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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 30

Trecho do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794

Tomado de culpa, larguei o diário dela, dominado pela dor que vertia da página. Horrivelmente consciente de que contribuí para sua infelicidade. Élise tem razão. A morte de madame sequer fez-me parar para pensar. Para o menino egoísta que eu era foi só algo que impediu François e Élise de brincarem comigo. Uma inconveniência que significava que, até que as coisas voltassem ao normal —e Élise estava certa: como a casa optou por não guardar o luto, as coisas pareceram voltar ao normal mais rapidamente —, eu tinha de me divertir sozinho. Para minha vergonha, a morte de madame só significava isto para mim. Mas eu era apenas um garotinho, tinha 10 anos. Ah, mas Élise também tinha. Entretanto, estava à minha frente em inteligência. Ela escreve sobre nossa época com o preceptor, mas como ele deve ter resmungado quando era minha vez de aprender. Deve ter guardado os livros didáticos de Élise e procurado versões mais básicas com o coração pesado. Todavia, ao amadurecer tão rapidamente — e, como agora percebo, sendo “preparada” para amadurecer com tal rapidez —, Élise fora obrigada a conviver com um fardo. Ou assim me parece, lendo estas páginas. A garotinha que eu conhecia era apenas uma garotinha, muito divertida e cheia de malícia e, sim, como uma irmã, inventando os melhores jogos, hábil nos pretextos quando éramos apanhados em áreas proibidas ou surrupiando comida da cozinha, ou fazendo quaisquer outros gracejos que ela planejara para o dia. Foi pouco surpreendente então que, quando enviada à escola Maison Royale de SaintLouis, em Saint-Cyr, a fim de completar seus estudos, Élise tivesse se metido em problemas. Nenhum dos lados opostos de sua personalidade era adequado para a vida escolar e, previsivelmente, ela detestou a Maison Royale. Odiou. Embora ficasse a menos de trinta quilômetros de Versalhes, ela poderia muito bem estar em outro país, em vista de toda a distância que sentia entre sua nova vida e a antiga. Nas cartas, referia-se ao lugar como Le Palais de la Misère. As visitas à casa eram restritas a três semanas no verão e alguns dias na época do Natal, enquanto o restante do ano era passado submetendo-se aos regimes da Maison Royale. Élise não era de aceitar regimes. A não ser que lhe fossem adequados. O regime de aprender a espada com o Sr. Weatherall era muito do estilo “Élise”; o regime na escola, por outro lado, era muito do tipo “não Élise”. Ela odiava as restrições da vida escolar. Detestava ter de aprender “habilidades” como bordado e música. Assim, em seu diário, há texto após texto a respeito das confusões nas quais ela se metera na escola. As anotações em si tornam-se repetitivas. Anos e anos de infelicidade e frustração. Na escola, as meninas eram separadas em grupos, cada qual com uma aluna chefe. É claro que Élise foi de encontro à chefe de seu grupo, Valerie, e as duas entraram em combate. Elas literalmente entraram em combate. Às vezes, leio com a mão na boca, sem saber se devo rir do atrevimento de Élise ou ficar chocado. Repetidas vezes, Élise foi levada perante a detestada diretora, Madame Levene, solicitada a se explicar e depois castigada. E repetidas vezes ela reagia com insolência, e isso agravava a situação, então a severidade das punições aumentava. E quanto mais as punições aumentavam, mais rebelde Élise se revelava, e quanto mais rebelde ficava, mais era levada perante a diretora e mais insolente se mostrava, e mais aumentavam os castigos... Sei que costumava se meter em problemas, naturalmente, porque, embora tivéssemos nos visto raras vezes durante este período —com meros olhares furtivos pelas janelas do preceptor durante suas breves férias, o ocasional aceno pesaroso —, nos correspondíamos com regularidade. Eu era um órfão que nunca recebia cartas e a novidade de recebê-las de Élise jamais perdia a graça. E é claro que ela escrevia sobre o ódio pela escola, mas a correspondência carecia dos detalhes de seu diário, do qual pulsava o desprezo e o desdém que Élise sentia pelas outras alunas, pelas professoras e pela odiada diretora, Madame Levene. Nem mesmo uma enorme exibição de fogos de artifício para comemorar o centenário da escola em 1786 pôde fazer algo para melhorar seu humor. O rei aparentemente se postara nos terraços de Versalhes para desfrutar da imensa exibição, mas nem isso foi suficiente para animar Élise. Em vez disso, o diário estava repleto de um senso de injustiça e de uma Élise divergindo do mundo à sua volta — página após página e ano após ano do meu amor falhando em enxergar o círculo vicioso no qual ela estava presa. Uma página depois da outra de Élise deixando de perceber que o que ela fazia não era rebeldia. Era luto. E, continuando a ler, comecei a descobrir que havia algo mais que ela escondia de mim... 

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