EI , VOCÊS AÍ !
A EXCURSÃO DO DIA SEGUINTE melhorou muito o humor de Peter. O prédio principal da
Biblioteca Pública de Nova York era um lugar inspirador, com uma enorme
fachada de belas-artes e um interior de “espaços nobres” que concediam ao lugar
um ar de grandeza e deslumbre que servia bem ao propósito e ao poder de uma
biblioteca. Ben e May Parker haviam levado o sobrinho Peter ali diversas vezes
durante a infância dele, e a majestade e a beleza do lugar ajudaram muito a
inspirar no menino o amor pelo conhecimento. Ele, Dawn Lukens e outros
professores que haviam organizado a excursão queriam que a biblioteca fizesse o
mesmo pelos alunos, e este foi o motivo pelo qual percorreram o longo trajeto
desde Forest Hills.
– Como vocês sabem – Dawn lembrou os alunos que saíam dos ônibus e se
aproximavam da entrada –, o Queens tem seu próprio sistema de bibliotecas,
assim como o Brooklyn.
– Enquanto o sistema de Nova York – Peter interpôs – leva Manhattan,
Bronx e Staten Island também – brincou ele, citando a música de Ella Fitzgerald.
Ele ficou esperando as risadas, mas ninguém riu. Em geral, os adolescentes não se
davam conta de que havia cultura ou música antes da vida deles. Mas Dawn
também pareceu não entender a piada. Acho que isso é porque fui criado por
parentes mais velhos, Peter se deu conta. Tio Ben e tia May me fizeram gostar de um
monte de filmes, músicas e programas de rádio antigos. Os favoritos dele eram as
comédias de rádio antigas; ele podia roubar as melhores piadas enquanto estava
sendo o Aranha, e as pessoas pensariam que ele havia inventado. Embora a maior
parte das piadas dele fosse desperdiçada por um público de ingratos que estava
mais ocupado tentando atirar nele, arrancar seus membros ou espancá-lo até a
morte. Falastrões! Um dia eles acabam te matando!
– Mas a Biblioteca Pública de Nova York é especial – Dawn continuou. – É
uma das bibliotecas mais importantes do país, senão do mundo. Sua coleção é
imensa e inclui até uma Bíblia de Gutenberg original. Esse prédio não é da seção
circulante, mas tem as coleções de humanidades e ciências sociais da Biblioteca de
Pesquisa. A seção circulante fica bem ali, na outra esquina – ela disse, apontando
para o prédio modesto, de aparência comercial, na esquina sudeste entre a 40
a
e
a 5
a –, e a gente vai dar uma passadinha lá mais tarde. Agora, venham por aqui…
– Enquanto Dawn continuava a palestra, guiando a turma escada acima, Peter
saiu de seu devaneio, se virou e deu de cara com uma das imensas estátuas de
leão que flanqueavam a entrada. Ele quase deu um pulo para trás com o susto,
lembrando-se da vez em que teve de lutar com essas estátuas quando elas
ganharam vida durante aquela bagunça de Inferno
* alguns anos atrás. Além disso,
pensando em seus arqui-inimigos, era difícil não lembrar de Kraven, o Caçador,
um dos rivais mais implacáveis de sua carreira. Ótimo. Agora estou com medo do
Kraven. Ele subiu correndo para alcançar Dawn na frente do grupo, cantarolando
a música do leão covarde de O Mágico de Oz.
Os vastos espaços interiores do prédio causaram exclamações em muitos dos
alunos, e mesmo os mais determinados a manter uma fachada de durões e
impassíveis estavam com um olhar impressionado. O próprio Peter, por sua vez,
olhava com carinho para os ornamentos elegantes nas paredes, tetos e colunas do
prédio, e se pegou com vontade de entrar sorrateiramente ali à noite e
simplesmente passear por toda aquela arquitetura fascinante. Parker, você é
muito estranho.
Antes que os estudantes tivessem a chance de entrar no salão principal da
biblioteca, eles precisavam ter as mochilas revistadas pelo segurança na porta,
uma política que todo prédio turístico de Nova York precisava ter nesses tempos
em que infiltrações sutis em nome do terror vinham se provando tão eficazes em
termos de destruição em massa quanto as piores excentricidades dos supervilões.
O processo foi lento, ainda mais depois que algumas das buscas encontraram
drogas, com as quais os professores teriam de lidar mais tarde. Peter estava
impaciente, ansioso para continuar a excursão. Ele mal podia esperar para ver
como os alunos reagiriam à Sala de Leitura Rose, uma única câmara enorme que
era quase do mesmo tamanho que toda a Midtown High. Suas paredes eram
forradas por dois andares de livros de referência que somavam vinte e cinco mil
volumes, e seus muitos candelabros de cristal pendiam do forro ornamentado de
quase dezesseis metros de altura com murais de grandes nuvens em tons de
salmão – o que era apropriado, visto que o salão era tão grande que poderia ter
seu próprio sistema climático interno. Ele desafiaria até o mais resistente dos
alunos a entrar naquela sala e não ficar impressionado pelo peso do conhecimento
que ela abrigava.
Porém, antes que os alunos fossem liberados da revista pelos seguranças,
Peter ouviu o velho grito de sirenes atravessando a rua 42. Muitas sirenes. Além
disso, estava sentindo o leve formigar do seu sentido-aranha: algo a poucos
quarteirões de distância, não imediatamente ameaçador a ele, mas grande o
suficiente para eriçar seus pelos. Ah, não. Ele não só teria de perder a sala de
leitura, como seria obrigado a inventar uma desculpa para abandonar a turma.
Agora que era um professor, e não um fotógrafo, não podia mais dizer que estava
correndo para cobrir a matéria. E as sirenes do lado de fora impediam a velha
tática do “Espere aqui, eu vou chamar a polícia”.
