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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 38

6 de abril de 1788

Muito tempo se passou e ainda há muito a lhe contar sobre os acontecimentos dos últimos dias. Minha espada provou o gosto de sangue pela segunda vez, mas agora, brandida por mim. E descobri uma coisa —algo que, lendo posteriormente meu diário, na realidade eu já devia saber o tempo todo. Mas vamos começar pelo início. — Será que eu poderia ver a Srta. Scott esta manhã, no desjejum? — perguntei ao lacaio na manhã de nosso primeiro dia inteiro. Seus olhos dispararam, depois ele saiu sem dizer nada, deixando-me sozinha com o cheiro bolorento da sala de jantar e um estômago inquieto, tal como acontecia todas as manhãs. A mesa longa e vazia do café da manhã se estendia diante de mim. O Sr. Smith, o mordomo, materializou-se no lugar do lacaio, fechando a porta e deslizando até onde eu estava sentada com meu desjejum. —Lamento, mademoiselle —disse ele com uma reverência breve —, mas a Srta. Scott toma o desjejum em seu quarto esta manhã, como é ocasionalmente de seu costume, em especial quando sente-se um pouco malacafenta. —Malacafenta? Ele abriu um sorriso fino. — Significa que não se sente inteiramente bem. Ela lhe pede que fique à vontade e espera se juntar à senhorita em algum momento mais tarde, a fim de continuar a conhecê- la melhor. —Eu gostaria muito disso —falei. Ficamos à espera, Hélène e eu. Passamos a manhã vagando pela mansão, como duas pessoas conduzindo uma visita excepcionalmente detalhada. Não havia sinal de Mademoiselle Scott. Na segunda metade da manhã, retiramo-nos para a sala de visitas, onde os anos de costura na Maison Royale foram enfim colocados em prática. Ainda não havia sinal de nossa anfitriã. E, posteriormente, nem um pio durante a tarde, quando Hélène e eu fizemos um passeio pelos jardins. Ela também não apareceu para o jantar, e mais uma vez fiz minha refeição sozinha. Minha irritação começava a crescer. Quando pensei nos riscos que tinha assumido para vir até aqui —as discussões horrorosas com Madame Levene, a decepção de meu pai e Arno. Meu propósito ao vir era encontrar Ruddock, e não passar dias esforçando-me para aparentar competência na costura e sendo praticamente uma prisioneira de minha anfitriã —e ainda longe de saber exatamente o que esperavam que eu fizesse neste local. Retirei-me e, mais tarde, às onze horas, sinalizei mais uma vez para o Sr. Weatherall. Desta vez murmurei a ele, “Estou saindo” e vi seu rosto registrar o pânico enquanto repetia freneticamente, “não, não”, mas eu já desaparecera da janela —e é claro que ele me conhecia muito bem. Se tinha dito que ia sair, é porque ia mesmo. Vesti um sobretudo para esconder a camisola, calcei os chinelos e me esgueirei para a porta da frente. Muito, mas muito silenciosamente, puxei os ferrolhos, saí e disparei pela rua até a carruagem dele. — Está assumindo um grande risco, criança — disse ele, irritado, porém incapaz de esconder o prazer por me ver, o qual constatei com satisfação. —Eu não a vi o dia todo —disse a ele rapidamente. —Mesmo? — Não, e tive de passar o dia perambulando, como um pavão particularmente desinteressado. Talvez se eu soubesse o que deveria estar fazendo aqui seria capaz de seguir com isso, completar minha missão e sair deste lugar horroroso. —Olhei para ele. —É uma tortura desgraçada permanecer aqui, Sr. Weatherall. Ele assentiu, reprimindo um sorriso por me ouvir dizer a imprecação muito usada por ele. —Muito bem, Élise. Por acaso, disseram-me hoje. Você deve recuperar cartas. —Que tipo de cartas? —Do tipo escrita. Cartas escritas por Haytham Kenway a Jennifer Scott. Eu o encarei. —É só isso? —E não basta? Jennifer Scott é filha de um Assassino. As cartas foram escritas a ela por um Templário de alta posição. Os Carroll querem saber o que dizem. —Parece-me um jeito muito enfadonho de descobrir. —Oagente anterior foi infiltrado na criadagem da casa e não conseguiu o material. Só conseguiu constatar que, se as cartas existissem e estivessem guardadas, não era em lugar evidente e de fácil acesso. A Srta. Scott não as guarda amarradas com um laço bonito em uma escrivaninha. Ela as esconde. —E nesse meio-tempo? — Você se refere a Ruddock? Os Carroll disseram que seu pessoal está fazendo investigações. —Eles nos garantiram que faziam investigações semanas atrás. —Essas coisas não acontecem rapidamente. —Estão acontecendo lentamente demais para o meu gosto. —Élise... —alertou ele. —Está tudo bem, não vou fazer nenhuma burrice. —Ótimo —disse ele. —Você já está em uma posição muito delicada. Não faça nada que possa piorar as coisas. Dei-lhe uma bitoca na bochecha, desci da carruagem e disparei pela rua. Entrando na casa de novo, em silêncio, parei por um segundo, recuperando o fôlego —e percebi que não estava sozinha. Ele saiu da escuridão, seu rosto nas sombras. Sr. Smith, o mordomo. —Srta. Albertine? —disse ele em um tom indagativo, a cabeça tombada de lado, os olhos faiscando na penumbra; por um segundo de inquietude, esqueci-me de que eu era Yvonne Albertine, de Troyes. —Ah, Sr. Smith —titubeei, fechando meu sobretudo. —O senhor me assustou. Eu só estava... —É só Smith —corrigiu ele. —E não Sr. Smith. —Desculpe-me, Smith, eu... —Virei-me e apontei a porta —...só precisava tomar um ar. —Sua janela não é suficiente, senhorita? —disse ele em um tom agradável, embora o rosto permanecesse escondido pelas sombras. Reprimi uma leve onda de irritação, minha May Carroll interior ofendida por ser interrogada por um meromordomo. —Eu queria mais ar do que isso —expliquei um tanto debilmente. —Ora, isso não é problema, naturalmente. Mas entenda que quando a Srta. Scott era apenas uma menina, esta casa foi cenário de um ataque, durante o qual seu pai foi morto. Eu já sabia disso, mas assenti assim mesmo e ele continuou: — A família tinha soldados de plantão e cães de guarda, mas os invasores ainda conseguiram invadir. A casa foi muito queimada durante o ataque. Desde seu retorno, a senhora insistiu para que as portas ficassem trancadas o tempo todo. Embora a senhorita, naturalmente, possa sair a qualquer hora —Ele abriu um sorriso leve, isento de humor —, devo insistir que um integrante da criadagem deve estar presente a fim de garantir que os ferrolhos sejam puxados depois de sua saída e de seu retorno. Sorri. —Claro. Compreendo perfeitamente. Não voltará a acontecer. — Agradeço. Isto seria muito estimado. — Seus olhos percorreram minhas roupas, deixando-me com a certeza de que ele considerava minha vestimenta meio “incomum”, depois ele deu um passo para o lado, dando-me passagem, a mão apontando a escadaria. Saí, praguejando devido à minha própria estupidez. O Sr. Weatherall tinha razão. Eu não devia ter assumido tal risco. ii O dia seguinte foi idêntico ao anterior. Bem, não exatamente idêntico, apenas enlouquecedoramente parecido. Mais uma vez tomei o desjejum sozinha; mais uma vez ouvi que ela viria me ver