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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 60

Trechos do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794

Eu sabia o que aconteceria em seguida, embora não estivesse relatado no diário de Élise. Avancei pelas páginas, mas não; em vez disso, faltavam folhas, rasgadas em algum momento posterior, talvez durante uma crise de... de quê? Arrependimento? Raiva? Outra coisa? No momento em que eu lhe disse a verdade, ela rasgou as páginas de seu diário. Eu sabia que seria difícil, é claro, porque eu conhecia Élise tão bem quanto a mim mesmo. De muitas formas, ela era meu espelho, e eu sabia como me sentiria se estivesse no lugar dela. Você não pode me culpar por insistir em procrastinar e depois aguardar até uma noite de jantar farto acompanhado por uma garrafa de vinho consumida quase inteiramente. —Sei quem matou seu pai —revelei a ela. —Sabe? Como? —As visões. Olhei-a de soslaio para ver se estava me levando a sério. Como antes, ela parecia se divertir, nem bem acreditando nem incrédula. —E o nome que apareceu nela é o Rei dos Mendigos? —disse ela. Olhei-a, percebendo que vinha realizando as próprias investigações. É claro. —Então você estava falando seriamente quando disse que o vingaria —falei. —Se um dia pensou o contrário, não me conhece tão bem quanto acredita. Assenti pensativamente. —E o que você descobriu? —Que o Rei dos Mendigos estava por trás do atentado a minha mãe em 1775; que o Rei dos Mendigos foi iniciado na Ordem depois da morte de minha família; e tudo isso me faz pensar que ele foi iniciado como uma forma de recompensa pela morte de meu pai. —E sabe por quê? — Foi um golpe, Arno. O homem que se declarou Grão-Mestre tramou a morte de meu pai porque desejava assumir sua posição. Sem dúvida ele usou as tentativas de trégua com os Assassinos feitas for meu pai como alavanca. Talvez fosse a peça que faltava no quebra-cabeça. Talvez finalmente tenha pendido a balança a favor dele. Sem dúvida o Rei dos Mendigos agia segundo as ordens dele. —Não só o Rei dos Mendigos. Havia outra pessoa ali. Ela assentiu com um sorriso estranho e satisfeito. — Isso me deixa feliz, Arno. O fato de terem sido necessários dois para matar meu pai. Espero que ele tenha lutado como um tigre. —Um homem chamado Sivert. Ela fechou os olhos. —Faz sentido —falou depois de algum tempo. —Sem dúvida todos estão envolvidos nisso, os Corvos. —Quem? —Naturalmente eu não fazia ideia do que ela queria dizer. —É assim que chamo os conselheiros de meu pai. —Este Sivert... era um dos conselheiros de seu pai? —Ah, sim. —François arrancou o olho dele antes de morrer. Ela riu. —Muito bem, papai. —Agora Sivert está morto. Uma sombra atravessou o rosto de Élise. —Entendo. Eu tinha esperanças de que o feito pudesse ser meu. —ORei dos Mendigos também —acrescentei, engolindo em seco. Agora ela me encarava. —Arno, o que está dizendo? Estendi-lhe a mão. — Eu o amava, Élise, como se ele fosse meu pai. — Mas ela começou a se afastar, levantando-se e cruzando os braços. Seu rosto se tingia de vermelho. —Você os matou? —Sim... e não peço desculpas por isso, Élise. Mais uma vez estendi-lhe a mão e de novo ela se afastou, entorpecida, descruzando os braços para me evitar ao mesmo tempo. Por um segundo —só por um segundo —pensei que Élise pegaria a espada, mas pareceu ter pensado melhor, recuperando o autocontrole. —Você os matou. — Tive de matar — justifiquei, sem entrar em detalhes, embora ela não estivesse interessada no motivo, perambulando pelo cômodo como se não soubesse o que fazer. —Você tirou a minha vingança. —Eles eram meros lacaios, Élise. Overdadeiro culpado está lá fora. Furiosa, ela me atacou. —Diga-me que os fez sofrer —cuspiu. —Por favor, Élise, esta não é você. —Arno, eu fiquei órfã, fui machucada, enganada e traída... E terei minha vingança a qualquer custo. Os ombros de Élise subiam e desciam. Seu rubor era intenso. —Bem, não, eles não sofreram. Este não é o estilo Assassino. Não temos prazer em matar. — Ah, não? Mesmo? Então agora que é um Assassino sente-se qualificado para me dar aulas de ética, não? Bem, não se engane, Arno, eu não tenho prazer em matar. O que me dá prazer é a justiça. —E foi o que fiz. Levei a justiça àqueles homens. Tive uma chance. Aproveitei. Aquilo pareceu acalmá-la, e Élise assentiu pensativamente. —Mas deixe Germain para mim —disse ela, e não foi um pedido, foi uma ordem. —Não posso prometer, Élise. Se eu tiver a oportunidade, então... Ela me olhou com um meio sorriso. —Então você terá de responder a mim —rebateu ela. ii Depois daquilo passamos algum tempo sem nos ver, embora tivéssemos trocado cartas, e quando enfim tive alguma informação para dar a ela, pude tentá-la a se afastar da Île de Saint-Louis. Fomos em busca de Madame Levesque, que caiu sob minha lâmina. Foi uma aventura que continuou com um passeio inesperado e não programado no balão de ar quente dos Messieurs Montgolfier, mas o cavalheirismo me impede de revelar o que aconteceu durante o voo. Basta dizer que, à conclusão de nossa jornada, Élise e eu estávamos mais íntimos do que nunca. Mas não o bastante para eu perceber o que acontecia com ela; que, para Élise, a morte dos conselheiros do pai era apenas um fator secundário. Que o que a preocupava, talvez até a consumisse, era chegar a Germain.



Trechos do diário de Élise de la Serre


20 de janeiro de 1793

Na rua, em Versalhes, havia uma carroça que logo reconheci. Atrelada a ela, um cavalo que eu também conhecia. Desmontei, amarrei Scratch na carroça, afrouxei sua cela, dei-lhe água, esfreguei a cabeça na dele. Não tive pressa para deixar Scratch confortável, em parte porque eu o amava e ele merecia toda a atenção que eu lhe dava e mais, e em parte porque eu estava procrastinando, querendo adiar o momento em que enfrentaria o inevitável. O muro externo dava sinais de abandono. Perguntei quem de nossa criadagem era responsável por aquela parte quando todos morávamos ali. Provavelmente os jardineiros. Sem eles, os muros ficaram grossos de musgo e trepadeiras, as gavinhas subindo ao topo como veias na pedra. Instalado no muro, havia um portão em arco que eu conhecia bem, embora agora me parecesse esquisito. À mercê dos elementos, a madeira começara a mosquear e a desbotar. Onde antigamente o portão tinha uma aparência grandiosa, agora parecia apenas triste. Abri o portão e entrei no pátio do lar de minha infância. Tendo testemunhado a devastação no château de Paris, supus que eu estaria pelo menos mentalmente preparada para o momento. Todavia, me flagrei reprimindo o choro ao ver os canteiros de flores tomados de mato espigado, os bancos cobertos de vegetação. Sentado em um degrau, perto de postigos caídos, estava Jacques, que se iluminou ao me ver. Jacques raras vezes falava; o máximo de animação que já flagrei nele foi durante uma conversa sussurrada com Hélène, e ele não precisou dizer um palavra sequer agora. Apenas apontou para trás, para a casa. Dentro dela, havia tábuas cobrindo as janelas, a mobília quase toda virada, a mesma história triste que vinha presenciando com tanta frequência ultimamente, só que desta vez era ainda mais triste porque era o lar de minha infância, e cada vaso quebrado e cadeira espatifada me trazia uma recordação. Ao entrar em meu lar destruído, ouvi nosso antigo relógio de pêndulo, um som tão familiar e recendente de minha infância que me atingiu com a força de um tapa e, por um segundo, fiquei parada no hall vazio, onde minhas botas pisavam no chão antes polido até brilhar muito, e reprimi o choro. Um choro de pesar e nostalgia. Talvez até um pouco de culpa. ii Fui para o terraço e fiquei observando os gramados ondulantes, antes bem-cuidados, agora crescidos demais e revoltos. A cerca de duzentos metros estava o Sr. Weatherall, sentado no declive, as muletas jogadas de cada lado. —Oque está fazendo? —perguntei, juntando-me a ele. Ele deu um leve sobressalto quando pousei ao seu lado, mas recuperou a compostura e me olhou longamente, avaliando-me. — Eu ia descer ao lago sul, onde costumávamos treinar. O problema é que quando me imaginei indo e retornando, também imaginei o gramado como era antigamente, e aí, quando cheguei e o encontrei assim, de repente não ficou mais tão fácil. —Bem, este é um bom local. —Depende da companhia —disse ele com um sorriso cínico. Houve uma pausa. —Chegando furtivamente desse jeito... —disse ele. —Perdoe-me. —Eu sabia que você faria isso, sabe? Não conheço você desde que era uma alpinista de formigueiro para não ter aprendido algo sobre certa expressão em seus olhos. Bem, pelo menos está viva. Oque andou fazendo? —Fui dar um passeio de balão de ar quente com Arno. —Ah, sim? E como foi? Ele me viu corar. —Foi muito bom, obrigada. —Então você e ele... —Eu diria que sim. —Bem, nesse caso, é alguma coisa. Não consigo vê-la sofrendo por amor. E... —ele abriu as mãos —... todo o resto? Soube de alguma coisa? — Bastante. Muitos que tramaram contra meu pai já responderam por seus crimes. Além disso, agora conheço a identidade do homem que encomendou a morte dele; o novo Grão-Mestre. —Diga-me, por favor. — O novo Grão-Mestre, o arquiteto da tomada de poder, é François Thomas Germain. OSr. Weatherall sibilou. —É claro. —Você disse que ele foi expulso da Ordem... —E foi. Nosso amigo Germain era um adepto de Jacques de Molay, o primeiro GrãoMestre absoluto. Molay morreu gritando na fogueira em 1314, rogando pragas a todos que estavam por perto. Mestre de Molay era o tipo de sujeito indecifrável, mas este era um assunto um tanto obscuro na época, porque demonstrar apoio às ideias dele era heresia. “E Germain... Germain era um herege. Era um herege que possuía a confiança do Grão-Mestre. Para dar um fim à contenda, ele foi expulso. Seu pai pediu que Germain voltasse a entrar na linha e seu coração sofreu ao expulsá-lo, mas... —Ele foi banido? — Foi, e a Ordem informou que qualquer homem que se colocasse ao lado dele também seria exilado. Logo depois disso sua morte foi anunciada, mas na época ele já era só uma lembrança ruim. Mas nem tanto, hein? Germain esteve reunindo apoio, controlando as coisas nos bastidores, reescrevendo o manifesto aos poucos. E agora está no comando; e a Ordem coça a cabeça e se pergunta como ele deixou de ser um apoio inabalável ao rei e passou a desejar sua morte, e a resposta é que isto aconteceu porque não havia ninguém que se opusesse. Xeque-mate. —O Sr. Weatherall sorriu. —É preciso dar crédito a esse camarada. —Darei a ele minha espada em suas entranhas. —E como o fará? —Arno descobriu que Germain pretende estar presente na execução do rei amanhã. OSr. Weatherall olhou-me incisivamente. —A execução do rei? Então a Assembleia já chegou ao veredicto? —De fato chegou. E o veredicto é a morte. O Sr. Weatherall balançou a cabeça. A execução do rei. Como havíamos chegado a tal ponto? Com o correr da história, suponho que o último fator tenha se iniciado no verão do ano anterior, quando vinte mil parisienses assinaram uma petição apelando pela volta do governo da família real. Onde antes se falava em revolução, agora se falava em contrarrevolução. É claro que os revolucionários não aceitariam tal coisa, e assim, em 10 de agosto, a Assembleia decidiu marchar ao Palácio das Tulherias, onde o rei e Maria Antonieta se encontravam desde seu exílio indigno de Versalhes, quase três anos antes. Seiscentos homens da Guarda Suíça do rei perderam a vida na batalha, a última resistência do rei. Seis semanas depois, a monarquia foi abolida. Enquanto isso, havia levantes contrarrevolução na Bretanha e em Vendée, e em 2 de setembro os prussianos tomaram Verdun, provocando pânico em Paris quando começaram a circular histórias de que os prisioneiros da realeza seriam libertados e se vingariam dos revolucionários de modo sangrento. Suponho que você vá dizer que os massacres que se seguiram foram ataques preventivos, mas foram massacres ainda assim, e milhares de prisioneiros foram chacinados. E então o rei foi a julgamento, e hoje anunciaram que ele morreria na guilhotina no dia seguinte. —Se Germain estiver lá, eu também estarei —eu falava agora ao Sr. Weatherall. —E por que isso? —Para matá-lo. OSr. Weatherall semicerrou os olhos. —Não creio que o caminho seja este, Élise. —Eu sei —disse eu com ternura —, mas você sabe que não tenho alternativa. —O que é mais importante para você? —perguntou ele, irritado —, a vingança ou a Ordem? Dei de ombros. —Quando eu realizar a primeira, a segunda se ajeitará. —Ah, sim? Acha mesmo que será desse jeito, não é? —Sim, é o que acho. —Por quê? Só o que você vai fazer é matar o atual Grão-Mestre. É provável que seja julgada por traição tanto como pode ser acolhida de volta ao grupo. Enviei apelos a todo lado. À Espanha, à Itália, até à América. Ouvi murmúrios de solidariedade, mas nem uma única promessa de apoio, e sabe por que é assim? É porque, para eles, o fato de a Ordem francesa estar correndo tranquilamente, torna sua destituição um interesse secundário. “Além disso, podemos ter certeza de que Germain andou fazendo uso de seus contatos. Ele terá assegurado a nossos irmãos de além-mar que a tomada foi necessária e que a Ordem francesa está em boas mãos. “Podemos supor também que os Carroll envenenarão o poço sempre que seu nome surgir. Não pode fazer isso sem apoio, Élise, e o fato é que você não tem apoio, mesmo sabendo que seu plano ainda assim será levado a cabo. E isto me diz que não se trata da Ordem, trata-se de vingança. O que por sua vez me diz que estou sentado ao lado de uma tola suicida.” —Eu terei apoio —insisti. —E de onde pensa que virá, Élise? —Tenho esperança de formar uma aliança com os Assassinos. Ele tomou um susto, depois meneou a cabeça com tristeza. — As pazes com os Assassinos são o pote de ouro no final do arco-íris, criança, jamais existirão, não importa o que seu amigo Haytham Kenway tenha dito em suas cartas. Nisso o Sr. Carroll tinha razão. É como pedir a um mangusto e a uma cobra para bebericarem o chá da tarde juntos. —Você não acredita nisso. —Não só não acredito como sei, criança. Eu a amo por pensar o contrário, mas você está enganada. —Meu pai pensava o contrário. Ele suspirou. —Qualquer trégua que seu pai tenha negociado foi temporária. Ele sabia disso, assim como todos nós sabemos. A paz jamais se assentará.

21 de janeiro de 1793

Fazia frio. Um frio de amargar. E nosso hálito de dragão pendia no ar enquanto estávamos parados na place de la Concorde, local da execução do rei. A praça estava cheia. Parecia que toda Paris, se não toda a França, tinha se reunido ali para assistir à morte do monarca. Até onde a vista alcançava, havia pessoas que só um ano antes tinham jurado lealdade ao rei, mas que agora preparavam seus lenços para mergulhá-los no sangue dele. Subiam em carroças para ter uma visão melhor, crianças equilibrando-se nos ombros dos pais, jovens mulheres fazendo o mesmo, escarranchadas em maridos ou amantes. Pela margem da praça, mercadores armaram barracas e não se intimidavam em gritar seus anúncios, todos um “especial de execução”. No ar havia um clima que eu só poderia descrever como de sede de sangue comemorativa. Era digno de se perguntar se eles, a essa altura, já não estariam fartos de sangue, aquela gente, o povo da França. Olhando em volta, evidentemente a resposta era não. Enquanto isso, o carrasco convocava os prisioneiros que seriam decapitados. Eles gritavam e protestavam enquanto eram arrastados ao patíbulo da guilhotina. A multidão clamava por sangue. Calaram-se no segundo antes da queda da lâmina e urraram quando o sangue jorrou naquele dia límpido de janeiro. ii —Tem certeza de que Germain estará aqui? —perguntei a Arno quando chegamos. — Tenho — respondeu ele, e tomamos rumos separados. Embora o plano fosse localizarmos Germain, no fim o ex-lugar-tenente traiçoeiro fez sentir sua presença ao subir em uma plataforma de observação, cercado por seus homens. É ele, pensei, fitando-o, a multidão parecendo distante por alguns minutos. Aquele era François Thomas Germain. Eu sabia que era ele. O cabelo grisalho estava preso para trás com um laço preto e ele usava o manto do Grão-Mestre Templário. E me perguntei: o que pensavam os espectadores ao ver aquele homem de manto assumir posição tão elevada na assistência? Será que viam um inimigo da revolução? Ou um amigo? Ou, à medida que seus rostos se viravam rapidamente, como se não quisessem olhar nos olhos de Germain, será que enxergavam apenas um homem a se temer? Ele com certeza parecia temível. Tinha uma boca cruel, carrancuda, e olhos que, mesmo de longe, eu notava serem escuros e penetrantes. Havia algo de inquietante naquele olhar. Fervilhei de ódio. Era o manto que eu estava acostumada a ver em meu pai. Não deveria enfeitar as costas daquele impostor. Arno também o vira, naturalmente, e conseguira chegar muito mais próximo da plataforma. Fiquei observando quando ele se aproximou dos guardas parados ao pé da escada, os quais tinham a tarefa que envolvia manter a onda de gente longe da elevação. Ele falou com um deles. Ouvi gritos. Meus olhos foram a Germain, que se curvara para ver Arno, depois gesticulou aos guardas para que o deixassem subir. Enquanto isso, aproximei-me o máximo que me atrevi da plataforma. Se Germain iria me reconhecer, eu não sabia, mas havia outros rostos familiares em volta. Eu não podia correr o risco de ser vista. Arno tinha chegado à plataforma, juntando-se a Germain e posicionando-se ao seu lado, os dois olhando a guilhotina que subia e descia, subia e descia... —Olá, Arno. —Ouvi Germain dizer, mas apenas isto, e me arrisquei a erguer o rosto para olhar a plataforma, esperando que, com um misto de leitura labial e o vento na direção certa, eu conseguisse distinguir o que falavam. —Germain —disse Arno. Germain apontou para ele. — É adequado que você esteja aqui para ver o renascimento da Ordem dos Templários. Afinal, você estava presente em sua concepção. Arno assentiu. —Monsieur de la Serre —disse ele simplesmente. — Eu tentei fazê-lo enxergar. — Germain deu de ombros. — A Ordem havia se tornado corrupta, agarrando-se demasiadamente ao poder e ao privilégio. Esquecemo-nos dos ensinamentos do grande De Molay, e de que nosso propósito é liderar a humanidade a uma era de ordem e paz. No patíbulo, o rei havia sido levado para cima. E para lhes dar o devido crédito, ele encarou seus torturadores com os ombros aprumados e o queixo bem erguido, orgulhoso até o fim. Começou a fazer o discurso que sem dúvida ensaiara enquanto estava encarcerado antes de sua jornada à guilhotina. Mas assim que começou a pronunciar suas últimas palavras, um rufar de tambores se iniciou, tragando-as. Corajoso, sim. Mas ineficiente até o fim. Acima de mim, Arno e Germain ainda conversavam; Arno, eu percebia, tentando entender as coisas. —Mas você podia corrigir tudo, não é mesmo? Matando o homem no poder? O “homem no poder” —meu pai. A onda de ódio que experimentei ao ver Germain pela primeira vez se intensificou. Desejei deslizar a lâmina de minha espada entre suas costelas e vê-lo morrer na pedra fria, do mesmo jeito que acontecera com meu pai. —A morte de Monsieur de la Serre foi apenas a primeira etapa —disse Germain. — Este é o ápice. A queda de uma Igreja, o fim de um regime... a morte de um rei. —E o que o rei fez a você? —escarneceu Arno. —Custou-lhe seu emprego? Tomou sua esposa como amante? Germain meneava a cabeça como se estivesse decepcionado com um discípulo. — O rei é apenas um símbolo. Um símbolo pode inspirar medo, e o medo pode inspirar controle... Mas os homens inevitavelmente perdem o medo dos símbolos. Como você pode ver. Inclinando-se sobre a mureta ele gesticulou para o patíbulo, onde o rei, tendo negada sua última chance de recuperar parte do orgulho régio, fora obrigado a se ajoelhar. Seu queixo foi encaixado no bloco e a pele do pescoço exposta para a guilhotina à espera. —Esta foi a verdade pela qual morreu Jacques de Molay: o direito divino dos reis não é nada senão o reflexo do sol em ouro. E quando Coroa e Igreja forem reduzidas a pó, nós, que controlamos o ouro, decidiremos o futuro —falou Germain. Houve uma onda de empolgação por parte da turba, que depois caiu em um silêncio. Acabou-se. Era hora. Olhando, vi a lâmina da guilhotina brilhar, daí baixar com um baque suave, e em seguida o barulho da cabeça do rei caindo no cesto abaixo do bloco. Houve um instante de silêncio na praça, seguido por um barulho que tive dificuldades de identificar no início, até que, mais tarde, reconheci o que foi. Reconheci da Maison Royale. Era o barulho de uma sala de aulas repleta de alunos após perceberem que tinham ido longe demais, em um arfar coletivo que dizia que não havia volta. “Estamos acabados, agora haverá problemas.” Falando quase à meia-voz, Germain disse: —Jacques de Molay, você está vingado. — E então eu soube que estava lidando com um extremista, um fanático, um louco. Um homem para quem a vida humana não tinha valor se não aquele equivalente à promoção de seus próprios ideais, que, na posição de homem no poder da Ordem dos Templários, talvez fizessem dele o sujeito mais perigoso da França. Um homem que precisava ser detido. Na plataforma, Germain virou-se para Arno. —E agora, devo partir —disse. —Tenha um bom dia. Ele olhou para seus guardas e, com um gesto imperioso, ordenou que pegassem Arno, as palavras simples e arrepiantes: —Matem-no. Ele se foi. Comecei a correr, saltando degraus acima quando os dois guardas avançaram para Arno, que girou o tronco para recebê-los, a mão da espada cruzada à frente do corpo. A lâmina dele nunca havia cortado couro; minha espada falou uma, duas vezes: dois cortes fatais nas artérias que fizeram os guardas arremeterem para a frente, os olhos revirando nas órbitas mesmo quando as testas bateram nas tábuas ensanguentadas da plataforma. Foi tudo muito rápido; e atingiu o objetivo de matar os dois guardas. Mas a coisa toda foi sangrenta e nada discreta. E, dito e feito, logo veio um grito dos arredores. Com toda a comoção da execução, aquilo não foi urgente nem alto o bastante para deixar a multidão em pânico, porém o suficiente para alertar outros guardas, que vieram correndo, subindo a escadaria da plataforma até onde Arno e eu já estávamos prontos para recebê-los. Avancei, desesperada para alcançar Germain, passando minha lâmina no primeiro de nossos atacantes, retirando-a e girando ao mesmo tempo, a fim de dar um golpe de través em um segundo guarda. Era o tipo de movimento que o Sr. Weatherall teria detestado, um ataque nascido mais do desejo por uma morte rápida do que da necessidade de manter uma postura defensiva, do tipo que me deixava vulnerável a um contra-ataque. E não havia nada que o Sr. Weatherall desprezasse mais do que um ataque ostentoso e descuidado. Mas, outra vez, eu tinha Arno em meu flanco, cuidando de um terceiro guarda, e assim talvez o Sr. Weatherall me perdoasse. No intervalo de apenas alguns segundos, tínhamos três cadáveres empilhados a nossos pés. Porém, mais guardas chegavam, e vi Germain a poucos metros de nós. Ele percebeu a mudança na maré da batalha e agora fugia dela —corria para uma carruagem na rua, no perímetro da praça. Eu estava impedida de alcançá-lo, mas Arno... — O que está fazendo? — gritei para ele, instando-o que fosse atrás de Germain. Desviei-me de mais um de meus agressores e vi Germain escapando. — Não vou deixar você morrer — exclamou Arno, e voltou a atenção aos outros guardas que apareciam na escada. Mas eu não ia morrer. Havia uma saída. Olhei a rua, vi a porta da carruagem escancarada, Germain prestes a subir a bordo dela. Golpeando loucamente com a espada, saltei sobre a mureta, caindo de mau jeito na terra, mas não tanto a ponto de morrer nas mãos de um guarda que pensara ter visto sua oportunidade de me matar, pagando por sua presunção com o aço nas entranhas. De algum lugar ouvi Arno gritar, dizendo-me para parar — “Não vale a pena!” —, vendo o mesmo que ele: uma falange de guardas que cercavam a plataforma, criando uma barreira entre mim e... Germain. Que chegou à carruagem, subiu e bateu a porta. Vi o cocheiro sacudir as rédeas e as crinas dos cavalos voarem ao vento enquanto os focinhos se erguiam e os jarretes se retesavam, então a carruagem partiu rapidamente. Maldição. Eu me escorava, prestes a atacar os guardas, quando senti Arno ao meu lado, segurando meu braço. —Não, Élise. Com um grito de frustração, desvencilhei-me dele. O esquadrão avançava para nós, lâminas expostas, ombros caídos e projetados. Nos olhos deles havia a confiança da vantagem numérica. Arreganhei os dentes. Ao inferno com ele. Ao inferno com Arno. Mas ele me segurou pela mão, puxou-me rumo à segurança e ao anonimato da multidão, aí abriu caminho por espectadores assustados na periferia, entrando no coração da turba, abandonando os guardas atrás de nós. Foi só quando deixamos a cena da execução para trás — quando não havia mais ninguém em volta —que paramos. Eu o ataquei. —Ele conseguiu fugir, maldição, nossa única chance... —Não acabou —insistiu Arno, vendo que eu precisava esfriar os ânimos —, vamos encontrar outra pista... Senti meu sangue ferver. — Não, não vamos. Acha que agora ele será descuidado, sabendo o quanto nos aproximamos? Você teve uma oportunidade de ouro de dar um fim à vida dele e se recusou a aproveitá-la. Ele balançou a cabeça, enxergando a situação de outra forma. —Para salvar sua vida —insistiu ele. —Não cabe a você salvá-la. —Oque está dizendo? —Estou disposta a morrer para derrubar Germain. Se você não tem estômago para a vingança... então não preciso de sua ajuda. E eu falei sério, querido diário. Enquanto estou sentada e escrevo isto, remoendo as palavras furiosas que trocamos, ainda estou certa de que fui sincera naquele momento, e estou sendo agora. Talvez a lealdade dele ao meu pai não seja tão grande quanto ele dizia ser. Não, eu não precisava da ajuda dele.

