundos para reagir, ao passo que, ao meu lado, o Assassino de Jean Burnel conseguira um lançamento impecável e em um segundo a ligadura cortava a carne de seu pescoço. Em pânico, Burnel deixou a espada cair. As mãos lidavam com o nó que lhe apertava o pescoço e um bufar lhe escapou das narinas, o rosto escurecendo e os olhos se esbugalhando à medida que ele era erguido pelo pescoço, o corpo se esticando e as pontas das botas procurando o chão. Balancei-me para alcançar a ligadura de Burnel com minha espada, mas meu atacante me puxou fortemente para o lado e fui afastada dele, impotente, vendo sua língua se projetar, os globos oculares parecendo inchar de maneira impossível enquanto ele era içado ainda mais alto. Puxando minha própria ligadura, olhei para cima e vi sombras escuras na varanda, operando-nos como duas marionetes. Mas tive sorte —sortuda, Élise sortuda —, porque embora o ar tivesse sido arrancado de mim, minha gola ainda estava calçada, e isto me deu presença de espírito suficiente para girar novamente com minha espada, só que desta vez não na ligadura de Jean Burnel —pois ele agora estava fora de alcance, esperneando nos estertores da morte —, mas na minha ligadura. Cortei-a e caí machucada no chão, de quatro, ofegante, mas consegui rolar e pousar de costas ao mesmo tempo, pegando a pistola e puxando o cão, apontando com as mãos para a varanda e disparando. O tiro ecoou pelo pátio e teve efeito imediato, o corpo de Jean Burnel caindo no chão como um saco enquanto sua ligadura era afrouxada, seu rosto em um expressão mortuária horrenda e as duas figuras na varanda desaparecendo de vista, o ataque encerrado —por enquanto. De dentro do prédio, ouvi gritos e barulho de correria. Pelo vidro das portas duplas juro ter podido ver o criado, parado bem nas sombras, observando-me enquanto eu me levantava com esforço, perguntando-me quantos indivíduos estariam ali, contando os dois assassinos da varanda e talvez mais dois ou três do porão. À minha esquerda, outra porta se abriu de rompante e dois brutamontes com roupas de sans-culottes entraram. Ah. Então há outros dois também em algum lugar na casa. Ouvi um tiro e uma bala de pistola cortou o ar ao lado de minha cabeça. Não havia tempo para recarregar minha arma. Não havia tempo para nada senão correr. Sendo assim, corri para onde havia um banco embutido em um muro lateral, sombreado por uma imensa árvore do pátio. Pulei, cheguei ao banco e, com o pé de apoio, me impeli para cima, encontrando um galho baixo e caindo de qualquer maneira no tronco. Atrás de mim, veio um grito e um segundo disparo, e me abracei ao tronco da árvore quando a bala cravou na madeira entre dois de meus dedos abertos. Sortuda, Élise, muito sortuda. Comecei a subir. Mãos tentavam agarrar minha bota, mas chutei, subindo às cegas, na esperança de chegar ao alto do muro. Alcancei-o e atravessei da árvore para o topo do muro. Mas, quando olhei para baixo, vi os rostos sorridentes dos dois homens que tinham usado o portão e que agora esperavam por mim. Ambos exibiam um imenso sorriso que dizia “te peguei”. Eles pensavam estar abaixo de mim, que havia outros homens se aproximando por trás e que eu estava em uma armadilha. Achavam que era o fim da linha. Então fiz o que menos se esperava. Pulei em cima deles. Não sou grande, mas calçava botas pesadas e portava uma espada, além disso, eu tinha o elemento surpresa a meu favor. Lancetei um dos homens ao pousar, empalando-o pela cara e depois, sem retirar a espada, dei um giro e meti um chute alto no pescoço do segundo homem. Ele caiu de joelhos, as mãos no pescoço, já arroxeado. Retirei a espada da cara do primeiro homem —e a enterrei em seu peito. Ouvi mais gritos de trás. Acima de minha cabeça, surgiram rostos no alto do muro. Fugi, abrindo caminho pela multidão nas ruas. Atrás de mim, dois perseguidores fizeram o mesmo, e fui mais incisiva, ignorando os xingamentos das pessoas que eu empurrava, avançando simplesmente. Na ponte, fiquei junto à mureta baixa. E então ouvi o grito: —Uma traidora. Uma traidora da Revolução. Não deixem que a ruiva escape. Tinha vindo de um de meus perseguidores. —Peguem-na! Peguem a meretriz ruiva. Outro: —Uma traidora da Revolução! —Ela cuspiu na tricolore. Levou mais ou menos um minuto para que a mensagem se espalhasse pela turba, mas aos poucos eu via cabeças se virando para mim, as pessoas percebendo pela primeira vez minhas roupas mais refinadas, o olhar delas deslocando-se incisivamente para meu cabelo. Meu cabelo ruivo. —Você —disse o homem —, é você —e depois berrou: —Nós a pegamos! Pegamos a traidora! Abaixo de mim, uma barcaça arrastava-se pelo rio, logo abaixo da ponte, as cargas cobertas com sacos sobre a proa. Eu não sabia o que havia ali, então só me restava rezar para que fosse algo “macio” e capaz de amortecer a queda de quem saltasse de uma ponte. No fim, não fez diferença se eram macios ou não. Justamente quando eu pulei, o cidadão enfurecido me agarrou e meu salto se transformou em um movimento evasivo que me tirou do curso. Debatendo-me, atingi a barcaça, mas do lado errado, por fora, batendo no casco com uma força que me tirou o fôlego. Vagamente, percebi que o estalo que ouvi era de minhas costelas se quebrando enquanto eu mergulhava nas águas negras do rio Sena. v Consegui voltar, naturalmente. Depois de chegar à margem, saí do rio e usei a confusão da jornada do rei a Paris para “aliviar” um cavalo, tomei a estrada cheia de destroços na direção contrária à da turba, saí de Paris e fui para Versalhes. Enquanto cavalgava, eu tentava me manter o mais imóvel possível, atenta às minhas costelas quebradas. Minhas roupas estavam ensopadas e os dentes trincavam quando desci da sela ao chegar à entrada do chalé do jardineiro, mas, no péssimo estado em que me encontrava, só conseguia pensar que eu o havia decepcionado. Tinha decepcionado meu pai. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário