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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 61

Trechos do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794

Creio que aqui devo assumir a história. Devo assumi-la dizendo que, quando a encontrei no Templo no dia seguinte, ela estava pálida e abatida, e agora sei o porquê. Há mais de cem anos, o Temple du Marais teve como modelo o Panteão Romano. Elevando-se por trás de uma fachada em arco, com sua própria versão do afamado domo, tinha paredes altas. Oúnico trânsito de entrada e saída era das ocasionais carroças de feno que passavam por um portão traseiro. De imediato, Élise queria que nos separássemos, mas eu não tinha certeza; havia algo nos olhos dela, como se faltasse alguma coisa, como se uma parte dela de algum modo estivesse ausente. E, de alguma maneira, eu creio, estava certo. Tomei aquilo então como uma amostra de determinação e foco e não li nada em seus diários que sugerisse algo além em larga escala. Élise podia estar determinada a alcançar Germain, mas não acho que ela acreditasse que seria assassinada, apenas que mataria Germain naquele dia ou que morreria ao fazê- lo. E talvez ela permitisse que a serenidade da alma tragasse seu medo, esquecendo-se de que, às vezes, embora você seja determinado, embora suas habilidades em combate sejam avançadas, é o medo que o mantém vivo. Pouco antes de nos dividirmos para encontrar uma entrada para o santuário interno do Templo, ela havia fixado um olhar sugestivo e dissera: —Se você tiver uma chance de eliminar Germain, aproveite-a. ii E assim o fiz. Encontrei-o dentro do Templo, sombrio em meio às pedras cinzentas e úmidas, uma figura solitária entre os pilares dentro da igreja. E ali tive minha chance. No entanto, ele era veloz demais para mim. Sacou uma espada de poderes misteriosos. Aquela espada era o tipo de coisa da qual eu riria antigamente e alegaria ser um truque. Hoje em dia, é claro, sei que não devo zombar do que não compreendo e, de qualquer modo, enquanto Germain brandia o estranho objeto cintilante, ele parecia criar e desencadear grandes raios de energia, como se os convertendo do ar ao redor. Parecia brilhar e faiscar. Não, não havia motivo para rir daquela espada. Ela se manifestou novamente, faiscando e lançando um raio de energia que parecia saltar para mim, como se tivesse vontade própria. — Então o assassino pródigo retornou — disse Germain. — Desconfiei quando La Touche parou de enviar sua receita de impostos. Você se tornou um espinho em meu sapato. Saí de meu esconderijo de trás de uma coluna, minha lâmina oculta estendida e brilhando fracamente à meia-luz. — Devo supor que Robespierre também foi executado? — disse ele enquanto nos posicionávamos. Abri um sorriso, concordando. — Não importa — ele sorriu —, seu Reinado de Terror serviu a seu propósito. O metal foi aquecido e modelado. Resfriá-lo só estabelecerá sua forma. Disparei para a frente e golpeei a espada, não com o intuito de desviá-la, mas de danificá-la, sabendo que se eu pudesse desarmá-lo de algum modo, viraria a batalha a meu favor. — Por que tanta insistência? — provocou ele. — É vingança? Bellec o doutrinou a ponto de você agir em nome dele mesmo tardiamente? Ou será amor? A filha do Monsieur de la Serre mexeu com sua cabeça? Minha lâmina oculta desceu com força na haste da espada e a arma pareceu soltar um brilho colérico e ferido, como se estivesse machucada. Mesmo assim, Germain, agora de pé, de algum modo conseguiu invocar seu poder de novo, desta vez de uma forma que até eu tive dificuldades para acreditar. Com uma explosão de energia que me atirou para trás e deixou uma marca de queimadura no chão, o Grão-Mestre simplesmente desapareceu. Bem do fundo, nos recessos do Templo, veio um estrondo que pareceu ondular pelas paredes de pedra, e me levantei para seguir naquela direção, tropeçando pelos degraus úmidos até chegar à cripta. A minha esquerda, Élise saiu da penumbra das catacumbas. Esperta. Se tivesse chegado um pouco antes, teríamos interceptado Germain dos dois lados. (Tais momentos, percebo agora — alguns segundos aqui, alguns segundos acolá. Todos peculiaridades mínimas e dolorosas no tempo que acabaram por decidir o destino de Élise.) — O que houve aqui? — disse ela, examinando o que costumava ser o portão da cripta, mas que agora estava escurecido e retorcido. Balancei a cabeça. —Germain tem uma espécie de arma... Nunca vi nada parecido. Ele escapou de mim. Ela mal olhou para o meu lado. —Ele não passou por mim. Deve estar aqui embaixo. Lancei um olhar de dúvida. Mesmo assim, com nossas espadas em riste, descemos os poucos degraus restantes à cripta. Vazia. Mas tinha de haver uma porta secreta. Comecei a procurar às apalpadelas e as pontas de meus dedos encontraram uma alavanca entre a pedra, a qual puxei; recuei quando uma porta deslizou com um som agudo como o de um triturar e uma grande câmara se estendeu adiante, ladeada de pilares e sarcófagos Templários. Dentro dela, estava Germain. De costas para nós, e percebi que sua espada de algum modo havia recuperado o poder e que ele nos aguardava, quando, do meu lado, Élise saltou com um grito de fúria. —Élise! E assim que Élise se lançou em cima dele, Germain girou o corpo, brandindo a espada reluzente, fazendo com que um raio de energia feito uma serpente saísse dela, nos obrigando a nos jogar de lado para nos proteger. Ele riu. —Ah, temos Mademoiselle de la Serre também. Este é um reencontro e tanto. —Continue escondida —sussurrei para Élise —, deixe que ele fale. Ela assentiu e se agachou atrás de um sarcófago, gesticulando para mim e falando com Germain ao mesmo tempo. — Você pensou que este dia jamais chegaria — disse ela —, que seu crime ficaria impune pelo fato de François de la Serre não ter tido filhos homens para se vingar? —Vingança? —Ele riu. —Sua visão é tão estreita quanto a de seu pai. Ela rebateu gritando: —Veja só quem fala. Que amplitude de visão teve sua tomada de poder? — Poder? Não, não, não, você é mais inteligente do que isso. Nunca se tratou de poder. Sempre foi pelo controle. Seu pai não lhe ensinou nada? A Ordem tornou-se complacente. Durante séculos concentramos a atenção nas armadilhas do poder: os títulos de nobreza, os cargos da Igreja e do Estado. Apanhados na mesma mentira que elaboramos para conduzir as massas. —Eu vou matar você —disse ela. —Você não está me ouvindo. Matar-me não impedirá nada. Quando nossos irmãos Templários virem as antigas instituições em ruínas, eles se adaptarão. Daí recuarão para as sombras, e nós, enfim, seremos os Mestres Secretos que deveríamos ser. Então venha... Mate-me, se puder. A menos que por milagre você consiga materializar um novo rei e seja capaz de deter a revolução em andamento, isso não fará diferença. Disparei de meu canto, aparecendo no lado cego de Germain e sem sorte para não dar cabo dele com minha lâmina; em vez disso, sua espada estalou furiosamente e um globo de energia branca azulada veio disparando dela na velocidade de uma bala de canhão, infligindo dano semelhante à câmara à nossa volta. Em um momento fui engolfado pela poeira enquanto a alvenaria caía ao redor — e no instante seguinte eu estava preso embaixo de um pilar caído. —Arno —chamou Élise. —Estou preso. O que quer que fosse aquela grande bola de energia, Germain não tinha pleno controle sobre ela. Ele agora se recompunha, tossindo e de olhos semicerrados para a poeira em turbilhão, cambaleando na alvenaria espalhada pelo piso de pedra enquanto se esforçava para se manter de pé. Recurvado, ele se ergueu e se perguntou se deveria acabar conosco, mas evidentemente optou pelo contrário e, em vez disso, girou e fugiu para as profundezas da câmara, sua espada cuspindo as faíscas furiosas de um ferreiro. Observei enquanto os olhos desesperados de Élise saíram