10 de novembro de 1793 

Intitularam a época de Terror. “Inimigos da revolução” eram enviados à guilhotina às dezenas — por se opor à Revolução, por acumular grãos, por ajudar exércitos estrangeiros. Chamavam a guilhotina de “a navalha nacional”, e ela trabalhou muito, reclamando duas ou três cabeças por dia só na place de Révolution. A França se acovardava ante a ameaça da queda de sua lâmina. Enquanto isso, em acontecimentos que eram mais importantes para mim, fiquei sabendo que Arno tinha sido destituído por sua Ordem. — Ele foi banido — lia o Sr. Weatherall em sua correspondência, segurando uma carta, os últimos vestígios da antes orgulhosa rede tendo enfim entrado em contato. —Quem? —perguntei. —Arno. —Entendo. Ele sorriu. —Está fingindo que não se importa, não é? —Não há fingimento nisso, Sr. Weatherall. —Ainda não o perdoou, hein? — Ele um dia me jurou que, se tivesse sua chance, tiraria proveito dela. Ele teve a chance e não aproveitou. — Ele tinha razão — disse o Sr. Weatherall. Aquilo fora dito de forma espontânea, como estivesse em sua mente há tempos. —Como disse? —falei. Na verdade, eu não “falei”. Eu “vociferei”. A verdade era que o Sr. Weatherall e eu estávamos irados um com o outro há semanas, talvez até meses. A vida tinha sido reduzida a uma só coisa: discrição. E aquilo me deixava intensamente frustrada. Cada dia era passado preocupando-me em encontrar Germain antes que ele nos encontrasse; cada dia era passado esperando que cartas chegassem de uma série de pontos sempre itinerantes. Sabendo que estávamos travando uma batalha perdida. E, sim, eu fervilhava, sabendo que Germain havia estado tão perto de sentir minha espada. E o Sr. Weatherall também, mas por motivos um tanto diferentes. O que ficou sem ser dito era que ele me via como alguém imprudente e cabeça quente demais; ele acreditava que eu deveria ter esperado e aproveitado o tempo para tramar contra Germain, do mesmo jeito que Germain havia tramado a tomada de poder de nossa Ordem. O Sr. Weatherall dizia que eu pensava com minha espada. Tentava me dizer que meus pais não teriam agido com uma pressa tão incauta. Ele tinha usado cada truque que conhecia, e agora usava Arno. —Arno tinha razão —disse ele. —Você teria sido morta. Poderia muito bem cortar a própria garganta, daria no mesmo para você. Soltei um ruído exasperado, lançando um olhar ressentido para o outro lado da sala do chalé onde nos encontrávamos. Estava aquecida, era aconchegante e eu deveria adorar estar ali, mas, em vez disso, parecia-me pequena e apertada. Aquela sala e o chalé todo tinham passado a simbolizar minha própria falta de ação. —Oque quer que eu faça, então? —perguntei. — Se você ama a Ordem verdadeiramente, o melhor que pode fazer é propor a paz. Oferecer-se para servir à Ordem. Fiquei boquiaberta. —Render-me? —Não, não é rendição, é fazer as pazes. Negociar. —Mas eles são meus inimigos. Não posso negociar com os meus inimigos. — Procure enxergar isso de outra perspectiva, Élise — pressionou o Sr. Weatherall, tentando me afetar. — Você está fazendo as pazes com os Assassinos, mas não negocia com sua própria gente. É isso que parece. —Não foram os Assassinos que mataram meu pai —sibilei. —Acha que sou capaz de fazer uma trégua com os matadores de meu pai? Ele jogou as mãos para o alto. —Meu Deus, e ela pensa que Templários e Assassinos podem se entender. E se forem todos como você, hein? “Eu quero vingança, ao diabo com as consequências.” —Levaria tempo —admiti. Ele partiu para o ataque: —E é isso que você pode fazer. Pode ganhar tempo. Pode fazer mais lá de dentro do que do lado de fora. —E eles saberão disto. Estarão sorridentes, porém com facas às costas. — Eles não matariam uma pacificadora. A Ordem consideraria isto desonroso, e o que eles precisam, acima de tudo, é de harmonia dentro da Ordem. Não. Se você levar diplomacia, eles responderão com diplomacia. —Você não pode ter certeza disso. Ele deu de ombros levemente. — Não, mas de qualquer modo, acredito que se arriscar à morte do meu jeito é melhor do que se arriscar a morrer do seu. Levantei-me e olhei feio, com ar de superioridade, aquele velho recurvado sobre as muletas. —Então este é seu conselho? Fazer as pazes com os assassinos de meu pai. Ele me fitou com olhos tristes, pois ambos sabíamos que só havia um final possível para aquilo tudo. —Sim —disse ele. —Como seu conselheiro, este é meu conselho. —Sendo assim, considere-se dispensado —ordenei. Ele assentiu. —Quer que eu vá embora? Balancei a cabeça. —Não. Quero que você fique. Era eu quem iria partir.