em algum momento do dia e fui solicitada a permanecer na vizinhança da casa. Houve mais perambulação pelos corredores, mais costura inepta, mais conversa fiada, isso sem mencionar uma emocionante caminhada pelos jardins. Pelo menos um aspecto de nossas perambulações tinha mudado para melhor. Minha rota era um pouco mais determinada do que antes. Flagrei-me perguntando onde Jennifer esconderia as cartas. Uma das portas do hall de entrada levava ao salão de jogos, então aproveitei a oportunidade para uma inspeção breve dos painéis de madeira em seu interior, imaginando se algum deles deslizaria, revelando um compartimento secreto por baixo. Para ser franca, eu precisava de mais investigações pela casa toda, mas era imensa; as cartas poderiam estar em uma das duas dezenas de cômodos e, depois de meu susto na noite anterior, eu não estava disposta a me esgueirar por ali após o anoitecer. Não, minha melhor oportunidade de recuperar as cartas seria passando a conhecer Jennifer. Mas como poderia fazê-lo, se ela nem mesmo saía de seu quarto? iii O mesmo aconteceu no terceiro dia. Não investiguei nada. Apenas mais costura, conversa fiada e, “Ah, acho que vou tomar ar, Hélène, não quer vir?” —Não gosto disso —murmurou o Sr. Weatherall quando nos comunicamos naquela noite. Era difícil se comunicar por sinais e leitura labial, mas teria de servir. Ele tinha ficado um tanto insatisfeito com minha escapulida na outra noite e, depois de meu encontro com Smith, eu também não estava nem um pouco tranquila. —Oque quer dizer? —Quero dizer que talvez estejam verificando seu disfarce. E, se assim fosse, será que meu disfarce se sustentaria? Só os Carroll sabiam dele. Eu estava tanto à mercê deles quanto era prisioneira de Jennifer Scott. E então, no quarto dia — finalmente! —, Jennifer Scott saiu de seu quarto. Eu devia encontrá-la no estábulo, fui informada. Nós duas íamos ao passeio de Rotten Row, em Hyde Park. Ao chegarmos, juntamo-nos a outros transeuntes. Havia homens e mulheres que passeavam juntos debaixo de sombrinhas ligeiramente desnecessárias e agasalhados contra o frio. Os caminhantes acenavam a carruagens e eram recompensados com acenos imperiosos, enquanto aqueles a cavalo cumprimentavam a todos, pedestres e ocupantes de veículos, todos os homens, mulheres e crianças resplandecentes em seus melhores trajes, abanando as mãos, passeando, sorrindo, acenando mais... Todos, exceto a Srta. Jennifer Scott, que, embora estivesse vestida para a ocasião e usasse um traje suntuoso, olhava o Hyde Park com desprazer por trás de um véu de cabelos raiados de cinza. — Era esse tipo de coisa que esperava ver quando veio a Londres, Yvonne? — perguntou ela com um aceno desdenhoso a quem lhe cumprimentava e lhe sorria, bem como às crianças pequenas cerradas em seus ternos. — Idiotas cujos horizontes não se estendem para além dos muros do parque? Reprimi um sorriso, pensando que ela e minha mãe teriam se dado muito bem. —Era a senhora que eu esperava ver, Mademoiselle Scott. —E por qual motivo mesmo? —Por causa de meu pai. Seu desejo de moribundo, lembra-se? Ela franziu os lábios. — Posso lhe parecer velha, Srta. Albertine, mas garanto-lhe que não tanto para esquecer-me de coisas assim. —Perdoe-me, não era minha intenção ofender. Aquela mãozinha desdenhosa de novo. — Não me ofendi. Na realidade, a não ser que eu indique o contrário, suponha sempre que não houve ofensa alguma. Não me ofendo com facilidade, Srta. Albertine, pode ter certeza disso. Eu podia muito bem acreditar. —Diga-me, o que houve com seu pai e sua avó depois que nos deixaram aquele dia? —questionou ela. Preparei-me e contei a história que aprendi. — Depois que seu irmão foi misericordioso, meu pai e minha avó acomodaram-se nos arredores de Troyes. Foram eles que me ensinaram inglês, espanhol e italiano. Suas habilidades com idiomas e tradução foram bastante requeridas e eles fizeram uma boa renda com os serviços prestados. Parei, buscando sinais de incredulidade no rosto dela. Graças a meus anos de infortúnio na Maison Royale, eu era passável nas línguas, caso ela resolvesse me testar. —Obastante para ter criados? —perguntou ela. — Fomos afortunados neste aspecto. — Em minha mente tentei conciliar a imagem dos dois “especialistas em línguas” sendo capazes de sustentar uma casa cheia de criados, e descobri que não conseguia. Mesmo assim, se Jennifer Scott tinha suas dúvidas, manteve-as escondida por trás daqueles olhos cinzentos de pálpebras caídas. —E sua mãe? —Uma nativa da cidade. Infelizmente, jamais a conheci. Logo depois que se casaram, ela me deu à luz... Mas morreu no parto. —E agora? Com sua avó e seu pai mortos, o que você fará quando sair daqui? —Retornarei a Troyes e darei continuidade ao trabalho de ambos. Houve uma longa pausa. Acenei a passeantes. —Pergunto-me —falei por fim —se o Sr. Kenway teve contato com a senhora pouco antes de morrer. Ele teria lhe escrito, talvez? Ela olhou pela janela, mas percebi que encarava o próprio reflexo. Prendi a respiração. —Ele foi morto pelo próprio filho, entenda —disse ela, um pouco distante. —Entendo. — Haytham era um lutador habilidoso, como o pai — disse ela. — Sabe do que morreu nosso pai? — O Sr. Smith mencionou o assunto — respondi, depois acrescentei rapidamente, quando ela me lançou um olhar estranho: — ao explicar a natureza conscienciosa da segurança na casa. — De fato. Bem, Edward... nosso pai... foi morto por nossos assaltantes. Naturalmente a primeira luta que você perde é aquela que te mata, e ninguém consegue vencer todas as lutas; e na época ele já era idoso. Apesar disso, teve habilidade e mostrou experiência para derrotar outros dois espadachins. Creio que perdeu a luta devido a um ferimento sofrido anos antes. Isto o deixou lento. Da mesma forma, Haytham perdeu uma luta contra o próprio filho, e frequentemente me pergunto por quê. Será que ele, tal como Edward, ficou limitado por um ferimento? Seria este ferimento provocado pela espada que seu pai lhe cravara? Ou quem sabe Haytham teria outro tipo de desvantagem? Talvez Haytham simplesmente tivesse concluído que era chegada sua hora e que morrer nas mãos do filho seria algo nobre de se fazer. Haytham era um Templário, entenda. O GrãoMestre das Treze Colônias, nada menos. Mas sei de algo que muito pouca gente sabe sobre Haytham. Aqueles que leram seus diários, talvez; os que leram suas cartas... As cartas. Senti meu coração martelar no peito. O bater dos cascos dos cavalos e a tagarelice incessante dos passeantes pareciam desaparecer ao fundo quando perguntei: —Oque é, Jennifer? Oque a senhora sabia? — As dúvidas dele, minha criança. As dúvidas dele. Haytham fora objeto de doutrinação de seu mentor, Reginald Birch e, para todos os fins, tal doutrinação funcionou. Afinal, ele terminou a vida como Templário. Entretanto, não pôde deixar de questionar o que sabia. Estava na natureza dele fazer isso. E embora seja improvável que ele um dia tivesse respostas a suas perguntas, o próprio