Dawn se aproximou dele.
– O que você acha que está acontecendo? – ela sussurrou.
– Bem que eu queria saber.
– Se for sério, talvez a gente precise cancelar. Eu odiaria isso, mas não quero
colocar os alunos em risco. – Em qualquer outra cidade, a preocupação dela
poderia ser exagerada. Mas os superseres que tendiam a se reunir em torno de
Nova York tinham o hábito de causar sérios danos aos prédios e carros em seus
frequentes combates, de modo que os cidadãos haviam aprendido a se preparar
para o pior.
Ele ficou contente com a brecha.
– Quer saber? Vou dar uma olhadinha lá fora e ver se consigo descobrir
alguma coisa enquanto você cuida deles.
– Boa ideia. Mas toma cuidado.
Por que começar agora? Peter respondeu mentalmente enquanto seguia em
direção à saída e se espremia por entre os alunos restantes. Uma vez do lado de
fora, correu para o lado norte da entrada e, furtivamente, deu a volta por ela.
Todos os pedestres estavam olhando para o norte, de modo que ninguém viu
quando ele escalou a parede até o telhado da biblioteca. Ali, já podia ouvir o som
dos alarmes e do quebra-quebra vindos de alguns quarteirões ao norte. Certo,
parece meu tipo de música.
A velocidade super-humana e os anos de prática lhe permitiram completar a
troca de roupa em menos de quinze segundos: primeiro tirou os sapatos e as
meias, arrancou a jaqueta e a camiseta (sem botões para ser tirada com mais
rapidez, e de cor preta e tecido grosso para que o vermelho e o azul não
transparecessem), e então tirou as calças. Ele pegou os disparadores de teia
compactos que ficavam presos em seu cinto de utilidades, prendeu-os ao punho
como pulseiras flexíveis, depois ativou e travou os eletrodos na palma das mãos.
Em seguida, completou o uniforme com as meias e as luvas, tomando cuidado para
que os esguichos de teia passassem pelos pequenos orifícios que havia nelas. E,
por fim, a máscara (uma reserva, já que ele não teve tempo de consertar a lente
da outra), cujo pescoço longo enfiou dentro do uniforme. Ele amontoou as roupas
civis e, para testar os disparadores e proteger sua propriedade, criou um casulo de
teia ao redor delas.
Os esguichos de teia eram equipamentos complexos de microengenharia nos
quais havia trabalhado muito e com afinco até chegarem à perfeição. A tampa
semiesférica dos esguichos tinha vários orifícios minúsculos pelos quais saía o
fluido de teia, obrigando seus polímeros de cadeia longa a serem expelidos e
endurecidos pelo ar em fios longos e finos. Com uma série de batidinhas rápidas
nos eletrodos que se localizavam na palma de sua mão, Peter produzia um spray
maleável de fibras curtas que se prendiam umas às outras em pleno ar, de modo a
formar uma rede que parecia um tecido. Ao mover os disparadores, ele podia
“tecer” a rede transparente em diversas formas, como o casulo em torno das suas
roupas. Como a rede secava quase toda em pleno ar e tinha pouca área de
superfície, ela não se prendia demais às roupas e, além disso, se biodegradaria de
qualquer jeito em uma hora.
Claro, qualquer que fosse o problema, Aranha torcia para que ele fosse
resolvido em menos de uma hora, já que seus alunos estavam esperando. Depois
de dar uma corridinha no telhado da biblioteca para tomar impulso, ele saltou em
pleno ar e deu duas batidinhas no eletrodo da mão direita, mantendo-o
pressionado na segunda. Isso fez com que o fluido de teia disparasse em fios
contínuos, enquanto a tampa do esguicho rodava como um irrigador de jardim por
causa da pressão do fluido, retorcendo os fios de modo a formar um feixe que
lembrava uma corda. Uma gota mais grossa de fluido disparada no começo serviu
de âncora quando o fio de teia chegou ao alto do prédio de número 500 da 5
a
Avenida, do outro lado da rua. A teia elástica contraiu ao secar, puxando-o para
cima como uma corda de bungee jump e aumentando sua velocidade. Ele deixou
que o balanço da teia o levasse para a frente e para cima através da corrente de
ar entre os arranha-céus e, no alto de seu arco, enquanto disparava outro fio,
começou a ver os sinais da crise sobre os telhados mais baixos adiante. Uma
nuvem de poeira e fumaça se erguia na rua 47, entre a 5
a
e a 6
a Avenidas. Bom, o
que mais seria? O famoso Distrito dos Diamantes. Alguém está garimpando.
O lugar ideal para procurar diamantes era o trecho da 47 conhecido como
O lugar ideal para procurar diamantes era o trecho da 47 conhecido como
Diamond and Jewelry Way. Quase noventa por cento de todos os diamantes
vendidos nos Estados Unidos passavam por aquele único quarteirão. Entretanto,
claro, a segurança era forte e pesada. Um ladrão de joias qualquer teria que ser
maluco para tentar roubar uma dessas lojas ou centrais de câmbio. Mas, pelo caos
à frente, ficou claro que Aranha não estava prestes a enfrentar um criminoso
qualquer. E quase todos os supervilões são malucos. Pelo menos aqueles que andam
comigo. Enfim, diga-me com quem tu andas…
Seguindo o barulho das pancadas e dos estrondos – agora somado ao som de
disparos, anunciando a chegada da polícia na cena do crime –, Aranha lançou um
olhar para o terraço do Edifício Baxter, torcendo para ver o Quarteto Fantástico
saindo da sua base para lidar com a crise. Isso o pouparia do trabalho e ele
poderia voltar para seus alunos. Mas é óbvio que não tinha essa sorte. Mesmo
que eles não estivessem salvando algum planeta distante de ser comido por uma
cabra mutante do espaço ou coisa do tipo, o QF costumava se concentrar em
questões sobre o destino do mundo e deixava o crime de rua para heróis de rua
como ele. Admita, Capitão Kirk, mais uma vez você é a única nave no quadrante.
Aranha desceu do topo de um prédio no lado sul da rua e espiou por sobre a
beirada. Seus olhos se arregalaram sob a máscara quando ele viu a origem do
perigo.
– Ai, caramba! Robôs não! Eu odeio robôs! – Mas eram mesmo robôs, meia
dúzia deles. Tinham seis patas e uma estrutura forte, quase do tamanho de
cavalos, e estavam fazendo rondas metódicas pela rua de leste para oeste,
quebrando as fachadas das lojas de diamante e usando braços manipuladores
elaborados para roubar diamantes e jogá-los nos depósitos que havia em suas
costas. Pelo menos, foi o que Aranha supôs ao avistar rapidamente diversos robôs
em estágios variados da operação e as fachadas estilhaçadas atrás deles. Mais
alguns robôs saíam dos prédios e Aranha se perguntou quantos outros poderiam
estar lá dentro ainda. A polícia estava atirando nos monstros blindados, sem
sucesso. Se essas coisas abrirem asas e hélices, vou saber que estou num desenho
animado dos anos 60!
Normalmente, ele preferiria se lançar de cabeça e atacar os bandidos de
surpresa. Porém, não estava certo de que aqueles robôs podiam ser pegos de
surpresa – ou de qualquer outra forma – e não queria levar nenhuma bala
perdida. Por isso, foi saltando pelos telhados na direção da 6
a
, prendeu uma teia
em um dos postes de aço entalhados e metidos a chique no fim do quarteirão (com
lâmpadas em forma de diamante no topo, ai, que fofo), e desceu para se
empoleirar no alto do quiosque do metrô ao lado da polícia.
– Tinha ouvido dizer que os novos robôs de brinquedo eram um estrondo, mas
isso já é ridículo! – ele gritou, a título de apresentação.
Os policiais se viraram para ver sua chegada.
– Fique fora disso, escalador de paredes – disse um deles, um jovem forte e
moreno.
– Ei, espera um pouco – disse o parceiro, um homem mais velho de bigode
grisalho e um grande par de óculos quadrados. – A gente não está conseguindo
muita coisa com esses bichos. Já estou na cidade faz um tempo e vi o HomemAranha
derrotar ameaças piores do que essa.
– Nós temos que proteger os civis, e não deixar que eles lutem no nosso
lugar.
Aranha acenou.
– Oi, estou bem aqui! Só para constar, prefiro o termo “amador talentoso”. E,
também para constar, vou entrar mesmo que vocês não peçam. Só agradeceria se
evitassem disparar na área onde eu estiver. Tudo bem?
O policial mais velho sorriu.
– Pode deixar. Agora olha para frente!
Aranha seguiu o conselho do policial e viu que um dos robôs estava avançando
em sua direção. Ele deu um salto à frente, se segurou na grade do metrô com as
mãos, deu um mortal no ar e disparou uma teia para se prender a uma das
lâmpadas diante do prédio Jewelry 55 Exchange, acima da placa que alardeava a
MAIOR JOALHERIA DO MUNDO em grandes letras vermelhas. Felizmente, os
policiais pareciam não estar atirando. Ele se segurou na teia com as duas mãos e
desceu para chutar o robô no que parecia ser o conjunto de sensores da máquina.
Mas os braços manipuladores do robô se moveram com uma velocidade
impressionante, apanhando-o pelos tornozelos antes que ele o atingisse. A força
do impacto jogou o robô alguns metros para trás, mas as pernas dele se moveram
habilmente para manter o equilíbrio. Ele jogou Aranha para trás e continuou a
seguir seu caminho. Peter se segurou em um poste e girou em torno dele para
voltar a atacar o robô. Ao pousar nas costas da máquina, Aranha cobriu seus
manipuladores com uma grossa camada de teia, usando uma pressão contínua e
firme nos eletrodos para impulsionar a tampa do esguicho para a frente,
permitindo que o fluido de teia jorrasse numa corrente densa e gosmenta, em sua
forma mais grudenta.
– Você não devia sair sem luvas. Vai pegar um resfriado!
Os manipuladores fizeram força contra os casulos de teia sem sucesso, e
então Aranha começou a escalar o robô para procurar um painel de controle ou
algo do tipo.
– Atirei a teia no robô-bô-bô – ele cantou. Mas então seu sentido-aranha
disparou, alertando-o que o robô estava usando um potente laser para se livrar
das teias. Ele escalou na parte de baixo do corpo do robô quando os braços
manipuladores subiram para pegá-lo, mas descobriu que tinha cometido um erro
quando o par de pernas do meio tentou esmagar sua cabeça entre elas. – Eita!
Mas o robô-bô-bô não morreu! – Ele pulou para trás e lançou uma teia para
prender bem as duas pernas juntas, torcendo para que o laser não alcançasse a
parte de baixo.
Agora que eu tenho tempo, vamos tentar o óbvio. Girando para ficar em pé na
calçada, o Aranha empurrou o robô e o derrubou de costas. Essa foi fácil. Mas as
costas do robô eram um tanto curvas, de modo que ele conseguiu se balançar e
voltar a ficar em pé, mesmo com um par de pernas presas. E então, o robô
continuou o trajeto em direção ao prédio da 55 Exchange. Essas coisas são
duronas! Pelo menos, dessa vez, os robôs mortais não estão atrás de mim. Só me
atacam quando eu os ataco antes.
Mas seu sentido-aranha ainda estava formigando e, ao olhar para a loja, viu
que ainda havia pessoas dentro dela. Ele suspirou. E lá vou eu atacar os robôs de
novo.