2 de abril de 1794 

Era quase doloroso demais voltar ao château em Versalhes, mas era onde Arno estava, e, portanto, foi para onde me dirigi. No início pensei que a informação que recebi devia estar errada, porque, por dentro, o château estava o mesmo, se não em condições piores do que quando estive aqui pela última vez. E eu soube de mais uma coisa: Arno evidentemente encarou mal ter sido banido pelos Assassinos e conquistou certa reputação como o bêbado local. —Você está péssimo —falei a ele quando enfim o encontrei entocado no escritório de meu pai. Fitando-me com olhos cansados, ele falou antes de virar a cara: —Você parece querer algo de mim. —Esta é uma ótima coisa de se dizer depois de você sumir. Ele soltou um bufar de desdém. —Você deixou muito claro que meus serviços não eram mais necessários. Senti a raiva aumentar. —Não. Não se atreva a falar comigo desse jeito. —Oque quer que eu diga, Élise? Lamento se não deixei você morrer? Perdoe-me por me importar mais com você do que com matar Germain? E, sim, acho que meu coração derreteu. Só um pouquinho. —Pensei que quiséssemos o mesmo. —Oque eu queria era você. E me mata saber que meu descuido resultou na morte de seu pai. Tudo que fiz foi para consertar este erro e evitar que acontecesse novamente. — Ele baixou os olhos. —Você deve ter vindo aqui com algo em mente. Oque é? — Paris está se dilacerando, Germain tem levado a revolução a novos patamares de depravação. As guilhotinas agora operam quase 24 horas por dia. —E o que espera que eu faça a respeito disso? —OArno que eu amo não teria feito esta pergunta —observei. Gesticulei para a bagunça que um dia fora o amado escritório de meu pai. Foi ali que eu soube de meu destino como Templária, ali eu soube da linhagem Assassina de Arno. Agora, era só uma choupana. —Você é melhor do que isso —disse eu. —Voltarei a Paris... Você virá? Ele arriou os ombros e por um momento pensei ser o fim para nós. Com tantos segredos envenenando o lago de nosso relacionamento, como um dia poderíamos voltar a ser o que fomos? Nosso amor acabara frustrado pelos planos feitos por terceiros para nós. Mas ele se levantou, como se tomando a decisão, e ergueu a cabeça, olhando-me com os olhos turvos e de ressaca, que, ainda assim, estavam repletos de um propósito renovado. —Ainda não —disse-me ele —, não posso sair sem cuidar de alguém. La Touche. Ah, Aloys la Touche era um novo acréscimo à nossa Ordem —ou eu deveria dizer à Ordem “deles”. O sujeito que era designado para amputar os membros dos mendigos. Arno podia matá-lo, eu não me importava. Mesmo assim... — Isto é realmente necessário? — perguntei. — Quanto mais esperarmos, mais chances de Germain escapar por entre nossos dedos. —Ele esteve pisoteando Versalhes por meses. Eu devia ter feito algo a respeito disso há muito tempo. Ele tinha razão. —Muito bem. Cuidarei de nosso transporte. Fique longe de problemas. Ele me olhou. Sorri e corrigi minha despedida: —Não seja pego.

3 de abril de 1794 

—As coisas mudaram muito desde que você saiu de Paris —disse a ele no dia seguinte enquanto assumíamos nossos lugares em uma carroça de volta à cidade. Ele assentiu —Há muito a ser consertado. —E ainda estamos longe de encontrar Germain. —Isto não é totalmente verdade. Tenho um nome. Encarei-o. —Quem? —Robespierre. Maximilien de Robespierre. Eis aí um nome a conjurar. O homem que chamavam de “l’Incorruptible”, era presidente dos jacobinos e o mais próximo que a França tinha atualmente de um governante. Consequentemente, era um homem que detinha enorme poder. —Creio que é melhor você me contar o que sabe, não? —falei. — Eu vi tudo, Élise — disse ele, o rosto se contorcendo, como se incapaz de lidar com a recordação. —Oque quer dizer com “tudo”? —perguntei com cautela. — Quero dizer... eu vejo coisas. Lembra-se de quando matei Bellec? Eu vi coisas na época. É assim que consigo saber o que fazer. —Conte-me mais. —Eu queria que ele se abrisse, mas, ao mesmo tempo, sem querer obrigá-lo a falar. —Lembra-se de que matei Sivert? Franzi os lábios, sufocando uma leve onda de negação. —Tive uma visão na época —continuou Arno. —Tive visões com todos eles, Élise. Todos os alvos... Homens e mulheres com quem eu tenho relação pessoal. Vi seus pais negarem a Sivert a entrada a uma reunião dos Templários, as primeiras sementes de seu ressentimento para com seu pai; vi Sivert aproximar-se do Rei dos Mendigos. Vi os dois atacarem seu pai. —Os dois —cuspi. — Ah, seu pai lutou corajosamente e, como eu disse, conseguiu arrancar o olho de Sivert; de fato, ele teria vencido sem dúvida nenhuma se não fosse pela intervenção do Rei dos Mendigos... —Você viu isso acontecer? —Na visão, sim. —E é assim que você sabe que foi usado um broche de iniciação? —De fato. Inclinei-me para ele. —Essa coisa que você faz. Como funciona? —Bellec disse que alguns homens nascem com a capacidade, outros podem aprender com o tempo, mediante treinamento. —E você é daqueles que nasceram com isso. —Parece que sim. —Oque mais? — Sobre o Rei dos Mendigos, soube que seu pai resistiu às sondagens. Vi Sivert oferecer-lhe o broche, explicando como seu “mestre” poderia ajudar. —Seu “mestre”? Germain? — Exatamente. Mas eu não sabia disso na época. Só vi que era uma figura de manto aceitando o Rei dos Mendigos em sua Ordem. Pensei, com uma onda de remorso no Sr. Weatherall, de quem me separei em condições tão ruins, desejando poder contar a ele que nossas teorias estavam corretas. —ORei dos Mendigos foi recompensado pela morte de meu pai? —perguntei. —Parece que sim. Quando matei Madame Levesque, vi os planos dos Templários de aumentar o preço dos grãos. Também testemunhei seu pai expulsando Germain da Ordem. Germain invocava Jacques de Molay enquanto era arrastado para fora. E mais tarde vi Germain procurar Madame Levesque. Vi os Templários tramando para soltar a informação que seria prejudicial ao rei. “Germain disse que, quando o rei fosse executado como um criminoso comum, ele poderia mostrar ao mundo a verdade sobre Jacques de Molay. “E vi outra coisa também. Vi Germain apresentar a seus confederados Templários ninguém menos do que Maximilien de Robespierre.