fato de ele fazê-las bastava. Você tem crenças, Yvonne? —Sem dúvida herdei os valores de meus pais —falei. — Decerto, espero que suas maneiras sejam impecáveis e que você mostre eterna consideração por seu companheiro... —Assim tentarei —respondi. — E quanto a questões mais universais, Yvonne? Considere os problemas de seu próprio país, por exemplo. Onde está sua empatia? — Eu diria que a situação é mais complexa do que uma simples distribuição de empatia, Mademoiselle Scott. Ela arqueou uma sobrancelha. —Uma resposta muito sensata, minha cara. Você me parece alguém que não nasceu para seguir. —Prefiro pensar que sei o que quero. —Estou certa de que sim. Mas diga-me, desta vez um pouco mais detalhadamente, o que pensa da situação em sua terra natal? — Nunca pensei muito nesse assunto, mademoiselle — protestei, sem querer me entregar. —Por favor, faça minha vontade. Pense um pouco agora. Pensei em meu país. Em meu pai, que acreditava com tanto fervor em um monarca nomeado por Deus e que cada homem deveria conhecer seu lugar; nos Corvos, que desejavam depor o rei. E em mamãe, que costumava acreditar em uma terceira via. —Acredito que é necessário algum tipo de reforma —disse eu a Jennifer. —Acredita? Parei. —Eu acho que sim. Ela assentiu. —Bem, isso é bom. É bom que tenha dúvidas. Meu irmão tinha dúvidas. Ele as expôs em suas cartas. Mais uma vez, as cartas. Sem saber aonde aquilo iria dar, falei: —Parece que ele era um homem sensato, bem como misericordioso. Ela riu. —Ora, ele tinha seus defeitos. Mas, no fundo, sim, creio que foi um homem sensato, um bom homem. Venha —Ela bateu o castão da bengala no teto da carruagem —, é hora de retornarmos. Está quase na hora do almoço. Eu estava perto agora, pensei, enquanto retornávamos à Queen Square. — Há algo que quero mostrar antes de comermos — disse ela ao seguirmos, e me perguntei: poderiam ser as cartas? Na praça, o cocheiro nos ajudou a descer, mas depois, em vez de nos acompanhar pela escada até a porta de entrada, voltou ao assento do condutor, sacudiu as rédeas e se foi, estalando os cascos rumo a uma cortina de névoa fina que envolvia as rodas de seu veículo. Fomos à porta, onde Jennifer puxou o sino uma vez, depois outras duas vezes mais breves. E talvez eu estivesse sendo paranoica, mas... O cocheiro partindo daquele jeito. O toque do sino. Agora tensa, eu mantinha um sorriso enquanto os ferrolhos eram puxados, a porta era aberta e Jennifer cumprimentava Smith com o mais leve meneio de cabeça antes de entrar. A porta foi fechada. O burburinho suave da praça foi banido. A sensação agora familiar de aprisionamento me dominou, mas desta vez mesclada ao medo genuíno, à sensação de que as coisas não estavam muito certas. Onde estava Hélène, perguntei-me? —Por favor, Smith, pode fazer a gentileza de informar a Hélène que voltei? —pedi ao mordomo. Em resposta, ele inclinou a cabeça do jeito habitual e, com um sorriso, disse: —Certamente, mademoiselle. Mas não se mexeu. Olhei de maneira indagativa para Jennifer. Queria que as coisas prosseguissem normalmente. Que ela ralhasse com o mordomo, mas ela não o fez. Olhou para mim e falou: —Venha, desejo mostrar-lhe o salão de jogos, pois foi ali que meu pai morreu. — Certamente, mademoiselle — concordei, com um olhar de relance a Smith, enquanto nos aproximávamos da porta revestida de madeira, fechada, como sempre. —Mas creio que você já viu o salão de jogos, não? —disse ela. —Nos últimos quatro dias, tive amplas oportunidades de ver sua linda propriedade, mademoiselle —respondi. Ela parou com a mão na maçaneta. Fitou-me. —Quatro dias nos deram o tempo de que precisávamos também, Yvonne... E não gostei daquela ênfase. Não gostei nada daquela ênfase. Ela abriu a porta e me conduziu para dentro. As cortinas estavam fechadas. A única luz vinha de velas colocadas no peitoril e no consolo da lareira, conferindo um brilho laranja bruxuleante à sala, como se preparada para alguma cerimônia religiosa sinistra. A mesa de bilhar estava coberta e empurrada de lado, deixando o piso exposto, exceto por duas cadeiras de madeira da cozinha, uma de frente para outra, no meio da sala. Também havia um lacaio postado ali, mãos enluvadas e entrelaçadas à frente do corpo. Mills era o nome dele, creio. E normalmente Mills sorria, fazia uma reverência e era infalivelmente educado e decoroso como um criado deveria ser para com uma nobre de visita da França. Agora, porém, ele simplesmente encarava o ambiente, inexpressivo. Cruel, até. Jennifer continuou: —Os quatro dias deram-nos o tempo de que precisávamos para enviar um homem à França a fim de conferir sua história. Smith tinha entrado atrás de nós e agora estava junto da porta. Eu estava presa. Que ironia ter passado os últimos dias resmungando sobre estar em uma prisão, e agora eu estava mesmo enclausurada. —Mademoiselle —falei, aparentando mais aturdimento do que desejava —, devo ser sincera e dizer que considero toda esta situação tão confusa quanto desagradável. Se esta porventura for uma peça de costume inglês da qual não tenho consciência, eu lhe pediria que, por favor, se explicasse. Meus olhos foram à expressão dura de Mills, o lacaio, às duas cadeiras e voltaram a Jennifer. O rosto dela estava impassível. Eu ansiava pelo Sr. Weatherall. Por mamãe. Meu pai. Arno. Não pensei que um dia teria tanto medo e me sentiria tão solitária como naquele momento. —Quer saber o que nosso homem descobriu lá? —questionou Jennifer. Ela ignorou meu pedido. —Madame... —Falei em tom insistente, mas ela continuou a me ignorar. — Ele descobriu que Monica e Lucio Albertine de fato ganharam a vida com suas habilidades linguísticas, mas não o bastante para ter criados. Também não havia nenhuma esposa nativa. Nem esposa, nem casamento, nem filhos. Certamente não uma Yvonne Albertine. Mãe e filho moravam em circunstâncias modestas nos arredores de Troyes... Até o dia em que foram assassinados, apenas quatro semanas atrás. iv Prendi a respiração. —Não. —A palavra saiu de mim antes que eu tivesse a oportunidade de refreá-la. —Sim. Infelizmente, é verdade. Seus amigos, os Templários, cortaram a garganta dos dois enquanto dormiam. — Não — repeti, angustiada, tanto por mim mesma, por minha fraude ter sido revelada, quanto pelos pobres Monica e Lucio Albertine. —Se me der licença por um minuto —disse Jennifer e saiu, deixando-me sob o olhar de Smith e Mills. Ela voltou. —São as cartas que você quer, não? Você só faltou me dizer isso em Rotten Row. Por que seus mestres Templários desejam as cartas de meu irmão, pergunto-me? Meu raciocínio estava em total confusão. As opções disparavam por meu cérebro: confessar, enfrentar descaradamente, fugir, ficar indignada, desmoronar e chorar... —Posso afirmar que não sei do que está falando, mademoiselle —supliquei. —Ah, tenho certeza de que sabe, Élise de la Serre. Ah, meu Deus. Como ela sabia? Mas tive minha resposta quando, reagindo a um sinal de Jennifer, Smith abriu a porta e mais um entrou. Este