ILUMINAR A ESCURIDÃO
O CHOQUE DO FRIO DA ÁGUA POLUÍDA trouxe Homem-Aranha de volta à consciência depois de
meros segundos. Com falta de ar dentro d’água, ele nadou, tentando encontrar o
caminho para a superfície. Avistou uma luz laranja e tremeluzente, e nadou na
direção dela.
Emergindo para o ar, ele tomou fôlego, erguendo a máscara cheia d’água
para liberar a boca e o nariz. Ele viu a fábrica engolida em chamas, pensando –
esperançoso – que nada pudesse sobreviver àquele inferno. Olhando em volta,
encontrou a península artificial que se estendia da autoestrada até a fábrica e
nadou até a beira. Saiu da água e se deixou cair na lama, arfando.
Então, ouviu um estrondo metálico que chamou sua atenção. Voltou a olhar
para a fábrica, torcendo para que fosse apenas a estrutura desabando sobre os
últimos robôs. Mas, como sempre, ele não teve essa sorte. Dezenas de
autorreplicantes estavam quebrando as paredes da fábrica e saindo para a
península, deixando buracos escancarados nas laterais do prédio. A estrutura
tremeu e despencou sobre si mesma, mas pelo menos quinze monstros haviam se
libertado. Eles eram mais resistentes do que o Aranha tinha imaginado.
Claro, ele pensou. Continuo confiante demais. Não me perguntei por que o
Mestre dos Robôs não tentou me impedir de começar aquele incêndio. Ele imaginou
que eles aguentariam, me deixou fazer outro teste da força deles! Na verdade,
considerando a capacidade deles de suportar o calor intenso dentro do próprio
corpo, não devia ser uma grande surpresa que eles conseguissem sobreviver a um
fogo externo.
Mas e o próprio M.R.? Aranha pensou com seus botões. E Dillon?
Ele não precisou esperar muito pela resposta. Um dos autorreplicantes se
abriu diante dele feito uma flor, e Dillon emergiu, tossindo por causa da fumaça.
Depois de alguns momentos, a tosse parou.
– Carne fraca e desprezível – ele disse com a voz rouca, provando que a
personalidade do Mestre dos Robôs ainda estava no controle.
O lado bom é que é uma morte a menos para minha consciência, Aranha
pensou. Em seguida, olhou para os autorreplicantes ao redor, vendo que
começavam a se espalhar pela península, seguindo não apenas em sua direção mas
também das estradas ali perto. Por enquanto, pelo menos. Se eles alcançassem as
rodovias, poderiam despedaçar os carros – e os motoristas – para criarem mais
robôs iguais a eles e, depois, se espalhariam para os distritos mais próximos,
Secaucus, Newark e assim por diante. Quando chegassem a Manhattan, haveria
milhares deles. Mesmo se apenas um sobrevivesse, não demoraria muito para que
conseguisse criar uma nova epidemia.
– Homem-Aranha! – Mestre dos Robôs o havia avistado. – Então você
também sobreviveu. Devo confessar que é ainda mais inventivo do que eu
imaginava. Muito bem… então vou simplesmente dar esse experimento por
encerrado.
– Se você pensa… – Ele parou, tossindo. – Se você pensa que vai ser tão fácil,
Robôspierre, é melhor pensar duas vezes!
– Mas você esquece, Homem-Aranha, que meu chip neural ainda está no seu
pescoço. E o que foi desligado pode facilmente religado… e amplificado!
De repente, um calafrio esmagador correu pela sua espinha, e toda a sua
De repente, um calafrio esmagador correu pela sua espinha, e toda a sua
cabeça latejou com uma única percepção esmagadora: PERIGO! Nunca havia
sentido um rompante tão intenso tomar conta dele, nem mesmo quando o
predador imortal Morlun acionara seu sentido para se apresentar. Pelo menos,
aquilo havia parecido um perigo representado por uma fonte externa específica,
algo de que ele poderia correr e se esconder. Agora, o perigo berrava na cabeça
dele de todos os lados. Os autorreplicantes… o Mestre dos Robôs… o fogo… a
água… o céu… a terra… até seu uniforme, prendendo-o, sufocando-o… suas
próprias mãos, que se erguendo para rasgá-lo em pedaços…
Ele deu um grito, e isso o aterrorizou; o som era ameaçador como se quisesse
matá-lo.