Ele decidiu agir com esperteza dessa vez. Saltou para cima de um dos postes
de luz, acertou a traseira do robô com outro fio de teia e pulou para trás, usando
o poste como polia para erguer o robô no ar.
– Oba, uma pichorra! – Ele chutou o robô com toda a sua força quando passou
por ele, esperando quebrar alguma peça interna. A força do chute foi suficiente
para fazer o robô balançar preso ao poste. Mas a colisão com o ar-condicionado
de uma das janelas deteve sua trajetória e, ao cair, ele quebrou o poste e uma
câmera de segurança antes de bater no canto do toldo metálico do prédio e
tombar na calçada. Uma das suas pernas se quebrou e Aranha sorriu. Agora
estamos chegando lá!
Entretanto, seu bom humor diminuiu quando outro robô saiu da loja destruída
ao lado e usou seu laser para liberar as pernas do primeiro robô das teias do
Aranha. O robô danificado se ergueu com dificuldade sob suas cinco pernas
restantes e voltou a avançar, desengonçado, mas com eficácia.
– Quem construiu esses negócios? – Aranha perguntou. – A Rolex?
O robô danificado continuou seu trajeto em direção à casa de câmbio, seguido
de perto pelo seu salvador. Aranha precisava atrasar os dois por tempo suficiente
para que as pessoas conseguissem sair. Por sorte, os guardas lá dentro haviam
visto a aproximação dos robôs e estavam guiando as pessoas para as saídas.
Aranha saltou para se empoleirar em cima da placa da loja e soltou uma rede
larga entre o canto do prédio e o poste do outro lado da rua, formando uma
barricada entre os robôs e as pessoas em fuga. Se ele havia calculado
corretamente o comportamento dos robôs – reativos, mas sem capacidade de
previsão –, eles tentariam passar pelas teias, e precisariam de uma força igual à
do Hulk para conseguir isso. Mas depois, sem dúvida alguma, usariam seus lasers
para cortá-las. Isso era algo que ele precisaria impedir.
No entanto, o LED de seus disparadores de teia começou a piscar sob a luva
quando ele estava disparando a segunda barreira, alertando que o fluido estava
no fim. Ele pegou novos cartuchos no cinto e colocou no disparador o mais rápido
possível, mas um dos robôs já estava começando a forçar a teia incompleta.
Aranha não teve tempo de trocar todos os cartuchos, então teve de se contentar
com só alguns novos em cada disparador. Vamos matar dois coelhos com uma
cajadada só, pensou ele, e usou o novo suprimento de teia para prender o robô
dentro da barreira e prendê-lo no chão. O robô se debateu sem sucesso e, embora
seu laser começasse a cortar a teia diante dele, Aranha duvidava que o raio
alcançasse a parte detrás. Contudo, os outros robôs poderiam ajudá-lo a se
libertar, e já estavam se aproximando.
Esperando acelerar a evacuação, Aranha desceu até a casa de câmbio,
escalando por sobre as cabeças das pessoas que corriam, e gritou:
– Rápido, gente, saiam enquanto podem! – Era mais fácil falar do que fazer,
visto que o anúncio na frente da loja não mentia. O lugar estava lotado de
vendedores e compradores antes do ataque; como um mercador de diamantes não
precisava de mais do que uma pequena cabine para fazer negócios, havia espaço
para centenas deles. Muitos dos comerciantes ainda estavam tentando guardar
suas mercadorias, e Aranha avistou alguns civis por perto apesar do perigo, talvez
querendo afanar algum diamante em meio ao caos. Mas Aranha não podia se
incomodar com isso agora. Ele gritou: – Vai, vai, vai! – do alto de seus pulmões, na
esperança de que as pessoas obedecessem à pouca autoridade que ele tinha como
super-herói ou, o que era mais provável, que ficassem com medo de enfrentar a
fúria do homem inseto rastejante. Ele apressou as pessoas a saírem do prédio o
mais rápido possível com o auxílio dos seguranças da loja, torcendo para que eles
e os policiais revistassem todas depois que estivessem a salvo. – Vamos, gente!
Diamantes duram para sempre, mas vocês não. Rápido.
O formigamento no seu crânio se intensificou e ele voltou correndo para
descobrir que os robôs praticamente já haviam se livrado das teias. Voltou a subir
para o lugar onde estava empoleirado antes, preparando-se para outro ataque.
Seus pelos se arrepiaram de repente, tanto pela repentina carga elétrica no ar
como por seu sentido-aranha, e saltou a tempo de fugir do raio que caiu na placa,
arrancando várias letras e estilhaçando algumas janelas sobre ela. Voltando-se a
se empertigar no mastro, Aranha ergueu os olhos para encontrar a fonte do
ataque: um vulto de traje verde e amarelo no alto do prédio de tijolos vermelhos
do outro lado da rua.
– Ah, não. Não me diga!
– Isso mesmo, Homem-Aranha – surgiu a voz grave e conhecida em resposta.
– Electro está de volta e ele tem companhia!
Companhia elétrica? Melhor piada de todos os tempos!
– E o Homem-Aranha está cansado de vilões que se apresentam na terceira
pessoa!
Electro era um supervilão das antigas, um dos primeiros inimigos do Aranha,
mas um dos menos ativos. O ex-engenheiro elétrico, chamado Max Dillon, havia
adquirido o poder de controlar e canalizar eletricidade num acidente bizarro e
vinha usando esse poder para o roubo. Aparentemente, o acidente também
destruíra seu senso de moda; o uniforme verde e amarelo dele era um dos mais
extravagantes que o Aranha já havia encontrado, com desenhos de raios na forma
de uns suspensórios esquisitos que vinham da cintura até os ombros, e um capuz
preto com um troço amarelo enorme em formato de raio/estrela na frente, com
pontas voltadas para as laterais do rosto e uma maior apontada para cima. Sério,
parece uma máscara de uma peça escolar. Sou uma estrelinha do mar feliz, mas não
sou muito bom com tesoura. Mas Dillon era forte e perigoso, então Aranha
achava que ele poderia se safar com aquela roupa completamente sem noção.