conduzia Hélène para dentro da sala. Ela foi jogada em uma das cadeiras de madeira, onde ficou sentada e me encarou com olhos exaustos e suplicantes. —Desculpe-me —disse. —Eles me disseram que a senhora estava em perigo. — Decerto — disse Jennifer —, e nenhum de nós mentiu, pois de fato as duas estão em perigo. v —Agora, diga-me, o que sua Ordem deseja com as cartas? Olhei dela para os lacaios e compreendi que a situação era irremediável. —Desculpe-me, Jennifer —falei a ela —, lamento sinceramente. Tem razão, sou uma impostora em sua casa, e a senhora está certa em pensar que espero colocar as mãos nas cartas de seu irmão... —Espera tirá-las de mim. —corrigiu ela, tensa. Baixei a cabeça. —Sim. Sim, para tirá-las da senhora. Ela pôs as mãos no castão da bengala e se curvou para mim. Seu cabelo estava caído sobre os óculos e o olho não escondido pelos fios grisalhos ardia de fúria. — Meu pai, Edward Kenway, era um Assassino, Élise de la Serre — disse ela. — Agentes Templários atacaram minha casa e o mataram nesta mesma sala em que você se encontra agora. Raptaram-me, enfiaram-me em uma vida que eu não teria imaginado nem em meus pesadelos mais fétidos. Um pesadelo vivido que perdurou por anos. Serei franca com você, Élise de la Serre, não tenho boa disposição para com os Templários e certamente menos ainda para com espiões Templários. Qual você supõe ser a punição dos Assassinos por espionagem, Élise de la Serre? — Não sei, mademoiselle — implorei —, mas, por favor, não machuque Hélène. Machuque a mim, se lhe agradar, mas, por favor, ela não. Ela não fez nada. É inocente em tudo isso. Mas agora Jennifer soltava uma gargalhada curta e alta. —Uma inocente? Então posso me solidarizar com seus apuros, porque eu, também, um dia fui uma inocente. “Pensa que mereci tudo o que aconteceu a mim? Raptada e mantida como prisioneira? Usada como uma meretriz. Pensa que eu, uma inocente, mereci ser tratada de tal maneira? Pensa que eu, uma inocente, mereço viver o restante de meus anos na solidão e na escuridão, apavorada com a chegada dos demônios à noite? “Não, não creio que pense assim. Mas, veja bem, a inocência não é o escudo que você deseja, não quando se trata da batalha eterna entre Templários e Assassinos. Inocentes morrem nesta batalha à qual você parece tão ansiosa para se unir, Élise de la Serre. Mulheres e crianças que nada sabem de Assassinos e Templários. Inocentes morrem o tempo todo... É isso que acontece em uma guerra, Élise, e no conflito entre Templários e Assassinos não é diferente.” —A senhora não é desse jeito —falei por fim. —Oque raios quer dizer com isso, criança? —Quero dizer que a senhora não nos mataria. Ela fez uma careta. —Por que não? Olho por olho. Homens de sua classe assassinaram Monica e Lucio, e eles eram inocentes também, não eram? Assenti. Ela endireitou o corpo. Os nós dos dedos ficaram brancos quando envolveram o castão de marfim da bengala e, ao observar o olhar vago dela, lembrei-me de quando nos conhecemos, de quando ela estava sentada de frente para a lareira. Oque me doía era que, em nosso curto tempo juntas, passei a gostar de Jennifer Scott e a admirá-la. Não queria enxergá-la como alguém capaz de nos machucar. Pensei que ela fosse melhor do que isso. E era. —A verdade é que detesto todos vocês —disse ela então, exalando as palavras ao final de um longo suspiro, como se tivesse esperado anos para dizê-las. — Estou enjoada de tudo isso. Diga estas palavras a seus amigos Templários quando eu enviar você e sua criada... —Ela parou e apontou a bengala para Hélène —... ela não é uma criada de fato, é? —Não, mademoiselle —concordei, e olhei para Hélène. —Ela acredita ter uma dívida para comigo. Jennifer revirou os olhos. —E agora você tem uma dívida para com ela. Assenti com seriedade. —Sim... Sim, eu tenho. Ela me olhou. —Eu vejo o bem em você, Élise. Vejo dúvidas e questionamentos, creio que existam virtudes positivas, e por isso cheguei a uma decisão. Deixarei que você tenha as cartas que procura. —Eu não as quero mais, mademoiselle —falei, às lágrimas. —Não a qualquer preço. —O que a faz pensar que tem opção? Estas cartas são o que seus colegas Templários desejam, e eles as terão, com a condição, primeiramente, de que me deixem de fora de suas batalhas... Que eles me deixem em paz... E, em segundo lugar, que as leiam. Eles devem ler o que meu irmão tem a dizer sobre a possibilidade de Templários e Assassinos trabalharem juntos e então, talvez, assim espero, possam se deixar influenciar por elas. Ela gesticulou para Smith, que assentiu e foi até os painéis embutidos na parede. Jennifer sorriu para mim. —Você se perguntou sobre estes painéis, não foi? Sei que teve curiosidade. Evitei o olhar dela. Enquanto isso, Mills ativava uma chave junto à parede, de modo que uma delas deslizou para trás, pegando assim duas caixas de charuto em um compartimento. Voltando a se postar ao lado de sua senhora, abriu a primeira e me mostrou seu conteúdo: um maço de cartas amarrado com uma fita preta. Sem olhá-las, Jennifer apontou para elas. — Aí está, toda a correspondência de Haytham enviada da América. Quero que você leia as cartas. Não se preocupe, não estará cometendo nenhuma indiscrição de questões particulares da família, meu irmão e eu nunca fomos próximos. Mas você verá meu irmão indo além de suas filosofias pessoais. E caso as interprete corretamente, Élise de la Serre, poderá encontrar um motivo para alterar seu pensamento. Talvez leve este modo de pensar a seu papel como Grã-Mestre Templária. Ela devolveu a primeira caixa a Mills, que então abriu a segunda. Dentro dela havia um colar de prata. Nele, um pingente cravejado de pedras vermelhas e cintilantes no formato de uma cruz templária. —Ele me enviou isto também —explicou ela. —Um presente. Mas eu não o desejo. Deve ficar com uma Templária. Talvez alguém como você. —Não posso aceitar isto. —Você não tem escolha —repetiu ela. —Aceite... Aceite os dois. Faça o que puder para dar um fim a esta guerra infrutífera. Eu a olhei e, embora não quisesse destruir o encanto do momento ou fazê-la mudar de ideia, não consegui evitar perguntar: —Por que está fazendo isso? —Porque já basta de sangue derramado —disse ela, afastando-se rapidamente, como se incapaz de continuar a olhar para mim, como se estivesse envergonhada da compaixão que sentia em sua alma e desejasse ter sido forte o bastante para me matar. E então, com um gesto, ordenou que seus homens levassem Hélène, dizendo-me quando fiz menção de protestar: —Ela será bem-cuidada. Jennifer continuou: — Hélène não quis falar, pois estava protegendo você. Deveria ter orgulho por inspirar tal lealdade em seus seguidores, Élise. Talvez você possa usar tais dons para inspirar seus associados Templários de outras maneiras. Veremos. Estas cartas não estão sendo entregues levianamente. Só posso ter esperanças de que você as lerá e absorverá o conteúdo delas. Ela me deu duas horas com elas. Foi tempo suficiente para ler as cartas