de mim, momentaneamente impotente e necessitando de ajuda, e pousaram na figura de Germain, que se retirava. Ela voltou a olhar para mim. —Ele está fugindo —disse ela, os olhos ardendo de frustração e, quando voltou a me olhar, pude ver a indecisão estampada por todo o rosto. Havia duas opções. Ficar e deixar Germain escapar, ou ir atrás dele. Nunca houve dúvida nenhuma, de fato, sobre a opção que ela escolheria. —Eu posso pegá-lo —disse ela, decidindo. —Não pode —alertei. —Não sozinha. Espere por mim. Élise. Mas ela desapareceu. Com um uivo de esforço, libertei-me da pedra, coloquei-me de pé com dificuldade e parti atrás dela. E se eu tivesse chegado alguns segundos antes (conforme eu já tinha dito —cada passo do caminho para a morte dela fora decidido por meros segundos), poderia ter revertido a batalha, porque Germain se defendia furiosamente, o esforço estampado em suas feições cruéis; e talvez a espada dele —aquela coisa que eu concluíra ser quase viva —de algum modo sentisse que seu dono estava à beira da derrota... porque logo após uma forte explosão de som, luz e um imenso estouro indiscriminado de energia, ela se espatifou. A força me abalou, mas meu primeiro pensamento foi para Élise. Ela e Germain estavam bem no centro da explosão. Através da poeira, vi o cabelo ruivo; Élise jazia amarfanhada sob uma coluna. Corri até lá, fiquei de joelhos, tomei sua cabeça em minhas mãos. Havia uma luz intensa nos olhos dela. Élise me viu, eu acho, no segundo antes de morrer. Ela me viu e a luz entrou em seus olhos pela última vez —e foi extinta. iii Durante algum tempo ignorei a tosse de Germain e baixei a cabeça de Élise na pedra gentilmente, fechando seus olhos. Daí me levantei, atravessando a câmara tomada de destroços até onde ele estava prostrado, o sangue borbulhando da boca, olhando para mim, quase morto. Ajoelhei-me. Sem tirar os olhos dele, cravei a lâmina em seu corpo e concluí o trabalho. Tive uma visão quando Germain morreu. (E deixe-me interromper para imaginar o olhar enviesado de Élise quando lhe falei das visões. Nem de crença, nem de dúvida.) Esta visão foi diferente das outras. De algum modo, eu estava presente nela, de uma forma que jamais tinha visto. Flagrei-me na oficina de Germain, observando-o; ele exibia a aparência que um dia tivera, com as roupas de um prateiro, sentado, preparando um broche. Enquanto eu o olhava, ele segurou as têmporas e começou a murmurar sozinho, como se atacado por algo em sua cabeça. Oque era?, perguntei-me, quando veio uma voz de trás de mim, assustando-me. —Bravo. Você eliminou o vilão. Foi assim que representou sua pequena peça moral em sua mente, não foi? Ainda na visão, eu me virei para a origem da voz, encontrando outro Germain —este muito mais velho, o Germain que eu conhecia —de pé atrás de mim. —Ah, não estou realmente aqui —explicou ele —, nem tampouco estou realmente lá. No momento sangro no chão do Templo. Mas parece que o pai da compreensão julgou adequado nos dar este tempo para conversar. De repente a cena se alterou e estávamos na câmara secreta sob o Templo, onde ocorrera a luta, mas ela estava incólume e não havia sinal de Élise, nenhum entulho pelo chão. Oque eu via eram cenas de uma época anterior, enquanto o Germain mais jovem se aproximava do altar onde estavam os textos de Jacques de Molay. —Ah —veio a voz do guia-Germain atrás de mim. —Particularmente uma de minhas favoritas. Eu não compreendia as visões que assombravam minha mente, entenda bem. Imagens de grandes torres douradas, cidades brilhando, brancas como prata. Pensei que fosse enlouquecer. E então encontrei este lugar... A câmara de Jacques de Molay. Por seus escritos, eu compreendi. —Compreendeu o quê? —Que de algum modo, ao longo dos séculos, eu estava ligado ao Grão-Mestre Jacques de Molay. Que fui escolhido para purificar a Ordem da decadência e da corrupção que se estabelecera como uma podridão. Para limpar o mundo e restaurá-lo à verdade que o pai da compreensão pretendia. E mais uma vez a cena se alterou. Desta feita me vi em uma sala, onde Templários de alta posição julgavam Germain e o baniam da Ordem. — Os profetas não são valorizados em sua época — explicou ele atrás de mim. — O exílio e a desonra obrigaram-me a reexaminar minhas estratégias, a encontrar novas possibilidades para a realização de meu propósito. Mais uma vez, a cena se alterou e me vi sendo tomado de assalto por imagens do Terror, a guilhotina erguendo-se e caindo como o bater inexorável de um relógio. —Não importando o custo disso? —perguntei. —Uma nova ordem nunca chega sem que a antiga seja destruída. E se os homens são feitos para temerem a liberdade desenfreada, tanto melhor. Um breve sabor do caos os lembrará de por que anseiam pela obediência. E então a cena se distorceu novamente e de novo estávamos na câmara. Desta vez, instantes antes da explosão que havia roubado a vida dela, e vi no rosto de Élise o esforço para dar o golpe derradeiro da batalha, e tive esperanças de que ela soubesse que o pai havia sido vingado, e que isto lhe trouxesse alguma paz. — Parece que nos separamos aqui — disse Germain. — Pense nisto: a marcha do progresso é lenta, mas inevitável como uma geleira. Só o que você fez aqui foi adiar o inevitável. Uma morte não pode deter a maré. Talvez o rebanho da humanidade não vá ser conduzido de volta ao lugar correto por minhas mãos... Mas será pelas mãos de alguém. Pense nisso quando se lembrar dela. Eu pensaria. Algo me perturbava nas semanas depois da morte de Élise. Como era possível que eu a conhecesse melhor do que qualquer um, que tivesse passado mais tempo com ela do que qualquer outro e que isso de nada valesse no fim, porque na realidade eu não a conhecia? A garota, sim, mas não a mulher que se tornou. Vendo-a crescer, eu nunca tive verdadeiramente a oportunidade de admirar o florescimento da beleza de Élise. E, agora, jamais admirarei. Acabou-se o futuro que tínhamos juntos. Meu coração dói por ela. Meu peito está pesado. Choro pelo amor perdido, pelos dias passados do ontem, pelos amanhãs que jamais existirão. Choro por Élise que, apesar de todos os defeitos, foi a melhor pessoa que conheci. Logo depois de sua morte, um homem chamado Ruddock procurou-me em Versalhes. Cheirando a um perfume que não conseguia mascarar um odor corporal quase dominador, trouxe uma carta com a inscrição: a ser aberta na eventualidade de minha morte. Olacre estava rompido. —Você a leu? —perguntei. —De fato, senhor. Com o coração pesado, como me foi instruído. —Era para ser aberta na eventualidade da morte dela —disse, sentindo-me um tanto traído pela emoção que abalava minha voz. — É bem verdade. Depois de receber a carta, coloquei-a em uma cômoda, na esperança de nunca mais vê-la, para ser franco com o senhor. Olhei-o fixamente. —Diga-me a verdade, você a leu antes de ela morrer? Porque, se leu, podia ter feito algo a respeito de sua morte. Ruddock abriu um sorriso superficial e um pouco triste. —E poderia eu? Penso que não, Sr. Dorian. Soldados costumam escrever tais cartas antes da batalha, senhor. O simples fato de que eles pensam na própria mortalidade não cria um adiamento. Ele lera, eu sabia. Havia lido antes que ela morresse. Franzi o cenho, abri o papel e comecei a ler comigo mesmo as palavras de Élise. Ruddock Perdoe-me pela falta de amabilidades mas receio ter resolvido meus sentimentos por você e são os seguintes: não gosto muito de você. Lamento por isso e imagino que o considere algo rude de se anunciar, mas se estiver lendo esta carta, ou ignorou minhas instruções ou eu estou morta e, de qualquer modo, nenhum de nós deve se preocupar com questões de etiqueta. Ora, apesar de meus sentimentos por você, aprecio suas tentativas de me recompensar por seus atos e fico comovida por sua lealdade. É por este motivo que eu lhe pediria para mostrar