Não havia como fugir. Não havia nada além de perigo, morte e destruição.
Ele tapou a boca, pois o próprio ar parecia perigoso – ele não tinha coragem de
respirar. Mas não respirar também era perigoso, não? O que ele poderia fazer? O
que ele poderia fazer?
O pânico estava tomando conta dele, devastadoramente. Seu coração
martelava no peito, uma bomba-relógio prestes a explodir. Ele estava em posição
fetal, com os olhos bem fechados, mas continuava vendo, ouvindo e sentindo o
gosto do perigo. O perigo tinha que vir de algum lugar, certo? Tanto perigo…
quem poderia estar causando aquilo?
Morlun. Era Morlun quem o estava caçando para se alimentar. Era Osborn, o
Duende Verde, descendo sobre ele, rindo enquanto destruía a vida de Peter
pedaço por pedaço. Era o simbionte preto gosmento, envolvendo-o, querendo
parte da sua alma e depois rejeitado, voltando para se vingar com suas garras e
presas salivantes. Era o avião de Mary Jane explodindo em pleno ar. Era o avião
de seus pais, caindo e queimando sob os risos do Caveira Vermelha. Tio Ben,
sangrando no chão, a sete palmos da terra. Enterrado! Kraven, o Caçador,
enterrando-o vivo. O peso esmagador sobre ele… incontáveis toneladas
esmagadoras de aço sobre ele, imobilizando-o enquanto a base do Doutor
Octopus inundava, com o frasco de remédio vital fora do alcance… Tia May! Não
consegui salvar você! Estou preso! Eu perdi!
Não! Ele lembrou: não tinha desistido. Parecia não haver esperanças naquelas
ocasiões, mas ele tinha se recusado a deixar de tentar, e havia vencido todas as
forças opostas. Ele havia salvado tia May. Havia derrotado o Doutor Octopus,
Kraven, Venom, Morlum, todos, porque tinha se recusado a perder as esperanças.
Mas eu perdi tanto! Tio Ben… Gwen Stacy… todos que havia amado e perdido
pairavam diante dele, e o luto o esmagava mais do que qualquer outro peso,
enchendo-o do medo de que May, MJ e todos seus amigos fossem os próximos.
Mas esse medo lhe deu forças. Esse medo o impeliu além do desespero e do
pavor. Sim, ele sabia que poderia perder tudo, mas isso não era motivo para
desistir. Pelo contrário, era exatamente o motivo por que precisava continuar
lutando, continuar tentando.
O Mestre dos Robôs havia calculado mal. Homem-Aranha não poderia ser
dominado pelo medo do perigo, pelo medo da perda, pelo medo do fracasso.
Porque Peter Parker enfrentava esse medo todos os dias de sua vida. O que vai
me fazer sofrer agora? O que eu vou perder? O que vou fazer de errado? Esses eram
os refrãos diários da sua vida. O fracasso era sempre uma possibilidade.
No entanto, ele continuava lutando, continuava seguindo em frente. Porque
ele entendia o fracasso. Conhecia a derrota bem demais para se permitir ser
dominado por ela. Ele entendia que os fracassos e os erros eram apenas as cores
básicas da tapeçaria da vida. Perder não era o fim do mundo, mas um passo no
meio do caminho. Era um motivo para tentar com mais afinco da próxima vez,
para aprender, para tentar mais. O perigo de voltar a errar sempre estava com
ele, presente em todos momentos de cada dia. Mas não era sufocante. Era um
estímulo. Uma inspiração. Dava ainda mais determinação para que continuasse
lutando e insistindo e se esforçando para melhorar.