e formular minhas próprias perguntas. Tempo para saber que havia outro caminho. Uma terceira via. vi Jennifer não se despediu de nós. Em vez disso, fomos conduzidas para fora através de uma porta nos fundos, ao pátio do estábulo, onde uma carruagem tinha sido solicitada a aguardar. Mills nos embarcou e saímos sem dizer mais nenhuma palavra. O coche chocalhava e se sacudia. Os cavalos bufavam, os freios estrepitando ao atravessarmos Londres em direção a Mayfair. Em meu colo, eu carregava a caixa, e dentro dela as cartas de Haytham e o colar que recebi de Jennifer. Segurava com força, sabendo que aqueles objetos me dariam a chave para o futuro sonho de paz. Eu devia a Jennifer o cuidado para que caíssem nas mãos certas. Hélène estava ao meu lado, calada. Estendi-lhe a mão e afaguei o dorso da mão dela com as pontas de meus dedos enquanto tentava tranquilizá-la. —Desculpe-me por tê-la envolvido nisso —falei. — A senhora não me envolveu em nada, mademoiselle, lembra-se? Tentou me dissuadir de vir. Soltei uma risada sem humor algum. —Imagino que agora você desejaria ter feito o que pedi. Ela olhava pela janela enquanto as ruas da cidade passavam aos trambolhões. — Não, mademoiselle, nem por um segundo desejei o contrário. Qualquer que seja meu destino, considero isto melhor do que os planos daqueles homens para mim em Calais. Aquele destino do qual a senhora me salvou. — De qualquer modo, Hélène, a dívida está paga. Quando chegarmos à França, você deve seguir seu caminho, como uma mulher livre. Oespectro de um sorriso cruzou os lábios dela. —Veremos a respeito disso, mademoiselle —disse ela. —Veremos. Enquanto a carruagem rodava para a praça arborizada em Mayfair, vi atividade do lado de fora da casa dos Carroll, a cerca de cinquenta metros. Batendo na portinhola do teto, pedi ao condutor que parasse, e enquanto os cavalos bufavam e pisoteavam, abri a porta da carruagem e fiquei de pé no estribo, protegendo os olhos para enxergar ao longe. Ali, vi duas carruagens. Os lacaios da casa dos Carroll estavam reunidos. Vi o Sr. Carroll parado na escadaria, colocando um par de luvas. Vi o Sr. Weatherall descer correndo pela escada, abotoando o paletó. A espada pendia junto à lateral do corpo dele. Que interessante. Os lacaios também estavam armados, bem como o Sr. Carroll. —Espere aqui —pedi ao condutor, depois olhei para dentro. —Voltarei logo —falei suavemente a Hélène e, suspendendo minhas saias, corri a um local próximo a uma grade, de onde dava para se ver as carruagens mais de perto. O Sr. Weatherall estava de costas para mim. Coloquei a mão em concha na boca, soltei nosso pio de coruja costumeiro e fiquei aliviada quando ele se virou, todos os outros envolvidos demais em suas tarefas para se perguntarem por que haviam escutado uma coruja tão cedo, no início da tarde. Os olhos do Sr. Weatherall vasculharam a praça até me encontrarem e ele mudou de posição, passando as mãos no peito, ganhando uma postura corriqueira e, com a mão cobrindo um cantinho da boca, de rosto virado, murmurou: —Mas o que diabos está fazendo aqui? Agradeci a Deus por nossas conversas por leitura labial. —Isso não importa. Aonde vão? —Encontraram Ruddock. Está hospedado no Boar’s Head Inn, na Fleet Street. —Preciso de minhas coisas —avisei a ele. —Meu baú. Ele assentiu. — Vou pegá-lo e deixarei em um dos estábulos lá atrás. Não demore, partiremos a qualquer momento. Passei toda vida ouvindo que eu era uma garota bonita, mas não creio que já tivesse feito bom uso de minha beleza até então. Quando voltei à nossa carruagem, tremulei as pestanas para o cocheiro e o convenci a pegar meu baú na cavalariça. Quando ele voltou, pedi que se sentasse no alto do coche enquanto, com uma sensação de estar saudando um velho amigo, vasculhei meu baú. Meu verdadeiro baú. O baú de Élise de la Serre, não o de Yvonne Albertine. Fiz a costumeira troca de roupas na carruagem. Tirei o vestido amaldiçoado. Bati nas mãos de Hélène a fim de afastá-las quando ela tentou me ajudar, então vesti meus calções e a camisa, ajeitei o tricorne e prendi minha espada. Enfiei o maço de cartas na frente da camisa. Deixei todo o restante na carruagem. — Você levará esta carruagem a Dover. — falei a Hélène, abrindo a porta. — Vá embora. Aproveite a maré. Tome o primeiro navio de volta à França. Se for da vontade de Deus, eu a encontrarei lá. Falei com o condutor. —Leve esta menina a Dover. — Ela navegará a Calais? — perguntou ele, tendo demonstrado a habitual surpresa com minha troca de roupas. —Assim como eu. Espere por mim lá. — Então ela poderá aproveitar a maré. A estrada para Dover está cheia de coches agora. — Excelente. — Joguei-lhe uma moeda. — Certifique-se de que cuidará dela e saiba que, se ela sofrer qualquer dano, irei atrás de você. Os olhos dele pousaram em minha espada. —Acredito na senhora —disse —, pode ficar tranquila quanto a isso. —Ótimo —sorri —, nós nos entendemos. —Parece que sim. Muito bem. Respirei fundo. Eu tinha as cartas. Tinha minha espada e uma bolsa de moedas. Todo o restante seguia com Hélène. O cocheiro encontrou outra carruagem para mim e, enquanto eu embarcava, fiquei olhando ela se afastar, fazendo uma oração silenciosa por sua partida segura. Daí falei ao meu cocheiro: —Fleet Street, por gentileza, monsieur, e não poupe os cavalos. Com um sorriso, ele assentiu e logo estávamos em movimento. Baixei a janela e olhei para trás, bem a tempo de ver o último do grupo dos Carroll embarcando nos coches. Os chicotes cortaram o ar. As duas carruagens começaram a rodar. Pela portinhola, eu disse: — Monsieur, há dois coches a certa distância atrás de nós. Devemos chegar à Fleet Street antes deles. — Sim, mademoiselle — disse o condutor, imperturbável. Ele sacudiu as rédeas. Os cavalos relincharam, os cascos batendo com mais urgência nas pedras do calçamento, e fiquei sentada com a mão na guarda da espada, sabendo que a caçada havia começado. vii Logo parávamos na estalagem Boar’s Head Inn, na Fleet Street. Joguei umas moedas, acenei em agradecimento ao cocheiro e, antes que ele tivesse tempo de abrir minha porta, saltei para o pátio. Estava cheio de diligências e cavalos, de damas e cavalheiros orientando lacaios que grunhiam sob o peso de pacotes e baús. Olhei para a entrada. Não havia sinal dos Carroll. Ótimo. Aquilo me daria a oportunidade de encontrar Ruddock. Entrei furtivamente pela porta dos fundos e tomei uma passagem um tanto escura para a própria taberna, um tanto sombria, com vigas baixas de madeira. Tal como a taberna dos chifres em Calais, o local era animado por risos embriagados de viajantes sedentos, o ar denso de fumaça. Encontrei o estalajadeiro, cuja boca ficava escondida em meio às bochechas fartas, meio sonolento e passando um pano em um copo de estanho, o olhar distante, como se sonhando com um lugar melhor. —Olá? Monsieur? Ele continuou com o olhar vago. Estalei os dedos, chamando ainda mais alto do que o barulho na taberna, e ele voltou a si. —Oque é? —rosnou