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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 31

Trechos do diário de Élise de la Serre

8 de setembro de 1787

Hoje, meu pai veio me ver. Fui chamada à sala de Madame Levene para uma audiência com ele e estava ansiosa para encontrá-lo, mas naturalmente a diretora bruxa velha permaneceu na sala com seu falatório, pois estas eram as regras de Le Palais de laMisère, e assim a visita foi conduzida como uma audiência. Com a janela atrás dela oferecendo uma vista abrangente do jardim da escola que, até eu tinha de admitir, era deslumbrante, Madame Levene ficou sentada à mesa, com as mãos entrelaçadas diante de si, observando com um sorriso sutil enquanto meu pai e eu estávamos sentados em cadeiras do outro lado da mesa, o pai constrangido e a filha criadora de problemas. — Era minha esperança que o caminho para concluir sua educação fosse um meio galope gracioso e não claudicante, Élise —disse ele com um suspiro. Parecia velho e cansado e conseguia imaginar os Corvos tagarelando junto aos ombros dele, atormentando-o constantemente: faça isso, faça aquilo, ao mesmo tempo que, para aumentar sua infelicidade, a filha errante era o tema de cartas iradas para casa, Madame Levene detalhando longamente meus defeitos. —Para a França, a vida ainda é difícil, Élise —explicou ele. —Dois anos atrás, houve uma seca e a pior colheita de que se tem lembrança. O rei autorizou a construção de um muro em volta de Paris. Tentou aumentar os impostos, mas o parlement de Paris apoiou os nobres que o contestaram. Nosso rei robusto e resoluto entrou em pânico, suspendeu os impostos e houve manifestações de comemoração. Soldados ordenados a disparar nos manifestantes recusaram-se a fazê-lo... —Os nobres desafiaram o rei? —questionei, com uma sobrancelha arqueada. Ele assentiu. — Exato. Quem teria pensado nisso? Talvez tenham esperança de que o homem do povo venha a ficar agradecido, dê seu voto de gratidão e volte para casa. —Não acredita nisso? —Temo que não, Élise. Temo que depois que o trabalhador tomar as rédeas, depois de sentir o gosto do poder... o poder potencial da turba... não se contentará meramente com a suspensão de algumas novas leis fiscais. Creio que podemos encontrar uma vida inteira de frustração vertendo dessas pessoas, Élise. Quando atiraram fogos de artifício e pedras no Palais de Justice, não creio que estivessem apoiando a nobreza. E quando queimaram efígies do visconde de Calonne, não creio que estivessem apoiando a nobreza. —Eles queimaram efígies? Do controlador-geral das Finanças? Meu pai concordou com a cabeça. —De fato o fizeram. Ele foi obrigado a deixar o país. Outros ministros o seguiram. Haverá agitação, Élise, guarde minhas palavras. Eu não disse nada. — O que nos traz à questão de seu comportamento aqui na escola — disse ele. — Você agora é veterana. Uma dama. E deve se comportar como tal. Pensei nisso e em como usar o uniforme das veteranas da Maison Royale não fazia com que eu me sentisse uma mulher. Só servia para fazer eu me sentir uma falsa dama. Só conseguia me sentir uma mulher de verdade depois do horário letivo, quando descartava o detestado vestido duro, soltava meu cabelo e deixava que caísse, encontrando meu busto recém-adquirido. Quando olhava no espelho e enxergava minha mãe olhando para mim. —Você está escrevendo a Arno —disse ele, como se experimentando uma abordagem diferente. —Não anda lendo minhas cartas, anda? Ele revirou os olhos. —Não, Élise, não estou lendo suas cartas. Pelo amor de Deus, o que pensa de mim? Meus olhos baixaram. —Desculpe, meu pai. —Tão ocupada se rebelando contra qualquer autoridade disponível que se esqueceu dos verdadeiros amigos, é assim? À mesa, Madame Levene assentia