8 de junho de 1794 

Eu mal conseguia me lembrar de uma época em que as ruas de Paris não estavam tomadas de gente. Via tantos levantes e execuções, tanto sangue derramado. Agora, no Champ de Mars, a cidade estava reunida novamente. Dessa vez, porém, a sensação era diferente. Antes, os parisienses vinham prontos para a batalha, certamente preparados para matar e morrer se fosse necessário; mas ao passo que antes se reuniam para encher as narinas do cheiro do sangue da guilhotina, agora vinham comemorar. Distribuíam-se em colunas, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Muitos traziam flores, buquês e galhos de carvalho, e aqueles que não tinham flores traziam bandeiras, enchendo o Champ de Mars, aquele parque imenso, olhando o morro feito pelo homem em seu centro, onde esperavam ver seu novo líder. Aquele então era o Festival do Ser Supremo, uma das ideias de Robespierre. Enquanto outras facções revolucionárias queriam dispensar inteiramente a religião, Robespierre compreendia o poder da fé. Sabia que o homem comum era ligado à ideia da crença. Que desejava acreditar em alguma coisa. Com muitos republicanos apoiando o que agora chamavam de “descristianização”, Robespierre teve uma ideia. Pensou na criação de um novo credo. Apresentou a ideia de uma nova deidade não cristã: o Ser Supremo. E no último mês anunciou o nascimento de uma nova religião de Estado, decretando que “o povo francês reconhece a existência do Ser Supremo e a imortalidade da alma...” Para convencer o povo de que era uma ótima ideia, ele pensou nos festivais. OFestival do Ser Supremo era o primeiro deles. Onde estavam suas verdadeiras motivações, eu não tinha ideia. Só o que sabia era que Arno tinha descoberto alguma coisa. Arno ficara sabendo que Robespierre era marionete de Germain. Oque quer que acontecesse aqui hoje tinha menos a ver com as necessidades do populacho em geral e mais com a consecução dos objetivos de meus antigos associados Templários. —Jamais conseguiremos chegar perto dele no meio de tudo isso —observou Arno. —É melhor nos retirarmos e aguardarmos uma oportunidade melhor. — Você ainda pensa como um Assassino — repreendi. — Desta vez, eu tenho um plano. Ele me olhou de sobrancelhas erguidas e ignorei suas tentativas bem-humoradas de incredulidade. —Ah, sim? E que plano é esse? —Pense como um Templário. De longe, veio o som de artilharia. O tagarelar da multidão morreu e se ergueu novamente enquanto se preparavam e, solenemente, as duas colunas de pessoas começaram a avançar para o morro. Eram milhares. Entoavam canções e gritavam “Viva Robespierre” enquanto prosseguiam. Em toda parte, a bandeira tricolore estava erguida, tremulando sob uma brisa suave. Ao nos aproximarmos, eu via cada vez mais calções brancos e casacos abotoados e trespassados da Guarda Nacional. E todos tinham uma espada junto ao quadril, a maioria também segurava mosquetes e baionetas. Formavam uma barreira entre a turba e o morro no qual Robespierre faria seu pronunciamento. Paramos diante deles, esperando que o grande discurso começasse. —Muito bem, e agora? —perguntou Arno, aparecendo ao meu lado. — Robespierre é inacessível, tem metade da guarda como segurança — comentei, apontando para os homens. —Jamais chegaremos a metros dele. Arno lançou-me um olhar. —E foi isso que eu disse. Não muito longe de onde estávamos, havia uma grande tenda, cercada pela vigilante Guarda Nacional. Nela estaria Robespierre. Ele sem dúvida estaria se preparando para seu grande discurso, como um ator antes do espetáculo, pronto para aparecer diante do povo, tão majestoso quanto presidencial. De fato, não havia dúvida para ninguém a respeito de quem se referia quando falava do Ser Supremo; ouvi rumores sobre isso enquanto entrávamos na área principal. É verdade que havia um clima de comemoração no ar, com a cantoria, os risos, galhos e buquês que todos seguravam, mas não havia escassez de dissensão, ainda que declarada em um volume muito inferior. E isso me deu uma ideia... —Mas ele não é tão popular como antigamente —informei a Arno. —Os expurgos, este culto ao Ser Supremo... Só o que precisamos fazer é desacreditá-lo. Arno concordou. —E um enorme espetáculo público é o local perfeito para isso. —Exatamente. Retrate-o como um louco perigoso e seu poder vai evaporar como neve na primavera. Só precisamos de uma prova convincente. ii Do morro, Robespierre fazia seu discurso: — É chegado enfim o dia eternamente feliz no qual o povo francês consagra o Ser Supremo... —começou ele. A multidão aplaudia cada palavra, e à medida que eu avançava pela multidão pensava: Ele realmente está levando a ideia a cabo. Ele estava de fato inventando um novo deus e queria que todos nós o venerássemos. — Ele não criou reis para devorar a espécie humana — disse Robespierre — nem criou sacerdotes para nos atrelar como animais brutos a carruagens de reis. Verdadeiramente, aquele novo deus era bom para uma revolução. E então finalizou o discurso e a multidão rugiu; talvez até aqueles que o renegavam foram apanhados na alegria comunitária da ocasião. Era preciso dar crédito a Robespierre. Para um país tão dividido, estávamos enfim gritando com uma só voz. Arno, enquanto isso, tinha encontrado seu caminho para a tenda de Robespierre, procurando algo que pudéssemos usar para incriminar nosso líder supremo. Ele reapareceu trazendo regalos, uma carta que li, provando sem nenhuma dúvida a ligação de Robespierre e Germain. Monsieur Robespierre Cuide para não permitir que suas ambições pessoais estejam à frente da grande obra. Esta que realizamos, não para nossa própria glória, mas para refazer o mundo à imagem de Jacques de Molay. G. Havia também uma lista. — Uma lista de nomes... cerca de cinquenta deputados da Convenção Nacional — disse Arno —, todos escritos pela mão de Robespierre e todos opositores dele. Eu ri. —Imagino que esses bons cavalheiros ficariam muito interessados em saber que estão nesta lista. Mas primeiro... —Apontei para uma curta distância dali, para alguns barris de vinho. —Monsieur Robespierre trouxe as próprias bebidas para um refresco. Distraia a guarda para mim. Tive uma ideia. iii Realizamos bem nossas tarefas. Arno garantiu que a lista atraísse a atenção de alguns dos críticos mais ferozes de Robespierre; eu, enquanto isso, colocava drogas no vinho. —Oque exatamente foi posto no vinho? —questionara Arno enquanto aguardávamos o início do espetáculo; para que Robespierre prosseguisse o discurso sob a influência do que eu havia colocado em sua bebida, que foi... —Ergotina em pó. Em pequenas doses causa loucura, fala arrastada, até alucinações. Arno sorriu. —Ora, isto será interessante. E de fato foi. Robespierre balbuciou frases desconexas por seu discurso, e quando seus adversários o questionaram sobre a lista, ele não apresentou nenhuma resposta sensata. Partimos enquanto Robespierre cambaleava morro abaixo, acompanhado das vaias e gritos da multidão, provavelmente confusos porque o festival tinha começado tão bem e estava terminando de forma tão catastrófica. Perguntei-me se ele podia sentir a presença de mãos nos bastidores, manipulando os acontecimentos. Se ele era um Templário, estaria acostumado a isso. De qualquer forma, o processo para desacreditá-lo havia verdadeiramente começado. Só precisávamos esperar.