ele. —Procuro por um homem hospedado aqui, um tal Sr. Ruddock. Ele balançou a cabeça em negativa, a papada se sacudindo juntamente às dobras de pele no pescoço. —Não há ninguém aqui com esse nome. — Talvez esteja usando um nome falso — expliquei, esperançosa —, por favor, monsieur, é importante que eu o encontre. Ele semicerrou os olhos para mim com um interesse renovado. —Como ele é, este seu Sr. Ruddock? —perguntou-me. —Usa trajes de médico, monsieur, pelo menos era assim que se vestia da última vez em que o vi, mas há uma coisa que ele não é capaz de modificar: seu tom distinto de cabelo. —De um branco quase puro? —Exatamente. —Não, não o vi aqui dentro. Mesmo no denso clamor da estalagem, eu conseguia ouvir — uma perturbação no pátio. Obarulho de carruagens chegando. Eram os Carroll. Oestalajadeiro pareceu dar por minha presença. Seus olhos brilharam. —Osenhor o viu —pressionei. — É possível — disse ele e, com olhos inabaláveis, estendeu a mão. Coloquei uma moeda de prata em sua palma. — No segundo andar. Primeiro quarto à esquerda. Usa o nome Mowles. Sr. Gerald Mowles. Parece que é melhor a senhora se apressar. A comoção do lado de fora aumentou e só me restava esperar que demorassem reunindo-se e ajudando a Sra. Carroll e sua filha insuportável a sair da carruagem antes de entrarem na Boar’s Head Inn como uma realeza secundária, dando-me tempo o bastante para... Subi a escada. Primeira porta à esquerda. Prendi a respiração. Eu estava no beiral, as vigas inclinadas quase batendo no alto de meu chapéu. Mesmo assim, era mais silencioso lá em cima, o barulho de baixo tinha sido reduzido a um estardalhaço constante ao fundo, sem sinal da invasão iminente. Levei alguns instantes de calmaria antes da tempestade para me recompor, ergui a mão para bater, depois pensei melhor e me agachei para espiar pelo buraco da fechadura. Ele estava sentado na cama, com uma perna posicionada embaixo do corpo, usava calções e uma camisa desamarrada que deixava à mostra um peito ossudo com tufos de pelo. Embora não parecesse mais o médico daquela imagem, não havia como não reconhecer a cabeleira branca; era ele, sem dúvida nenhuma, o homem que povoara meus pesadelos. Estranho como este terror de minha infância agora não parecia nada ameaçador. Do andar de baixo veio o barulho do pequeno tumulto dos Carroll entrando intempestivamente. Houve vozes elevadas e ameaças, e ouvi meu amigo, o estalajadeiro, protestando enquanto impunham sua presença. Em instantes, Ruddock teria consciência do que acontecia e qualquer elemento surpresa de minha parte estaria perdido. Bati na porta. —Entre —disse ele, o que me surpreendeu. Quando entrei no quarto, ele se levantou para me receber, a mão no quadril, uma postura cuja intenção, percebi com um sobressalto confuso, era ser provocativa. Por um segundo ficamos perplexos com a visão um do outro: ele, postado com a mão no quadril; eu, entrando de rompante. Até que por fim ele falou em uma voz que me surpreendeu por soar refinada. — Lamento, mas você não parece exatamente uma prostituta. Isto é, sem querer ofender, você é mais atraente, mas não se assemelha nada a uma... prostituta. Franzi o cenho. —Não, monsieur, não sou prostituta, sou Élise de la Serre, filha de Julie de la Serre. Ele me olhou ao mesmo tempo com uma expressão vaga e indagativa. —Você tentou nos matar —expliquei. Sua boca formou um O. viii —Ah —disse ele —, e você é a filha adulta vindo se vingar, não? Minha mão estava na guarda da espada. De trás, ouvi o estrondo de botas na escada de madeira, os homens dos Carroll chegando ao segundo andar. Bati a porta e puxei o ferrolho. —Não. Estou aqui para salvar sua vida. —Ah? Será mesmo? Isto é uma reviravolta. —Pode se considerar um homem de sorte —falei. Os passos estavam pouco além da porta. —Saia. —Mas não estou nem mesmo vestido adequadamente. —Saia — insisti, e apontei para a janela. Houve batidas na porta, as quais abalaram seu batente, e Ruddock não precisou ouvir uma terceira vez. Meteu uma perna pelo caixilho e desapareceu, deixando uma forte lufada de suor velho. Deu para ouvi-lo deslizando pelo telhado oblíquo lá fora. Nesse momento a porta se espatifou e se abriu, e os homens dos Carroll entraram de chofre. Eram três. Saquei minha espada e eles, as deles. Logo depois chegaram o Sr. Weatherall e os três membros da família Carroll. —Parem —disse o Sr. Carroll —, pelo amor de Deus, é Mademoiselle de la Serre. Fiquei de costas para a janela, o quarto apinhado de gente agora, com espadas em riste. Atrás de mim, ouvi o estrondo de Ruddock correndo rumo à salvação. —Onde ele está? —perguntou o Sr. Carroll, embora não com o tom de urgência que eu teria esperado. —Não sei —respondi. —Eu mesma vim à procura dele. A um gesto do Sr. Carroll, os três espadachins relaxaram. Carroll parecia confuso. —Entendo. Você veio aqui à procura do Sr. Ruddock. Mas pensei que nós devêssemos estar procurando por ele. Na realidade, pensei ter compreendido que, enquanto assim fizéssemos, você estaria na casa de Jennifer Scott, cuidando de seus afazeres lá. Afazeres templários muito importantes, não? —Foi exatamente o que estive fazendo —eu lhe disse. —Entendo. Bem, primeiro, por que não guarda a espada? Seja uma boa menina. — Porque em vista do que eu soube por Jennifer Scott, minha espada deve permanecer desembainhada. Ele ergueu uma sobrancelha. A Sra. Carroll retorceu o lábio e May Carroll deu uma risadinha zombeteira. O Sr. Weatherall lançou-me um olhar, alertando-me para ter cuidado. — Entendo. Algo que você ouviu de Jennifer Scott, a filha do Assassino Edward Kenway? —Sim. —Meu rubor aumentou. —E você pretende nos contar o que esta mulher, uma inimiga dos Templários, faloulhe a nosso respeito? —Que vocês providenciaram para que Monica e Lucio fossem assassinados. OSr. Carroll deu de ombros brevemente, demonstrando pesar. — Ah, bem, isso é verdade, infelizmente. Uma precaução necessária, a fim de que o subterfúgio não carecesse de veracidade. —Se eu soubesse, nunca teria concordado em participar disto. O Sr. Carroll abriu as mãos como se minha reação fosse uma justificativa para seus atos. A ponta de minha espada curta permanecia em riste. Eu poderia atravessá-lo — atravessá-lo em um instante. Mas se o fizesse, estaria morta antes que seu corpo sequer batesse no chão. —Como sabia que deveria vir até aqui? —questionou ele, dando uma olhadela ao Sr. Weatherall, certamente já sabendo da verdade. Vi os dedos do Sr. Weatherall se flexionarem, prontos para alcançar a própria espada. —Isso não importa —respondi —, o que importa é que cumpram sua parte no trato. —Mas cumprimos de fato —reforçou ele —, no entanto, você cumpriu a sua? —Vocês me pediram para recuperar umas cartas de Jennifer Scott. Foi muito custoso para mim e para minha dama de companhia, Hélène, mas eu consegui. Ele trocou um olhar com a esposa e a filha. —Conseguiu? —Não só consegui como li as cartas. Seus lábios se curvaram para baixo, como se dizendo, “Sim? E então?”