sensatamente, sentindo-se justificada. —Peço desculpas, meu pai —repeti, ignorando-a. —Ainda temos o fato de que você esteve escrevendo a Arno e... com base puramente no que ele me falou... você nada tem feito para cumprir os termos de nosso acordo. Ele lançou um olhar sugestivo à diretora, as sobrancelhas ligeiramente erguidas. —Que acordo seria este, meu pai? —perguntei com inocência, com o diabo em mim. Com mais um breve gesto de cabeça para nossa plateia, ele acrescentou sugestivamente: —Oacordo que fizemos antes de você partir para Saint-Cyr, Élise, quando me garantiu que faria o máximo para convencer Arno da conveniência de sua adoção por nossa família. —Peço desculpas, pai, ainda não entendo bem o que quer dizer. Seu cenho ficou mais sério. Depois, respirando fundo, ele se virou para a diretora: —Seria possível, madame, eu falar a sós com minha filha? — Infelizmente isto contraria a política da academia, monsieur. — Ela sorriu com doçura. —Os pais ou guardiões que precisem ver as alunas em particular devem fornecer uma solicitação por escrito. —Eu sei, mas... —Lamento, monsieur —insistiu ela. Ele tamborilou os dedos na perna de seus calções. —Élise, por favor, não crie dificuldades. Sabe exatamente o que quero dizer. Antes de você vir para a escola, concordamos que era hora de adotar Arno em nossa família. —Ele me lançou um olhar sugestivo. —Mas ele é membro de outra família —contestei, fazendo-me de sonsa. —Não faça joguinhos comigo, Élise, por favor. Madame Levene pigarreou. —Estamos bem acostumados a isso na Maison Royale, monsieur. —Obrigado, Madame Levene —disse meu pai com irritação. Mas quando voltou sua atenção a mim, nossos olhos se encontraram e parte do gelo entre nós evaporou diante da presença indesejada de Madame Levene, os cantos da boca de papai chegaram a se retorcer enquanto reprimia um sorriso. Em resposta, dei-lhe minha expressão mais inocente e beatífica. Seus olhos ficaram afetuosos naquele momento que partilhamos. Ele estava mais controlado quando falou: — Élise, estou certo de que não preciso lembrá-la dos termos de nosso acordo. Simplesmente digo que se você continuar a infringi-los, terei de cuidar da questão eu mesmo. Ambos demos uma espiada em Madame Levene, sentada à mesa, com as mãos entrelaçadas, tentando ao máximo não parecer confusa, mas fracassando tremendamente. Foi o momento em que mais me aproximei de simplesmente explodir em uma gargalhada. —Quer dizer que tentará convencê-lo de sua conveniência, meu pai? Ele ficou sério, prendendo-me em seu olhar. —Tentarei. —Embora, ao assim proceder, o senhor me faça perder a confiança de Arno? —É um risco que eu teria de assumir, Élise —respondeu meu pai. —A não ser que você faça o que concordou em fazer. E o que eu concordei em fazer era doutrinar Arno. Trazê-lo para o redil. Meu coração ficou apertado com a ideia — a ideia de que eu, de algum modo, pudesse perder Arno. Entretanto, era isto ou meu pai o faria. Imaginei Arno, furioso, confrontando-me em algum momento inespecífico do futuro —Por que você nuncame contou?—e não suportei tal pensamento. —Farei o que foi combinado, meu pai. —Obrigado. Voltamos nossa atenção a Madame Levene, que exibia uma carranca para papai. — E trate de melhorar seu comportamento — acrescentou ele rapidamente, antes de bater a mão nas coxas, que eu, por anos de experiência, sabia que significava o fim de nossa reunião. A cara feia da diretora ficou mais intensa porque, em vez de me repreender ainda mais, meu pai se levantou e me pegou nos braços, quase me surpreendendo com a força de sua emoção. Naquele momento resolvi que, por ele, eu melhoraria. Iria agir corretamente só por ele. Ser a filha que ele merecia. 

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