Um homem pode perder, ele disse a si mesmo, como havia dito antes nos
momentos em que mais precisava. Um homem pode ser derrotado. Não é uma
desgraça, desde que ele não desista! Tenho um trabalho a fazer… e não vou desistir!
Não vou!
– NÃO VOU!! – As palavras brotaram de seus pulmões naquele momento. O
perigo ainda clamava por ele em todas as direções, mas ele o aceitou, aprendeu a
conviver com ele, como convivia todos os dias. Seus instintos gritavam para que se
defendesse contra tudo, mas ele os concentrou, aceitou que estavam errados e os
direcionou contra algo certo, algo útil, algo mirado no autorreplicante mais
próximo. E, depois de mirado, ele se deixou levar.
Mal se deu conta do que aconteceu em seguida. Só havia adrenalina,
movimento, força, dor e fúria. Mas ele sabia quando um robô caía e quando
estava atacando o próximo. E o próximo… e Mestre dos Robôs parado ali, com a
boca de Max Dillon aberta. Dois autorreplicantes continuavam parados entre
Homem-Aranha e ele, protegendo-o.
– Não entendo – o Mestre disse. – Isso é inexplicável. O chip continua
funcionando. Seu sentido de perigo continua hiperestimulado. Não consigo
compreender como você continua funcionando!
– É porque você é uma máquina – Aranha retrucou com a voz rouca. – Você só
conhece o pensamento binário. Não entende como o coração humano é capaz de
transformar qualquer fraqueza em força. Como a dúvida e o medo são capazes de
virar uma fonte de confiança e esperança.
Mas, ao examinar o terreno, tentando distinguir o verdadeiro perigo do medo
induzido pelo chip que ele ainda sentia, viu que a ameaça real estava se
agravando. Os outros autorreplicantes estavam se espalhando mais rápido,
seguindo para a via expressa e para a cidade. Ele conseguia ouvir gritos e cantar
de pneus. Sirenes começavam a se aproximar, sem dúvida para apagar o incêndio,
mas elas não serviriam de nada além de combustível para os autorreplicantes.
Claro, talvez não seja nenhuma desgraça para mim se eu morrer lutando
infinitamente com essas coisas… mas aposto que vai ser para o resto da
humanidade. Desta vez, fracassar não é uma opção. Preciso encontrar um jeito.
Preciso…
Ele se deu conta de que havia acabado de dar a resposta para si mesmo. O
coração humano.
– Vou dar um exemplo – disse, apontando para o adversário. – Electro.
– Vou dar um exemplo – disse, apontando para o adversário. – Electro.
Maxwell Dillon. Claro, ele não passa de um monte de carne, inferior a você em
todos os sentidos. Mas ele lutou contra mim muito mais vezes do que Mendel
Stromm e, sem dúvida, muito mais do que você. Você nunca conseguiria saber dos
meus golpes tão bem quanto Electro. Apesar das fraquezas dele, ele tem
vantagens que você nunca vai ter.
– Facilmente remediável – disse o Mestre dos Robôs. – Posso usar o
conhecimento de Dillon a qualquer momento. Observe! – Um raio de eletricidade
disparou contra ele das mãos de Dillon.
Aranha saltou para desviar sem dificuldade.
– E daí? Você teve acesso ao conhecimento dele esse tempo todo e não
ganhou muito com isso. Precisa mais do que conhecimento bruto para ser um bom
lutador – ele continuou, sem parar de desviar dos raios disparados contra ele em
um padrão mecânico e previsível. – Precisa de intuição. Experiência. O raciocínio e
a criatividade de um ser vivo. Electro podia não usar muito a criatividade, mas,
quando usava… bom, ele me dava muito mais problemas do que você está dando!
– Vai, cai nessa logo. Aqueles robôs estão chegando mais perto da civilização a cada
minuto.