. — Li as cartas e tomei nota do que Haytham Kenway tinha a dizer. E envolvia os mundos de Assassinos e Templários cessando hostilidades. Haytham Kenway, uma lenda entre os Templários, teve uma visão de nossas duas ordens, e esta dizia que deveriam trabalhar juntas. — Entendo — disse o Sr. Carroll, assentindo. — E isto significou alguma coisa para você? — Sim — falei, muito segura de repente. — Sim. Partindo dele, significou alguma coisa. Ele assentiu. —Decerto. Decerto. Haytham Kenway foi... corajoso para colocar tais ideias no papel. Se descoberto, teria sido julgado pela Ordem por traição. —Mas ele pode muito bem ter razão. Podemos aprender com seus escritos. OSr. Carroll assentia. — Perfeitamente, minha cara. Podemos. De fato, estarei muito interessado em ver o que ele tem a dizer. Diga-me, por acaso tem as cartas consigo? —Sim —respondi cautelosamente —, sim, eu as tenho. —Ah, que alegria. Que grande alegria. Por acaso posso vê-las, por gentileza? A mão dele estava estendida, de palma para cima. Para além dela, um sorriso que não alcançava os olhos. Coloquei a mão na camisa, tirei o maço de cartas do lugarzinho onde pressionavam meu peito e entreguei a ele. — Obrigado — disse ele com um sorriso, os olhos jamais abandonando os meus enquanto entregava as cartas à filha, que as pegou ao mesmo tempo em que abria um sorriso. Eu sabia o que ia acontecer agora. Estava preparada para isso. E, dito e feito, May Carroll jogou as cartas no fogo. —Não —berrei e avancei, mas não ao fogo, conforme esperavam; fui para o lado do Sr. Weatherall, acotovelando um dos valentões dos Carroll e tirando-o do caminho. O homem soltou um grito de dor, puxou a espada e o tinir do aço no encontro de nossas lâminas dentro daquele minúsculo quarto de estalagem foi ensurdecedor. Ao mesmo tempo, o Sr. Weatherall sacou sua espada e habilidosamente aparou um golpe do segundo homem dos Carroll. —Parem —ordenou o Sr. Carroll, e a escaramuça se encerrou, o Sr. Weatherall e eu de costas para a janela e de frente para os três espadachins, os cinco ofegantes, trocando um olhar inflamado. Com a voz tensa, o Sr. Carroll falou: — Lembrem-se, por favor, cavalheiros, de que Mademoiselle de la Serre e o Sr. Weatherall ainda são nossos convidados. Eu não me sentia exatamente uma convidada. Ao meu lado, o fogo se atiçou e esmoreceu, as cartas reduzidas a cinzas, folhas tremulantes e cinzentas. Verifiquei minha postura: pés separados, centro equilibrado, respiração estável. Meus cotovelos dobrados e próximos ao corpo. Eu mantinha o espadachim mais próximo sob minha mira e o encarava bem nos olhos enquanto o Sr. Weatherall cobria o outro. Oterceiro? Bem, ele se deslocava de um lado a outro. — Por quê? — perguntei ao Sr. Carroll, sem desviar os olhos do espadachim mais próximo, meu parceiro naquela dança. —Por que vocês queimaram as cartas? —Porque não pode haver trégua com os Assassinos, Élise. —E por que não? Com a cabeça ligeiramente tombada de lado e as mãos entrelaçadas diante do corpo, ele sorriu com condescendência. — Você não compreende, minha cara. Nossa gente trava uma guerra com os Assassinos há séculos... —Exatamente —pressionei —, e é por isso que deve parar. —Cale-se, minha cara —ordenou ele, seu tom paternalista dandome nos nervos. — As divisões entre nossas duas ordens são grandiosas demais, o inimigo é entrincheirado demais. É o mesmo que pedir que uma cobra e um mangusto bebam o chá da tarde juntos. Qualquer trégua seria conduzida em uma atmosfera de desconfiança mútua e na expressão de mágoas antigas. Cada um de nós desconfiaria de alguma trama por parte do outro para derrubá-lo. Isto jamais aconteceria. Sim, evitaremos quaisquer tentativas de promover tais ideias — gesticulou ele para o fogo —, quer sejam elas os escritos de Haytham Kenway ou as aspirações de uma jovem ingênua destinada a um dia ser Grã- Mestre da França. Todo o impacto do que ele pretendia dizer me atingiu. —Eu? Pretende me matar? Com a cabeça tombada de lado, ele me olhou com tristeza. —Se for para o bem maior. Empertiguei-me. —Mas sou uma Templária. Ele fez uma careta. —Bem, ainda não é, naturalmente, mas compreendo o que quer dizer e admito que a questão é importante. Só não é o bastante. O simples fato é: as coisas devem ficar como estão. Não se lembra disso de quando nos conhecemos? Meus olhos se transferiram a May Carroll. Com a bolsa pendendo dos dedos enluvados, ela nos observava como se desfrutasse de uma noite no teatro. — Ah, eu me lembro muito bem de nosso primeiro encontro — informei ao Sr. Carroll. —Lembro-me de minha mãe dando-lhe pouquíssima atenção. — Decerto — disse ele. — Sua mãe tinha tendências progressistas que não se alinhavam às nossas. —Quase dá para se achar que vocês a queriam morta —disse eu. OSr. Carroll demonstrou confusão. —Como disse? — Talvez a quisessem morta, com fervor suficiente para contratar um homem para cumprir a tarefa. Um Assassino privado de seus direitos, talvez? Ele bateu palmas, compreendendo. —Ah, entendo. Refere-se ao Sr. Ruddock, que acabou de partir daqui? —Exatamente. —E você pensa que fomos nós que o contratamos? Pensa que fomos nós por trás da tentativa de assassinato? E é este, presumivelmente, o motivo para você ter ajudado o Sr. Ruddock a escapar? Senti-me ruborizar, percebendo que havia me entregado durante os aplausos do Sr. Carroll. —Bem, e não foram? —Por mais que eu deteste decepcioná-la, minha cara, este ato em particular não teve nenhuma relação conosco. Praguejei mentalmente. Se ele estava dizendo a verdade, então eu tinha cometido um erro ao deixar Ruddock ir embora. Eles não tinham motivos para matá-lo. — Assim, você vê nosso problema, Élise — dizia o Sr. Carroll —, pois agora você é uma modesta Templária com concepções fantasiosas. Mas um dia será Grã-Mestre e não terá apenas um, mas dois princípios fundamentais em oposição ao nosso. Receio estar fora de cogitação deixar que você parta da Inglaterra. A mão dele foi à guarda da espada. Fiquei tensa, tentando sentir as probabilidades: eu e o Sr. Weatherall contra três capangas dos Carroll, assim como os três Carroll em pessoa. Eram probabilidades terríveis. — May — disse o Sr. Carroll. — Gostaria de fazer as honras? Você pode enfim derramar sangue. Ela sorriu obsequiosamente para o pai e percebi que era igualzinha a mim: tinha sido treinada na espada, mas ainda não havia matado ninguém. Eu seria sua primeira vítima. Que honra. De trás dela, a Sra. Carroll estendeu uma espada, curta como a minha, feita sob medida para o tamanho e peso de May. A luz cintilou do cabo curto decorado, a espada entregue a ela como um artefato religioso, e ela se virou a fim de pegá-la. —Está pronta para isso, Fedelha? —disse ela ao se virar. Ah, sim, eu estava pronta. O Sr. Weatherall e minha mãe sempre me disseram que toda luta de espada começava na mente e devia terminar com o primeiro golpe. Tudo se resumia a quem faria o primeiro movimento. Assim, tomei a iniciativa. Dancei para frente e cravei a