esta carta a meu amado Arno Dorian, ele mesmo um Assassino, e confiar que ele a tomará como testemunho de seuscaminhos divergentes. Porém, como duvido muito que uma Templária falecida venha ser o bastante para que você agrade a Irmandade, tenho algomais para você também. Arno, eu peço que você passe ascartas de que estou prestes a falar aMonsieur Ruddock, a fim de que ele possa usá-las para cair nas graças dos Assassinos, na esperança de ser aceito de volta ao Credo. Monsieur Ruddock estará ciente de que este feito exemplifica minha confiança nele e minha crença de que essa tarefa será concluída antestarde do que nunca, e por este motivo não exigirei monitoramento algum. Arno, o restante da carta é para você. Rezo para que eu retorne de meu confronto com Germain e possa recuperar esta carta com Ruddock, rasgá-la e não pensar mais em seu conteúdo. Mas, se estiver lendo, significa primeiramente que minha confiança em Ruddock teve suasrecompensase, em segundo lugar, que estou morta. Há muito que tenho de lhe contar do além-túmulo e, para este fim, lego a você meus diários, cujo mais recente você encontrará em meu embornal, os anteriores guardadosem um esconderijo com ascartas de que falo. Se você, quando examinar o baú, chegar à triste conclusão de que não valorizei as cartas que enviou a mim, por favor, entenda que o motivo pode ser encontrado nas páginas de meus diários. Você também encontrará um colar, dado amim por Jennifer Scott. Faltava a página seguinte. —Onde está o restante? —exigi saber. Ruddock ergueu as mãos, para me acalmar. — Ah, ora essa. A segunda página inclui uma mensagem especial relacionada com a localização das cartas que Mademoiselle diz poderem provar minha redenção. E, ora, hummm, perdoe-me pela aparente grosseria, mas me parece que se eu lhe entregar esta carta não terei “moeda de troca” e nenhuma garantia de que você simplesmente não pegaria as cartas e as usaria para favorecer sua própria posição na Irmandade. Olhei-o, gesticulando com a carta. —Élise pede-me que confie em você e eu lhe peço para fazer o mesmo por mim. Tem a minha palavra de honra de que as cartas serão suas. —Então, basta para mim. —Ele fez uma mesura e me entregou a segunda página da carta. Li até que cheguei ao fim... ...agora, naturalmente, estou deitada no Cimetière des Innocents e estou com meus pais, perto daqueles a quem amo. Porém, a quem amo mais do que tudo, Arno, é você. Espero que entenda o quanto eu o amo. E espero que você me ame também. E por me dar a honra de conhecer tal emoção satisfatória, agradeço a você. Sua amada, Élise —Ela não diz onde estão as cartas? —perguntou esperançoso Ruddock. —Diz —disse a ele. —E onde estão, senhor? Olhei-o, vi-o pelos olhos de Élise e pude ver que havia algumas coisas importantes demais para que fossem deixadas a alguém de confiabilidade tão recente. —Você leu; já sabe. —Ela chamou de Le Palais de laMisère. Isto significa algo para o senhor? —Sim, obrigado, Ruddock, significa algo. Sei aonde ir. Por favor, deixe seu endereço atual comigo. Entrarei em contato assim que recuperar as cartas. Saiba que, por gratidão a você pelo que fez, endossarei qualquer esforço seu para cair nas graças dos Assassinos. Ele se ergueu um pouco e endireitou os ombros. —Agradeço por isto... irmão. iv Havia um jovem em uma carroça na estrada. Estava sentado com uma perna erguida e de braços cruzados, semicerrando os olhos para mim por baixo da aba larga do chapéu de palha, pontilhado pelo sol que abriu caminho por um dossel de galhos folhosos no alto. Ele esperava —esperava, ao que parecia, por mim. —É Arno Dorian, Monsieur? —perguntou ele, sentando-se direito. —Sou. Seus olhos dispararam. —Tem uma lâmina oculta? —Pensa que sou um Assassino? —Osenhor é? Com um estalo ela surgiu, cintilando ao sol. Com a mesma rapidez, eu a retraí. Ojovem assentiu. —Meu nome é Jacques. Élise era minha amiga, uma boa senhora para minha esposa Hélène e a confidente mais íntima de... um homem que também mora conosco. —Um italiano? —perguntei, testando-o. —Não, senhor. —Ele sorriu. —Um inglês que atende pelo nome de Sr. Weatherall. Sorri para ele. —Creio que é melhor você me levar a ele, não? Em sua carroça, Jacques seguiu na frente e tomamos um caminho que nos levou pela margem de um rio. Na outra margem, havia um gramado bem-cuidado que subia a uma ala da Maison Royale, e olhei para lá com uma mescla de tristeza e espanto — tristeza porque a mera visão me lembrava dela. Espanto porque não era nada do que eu imaginava pelo retrato satânico que ela pintou em suas cartas todos aqueles anos. Continuamos, como se fôssemos para a escola, o que de fato fazíamos. Élise havia mencionado um chalé. E demos em uma construção baixa de base larga em uma clareira, com dois anexos em ruínas não muito longe dali. De pé em um degrau da varanda, estava um homem de muletas. As muletas eram novas, naturalmente, mas reconheci um pouco a barba branca de tê- lo visto pelo château quando eu era menino. Ele era alguém que pertencia à “outra” vida de Élise, sua vida de François e Julie. Não alguém com quem eu me preocupasse na época. Nem ele comigo. Entretanto, é claro, escrevo esta entrada tendo lido os diários de Élise e agora posso apreciar a posição que ele tinha na vida dela, e mais uma vez me admiro do pouco que eu sabia de Élise; mais uma vez lamento a oportunidade de ter descoberto a “verdadeira” Élise, a Élise sem segredos a guardar e um destino a cumprir. Às vezes penso que, com tudo o que tinha nos ombros, estávamos condenados desde o início, ela e eu. — Olá, filho — resmungou ele para mim da varanda. — Já faz muito tempo. Mal o reconheço. —Olá, Sr. Weatherall —respondi, desmontando e amarrando meu cavalo. Aproximei-me dele e, se eu soubesse na época o que sei agora, eu o teria cumprimentado à moda francesa com um abraço e teríamos partilhado a solidariedade do luto, nós, os dois homens mais próximos de Élise; mas não o fiz, ele era apenas um rosto do passado. Dentro do chalé a decoração era simples, a mobília, espartana. O Sr. Weatherall apoiou-se em suas muletas e me conduziu a uma mesa, solicitando café a uma menina que supus ser Hélène, a quem sorri e recebi uma mesura em troca. Mais uma vez, importei-me menos com ela do que teria feito se tivesse lido os diários. Eu estava dando os primeiros passos na outra vida de Élise, sentindo-me um intruso, como se não devesse estar ali. Jacques entrou também, tirando um chapéu imaginário e cumprimentado Hélène com um beijo. O clima na cozinha era agitado. Aconchegante. Não admirava que Élise gostasse dali. —Eu era esperado? —perguntei, assentindo para Jacques. OSr. Weatherall se acomodou antes de assentir pensativamente. —Élise escreveu dizendo que Arno Dorian poderia vir pegar seu baú. E então, alguns dias atrás, Madame Levene trouxe a notícia de que ela havia sido morta. Ergui uma sobrancelha. —Ela escreveu ao senhor? E não suspeitou de que havia algo errado? —Filho, posso ter madeira sob as axilas, mas não pense que a tenho na cabeça. Oque eu suspeitei era de que ela ainda estivesse zangada comigo, e não que fizesse planos. —Ela estava zangada com o senhor? — Tivemos uma discussão. Separamo-nos em termos ruins. Os termos ruins do gênero não-estamos-nos-falando. —Entendo. Eu mesmo estive na extremidade receptora do mau gênio de Élise várias vezes. Nunca é muito agradável. Nós nos olhamos, os sorrisos aparecendo. O Sr. Weatherall meteu o queixo no peito enquanto assentia com a recordação agridoce. —Ah, sim, decerto. Uma vontade e tanto aquela ali tinha. —Ele me olhou. —Imagino que tenha sido isso que a matou, não? —Oque soube a respeito disso? —Que a nobre Élise de la Serre de algum modo se envolveu em uma altercação com o renomado prateiro François Thomas Germain e que as espadas foram sacadas e os dois travaram uma batalha que terminou com a