– Você esquece que a personalidade de Dillon ainda está presente no
substrato neural que eu ocupo. É um recurso que posso acessar facilmente. – O
raio seguinte quase atingiu Aranha, um leve rompante no ruído branco de sua
reação de perigo o avisou bem a tempo. O padrão havia mudado de repente. O
Mestre dos Robôs gargalhou. – Pronto. Uma simples questão de reativar a
personalidade adormecida o suficiente para interagir com ela. Ahh, eu sinto o
prazer dele na sua humilhação, Homem-Aranha!
– Max! – Aranha gritou, continuando a desviar dos raios. – Você está aí,
amigão? Fala comigo!
– Cala a boca e vire churrasquinho, Cabeça de Teia!
Finalmente!
– Ouça o que estou falando, Max! Olhe ao redor. Você sabe onde está?
– Eu sei que estou acabando com você! – O próximo raio atingiu o cinto de
Aranha, queimando o rastreador e o sinalizador-aranha. O resto da corrente se
espalhou pelo seu corpo, jogando-o ao chão. Electro gargalhou e se aproximou
para exultar sobre o herói caído. Homem-Aranha ergueu a mão trêmula para
lançar teia e Electro, que, por sua vez, atingiu seus disparadores com mais duas
descargas pequenas, derretendo os esguichos. – Pronto! Viu, Homem-Aranha? A
personalidade de Dillon é útil para mim! A vantagem da experiência dele
permitirá que eu destrua você! – Ele riu mais uma vez, ainda soando como Electro.
– Max! – Aranha gritou. – Ouça o que acabou de sair da sua boca, Max! Você
sabe o que está acontecendo? Você foi possuído! Essa coisa tomou conta do seu
corpo! Faz meses que você é uma marionete! Você vai tolerar isso?
– Não gaste seu fôlego à toa, Homem-Aranha! Dillon não tem mais forças
para vencer meu controle. A mente dele é fraca e inferior, e só funciona com a
minha permissão! – O Mestre dos Robôs avançou. Homem-Aranha ainda estava
dolorido, esforçando-se para se mover. – E estou cansado de permitir. Já te
humilhei o suficiente. Está na hora de acabar com você de uma vez por todas!
Sua mão avançou contra o rosto de Homem-Aranha, soltando faíscas pelos
dedos enquanto acumulavam uma carga letal.
Não! Max Dillon se esforçou para gritar, para fazer seu corpo parar de
desobedecê-lo. Claro, ele ficaria feliz em espancar Homem-Aranha e não via
problema nenhum em acabar com a vida dele… mas não queria ser só uma arma
nas mãos de outra pessoa. Ele não era a ferramenta de ninguém.
Muito menos daquela coisa condescendente em sua cabeça. Até aquele
momento, ele não sabia que ela estava ali, mas quando ela o tirou da toca, o
bastante para que ele conseguisse voltar a pensar, mesmo sem lhe dar todo o
controle, ele havia conseguido virar um pouco o jogo. O suficiente para saber que
fazia meses que aquela coisa o controlava. O suficiente para saber que ela o
odiava, achava que ele era um inútil, mas estava determinada a dominá-lo mesmo
assim.
Era isso que ele não conseguia tolerar, ainda menos do que o fato de aquilo
querer destruir o mundo. Claro, ele gostava do mundo, não queria que ele
desaparecesse enquanto vivia ali. Mas aquilo não era vida. Ah, isso ele sabia
muito bem.
Porque ele já tinha vivido aquilo antes. Porque sua mãe o tratava da mesma
maldita forma. Controladora. Sufocante. Dizendo que ele não era inteligente o
bastante para se formar em engenharia e ser alguém na vida. Mantendo suas
ambições baixas para que ele não a deixasse, como o pai dele havia sido esperto o
bastante para fazer. Ela não acreditava em Max, mas precisava dele mesmo
assim. Por isso o manteve na toca, fazendo-o sentir pequeno e impotente… até
que um acidente bizarro revelasse que ele era especial e lhe desse um poder de
verdade.