ponta de minha espada na nuca de MayCarroll, fazendo-a varar por sua boca. O primeiro sangue derramado foi meu. Não foi exatamente a morte mais honrada, mas naquele exato momento a última coisa que eu tinha em mente era a honra. Eu estava mais interessada em permanecer viva. ix Era a última coisa que eles esperavam, ver a filha empalada em minha espada. Vi os olhos da Sra. Carroll se arregalarem de incredulidade naquele meio segundo antes de ela gritar de choque e angústia. Ao mesmo tempo, usei meu movimento de avanço para dar um esbarrão de ombro no Sr. Carroll, arrancando a espada do pescoço de May Carroll e atingindo-o com tal força que ele rodou, desequilibrado, e se estatelou na porta. May Carroll arriou, morta antes mesmo de cair no chão, pintando-o com seu sangue; a Sra. Carroll vasculhava a bolsa, mas eu a ignorei. Encontrando meu equilíbrio, agachei-me e girei, esperando um ataque por trás. E ele veio. O espadachim que avançou para mim tinha a incredulidade assustada estampada na cara, incapaz de acreditar na guinada súbita dos acontecimentos. Permaneci abaixada e recebi sua espada com minha lâmina, aparando o ataque e girando o corpo ao mesmo tempo, dando-lhe uma rasteira com minha perna estendida, de modo que ele tombou. Não havia tempo para acabar com ele. Perto da janela, o Sr. Weatherall lutava, no entanto estava em apuros. Dava para notar no rosto dele, uma expressão de perplexidade e derrota iminente, como se não conseguisse compreender por que seus dois adversários ainda estavam de pé. Como se isso jamais tivesse acontecido. Ataquei um de seus agressores. Osegundo homem afastou-se, surpreso, descobrindo repentinamente que agora tinha dois adversários. No entanto, com o primeiro espadachim recuperando-se aos pés dele, o Sr. Carroll erguendo-se e procurando pela espada e a Sra. Carroll enfim pegando algo da bolsa — que por acaso era um revólver mínimo de três canos —, concluí que havia pressionado minha sorte demais. Era hora de fazer o mesmo que meu amigo Sr. Ruddock. —A janela —gritei, e o Sr. Weatherall lançou-me um olhar que dizia “Você deve estar brincando”, antes de eu apoiar as duas mãos em seu peito e empurrá-lo, de modo que ele pousou de traseiro no telhado íngreme do lado de fora. Assim que fiz o mesmo, ouvi um estampido, o barulho de uma bala fazendo contato com algo macio; na janela, notei um leve borrifo de sangue, tal como um lençol de renda vermelha estendido ao longo dela. Mas mesmo enquanto me perguntava se o barulho que ouvira era da bala me atingindo, ou se a névoa de sangue na janela era minha, eu me atirava pela abertura, estraçalhando as telhas do outro lado e escorregando de barriga até o Sr. Weatherall, que havia parado à beira do telhado. Agora eu via que a bala tinha atingido a parte inferior da perna dele, o sangue manchando os calções escuros. As botas dele arranhavam as telhas, que se soltavam e caíam no pátio, acompanhadas pelos gritos e pela correria logo abaixo. Ouvi um berro acima de nós e uma cabeça apareceu na janela. Vi o rosto da Sra. Carroll se contorcer de angústia e fúria, sua necessidade de matar a mulher que tinha executado sua filha dominando-a por completo — sobrepondo-se inclusive à necessidade de se afastar do caixilho para que seus homens pudessem passar e vir atrás de nós. Em vez disso, ela agitava o revólver para nós. Com um rosnado e os dentes arreganhados, apontava a arma para mim —e certamente não podia errar, a não ser que fosse empurrada pelas costas... E foi exatamente o que aconteceu. Seu tiro foi tão violento quanto desnorteado, batendo inofensivamente nas telhas ao nosso lado. Mais tarde, durante nossa fuga a Dover em um cavalo e em uma carruagem, o Sr. Weatherall me contaria que era comum o tambor de um revólver fazer disparar os outros tambores, e que isto “podia ser desagradável” para quem quer que estivesse disparando. Foi precisamente o que aconteceu com a Sra. Carroll. Houve um chiado, depois um estalo, e o revólver veio deslizando pela torre, até nós, enquanto, do alto, a Sra. Carroll gritava e sua mão, agora em tons de vermelho e preto, começava a sangrar. Aproveitei a oportunidade para tirar a perna saudável do Sr. Weatherall do telhado. Ele se dependurou pelas pontas dos dedos, contorcendo o rosto de dor, mas se recusando a gritar enquanto eu manobrava sua outra perna, berrando: “Desculpe por isso”; logo depois escalei pelo corpo dele, pendurei-me e pulei até o pátio abaixo, fazendo os espectadores dispersarem. Foi uma queda curta, mas mesmo assim nos deixou sem ar, o suor brotando no rosto do Sr. Weatherall, que reprimia a dor da perna baleada. Quando se levantou, chamei um cavalo e uma carruagem, e então ele correu, mancando, para assumir seu lugar a meu lado. Tudo aconteceu em um instante. Saímos trovejando do pátio e tomamos a Fleet Street. Olhei para cima e vi rostos na janela do quarto de hóspedes. Eles viriam atrás de nós em breve, eu sabia, por isso impelia os cavalos o máximo que me atrevia, prometendo-lhes mentalmente um petisco saboroso quando chegássemos a Dover. No fim, levamos seis horas, e pude pelo menos agradecer a Deus por não haver sinal dos Carroll atrás de nós pelo caminho. Na realidade, só os vi no momento em que partíamos da praia de Dover em um barco a remo, tomando o rumo do paquete que, segundo nos disseram, estava prestes a levantar âncora. Nossos remadores resmungavam enquanto nos colocavam mais perto da embarcação maior, e observei dois coches com o brasão dos Carroll chegando à rua costeira, no alto da praia. Estávamos nos afastando, tragados pelo mar preto como breu, sem nenhuma luz, os remadores guiados apenas pela luz do paquete, de modo que os Carrol não conseguiam nos enxergar da margem. Mas podíamos vê-los, indistintos porém iluminados pelas lamparinas oscilantes, correndo em busca de sua presa. Eu não conseguia ver o rosto da Sra. Carroll, mas podia imaginar o misto de ódio e tristeza que ela ostentava como uma máscara. Quase desfalecendo, o Sr. Weatherall observava, com a perna ferida escondida embaixo de cobertores de viagem. Ele me viu fazer um bras d’honneur discreto e me cutucou. — Mesmo que conseguissem nos enxergar, não saberiam dizer o que você estava fazendo. Este gesto é rude apenas na França. Aqui, experimente isto. — Ele esticou dois dedos e o imitei. Agora o casco do paquete não estava mais longe. Dava para sentir sua presença volumosa na noite. — Sabe que virão atrás de você — alertou ele, o queixo encostado no peito. — Você matou a filha deles. —E não é só isso. Eu ainda tenho as cartas. —Aquelas que eles queimaram eram uma isca? —Algumas cartas minhas para Arno. —Talvez nunca venham a descobrir isso. Seja como for, virão atrás de você. Eles foram tragados pela noite. A Inglaterra agora era apenas uma massa de terra, penhascos imensos e tingidos pela lua à nossa esquerda. —Eu sei —falei —, mas estarei preparada para eles. —É melhor que esteja mesmo. 

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