– Além disso – Homem-Aranha continuou, apontando para a placa danificada
–, por que você quer roubar a Maior Joalheria do Mundo? – Aranha disparou um
fio de teia, mas o bandido veterano estava preparado para ela e desviou a tempo.
Aranha avançou para o outro lado da rua atrás dele, porém Electro saltou para a
parede do prédio mais alto ao lado e começou a subir por ela eletrostaticamente,
não muito diferente de como Aranha escalava, só que ampliando a carga de seu
corpo em vez de confiar nas forças moleculares de Van der Waals. Ele escalou até
a frente do prédio e Aranha o seguiu. – Poxa, Max, você não vai conseguir me
vencer no meu próprio jogo!
– Ah, é? Lembra desse truque? – Electro estendeu a mão na direção do
Aranha, que começou a escorregar. Ele foi caindo por vários andares até conseguir
se segurar em um dos parapeitos do prédio.
Tinha quase esquecido que ele consegue fazer isso. Pensei que ele também tinha.
Certa vez, quando Aranha fez a besteira de provocar Electro com uma piada
sobre “estática”, o vilão havia tido a ideia de puxar toda a eletricidade estática da
área na direção dele, anulando a habilidade do Aranha de se prender nas paredes.
Era um truque que Electro quase nunca usava; ele não era a lâmpada mais
brilhante da marquise e, no calor da batalha, não costumava parar para pensar.
Entretanto, parecia estar em sua melhor forma.
– Belo truque, Faísca! Agora lembra desse meu? – Ele saltou atrás de Electro,
segurando-se nos parapeitos das janelas para subir. Contudo, Electro foi
deslizando pela lateral do prédio, disparando um raio no Aranha ao passar por
ele. Aranha pulou para desviar e disparou uma teia para o outro lado da rua e
desceu até a calçada a fim de encontrar Electro no nível do solo. Electro. Nível do
solo. Tem uma piada aí em algum lugar, mas acho que não vale a pena. Aranha
estava com vontade de falar com os punhos agora.
Houve então um estampido no ar, e um robô avançou para se colocar entre
Homem-Aranha e sua presa.
– Tenho alguns truques novos na manga, escalador de paredes! – Aranha
olhou ao redor e viu outros robôs se fechando em torno dele. – Comandos
computacionais, movimentos mecânicos… tudo com sinais elétricos. Eu mesmo
poderia fritar você, mas acho que prefiro deixar que meus amigos façam isso
enquanto fico sentado assistindo o show.
Aranha estava contente por sua máscara esconder a expressão de medo em
seu rosto. Se Electro havia descoberto como manipular equipamentos eletrônicos,
ele poderia se tornar praticamente invencível. Poderia arrancar caixas
eletrônicos, parar o trânsito, derrubar aviões e coisa pior. Aranha só torcia para
que a imaginação limitada de Dillon não tivesse percebido isso ainda. Por fora,
manteve o ar sarcástico de sempre.
– Que ótimo, então você se transformou no Homem Controle Remoto! – ele
gritou, saltando para pousar em outro muro. – Pode rebobinar, por favor?
– Que tal ejetar? – Electro fez um gesto e um dos robôs mirou em Aranha
com seu raio laser. Por sorte, eles eram lentos, e Aranha não teve dificuldade em
saltar antes do disparo.
Mas agora o jogo tinha virado. Antes, o alvo eram os diamantes, e ele não
passava de uma distração. Agora, aqueles bonecos de titânio estavam mirando
nele. E qualquer laser capaz de cortar teias seria capaz de cortar carne e osso
também.
Pelo menos, a velocidade continua do meu lado. Então vamos tirar proveito
dela! Em vez de esperar os robôs atacarem, ele avançou contra eles, jogando-se
na briga e confiando em sua velocidade, agilidade e sentido-aranha para
continuar um salto à frente dos lasers. Enquanto os robôs ainda tentavam mirar
nele, ele conseguiu puxar os braços de laser ou lançar teia neles para arrancá-los,
desviando aos saltos de seus braços manipuladores antes que conseguissem
capturá-lo. Ele socou e chutou as articulações dos robôs em busca de pontos
fracos. Conseguiu quebrar algumas das pernas, mas não o bastante para tirar
qualquer um deles da briga de vez.
Então, um dos robôs deu um golpe de sorte. O sentido-aranha o advertiu, mas
ele estava cercado e não conseguiu desviar por completo antes que o braço
cortante passasse raspando pela sua nuca. Uia! Por meio centímetro não viro o
Espetacular Homem-Quadriplégico, ou coisa pior! Na verdade, ele só sentiu uma
dor aguda no pescoço e algumas gotas de sangue desceram pelas suas costas.
Antes que pudesse ficar pior, ele ergueu as mãos para trás, agarrou o braço
cortante do robô e o arrancou. Em seguida usou-o como um bastão para atingir as
pernas dos robôs ao redor e pulou para longe para se recompor, sofrendo outro
corte na coxa antes de conseguir saltar. Levou um momento para checar seus
ferimentos, confirmando que não passavam de cortes leves. Espirrou um pouco de
teia nas feridas, lembrando que isso tinha funcionado com o vigia noturno, e o
sangramento foi contido.
– Hah! – gritou Electro. – Tirei o primeiro sangue! Continuem assim, meninos,
vocês estão deixando a aranha cansadinha!