morte de ambos nas mãos um do outro. Foi assim que você viu, não? Concordei com a cabeça. —Ela foi atrás dele. Podia ter mostrado mais cautela. Ele meneou a cabeça. —Ela nunca foi de demonstrar cautela. Impôs uma boa batalha a ele, não foi? —Ela lutou como um tigre, Sr. Weatherall, valorizou muito seu parceiro de luta. Ohomem mais velho soltou uma risada curta e sem humor. — Houve um tempo em que também fui parceiro de luta de François Thomas Germain, entenda. Sim, pode fazer essa cara. O traiçoeiro Germain afiou as próprias habilidades com uma lâmina de madeira brandida por Freddie Weatherall. Na época em que era impensável que um Templário se voltasse contra outro Templário. — Impensável? Por quê? Os Templários eram menos ambiciosos quando o senhor era jovem? O processo de apunhalar pelas costas em nome do progresso era menos desenvolvido? — Não — o Sr. Weatherall sorriu —, apenas éramos mais jovens e um pouco mais idealistas quando se tratava de nossos companheiros. v Talvez tivéssemos mais a dizer um ao outro se um dia nos reencontrássemos. Na ocasião, éramos dois homens cuja intimidade com Élise tinha muito pouco em comum, e quando a conversa enfim murchou e secou como uma folha de outono, pedi para ver o baú. Ele o mostrou a mim e o carreguei à mesa da cozinha e o baixei, passando as mãos pelo monograma EDLS, depois o abri. Dentro dele, como Élise dissera, estavam as cartas, seus diários e o colar. — Algo mais — disse o Sr. Weatherall e saiu, voltando alguns minutos depois com uma espada curta. —A primeira espada de Élise —explicou ele, colocando-a no baú com um olhar desdenhoso, como se eu devesse reconhecer de imediato. Como se eu tivesse muito a aprender sobre Élise. E, claramente, eu tinha. E agora entendo isso, e percebo que devo ter parecido um tanto arrogante em minha visita, como se essas pessoas não fossem dignas de Élise, quando na realidade era bem o contrário. Fui encher meus alforjes com os pertences dela, pronto para transportá-los de volta a Versalhes, saindo em uma clareira em uma noite silenciosa e enluarada e indo a meu cavalo. Parei na clareira, com a fivela de uma bolsa na mão, quando senti um cheiro. Algo inconfundível. Era perfume. vi Pensando que estávamos de partida, minha égua resfolegou e pisoteou, mas eu a acalmei, acariciando seu pescoço e cheirando o ar ao mesmo tempo. Lambi um dedo, ergui-o e verifiquei que o vento vinha de trás de mim. Examinei o perímetro da clareira. Talvez fosse uma das meninas da escola que havia descido aqui por algum motivo. Talvez fosse a mãe de Jacques... Ou talvez eu tenha reconhecido o aroma e soubesse exatamente de quem era. Dei com ele atrás de uma árvore, o cabelo branco quase luminoso ao luar. —Oque está fazendo aqui? —perguntei-lhe. Ruddock. Ele fez uma careta. — Ah, bem, veja só, eu... Bem, pode-se dizer que eu estava apenas protegendo meu prêmio. Meneei a cabeça, irritado. —Então, afinal, não confia em mim? —Ora, você confia em mim? Élise confiava em mim? Algum de nós confia no outro, nós que temos uma vida em sociedades secretas? —Venha —falei —, entre. vii —Quem é esse? Os ocupantes do chalé, tendo ido para a cama minutos antes, reapareceram: Hélène de camisola, Jacques só de calções, o Sr. Weatherall ainda inteiramente vestido. —Seu nome é Ruddock. Não creio que já tenha visto uma transformação tão extraordinária como a que aconteceu com o Sr. Weatherall. Seu rosto se avermelhou, a fúria atravessando-o enquanto seu olhar frio caía em Ruddock. —OSr. Ruddockpretende pegar suas cartas e depois irá embora —continuei. —Você não me disse que as cartas eram dele —disse Weatherall com um rosnado. Lancei-lhe um olhar, pensando que eu estava ficando cansado de Weatherall e que o quanto antes meus assuntos estivessem concluídos, melhor. —Percebo que há animosidade entre vocês. OSr. Weatherall apenas olhou feio; Ruddock sorriu com afetação. —Élise o afiançava —eu disse ao Sr. Weatherall. —Ele é, segundo consta, um homem transformado, e foi perdoado por seus maus feitos do passado. —Por favor —implorou-me Ruddock, com os olhos disparando, claramente nervoso pelo trovão que rolava pelo rosto do Sr. Weatherall —, basta me entregar as cartas e eu irei embora. —Você terá suas cartas, se é o que quer —disse o Sr. Weatherall, avançando ao baú —, mas, acredite em mim, se não fosse o desejo de Élise, você as estaria pegando com a garganta. — Eu a amava à minha própria maneira — protestou Ruddock. — Ela salvou minha vida duas vezes. Perto do baú, o Sr. Weatherall parou. —Ela salvou sua vida duas vezes? Ruddock torcia as mãos. —Salvou; salvou-me da forca e antes disso dos Carroll. Ainda parado perto do baú, o Sr. Weatherall assentiu pensativamente. —Sim, lembro-me de que ela o salvou da forca. Mas os Carroll... Uma sombra de culpa passou pelo rosto de Ruddock. —Bem, ela me disse na época que os Carroll vinham atrás de mim. —Você os conhecia, os Carroll? —perguntou o Sr. Weatherall com inocência. Ruddock engoliu em seco. —Eu sabia deles, naturalmente. —E você fugiu? Ele se empertigou. —Como teria feito qualquer um em minha situação. — Exatamente — disse o Sr. Weatherall, assentindo. — Você agiu corretamente, perdendo toda a diversão. Ainda resta o fato, porém, de que eles não iam matá-lo. —Então suponho que teríamos de dizer que Élise salvou minha vida uma única vez. Creio que isto não importa e, afinal, uma vez é o bastante. —A não ser que eles fossem matar você. Ruddock soltou um riso nervoso, seus olhos adejando pela sala. —Bem, o senhor mesmo disse que eles não iam. — Mas, e se fossem? — pressionou o Sr. Weatherall. Perguntei-me onde raios ele queria chegar. —Eles não iam —disse Ruddock com um tom sedutor na voz. —Como sabe? —Como disse? O suor brilhava na testa de Ruddock e o sorriso em sua cara era torto e apreensivo. Seu olhar encontrou o meu como se procurasse apoio, mas não encontrou nenhum. Eu apenas observava. Observava atentamente. —Veja bem —continuou o Sr. Weatherall —, creio que você estava trabalhando para os Carroll na época e pensou que eles estavam prestes a silenciá-lo... o que poderiam muito bem ter feito. Creio que ou você nos deu falsas informações sobre o Rei dos Mendigos, ou ele trabalhava para os Carroll quando o contratou para matar Julie de la Serre. É o que eu penso. Ruddock balançava a cabeça. Tentou uma expressão de indiferença e ironia, tentou aparentar uma indignação “isto é um ultraje”, e acabou conformando-se com o pânico. —Não —disse ele —, agora isso já vai longe demais. Eu trabalho sozinho. —Mas tem a ambição de se reintegrar aos Assassinos? —incitei-o. Ele balançou a cabeça furiosamente. —Não, fui curado de tudo isso. E sabe quem finalmente me curou? Ora, a fragrante Élise. Ela odiava as suas ordens, sabia? Dois carrapatos lutando pelo controle do gato, era como chamava vocês. Inúteis e iludidos, era como Élise os chamava, e tinha razão. Ela me falou que eu ficaria melhor sem vocês e estava certa. —Ele nos olhou com desprezo. — Templários? Assassinos? Eu os desdenho, são um bando de velhas indignas se bicando por dogmas antigos. — Então não tem interesse em voltar a fazer parte dos Assassinos, e assim não tem interesse nas cartas? —perguntei-lhe. —Nenhum —insistiu ele. —E o que está fazendo aqui? —eu disse. O conhecimento de que o buraco que ele cavara estava fundo demais faiscou por seu rosto e ele, girando o corpo, em um só movimento sacou as pistolas. Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou Hélène, apontou uma das pistolas para sua cabeça e cobriu a sala com a outra. —Os Carroll mandam lembranças —respondeu ele. viii Enquanto um novo tipo de tensão cobria a sala, Hélène choramingava. A carne de sua têmpora empalideceu onde o cano da pistola apontava com força e ela olhava suplicante por cima do braço de Ruddock para onde Jacques estava, tenso e pronto para atacar, controlando o ímpeto de ir até lá, libertar Hélène e matar Ruddock com a necessidade de não o assustar e fazer com que atirasse nela. — Talvez — falei depois de um silêncio — você queira nos dizer quem são esses Carroll. — A família Carroll de Londres — disse Ruddock, com um olho em Jacques, ainda tenso, seu rosto em nós. — No início eles tinham esperanças de influenciar o caminho dos Templários franceses, mas Élise os aborreceu matando sua filha, o que conferiu a tudo uma dimensão um tanto “pessoal”. “E naturalmente fizeram o que faria qualquer bom genitor com muito dinheiro e uma rede de matadores a sua disposição, encomendaram a vingança. Não só contra ela, mas seu protetor... ah, tenho certeza de que eles pagarão muito bem por estas cartas, na barganha.” —Élise tinha razão —disse o Sr. Weatherall consigo mesmo. —Ela jamais acreditou que os Corvos tivessem tentado matar sua mãe. E tinha razão. — Tinha — disse Ruddock quase com tristeza, como se desejasse que ela também estivesse ali. Eu também a queria ali. Teria gostado de vê-la dilacerando Ruddock. —Assim, acabou —falei simplesmente a Ruddock. —Você sabe tão bem quanto nós que não pode matar o Sr. Weatherall e sair daqui vivo. —Veremos —ordenou. —Agora abra a porta e se afaste. Fiquei onde estava até que ele me lançou um olhar de alerta ao mesmo tempo em que arrancava um grito de dor de Hélène com o cano da pistola. Assim, abri a porta e andei alguns passos de lado. —Posso lhe propor um negócio —disse Ruddock, empurrando Hélène e voltando ao retângulo da entrada. Jacques, ainda tenso e morto de vontade de pegar Ruddock; o Sr. Weatherall, furioso mas raciocinando; e eu, observando e esperando, os dedos flexionando-se na lâmina oculta. —A vida dele pela dela —continuou Ruddock, apontando o Sr. Weatherall. —Você me permite matá-lo agora e solto a mulher quando eu estiver livre. A expressão do Sr. Weatherall era muito, muito sombria. A fúria parecia rolar dele como ondas. —Prefiro tirar a própria vida a permitir que você a tome. —A decisão é sua. De qualquer modo, seu cadáver estará no chão quando eu partir. —E o que vai acontecer com a menina? —Ela viverá —disse ele —, eu a levarei comigo, depois a soltarei quando estiver livre e tiver certeza de que você não está tentando me enganar. —Como vamos saber que não vai matá-la? —Por que eu faria isso? —Sr. Weatherall —comecei. —Não podemos deixar que ele leve Hélène. Nós não... OSr. Weatherall me interrompeu. — Com licença, Sr. Dorian, deixe-me ouvir isso do Ruddock aqui. Quero ouvir a mentira de sua boca, porque o butim não é só pelo protetor de Élise, não é mesmo, Ruddock? É pelo protetor e sua dama de companhia, não é mesmo, Ruddock? Você não pretende soltar Hélène. Os ombros de Ruddock se ergueram e caíram enquanto sua respiração ficava pesada, suas opções se estreitando a cada segundo. —Não sairei daqui de mãos abanando —disse ele —para que me cacem e me matem em outra ocasião. —Que alternativa temos? Ou morrem algumas pessoas e uma delas é você, ou você vai embora e passa o resto da vida como um homem marcado. —Vou levar as cartas —disse ele por fim. —Entregue-me as cartas e soltarei a garota quando eu estiver livre. —Você não levará Hélène —comuniquei. —Pode levar as cartas, mas Hélène jamais sairá deste chalé. Pergunto-me se ele viu a ironia de que, se ele não tivesse me seguido, se tivesse esperado em Versalhes, eu teria levado as cartas a ele. —Você irá atrás de mim —disse ele, hesitante. —Assim que eu a soltar. — Não irei — avisei. — Tem minha palavra de honra. Pode ficar com as cartas e ir embora. Ele parecia se decidir. —Dê-me as cartas —exigiu ele. OSr. Weatherall pegou o maço de cartas no baú e entregou a ele. —Você — disse Ruddock a Jacques —, o apaixonadinho. Coloque as cartas em meu cavalo e leve-o, depois o enxote ao monte do Assassino. Seja rápido e volte logo, ou ela morrerá. Jacques olhou de mim para o Sr. Weatherall. Nós dois assentimos e ele disparou para o luar. Os segundos se passaram e esperamos, Hélène agora em silêncio, observando-nos por sobre o braço de Ruddock enquanto este apontava a pistola para mim, sem prestar muita atenção no Sr. Weatherall, pensando que ele não representava ameaça alguma. Jacques voltou, entrando com os olhos postos em Hélène, esperando para pegá-la. —Muito bem, está tudo pronto? —perguntou Ruddock. Vi o plano de Ruddock faiscar pelos olhos. Vi-o com tanta a clareza que era melhor que tivesse dito em voz alta. Seu plano era matar-me com o primeiro tiro, Jacques com o segundo, cuidar de Hélène e Weatherall com a lâmina. Talvez o Sr. Weatherall também o tivesse visto. Talvez o Sr. Weatherall estivesse planejando o que faria o tempo todo. Qualquer que fosse a verdade, não sei, mas no mesmo momento em que Ruddock empurrou Hélène e girou a arma para mim, a mão do Sr. Weatherall apareceu de dentro do baú, a bainha da espada curta de Élise voou para longe e a espada logo estava em seus dedos. E era tão maior que uma faca de arremesso que pensei que ele não encontraria seu alvo, mas naturalmente suas habilidades de arremesso de facas estavam no auge e eu me abaixei ao mesmo tempo, em que a espada girou, ouvindo o disparo e a bala passar zunindo por minha orelha como um único som, recuperando o equilíbrio e ejetando a lâmina oculta, pronto para saltar e cravá-la em Ruddock antes que ele soltasse o segundo tiro. Mas Ruddock tinha uma espada na cara, seus olhos rodando para lados contrários enquanto a cabeça era jogada para trás e ele cambaleava, seu segundo tiro batendo no teto, depois ele caiu, morto antes de atingir o chão. A expressão do Sr. Weatherall era de uma satisfação cruel, como se ele tivesse colocado um fantasma para descansar. Hélène correu a Jacques e por algum tempo ficamos parados, nós quatro, olhandonos e para o corpo prostrado de Ruddock, mal acreditando que tudo acabara e que tínhamos sobrevivido. E então, depois de levarmos Ruddock para fora a fim de enterrá-lo no dia seguinte, peguei meu cavalo e continuei a carregar os alforjes. Senti a mão de Hélène em meu braço e olhei em seus olhos, injetados de chorar, mas nem por isso menos sinceros. —Sr. Dorian, adoraríamos que ficasse —disse ela. —Pode ficar no quarto de Élise. * * * Permaneci ali desde então, fora de vista e, talvez até, no que diz respeito aos Assassinos, fora dos pensamentos. Li os diários de Élise, é claro, e percebi que, embora não nos conhecêssemos o bastante em nossa vida adulta, eu ainda a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, porque éramos iguais, ela e eu, espíritos irmãos partilhando experiências mútuas, nossos caminhos pela vida praticamente idênticos. A não ser, como eu já mencionei, por Élise ter chegado lá primeiro, e foi ela que chegou à conclusão de que podia haver unidade entre Assassinos e Templários. Por fim, de seu diário escorregou uma carta. Eu a li... Querido Arno, Se estiver lendo esta carta, ou minha confiança em Ruddock se justificou, ou sua cobiça prevaleceu. Seja como for, você tem meus diários. Creio que, depois de sua leitura, você possame compreender um pouco mais e ser mais simpático às decisões que tive de tomar. Espero que possa ver agora que partilhei suas esperanças por uma trégua entre Assassinos e Templários, e para este fim tenho um último pedido a você, meu querido. Peço que leve estes princípios a seus irmãos no Credo e os evangelize em meu nome. E quando eles lhe disserem que suas ideias são fantasiosas e ingênuas, lembre-lhes de como você e eu provamos que as diferenças de doutrina podem ser superadas. Por favor, faça isto por mim, Arno. E pense em mim. Como pensarei em você até que nos reencontremos mais uma vez. Sua amada, Élise “Por favor, faça isso por mim, Arno.” Sentado aqui agora, pergunto-me se eu tenho forças para tanto. Pergunto-me se um dia serei forte como Élise foi. Espero que sim.