27 de julho de 1794 

Lendo o último registro deste diário. “Só precisávamos esperar.” Ora essa, bah! Uma pinoia, como teria dito o Sr. Weatherall. Era a espera que me deixava louca. Sozinha, eu rodava pelos andares despojados do château vazio, de espada em punho, praticando minhas habilidades, e me via ansiando pela presença do Sr. Weatherall, que estaria sentado observando-me com as muletas à mão, dizendo-me que minha postura estava errada, o trabalho com os pés complicado demais, “e você deve parar de se exibir, maldição”, mas ele não estava ali. Eu estava só. Eu já devia saber que ficar sozinha não me fazia bem. Sozinha, eu refletia. Tinha tempo demais para chafurdar em meus pensamentos e remoer as coisas. Sozinha, eu supurava como uma ferida infectada. Tudo aquilo foi motivo para que hoje eu me perdesse. ii Começou com a notícia que me colocou em ação, e depois um encontro com Arno. Robespierre tinha sido preso, informei a ele. —Ao que parece, ele fez vagas ameaças de um expurgo contra “inimigos do Estado”. Sua execução está marcada para o período da manhã. Precisávamos vê-lo antes disso, naturalmente, mas na prisão For-l’Évêque encontramos um cenário de carnificina. Havia mortos para todo lado, a escolta de Robespierre assassinada, mas nenhum sinal dele. De um canto, veio um gemido e Arno ajoelhou-se junto a um guarda recostado na parede, o peito pegajoso de sangue. Ele estendeu a mão para afrouxar as roupas do soldado, encontrou o ferimento e estancou o sangramento. —Oque houve aqui? —perguntou ele, então cheguei mais perto, esticando o pescoço para ouvir a resposta. Enquanto Arno se esforçava para mantê-lo vivo, pisei em uma poça do sangue do soldado para aproximar meu ouvido da boca dele. —O diretor recusou-se a levar os prisioneiros —tossiu o moribundo. —Enquanto esperávamos pelas ordens, soldados da Comuna de Paris nos fizeram uma emboscada. Levaram Robespierre e os outros prisioneiros. —Para onde? — Por ali — apontou ele. — Não podem estar longe. Metade da cidade se voltou contra Robespierre. —Obrigado. E é claro que eu deveria ter ajudado a cuidar dos ferimentos do homem. Não deveria correr para encontrar Robespierre. Era algo errado de se fazer. Era ruim. Mesmo assim, não foi tão ruim como o que aconteceu em seguida. iii Robespierre tentou escapar, mas tal como em tantos de seus planos recentes, acabou frustrado por mim e por Arno. Nós o alcançamos no Hôtel de Ville, com os soldados da Convenção a instantes de irromper pela porta. —Onde está Germain? —exigi saber. —Jamais falarei. E eu fiz. A coisa terrível. A coisa que é prova de que eu tinha chegado ao limite do que eu era, que não pude evitar, porque, para chegar até ali, tinha percorrido uma longa distância. O que fiz foi puxar a pistola do cinto e, mesmo quando Arno levantou a mão para tentar me impedir, apontei para Robespierre, enxergando através de um véu de ódio, e disparei. O disparo pareceu um tiro de canhão na sala. A bala pegou o maxilar inferior dele, que rachou e ficou pendurado, flácido, ao mesmo tempo em que o sangue começou a esguichar dos lábios e das gengivas, espirrando pelo chão. Ele gritou e se contorceu, os olhos arregalados de pavor e dor, as mãos na boca espatifada e sangrenta. —Escreva —vociferei. Ele tentava articular as palavras, mas não conseguia, escrevendo em um pedaço de papel, o sangue vertendo do rosto. — O Templo — falei, pegando o papel e lendo o que ele tinha escrito, ignorando o olhar apavorado que Arno me lançava. —Eu já devia saber. As botas dos soldados da Convenção estavam próximas agora. Olhei para Robespierre. — Espero que desfrute da justiça revolucionária, Monsieur — ironizei, e partimos, abandonando um Robespierre ferido e choroso, segurando a boca com as mãos ensopadas de sangue... e um pouquinho de minha humanidade. iv Essas coisas. É como se eu as imaginasse feitas por outra pessoa — “outro eu” sobre quem não tenho controle, a cujos atos só posso assistir com um interesse imparcial. E suponho que tudo isso seja prova não só de que eu falhara ao desprezar os alertas do Sr. Weatherall e, talvez mais odiosamente, de que também não colocara em prática os ensinamentos de meus pais —mas que cheguei a um ponto de infecção mental no qual já se é tarde demais para parar. Não há alternativa senão arrancá-la fora e torcer para que sobreviva à amputação como uma pessoa purificada. Mas se eu não sobreviver... Devo agora concluir meu diário, pelo menos por esta noite. Tenho algumas cartas a escrever.

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