Aranha saltou para a lateral de um prédio, achando que tinha dado conta da
maior parte dos lasers e estaria seguro ali no alto. Mas os robôs enfiaram as
pernas na parede de tijolos e começaram a subir atrás dele. Ai, ai, ai, ele pensou,
enquanto Electro gargalhava.
Ei, espera um pouco! Electro podia estar enfiando uma fortuna de diamantes no
bolso enquanto seus bichinhos cuidam de mim. Então por que ele está ali parado
brincando de torcedor? Ele não faz o tipo que só quer se vingar de mim. Nem tinha
como saber que eu apareceria para a festa! Claro, houve aquela vez depois de
Aranha ter salvado a vida dele, algo que Dillon considerou uma humilhação. Ele
havia usado seus poderes temporariamente reforçados para derrotar Aranha e
fazer com que ele pedisse clemência, uma derrota que não lhe saía da cabeça por
mais que tivesse dado a volta por cima e derrotado Electro de novo. Mas aquele
tinha sido o último golpe de vingança de Dillon e, embora eles tenham se
enfrentado mais algumas vezes depois disso, em todas elas Electro estava
trabalhando para outra pessoa ou tinha outros planos. Então por que ele está se
concentrando na batalha em vez de roubar diamantes? Talvez ele precise se
concentrar! Ele deve estar dirigindo os robôs conscientemente. Na verdade, foi um
alívio saber aquilo; se ele estava apenas comandando os corpos dos robôs,
controlando os impulsos elétricos nos servidores deles, em vez de realmente
afetar sua programação, isso significava que essa nova habilidade não era tão
perigosa quanto parecia. Se eu desligar a energia dele, aposto que desligo a dos robôs
também.
A polícia devia estar pensando o mesmo, porque um dos policiais gritou:
– Electro! Renda-se ou vamos atirar! – Com um riso de desprezo, o supervilão
olhou para as lâmpadas luxuosas em forma de diamante dos postes ao lado dos
policiais. As duas luminárias explodiram soltando faíscas e arcos elétricos brancos
e azuis começaram a saltar entre elas e atingir os metais próximos, incluindo os
carros e as armas da polícia. Os policiais se dispersaram. O agente mais velho de
bigode teve a sagacidade de pular para dentro de sua viatura, cuja carroceria
metálica o isolou do raio, e levou o carro para fora de alcance. O outro carro no
bloqueio foi abandonado, pegando fogo depois de ser atingido por vários raios.
Por sorte, um caminhão de bombeiros já estava na cena.
Mas Aranha já estava se aproveitando da distração de Electro. Ele saltou
para o outro lado da rua e tomou impulso num prédio para atacar Electro de uma
direção inesperada, atirando uma gosma de teia para cobrir a máscara do
criminoso e cegá-lo. Por reflexo, Electro levou a mão ao rosto, prendendo a mão
na teia que ainda estava secando, mas, um segundo depois, começou a queimar a
teia com uma descarga elétrica dos dedos, usando a outra mão para disparar um
raio do qual Aranha conseguiu desviar. Na esperança de que Dillon fosse precisar
de tempo para se recarregar depois disso, Aranha estendeu a perna ao pousar
agachado e deu uma rasteira para que o vilão caísse. Mas aquele breve contato
foi como chutar um cabo elétrico. A corrente que percorreu seus músculos os
obrigou a se contrair, dobrando sua perna e diminuindo grande parte da força do
chute. Electro apenas cambaleou e recuperou o equilíbrio, enquanto Aranha
reprimia um grito de dor e rolava para trás para ganhar distância.
Electro riu.
– Que pena que você deixou o uniforme de borracha em casa, herói! “You
can’t touch this”!
– Nunca gostei dessa música – Aranha rebateu, notando que a rua ao seu
redor estava cheia de pedaços arrancados de robôs, incluindo uma perna pesada
não muito longe dele. – Que tal “Domo Arigato, Mr. Roboto”? – ele brincou,
enquanto catava a perna com um fio de teia e o lançava contra Electro.
Dillon foi inteligente o bastante para não tentar lançar um raio nela. Ele
poderia esquentar o metal e até derreter parte dele, mas não poderia deter o
avanço, de modo que acabaria sendo atingido por titânio derretido em vez de
sólido. Por isso, deixou de lado os truques superpoderosos e simplesmente se
agachou para desviar, cobrindo a cabeça. Isso deu ao Aranha tempo suficiente
para avançar e cobrir o vilão com uma rede de teia para prendê-lo ao chão. Dillon
disparou raios pelos dedos para romper os fios e conseguiu voltar a se levantar;
em seguida, disparou outro raio quando Aranha se aproximou. Dando saltos ao
redor dele para se desviar das rajadas de eletricidade, o herói foi se aproximando,
prendendo as mãos e os pés de Electro com teias. Em seguida, pegou a perna do
robô de novo e a empunhou como um bastão. Que bom que titânio não conduz
muita eletricidade, pensou ao se preparar para nocautear Dillon com ela.
Mas Electro estava rindo.
– Seria bom dar uma olhadinha atrás de você.
O sentido-aranha lhe disse que aquele não era um truque. Ele girou para dar
uma olhada nos robôs, e sentiu um frio na barriga. Os robôs estavam andando de
um lado para o outro, espalhando-se em todas as direções, jogando carros para o
lado e derrubando postes. Alguns já estavam saindo do Distrito dos Diamantes, e
de seu campo de visão, imunes às balas da polícia. Ah, não. Não! Quando Electro se
distraiu com a luta, os robôs não se desligaram, eles saíram do controle! Ficaram
desgovernados!
Ele se voltou para Electro.
– Desliga os robôs! Agora! – gritou, brandindo a perna do robô
ameaçadoramente.
O vilão riu.
– Acho que não. Se você acabar comigo, eles vão continuar andando e
andando. Se me deixar ir, posso deter os robôs para você.