Portanto, ele não ficaria parado deixando-se controlar novamente. Aquela
coisa na sua cabeça podia achar que ele era fraco, mas ele não era. O corpo era
dele, caramba, e era ele quem decidia o que fazer! Então, com um arroubo potente
de força de vontade, ele jogou o braço para baixo e deixou que descarregasse na
terra.
Não resista!, ordenou a voz.
Vai se danar, ele respondeu.
– Isso, Max! – gritou Homem-Aranha. – Resista!
Você não é forte o suficiente para resistir a mim, a voz insistiu. Você tem
determinação, mas eu penso mais rápido, me adapto mais rápido. Posso paralisar
você com um pensamento. Não resista! Sirva a mim! Ele sentiu suas mãos voltarem
a se erguer contra Homem-Aranha.
– Vamos lá! – gritou o Cabeça de Teia. – Continua lutando! O corpo é seu,
Max! Você é dono dele! Esse código de computador tosco não entende isso. Ele
pode estar no seu cérebro, mas não pode chegar ao seu coração. Lute pelo seu
corpo, Max! Lute pela sua identidade!
Ele obrigou os punhos a se cerrarem de novo.
– Estou… tentando – ele conseguiu dizer. – Mas… não dá… para aguentar…
– Max, você pode acabar com isso. Pode acabar com tudo isso! Você pode
salvar o mundo, Max! Você é o único capaz disso!
Dillon ficou estupefato. Homem-Aranha falando aquelas coisas para ele?
Dillon ficou estupefato. Homem-Aranha falando aquelas coisas para ele?
Toda a sua vida, ele quis que alguém acreditasse nele, que alguém dissesse que
ele era especial… e tinha que ser logo aquele babaca?
Não importa. Ele aceitaria. Novas forças surgiram dentro dele.
– Como? O que eu faço?
– Pulso eletromagnético, Max. Você entende?
– Quer dizer… tipo uma onda? Queimar todas as máquinas ao redor?
– Ou qualquer outra descarga especialmente intensa de energia na
atmosfera. Um raio tem um pequeno efeito de pulso magnético também. O que
precisamos, Max… é o maior raio que tiver dentro de você. O maior que você já
fez!
Dillon estava lutando para controlar seu corpo, mas por dentro, ele estava
rindo. Só isso? Tudo o que eu preciso fazer para salvar o mundo é a coisa de que eu
mais gosto de fazer na vida? Era o que ele sempre quis: sentir o poder dentro dele.
Puxar mais e mais poder, e deixar que crescesse dentro do seu corpo, puro e
purificador, uma força da natureza que nada fosse capaz de aguentar.
E, depois de ser escravizado, aprisionado, acorrentado dentro de seu próprio
crânio, feito de otário por um Game Boy com ilusões de grandeza? Ah, isso seria
muito bom.
A coisa na sua cabeça estava revidando, tentando fazer com que ele parasse.
Mas o poder que ele sentia crescer dentro de si, a determinação, a liberdade, o
prazer, era mais do que ela era capaz de aguentar.
Perto deles havia algumas linhas de energia caídas que, no passado, levavam
eletricidade para a fábrica. Ele conseguia sentir essas linhas, sentir a corrente que
podia pegar delas. Conseguia sentir o gosto da corrente. E, quando sentiu o gosto,
aquela coisa não teria como impedi-lo.
Saindo de perto do Homem-Aranha, ele correu na direção dos fios. A voz
gritou na sua cabeça, tentando desligar seu corpo. Ele caiu no chão com tudo. Mas
continuava sentindo o gosto da corrente. Tudo que ele precisava era avançar um
pouco mais… ir além dos seus limites…
Você nunca vai ser mais do que é, disse a voz da sua mãe. Então é melhor nem
tentar. Você vai ficar desapontado.
Ela nunca compreendera Max. Ela era irrelevante agora. Ele tinha sentido o
gosto do poder, que estava um pouco além do seu alcance. Mas ele teria esse
poder nas mãos.