SD 60

Trechos do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794

Eu sabia o que aconteceria em seguida, embora não estivesse relatado no diário de Élise. Avancei pelas páginas, mas não; em vez disso, faltavam folhas, rasgadas em algum momento posterior, talvez durante uma crise de... de quê? Arrependimento? Raiva? Outra coisa? No momento em que eu lhe disse a verdade, ela rasgou as páginas de seu diário. Eu sabia que seria difícil, é claro, porque eu conhecia Élise tão bem quanto a mim mesmo. De muitas formas, ela era meu espelho, e eu sabia como me sentiria se estivesse no lugar dela. Você não pode me culpar por insistir em procrastinar e depois aguardar até uma noite de jantar farto acompanhado por uma garrafa de vinho consumida quase inteiramente. —Sei quem matou seu pai —revelei a ela. —Sabe? Como? —As visões. Olhei-a de soslaio para ver se estava me levando a sério. Como antes, ela parecia se divertir, nem bem acreditando nem incrédula. —E o nome que apareceu nela é o Rei dos Mendigos? —disse ela. Olhei-a, percebendo que vinha realizando as próprias investigações. É claro. —Então você estava falando seriamente quando disse que o vingaria —falei. —Se um dia pensou o contrário, não me conhece tão bem quanto acredita. Assenti pensativamente. —E o que você descobriu? —Que o Rei dos Mendigos estava por trás do atentado a minha mãe em 1775; que o Rei dos Mendigos foi iniciado na Ordem depois da morte de minha família; e tudo isso me faz pensar que ele foi iniciado como uma forma de recompensa pela morte de meu pai. —E sabe por quê? — Foi um golpe, Arno. O homem que se declarou Grão-Mestre tramou a morte de meu pai porque desejava assumir sua posição. Sem dúvida ele usou as tentativas de trégua com os Assassinos feitas for meu pai como alavanca. Talvez fosse a peça que faltava no quebra-cabeça. Talvez finalmente tenha pendido a balança a favor dele. Sem dúvida o Rei dos Mendigos agia segundo as ordens dele. —Não só o Rei dos Mendigos. Havia outra pessoa ali. Ela assentiu com um sorriso estranho e satisfeito. — Isso me deixa feliz, Arno. O fato de terem sido necessários dois para matar meu pai. Espero que ele tenha lutado como um tigre. —Um homem chamado Sivert. Ela fechou os olhos. —Faz sentido —falou depois de algum tempo. —Sem dúvida todos estão envolvidos nisso, os Corvos. —Quem? —Naturalmente eu não fazia ideia do que ela queria dizer. —É assim que chamo os conselheiros de meu pai. —Este Sivert... era um dos conselheiros de seu pai? —Ah, sim. —François arrancou o olho dele antes de morrer. Ela riu. —Muito bem, papai. —Agora Sivert está morto. Uma sombra atravessou o rosto de Élise. —Entendo. Eu tinha esperanças de que o feito pudesse ser meu. —ORei dos Mendigos também —acrescentei, engolindo em seco. Agora ela me encarava. —Arno, o que está dizendo? Estendi-lhe a mão. — Eu o amava, Élise, como se ele fosse meu pai. — Mas ela começou a se afastar, levantando-se e cruzando os braços. Seu rosto se tingia de vermelho. —Você os matou? —Sim... e não peço desculpas por isso, Élise. Mais uma vez estendi-lhe a mão e de novo ela se afastou, entorpecida, descruzando os braços para me evitar ao mesmo tempo. Por um segundo —só por um segundo —pensei que Élise pegaria a espada, mas pareceu ter pensado melhor, recuperando o autocontrole. —Você os matou. — Tive de matar — justifiquei, sem entrar em detalhes, embora ela não estivesse interessada no motivo, perambulando pelo cômodo como se não soubesse o que fazer. —Você tirou a minha vingança. —Eles eram meros lacaios, Élise. Overdadeiro culpado está lá fora. Furiosa, ela me atacou. —Diga-me que os fez sofrer —cuspiu. —Por favor, Élise, esta não é você. —Arno, eu fiquei órfã, fui machucada, enganada e traída... E terei minha vingança a qualquer custo. Os ombros de Élise subiam e desciam. Seu rubor era intenso. —Bem, não, eles não sofreram. Este não é o estilo Assassino. Não temos prazer em matar. — Ah, não? Mesmo? Então agora que é um Assassino sente-se qualificado para me dar aulas de ética, não? Bem, não se engane, Arno, eu não tenho prazer em matar. O que me dá prazer é a justiça. —E foi o que fiz. Levei a justiça àqueles homens. Tive uma chance. Aproveitei. Aquilo pareceu acalmá-la, e Élise assentiu pensativamente. —Mas deixe Germain para mim —disse ela, e não foi um pedido, foi uma ordem. —Não posso prometer, Élise. Se eu tiver a oportunidade, então... Ela me olhou com um meio sorriso. —Então você terá de responder a mim —rebateu ela. ii Depois daquilo passamos algum tempo sem nos ver, embora tivéssemos trocado cartas, e quando enfim tive alguma informação para dar a ela, pude tentá-la a se afastar da Île de Saint-Louis. Fomos em busca de Madame Levesque, que caiu sob minha lâmina. Foi uma aventura que continuou com um passeio inesperado e não programado no balão de ar quente dos Messieurs Montgolfier, mas o cavalheirismo me impede de revelar o que aconteceu durante o voo. Basta dizer que, à conclusão de nossa jornada, Élise e eu estávamos mais íntimos do que nunca. Mas não o bastante para eu perceber o que acontecia com ela; que, para Élise, a morte dos conselheiros do pai era apenas um fator secundário. Que o que a preocupava, talvez até a consumisse, era chegar a Germain.



Trechos do diário de Élise de la Serre


20 de janeiro de 1793

Na rua, em Versalhes, havia uma carroça que logo reconheci. Atrelada a ela, um cavalo que eu também conhecia. Desmontei, amarrei Scratch na carroça, afrouxei sua cela, dei-lhe água, esfreguei a cabeça na dele. Não tive pressa para deixar Scratch confortável, em parte porque eu o amava e ele merecia toda a atenção que eu lhe dava e mais, e em parte porque eu estava procrastinando, querendo adiar o momento em que enfrentaria o inevitável. O muro externo dava sinais de abandono. Perguntei quem de nossa criadagem era responsável por aquela parte quando todos morávamos ali. Provavelmente os jardineiros. Sem eles, os muros ficaram grossos de musgo e trepadeiras, as gavinhas subindo ao topo como veias na pedra. Instalado no muro, havia um portão em arco que eu conhecia bem, embora agora me parecesse esquisito. À mercê dos elementos, a madeira começara a mosquear e a desbotar. Onde antigamente o portão tinha uma aparência grandiosa, agora parecia apenas triste. Abri o portão e entrei no pátio do lar de minha infância. Tendo testemunhado a devastação no château de Paris, supus que eu estaria pelo menos mentalmente preparada para o momento. Todavia, me flagrei reprimindo o choro ao ver os canteiros de flores tomados de mato espigado, os bancos cobertos de vegetação. Sentado em um degrau, perto de postigos caídos, estava Jacques, que se iluminou ao me ver. Jacques raras vezes falava; o máximo de animação que já flagrei nele foi durante uma conversa sussurrada com Hélène, e ele não precisou dizer um palavra sequer agora. Apenas apontou para trás, para a casa. Dentro dela, havia tábuas cobrindo as janelas, a mobília quase toda virada, a mesma história triste que vinha presenciando com tanta frequência ultimamente, só que desta vez era ainda mais triste porque era o lar de minha infância, e cada vaso quebrado e cadeira espatifada me trazia uma recordação. Ao entrar em meu lar destruído, ouvi nosso antigo relógio de pêndulo, um som tão familiar e recendente de minha infância que me atingiu com a força de um tapa e, por um segundo, fiquei parada no hall vazio, onde minhas botas pisavam no chão antes polido até brilhar muito, e reprimi o choro. Um choro de pesar e nostalgia. Talvez até um pouco de culpa. ii Fui para o terraço e fiquei observando os gramados ondulantes, antes bem-cuidados, agora crescidos demais e revoltos. A cerca de duzentos metros estava o Sr. Weatherall, sentado no declive, as muletas jogadas de cada lado. —Oque está fazendo? —perguntei, juntando-me a ele. Ele deu um leve sobressalto quando pousei ao seu lado, mas recuperou a compostura e me olhou longamente, avaliando-me. — Eu ia descer ao lago sul, onde costumávamos treinar. O problema é que quando me imaginei indo e retornando, também imaginei o gramado como era antigamente, e aí, quando cheguei e o encontrei assim, de repente não ficou mais tão fácil. —Bem, este é um bom local. —Depende da companhia —disse ele com um sorriso cínico. Houve uma pausa. —Chegando furtivamente desse jeito... —disse ele. —Perdoe-me. —Eu sabia que você faria isso, sabe? Não conheço você desde que era uma alpinista de formigueiro para não ter aprendido algo sobre certa expressão em seus olhos. Bem, pelo menos está viva. Oque andou fazendo? —Fui dar um passeio de balão de ar quente com Arno. —Ah, sim? E como foi? Ele me viu corar. —Foi muito bom, obrigada. —Então você e ele... —Eu diria que sim. —Bem, nesse caso, é alguma coisa. Não consigo vê-la sofrendo por amor. E... —ele abriu as mãos —... todo o resto? Soube de alguma coisa? — Bastante. Muitos que tramaram contra meu pai já responderam por seus crimes. Além disso, agora conheço a