– Pare os robôs agora e eu considero a possibilidade.
– Nada feito. Como vou saber que você vai cumprir sua parte do acordo?
Aranha virou a cabeça.
– Ei, se liga! Mim paladino da justiça, você bandido de carreira. Quem de nós
dois é mais confiável?
Electro encolheu os ombros.
– Só sei o que leio no Clarim. Segundo Jameson, você é tão canalha quanto
eu. Então preciso de um pouco de segurança.
– Que tal a gente falar “Mazel Broche” e apertar as mãos? – ele sugeriu,
fazendo referência às tradicionais palavras de acordo ainda consideradas
importantes pela maioria dos comerciantes judeus naquela rua.
– Que tal você fazer o que eu mandar? Você sai andando, eu saio andando e
paro os robôs. – Aranha ouviu outros estrondos por sob o ombro. – Melhor decidir
logo, escalador.
Aranha sabia que não tinha escolha. E que ele não tinha força para romper
suas teias, mas conseguiu enfiar os dedos por entre os fios sobre a manga de
Electro, soltando uma de suas mãos. Em seguida, deu um salto para trás enquanto
Electro se livrava do resto das teias.
– Agora pare os robôs!
– Por quê? Eles são uma ótima distração! – Ele riu mais alto do que o som da
confusão que se propagava. – Melhor ir andando, paladino!
Maldito! Dillon o pegara direitinho. Cerrando os dentes por trás da máscara,
Homem-Aranha se afastou de Electro, indo na direção do robô mais próximo.
Rindo, Dillon deu meia-volta e saiu andando calmamente – sim, literalmente, bem
calmo. Na esperança de salvar alguma coisa, Aranha reprogramou o disparador de
teia para ativar o lançador de elasticidade, disparando um localizador aranha
para prendê-lo em uma das pernas de Electro a fim de rastreá-lo depois. Mas o
localizador microeletrônico em forma de aranha entrou em curto-circuito assim
que encostou no corpo carregado de Dillon.
Rosnando de frustração, Homem-Aranha pulou em cima do robô, descontando
sua fúria com socos em suas articulações e pontos vitais. O robô se defendeu, mas
Aranha arrancou a metade frontal do último braço da máquina, depois fez o
mesmo com as patas, de modo que, quando ela caiu de costas, não conseguiu
voltar a se levantar. Contudo, no tempo que demorou para fazer isso, os outros
oito ou nove robôs haviam entrado ainda mais na cidade, e ele pôde ouvir mais
gritos e sirenes vindo de todas as direções. Por onde? Como vou conseguir deter
todos? Havia tantos lugares a quarteirões de distância que poderiam estar em
perigo – Rockefeller Center, Saks, Catedral de São Patrício, Radio City, Times
Square – a Biblioteca!
No entanto, se ele fosse atrás dos seus alunos, milhares de outras pessoas
poderiam ficar em perigo. Não posso acabar com todos antes de causarem danos
reais. Como vou escolher? Ele considerou voltar e recapturar Electro, encontrando
uma maneira de obrigá-lo a deter os robôs. Mas já havia tentado isso sem
sucesso. Mesmo se conseguisse fazer Electro desistir, levaria muito tempo.
Enquanto ponderava as opções, Aranha disparou um fio de teia e subiu ao
topo do prédio mais alto para observar o terreno. Os robôs estavam se
espalhando pelas ruas. Alguns seguiam na direção do Rock Plaza e da catedral,
pelo menos um estava se aproximando da Broadway, e outro seguia na direção da
Grand Central. Mas dois estavam se aproximando da 5
a
, a meio caminho da
biblioteca. Tenho o direito de colocar as pessoas de que gosto na frente de todas as
outras?, ele se perguntou. E então percebeu que a equação era maior do que isso.
O Homem-Aranha era responsável por toda a cidade, mas Peter Parker era
responsável por aqueles alunos em particular.
Além disso, ele acrescentou, enquanto se balançava na direção sudeste, foram
tantas as pessoas próximas que não consegui salvar ao longo dos anos. Tio Ben,
Gwen e George Stacy, Harry Osborn, Flash Thompson. Se alguém tem o direito de
escolher salvar os entes queridos, essa pessoa sou eu. Ele se defendeu, pensando que
voltaria logo depois para deter os outros robôs assim que tivesse certeza que seus
alunos estavam a salvo.
Um dos robôs na 5
a Avenida parecia estar se desviando para o leste, para
longe da biblioteca, então Aranha aproveitou a oportunidade para atacar o outro.
Infelizmente, esse ainda tinha os dois braços manipuladores intactos, que o
agarraram quando ele pousou nas suas costas, pegando-o pela cabeça e pelo
ombro e jogando-o na rua, à sua frente. Ai! Por essa eu não esperava. Pensei que
eles estavam descontrolados. Pelo jeito, ainda tinham a programação de
autodefesa autônoma mesmo sem uma vontade-guia que os instruísse. Ele
disparou teias contra os braços manipuladores, mas eles desviaram, e o Aranha
não conseguiu acertar as extremidades dos braços. Foi sorte ou eles estão
aprendendo com a experiência?
Com uma sensação de déjà-vu, o Aranha entrou debaixo do robô, desviando
de seus braços, e começou a golpear as articulações para arrancar suas pernas. Ele
ficou tão compenetrado que, quando terminou de desmembrar o robô, este caiu
bem em cima dele, tirando seu fôlego por um momento. Furioso consigo mesmo
por deixar que isso acontecesse, jogou o robô para o lado e observou enquanto
este fazia um arco no ar e caía com estrépito no chão. O robô se debateu por um
tempo e parou. Homem-Aranha olhou ao redor à procura do robô seguinte, o que
estava seguindo para o leste.