Estendeu os dedos e os fios vieram até ele. Ele não soube como. Não
importava. Era o destino vindo até ele. Para lhe dar o poder que merecia.
Todo o poder.
A carga foi despejada dentro dele. Ele sentiu seu acúmulo aquecendo-o,
fazendo-o se erguer. Os gritos da coisa desapareceram quando o poder trovejou
por todos os seus nervos, enchendo-o de raios. Ele era os raios. Ele era a luz. Toda
a luz. Ao seu redor, ao longe, as luzes da cidade foram se apagando conforme ele
bebia o poder. Ele era a luz mais brilhante por ali, embora a luz ainda estivesse
dentro dele.
Ele bebeu até estar saciado, mas continuou se alimentando. Bebeu até sentir
que estava prestes a rebentar, mas continuou se alimentando. Era exatamente o
que ele queria: rebentar. Irromper.
Explodir!
Ele estava ardendo, com todos seus nervos numa doce agonia. A força era
maior do que ele era capaz de suportar. Era transcendente. Era puro prazer.
Ele a conteve enquanto conseguiu mas, finalmente, não havia mais como se
conter. Não havia nada além do poder, tragando-o por completo. Ele era o poder.
E o poder se libertou com uma explosão que chegou aos céus.
• • • •
Homem-Aranha obrigou-se a se mover, rastejando para longe de Electro o mais
rápido possível. Ele conseguia sentir o ar se carregando em volta dele, sentir um
formigamento crescente do seu sentido-aranha que nada tinha a ver com o chip
neural. Ele conseguiu ir mais rápido, levantar-se e correr, embora seus músculos
não tivessem forças.
E então, o mundo explodiu ao seu redor com raios e trovões, e uma onda de
ar superaquecido atingiu suas costas e o jogou de cara no chão.
Ele não soube quanto tempo demorou até voltar a si, zonzo, com um zumbido
nos ouvidos. Foi a sensação de que algo queimava no seu pescoço que o acordou.
Ele deu um tapa na nuca, mas não encontrou nenhuma chama. Puxando a barra do
capuz, apalpou para sentir o calor, encontrando-o embaixo da cicatriz. Era o chip.
O pulso eletromagnético. Ele queimou o chip! De repente, estava grato pela dor.
Ele ouviu uma voz abafada por trás do zumbido, sentiu mãos segurando seus
braços e erguendo-o, mas não sentiu nenhum perigo. Nenhum perigo. Que alívio.
Ele ergueu os olhos e ali estava um bombeiro olhando para ele com preocupação.
– Homem-Aranha! – ele exclamou. – Tinha mais alguém aqui?
– Só Electro… ele saiu… mas não sei se sobreviveu ao raio.
– Você está falando daquele cara que a gente encontrou pelado no meio de
uma grande marca de queimado, sem um arranhão além de uma queimadura
gigante?
– Ele está vivo?
– Mais ou menos. Catatônico, mas está respirando. O que é bom, porque não
há muito que podemos fazer por ele agora.
– Como assim? Ah. Ah! – Ele olhou ao redor. Havia caminhões de bombeiros e
outros veículos nas estradas por perto, mas eles estavam silenciosos e apagados,
todos eles. As luzes dos bairros próximos também estavam apagadas. O pulso
eletromagnético deve ter queimado seus sistemas de energia. Ele via pela luz
refletida de Secaucus e Newark, e pelo crepúsculo eterno que Manhattan gerava
como uma aura.
Havia outras massas informes e imóveis também. Mais de uma dezena de
robôs blindados gigantes, espalhados pelos Prados, moles e inúteis. Enquanto
observava, um deles oscilou quando o pedregulho sob ele cedeu, jogando-o no
pântano.
– Ele conseguiu – disse Homem-Aranha. – Graças a Deus. Ele conseguiu.
O bombeiro franziu a testa.
– Quem conseguiu o quê?
Aranha não conseguia parar de rir.
– O vilão. O vilão salvou o dia!

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