8 de janeiro de 1788
Quando volto a ver o registro do diário de 8 de setembro de 1787, é com um
estremecimento de vergonha por ter escrito: “Iria agir corretamente só por ele. Ser a filha
que ele merecia.” Só para depois...
...não fazer absolutamente nada do gênero.
Não apenas deixei de convencer Arno das alegrias de se converter à causa Templária
(uma situação pelo menos em parte criada por mim, perguntando-me deslealmente se de
fato havia alguma alegria na conversão à causa Templária) como meu comportamento na
Maison Royale não melhorou.
Verdadeiramente não melhorou.
Na realidade, ficou bem pior.
Pois ontem mesmo Madame Levene chamou-me à sua sala, a terceira vez em várias
semanas. Quantas vezes fiz o percurso durante esses anos? Centenas? Por insolência,
brigas, escapulir à noite (ah, como eu adorava escapulir à noite, só eu e o orvalho), por
beber, perturbar a ordem, desleixo, ou por meu motivo preferido: “mau comportamento
persistente.”
Não havia ninguém que conhecesse o caminho para a sala de Madame Levene tão bem
quanto eu. Não poderia haver um pedinte vivo que estendesse a palma da mão mais do
que eu. E aprendi a prever o assovio da vara. Até a acolhê-lo. Sem piscar quando a vara
deixava sua marca em minha pele.
Desta vez foi exatamente como eu esperava, outras repercussões de uma briga com
Valerie que, além de ser líder de nosso grupo, era também a estrela teatral quando se
tratava de produções de Racine e Corneille. Aceite meu conselho, caro leitor, e jamais
escolha uma atriz como adversária. Elas são terrivelmente dramáticas em tudo. Ou, como
diria o Sr. Weatherall: “Malditas rainhas do drama!”
É verdade que tal discordância em particular terminou com um olho roxo e um nariz
sangrando em Valerie. Aconteceu enquanto eu supostamente estava de castigo por um ato
de revolta menor no jantar um mês antes, que nem vale ser abordado aqui. A questão foi
que a diretora alegou estar esgotando suas forças. Ela estava “farta de você, Élise de la
Serre. Verdadeiramente farta, minha jovem”.
E houve, naturalmente, a conversa habitual sobre expulsão. Só que, desta vez, eu tinha
certeza de que era mais do que uma simples conversa. Tive certeza de que, quando
Madame Levene me disse que pretendia enviar uma carta fortemente expressa à minha casa
solicitando a atenção imediata de meu pai a fim de que meu futuro na Maison Royale fosse
discutido, não foi simplesmente mais uma série de ameaças vazias e que suas forças
estavam verdadeiramente se esgotando.
Ainda assim, eu não me importei.
Não, isto é, eu não me importo. Faça o que quiser, Levene; faça o que quiser, papai.
Não há círculo do inferno a que vocês possam me entregar pior do que aquele em que já
me encontro.
—Recebi uma carta de Versalhes —disse ela —, seu pai está enviando um emissário
para lidar com você.
Eu estava olhando pela janela, meus olhos percorrendo os muros da Maison Royale
até o exterior, onde eu desejava estar. Agora, porém, voltava meu olhar para Madame
Levene, o rosto murcho de ameixa seca, os olhos como pedra por trás dos óculos.
—Um emissário?
—Sim. E, pelo que li na carta, este emissário recebeu a tarefa de lhe dar algum juízo à
força.
Pensei comigo: um emissário? Meu pai estava enviando um emissário. Ele nem mesmo
virá pessoalmente. Talvez ele planejasse me isolar, pensei, percebendo repentinamente
como a ideia me parecia pavorosa. Meu pai, uma das únicas três pessoas no mundo que
eu verdadeiramente amava e que me era de confiança, simplesmente me excluindo. Eu
estava errada. Havia outro círculo do inferno no qual eu poderia ser lançada.
Madame Levene regozijava.
— Sim. Parece que seu pai está ocupado demais para resolver esta questão
pessoalmente. Deve mandar um emissário em seu lugar. Talvez, Élise, você não seja tão
importante para ele como imagina.
Olhei duramente para a cara exultante da diretora e, por um breve segundo, imaginei
me lançando sobre a mesa e arrancando eu mesma aquele sorriso irônico, mas eu já
fermentava outros planos.
— O emissário deseja vê-la a sós — disse ela, e ambas sabíamos da importância
daquele fato. Significava que eu seria castigada. Como em “fisicamente castigada”.
—Imagino que a senhora ouvirá pela porta.
Ela franziu os lábios. Os olhos pétreos cintilaram.
— Será um prazer saber que sua impertinência terá um preço, Mademoiselle de la
Serre, esteja certa disso.

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