No entanto, ele não seguia mais para o leste. Sua caminhada trôpega o
levara de volta na outra direção, direto para a biblioteca. A coisa corria pela 42,
pulando sobre dois carros que haviam colidido em meio ao caos, e Aranha estava a
um quarteirão de distância. Mas ele podia cobrir um quarteirão via norte-sul de
Manhattan em um único balanço. Disparou um fio de teia para o arranha-céu de
número 500…
E o fio não saiu. Seu cartucho de teia estava vazio de novo! Ele estava tão
compenetrado que não notou a luz de LED piscando no disparador direito. Usou a
teia esquerda para se balançar. Mas uma das pessoas em meio aos destroços
estava presa no carro, sangrando, então Aranha desceu e arrancou a porta. Em
seguida, saltou para o topo de algumas árvores para ver…
Meu Deus, não! Seus alunos estavam logo ali, faziam parte da multidão que
era evacuada pela polícia. Todos os três pares de portas enormes ornamentadas
estavam abertas, sendo usadas como saídas de emergência. Os alunos e Dawn
saíam pela porta mais próxima… e o robô seguia bem na direção deles, abrindo
caminho pelas mesas e cadeiras do pátio e subindo pela fonte. Aranha saltou para
a lateral do prédio e disparou o cartucho de teia esquerdo…
E ele estalou! Também estava vazio! Seu LED devia ter se quebrado durante
a luta.
– Não! – gritou Aranha, no mesmo momento em que o robô colidiu com a
enorme escultura de mármore ao lado dos degraus, rachando sua base estreita e
fazendo-a cair sobre os estudantes que gritavam ao lado dela. Em seguida, o
autômato descontrolado avançou contra o grupo de estudantes, dos quais metade
estava tentando correr de volta para dentro, indo de encontro àqueles que ainda
tentavam sair. Era uma receita para o desastre.
Homem-Aranha saltou para baixo, segurou a pesada escultura de mármore e
a jogou para o lado, onde ela se despedaçou contra a fonte. Desesperado, sem
tempo para recarregar os disparadores, pulou nas costas do robô e agarrou o
último braço manipulador dele, que se debatia de um lado para o outro. Ele
percebeu que o braço estava ensanguentado e seu coração quase subiu pela
garganta. Não havia nenhum lugar seguro para redirecionar o robô a não ser para
cima. Ele pulou na coluna que formava o arco da entrada e começou a subir,
puxando o robô consigo. Era uma aposta perigosa; havia alunos feridos nos
degraus abaixo dele e, se o braço escorregadio por conta do sangue escapasse
pelos seus dedos, o robô poderia tombar em cima deles. Além disso, o robô estava
se debatendo violentamente, arrancando pedaços grossos de mármore da coluna.
Ele precisava agir rápido. Puxou o robô com toda a força e o lançou contra o pátio,
onde ele caiu em cima de um canteiro de mármore. Aranha pulou atrás dele e
despedaçou o robô até bem depois que já estava morto.
Mas então se recompôs. Meus alunos! Ele deu um pulo para ver se estavam
bem. Os paramédicos já estavam na área, preparando as macas.
– Eles estão bem? – Aranha perguntou.
– Eles parecem bem para você?! – Era Dawn Lukens, trêmula e com sangue
nas roupas e no cabelo. E então ela se conteve. – Não… Sei que você tem boas
intenções. Mas nem sempre dá para chegar a tempo. E não tem mais nada que
você possa fazer agora.
O perdão frio dela foi mais condenatório do que cinquenta editoriais de
Jameson. Ainda mais quando ele viu os rostos dos estudantes levados para dentro
das ambulâncias. Todos eram rostos conhecidos. Bobby Ribeiro… Susan
Labyorteaux… Joan Rubinoff… Koji Furuya… Angela Campanella. Meus alunos.
Minha responsabilidade. Eu falhei com eles.
– Peter? – Dawn estava chamando agora. – Peter, cadê você? – Ela pegou o
celular e ligou para ele. Aranha sabia que, no alto do telhado, seu celular estava
vibrando no silencioso dentro de um casulo de teia. Normalmente, ele correria
para o telhado, atenderia ao telefone e inventaria alguma desculpa. Mas ele não
tinha tempo de se preocupar com identidades secretas agora. Os robôs
desgovernados ainda estavam à solta.
Enquanto carregava seus disparadores de teia, chamou a policial mais
próxima, que tinha acabado de falar no rádio.
– Ei, para onde foram os outros robôs?
– Não se preocupe, Homem-Aranha – respondeu a morena forte de cabelo
encaracolado. – Seus amigos já os controlaram.
– Meus amigos?
– É, os Vingadores acabaram de aparecer na Times Square. Quer dizer,
alguns deles pelo menos. Eles estão limpando tudo agora. E o Coisa e o Tocha
acabaram de salvar a catedral. Ah – ela acrescentou com orgulho –, meus
parceiros acabaram de derrubar o que estava seguindo para a Grand Central. Às
vezes a gente também acerta. – Ela abanou a cabeça. – Mas está uma confusão.
Muita destruição, dezenas indo para o hospital. Coitado de quem for acusado por
isso.
A cabeça do Aranha estava a mil, e não só por causa das lutas.
– Electro – ele lembrou. – Max Dillon, Electro. Foi ele quem começou isso.
Preciso encontrar…
A policial sorriu.
– Não se preocupe. Ouvi dizer que a Mulher-Hulk capturou Electro um pouco
ao norte da Times Square. Apagou o canalha só com um dedinho. Depois falam
daquela noite em que teve apagão na Broadway… – Ela ficou olhando. – Ei, qual é
o problema? Pensei que você gostasse de uma boa piada.
O Homem-Aranha olhou para o sangue que cobria os degraus da biblioteca.
– Isso não é uma piada, policial.

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