identidade do homem que encomendou a morte dele; o novo Grão-Mestre. —Diga-me, por favor. — O novo Grão-Mestre, o arquiteto da tomada de poder, é François Thomas Germain. OSr. Weatherall sibilou. —É claro. —Você disse que ele foi expulso da Ordem... —E foi. Nosso amigo Germain era um adepto de Jacques de Molay, o primeiro GrãoMestre absoluto. Molay morreu gritando na fogueira em 1314, rogando pragas a todos que estavam por perto. Mestre de Molay era o tipo de sujeito indecifrável, mas este era um assunto um tanto obscuro na época, porque demonstrar apoio às ideias dele era heresia. “E Germain... Germain era um herege. Era um herege que possuía a confiança do Grão-Mestre. Para dar um fim à contenda, ele foi expulso. Seu pai pediu que Germain voltasse a entrar na linha e seu coração sofreu ao expulsá-lo, mas... —Ele foi banido? — Foi, e a Ordem informou que qualquer homem que se colocasse ao lado dele também seria exilado. Logo depois disso sua morte foi anunciada, mas na época ele já era só uma lembrança ruim. Mas nem tanto, hein? Germain esteve reunindo apoio, controlando as coisas nos bastidores, reescrevendo o manifesto aos poucos. E agora está no comando; e a Ordem coça a cabeça e se pergunta como ele deixou de ser um apoio inabalável ao rei e passou a desejar sua morte, e a resposta é que isto aconteceu porque não havia ninguém que se opusesse. Xeque-mate. —O Sr. Weatherall sorriu. —É preciso dar crédito a esse camarada. —Darei a ele minha espada em suas entranhas. —E como o fará? —Arno descobriu que Germain pretende estar presente na execução do rei amanhã. OSr. Weatherall olhou-me incisivamente. —A execução do rei? Então a Assembleia já chegou ao veredicto? —De fato chegou. E o veredicto é a morte. O Sr. Weatherall balançou a cabeça. A execução do rei. Como havíamos chegado a tal ponto? Com o correr da história, suponho que o último fator tenha se iniciado no verão do ano anterior, quando vinte mil parisienses assinaram uma petição apelando pela volta do governo da família real. Onde antes se falava em revolução, agora se falava em contrarrevolução. É claro que os revolucionários não aceitariam tal coisa, e assim, em 10 de agosto, a Assembleia decidiu marchar ao Palácio das Tulherias, onde o rei e Maria Antonieta se encontravam desde seu exílio indigno de Versalhes, quase três anos antes. Seiscentos homens da Guarda Suíça do rei perderam a vida na batalha, a última resistência do rei. Seis semanas depois, a monarquia foi abolida. Enquanto isso, havia levantes contrarrevolução na Bretanha e em Vendée, e em 2 de setembro os prussianos tomaram Verdun, provocando pânico em Paris quando começaram a circular histórias de que os prisioneiros da realeza seriam libertados e se vingariam dos revolucionários de modo sangrento. Suponho que você vá dizer que os massacres que se seguiram foram ataques preventivos, mas foram massacres ainda assim, e milhares de prisioneiros foram chacinados. E então o rei foi a julgamento, e hoje anunciaram que ele morreria na guilhotina no dia seguinte. —Se Germain estiver lá, eu também estarei —eu falava agora ao Sr. Weatherall. —E por que isso? —Para matá-lo. OSr. Weatherall semicerrou os olhos. —Não creio que o caminho seja este, Élise. —Eu sei —disse eu com ternura —, mas você sabe que não tenho alternativa. —O que é mais importante para você? —perguntou ele, irritado —, a vingança ou a Ordem? Dei de ombros. —Quando eu realizar a primeira, a segunda se ajeitará. —Ah, sim? Acha mesmo que será desse jeito, não é? —Sim, é o que acho. —Por quê? Só o que você vai fazer é matar o atual Grão-Mestre. É provável que seja julgada por traição tanto como pode ser acolhida de volta ao grupo. Enviei apelos a todo lado. À Espanha, à Itália, até à América. Ouvi murmúrios de solidariedade, mas nem uma única promessa de apoio, e sabe por que é assim? É porque, para eles, o fato de a Ordem francesa estar correndo tranquilamente, torna sua destituição um interesse secundário. “Além disso, podemos ter certeza de que Germain andou fazendo uso de seus contatos. Ele terá assegurado a nossos irmãos de além-mar que a tomada foi necessária e que a Ordem francesa está em boas mãos. “Podemos supor também que os Carroll envenenarão o poço sempre que seu nome surgir. Não pode fazer isso sem apoio, Élise, e o fato é que você não tem apoio, mesmo sabendo que seu plano ainda assim será levado a cabo. E isto me diz que não se trata da Ordem, trata-se de vingança. O que por sua vez me diz que estou sentado ao lado de uma tola suicida.” —Eu terei apoio —insisti. —E de onde pensa que virá, Élise? —Tenho esperança de formar uma aliança com os Assassinos. Ele tomou um susto, depois meneou a cabeça com tristeza. — As pazes com os Assassinos são o pote de ouro no final do arco-íris, criança, jamais existirão, não importa o que seu amigo Haytham Kenway tenha dito em suas cartas. Nisso o Sr. Carroll tinha razão. É como pedir a um mangusto e a uma cobra para bebericarem o chá da tarde juntos. —Você não acredita nisso. —Não só não acredito como sei, criança. Eu a amo por pensar o contrário, mas você está enganada. —Meu pai pensava o contrário. Ele suspirou. —Qualquer trégua que seu pai tenha negociado foi temporária. Ele sabia disso, assim como todos nós sabemos. A paz jamais se assentará.

21 de janeiro de 1793

Fazia frio. Um frio de amargar. E nosso hálito de dragão pendia no ar enquanto estávamos parados na place de la Concorde, local da execução do rei. A praça estava cheia. Parecia que toda Paris, se não toda a França, tinha se reunido ali para assistir à morte do monarca. Até onde a vista alcançava, havia pessoas que só um ano antes tinham jurado lealdade ao rei, mas que agora preparavam seus lenços para mergulhá-los no sangue dele. Subiam em carroças para ter uma visão melhor, crianças equilibrando-se nos ombros dos pais, jovens mulheres fazendo o mesmo, escarranchadas em maridos ou amantes. Pela margem da praça, mercadores armaram barracas e não se intimidavam em gritar seus anúncios, todos um “especial de execução”. No ar havia um clima que eu só poderia descrever como de sede de sangue comemorativa. Era digno de se perguntar se eles, a essa altura, já não estariam fartos de sangue, aquela gente, o povo da França. Olhando em volta, evidentemente a resposta era não. Enquanto isso, o carrasco convocava os prisioneiros que seriam decapitados. Eles gritavam e protestavam enquanto eram arrastados ao patíbulo da guilhotina. A multidão clamava por sangue. Calaram-se no segundo antes da queda da lâmina e urraram quando o sangue jorrou naquele dia límpido de janeiro. ii —Tem certeza de que Germain estará aqui? —perguntei a Arno quando chegamos. — Tenho — respondeu ele, e tomamos rumos separados. Embora o plano fosse localizarmos Germain, no fim o ex-lugar-tenente traiçoeiro fez sentir sua presença ao subir em uma plataforma de observação, cercado por seus homens. É ele, pensei, fitando-o, a multidão parecendo distante por alguns minutos. Aquele era François Thomas Germain. Eu sabia que era ele. O cabelo grisalho estava preso para trás com um laço preto e ele usava o manto do Grão-Mestre Templário. E me perguntei: o que pensavam os espectadores ao ver aquele homem de manto assumir posição tão elevada na assistência? Será que viam um inimigo da revolução? Ou um amigo? Ou, à medida que seus rostos se viravam rapidamente, como se não quisessem olhar nos olhos de Germain, será que enxergavam apenas um homem a se temer? Ele com certeza parecia temível. Tinha uma boca cruel, carrancuda, e olhos que, mesmo de longe, eu notava serem escuros e penetrantes. Havia algo de inquietante naquele olhar. Fervilhei de ódio. Era o manto que eu estava acostumada a ver em meu pai. Não deveria enfeitar as costas daquele impostor. Arno também o vira, naturalmente, e conseguira chegar muito mais próximo da plataforma. Fiquei observando quando ele se aproximou dos guardas parados ao pé da escada, os quais tinham a tarefa que envolvia manter a onda de gente longe da elevação. Ele falou com um deles. Ouvi gritos. Meus olhos foram a Germain, que se curvara para ver Arno, depois gesticulou aos guardas para que o deixassem subir. Enquanto isso, aproximei-me o máximo que me atrevi da plataforma. Se Germain iria me reconhecer, eu não sabia, mas havia outros rostos familiares em volta. Eu não podia correr o risco de ser vista. Arno tinha chegado à plataforma, juntando-se a Germain e posicionando-se ao seu lado, os dois olhando a guilhotina que subia e descia, subia e descia... —Olá, Arno. —Ouvi Germain dizer, mas apenas isto, e me arrisquei a erguer o rosto para olhar a plataforma, esperando que, com um misto de leitura labial e o vento na direção certa, eu conseguisse distinguir o que falavam. —Germain —disse Arno. Germain apontou para ele. — É adequado que você esteja aqui para ver o renascimento da Ordem dos Templários. Afinal, você estava presente em sua concepção. Arno assentiu. —Monsieur de la Serre —disse ele simplesmente. — Eu tentei fazê-lo enxergar. — Germain deu de ombros. — A Ordem havia se tornado corrupta, agarrando-se demasiadamente ao poder e ao privilégio. Esquecemo-nos dos ensinamentos do grande De Molay, e de que nosso propósito é liderar a humanidade a uma era de ordem e paz. No patíbulo, o rei havia sido levado para cima. E para lhes dar o devido crédito, ele encarou seus torturadores com os ombros aprumados e o queixo bem erguido, orgulhoso até o fim. Começou a fazer o discurso que sem dúvida ensaiara enquanto estava encarcerado antes de sua jornada à guilhotina. Mas assim que começou a pronunciar suas últimas palavras, um rufar de tambores se iniciou, tragando-as. Corajoso, sim. Mas ineficiente até o fim. Acima de mim, Arno e Germain ainda conversavam; Arno, eu percebia, tentando entender as coisas. —Mas você podia corrigir tudo, não é mesmo? Matando o homem no poder? O “homem no poder” —meu pai. A onda de ódio que experimentei ao ver Germain pela primeira vez se intensificou. Desejei deslizar a lâmina de minha espada entre suas costelas e vê-lo morrer na pedra fria, do mesmo jeito que acontecera com meu pai. —A morte de Monsieur de la Serre foi apenas a primeira etapa —disse Germain. — Este é o ápice. A queda de uma Igreja, o fim de um regime... a morte de um rei. —E o que o rei fez a você? —escarneceu Arno. —Custou-lhe seu emprego? Tomou sua esposa como amante? Germain meneava a cabeça como se estivesse decepcionado com um discípulo. — O rei é apenas um símbolo. Um símbolo pode inspirar medo, e o medo pode inspirar controle... Mas os homens inevitavelmente perdem o medo dos símbolos. Como você pode ver. Inclinando-se sobre a mureta ele gesticulou para o patíbulo, onde o rei, tendo negada sua última chance de recuperar parte do orgulho régio, fora obrigado a se ajoelhar. Seu queixo foi encaixado no bloco e a pele do pescoço exposta para a guilhotina à espera. —Esta foi a verdade pela qual morreu Jacques de Molay: o direito divino dos reis não é nada senão o reflexo do sol em ouro. E quando Coroa e Igreja forem reduzidas a pó, nós, que controlamos o ouro, decidiremos o futuro —falou Germain. Houve uma onda de empolgação por parte da turba, que depois caiu em um silêncio. Acabou-se. Era hora. Olhando, vi a lâmina da guilhotina brilhar, daí baixar com um baque suave, e em seguida o barulho da cabeça do rei caindo no cesto abaixo do bloco. Houve um instante de silêncio na praça, seguido por um barulho que tive dificuldades de identificar no início, até que, mais tarde, reconheci o que foi. Reconheci da Maison Royale. Era o barulho de uma sala de aulas repleta de alunos após perceberem que tinham ido longe demais, em um arfar coletivo que dizia que não havia volta. “Estamos acabados, agora haverá problemas.” Falando quase à meia-voz, Germain disse: —Jacques de Molay, você está vingado. — E então eu soube que estava lidando com um extremista, um fanático, um louco. Um homem para quem a vida humana não tinha valor se não aquele equivalente à promoção de seus próprios ideais, que, na posição de homem no poder da Ordem dos Templários, talvez fizessem dele o sujeito mais perigoso da França. Um homem que precisava ser detido. Na plataforma, Germain virou-se para Arno. —E agora, devo partir —disse. —Tenha um bom dia. Ele olhou para seus guardas e, com um gesto imperioso, ordenou que pegassem Arno, as palavras simples e arrepiantes: —Matem-no. Ele se foi. Comecei a correr, saltando degraus acima quando os dois guardas avançaram para Arno, que girou o tronco para recebê-los, a mão da espada cruzada à frente do corpo. A lâmina dele nunca havia cortado couro; minha espada falou uma, duas vezes: dois cortes fatais nas artérias que fizeram os guardas arremeterem para a frente, os olhos revirando nas órbitas mesmo quando as testas bateram nas tábuas ensanguentadas da plataforma. Foi tudo muito rápido; e atingiu o objetivo de matar os dois guardas. Mas a coisa toda foi sangrenta e nada discreta. E, dito e feito, logo veio um grito dos arredores. Com toda a comoção da execução, aquilo não foi urgente nem alto o bastante para deixar a multidão em pânico, porém o suficiente para alertar outros guardas, que vieram correndo, subindo a escadaria da plataforma até onde Arno e eu já estávamos prontos para recebê-los. Avancei, desesperada para alcançar Germain, passando minha lâmina no primeiro de nossos atacantes, retirando-a e girando ao mesmo tempo, a fim de dar um golpe de través em um segundo guarda. Era o tipo de movimento que o Sr. Weatherall teria detestado, um ataque nascido mais do desejo por uma morte rápida do que da necessidade de manter uma postura defensiva, do tipo que me deixava vulnerável a um contra-ataque. E não havia nada que o Sr. Weatherall desprezasse mais do que um ataque ostentoso e descuidado. Mas, outra vez, eu tinha Arno em meu flanco, cuidando de um terceiro guarda, e assim talvez o Sr. Weatherall me perdoasse. No intervalo de apenas alguns segundos, tínhamos três cadáveres empilhados a nossos pés. Porém, mais guardas chegavam, e vi Germain a poucos metros de nós. Ele percebeu a mudança na maré da batalha e agora fugia dela —corria para uma carruagem na rua, no perímetro da praça. Eu estava impedida de alcançá-lo, mas Arno... — O que está fazendo? — gritei para ele, instando-o que fosse atrás de Germain. Desviei-me de mais um de meus agressores e vi Germain escapando. — Não vou deixar você morrer — exclamou Arno, e voltou a atenção aos outros guardas que apareciam na escada. Mas eu não ia morrer. Havia uma saída. Olhei a rua, vi a porta da carruagem escancarada, Germain prestes a subir a bordo dela. Golpeando loucamente com a espada, saltei sobre a mureta, caindo de mau jeito na terra, mas não tanto a ponto de morrer nas mãos de um guarda que pensara ter visto sua oportunidade de me matar, pagando por sua presunção com o aço nas entranhas. De algum lugar ouvi Arno gritar, dizendo-me para parar — “Não vale a pena!” —, vendo o mesmo que ele: uma falange de guardas que cercavam a plataforma, criando uma barreira entre mim e... Germain. Que chegou à carruagem, subiu e bateu a porta. Vi o cocheiro sacudir as rédeas e as crinas dos cavalos voarem ao vento enquanto os focinhos se erguiam e os jarretes se retesavam, então a carruagem partiu rapidamente. Maldição. Eu me escorava, prestes a atacar os guardas, quando senti Arno ao meu lado, segurando meu braço. —Não, Élise. Com um grito de frustração, desvencilhei-me dele. O esquadrão avançava para nós, lâminas expostas, ombros caídos e projetados. Nos olhos deles havia a confiança da vantagem numérica. Arreganhei os dentes. Ao inferno com ele. Ao inferno com Arno. Mas ele me segurou pela mão, puxou-me rumo à segurança e ao anonimato da multidão, aí abriu caminho por espectadores assustados na periferia, entrando no coração da turba, abandonando os guardas atrás de nós. Foi só quando deixamos a cena da execução para trás — quando não havia mais ninguém em volta —que paramos. Eu o ataquei. —Ele conseguiu fugir, maldição, nossa única chance... —Não acabou —insistiu Arno, vendo que eu precisava esfriar os ânimos —, vamos encontrar outra pista... Senti meu sangue ferver. — Não, não vamos. Acha que agora ele será descuidado, sabendo o quanto nos aproximamos? Você teve uma oportunidade de ouro de dar um fim à vida dele e se recusou a aproveitá-la. Ele balançou a cabeça, enxergando a situação de outra forma. —Para salvar sua vida —insistiu ele. —Não cabe a você salvá-la. —Oque está dizendo? —Estou disposta a morrer para derrubar Germain. Se você não tem estômago para a vingança... então não preciso de sua ajuda. E eu falei sério, querido diário. Enquanto estou sentada e escrevo isto, remoendo as palavras furiosas que trocamos, ainda estou certa de que fui sincera naquele momento, e estou sendo agora. Talvez a lealdade dele ao meu pai não seja tão grande quanto ele dizia ser. Não, eu não precisava da ajuda dele.

10 de novembro de 1793 

Intitularam a época de Terror. “Inimigos da revolução” eram enviados à guilhotina às dezenas — por se opor à Revolução, por acumular grãos, por ajudar exércitos estrangeiros. Chamavam a guilhotina de “a navalha nacional”, e ela trabalhou muito, reclamando duas ou três cabeças por dia só na place de Révolution. A França se acovardava ante a ameaça da queda de sua lâmina. Enquanto isso, em acontecimentos que eram mais importantes para mim, fiquei sabendo que Arno tinha sido destituído por sua Ordem. — Ele foi banido — lia o Sr. Weatherall em sua correspondência, segurando uma carta, os últimos vestígios da antes orgulhosa rede tendo enfim entrado em contato. —Quem? —perguntei. —Arno. —Entendo. Ele sorriu. —Está fingindo que não se importa, não é? —Não há fingimento nisso, Sr. Weatherall. —Ainda não o perdoou, hein? — Ele um dia me jurou que, se tivesse sua chance, tiraria proveito dela. Ele teve a chance e não aproveitou. — Ele tinha razão — disse o Sr. Weatherall. Aquilo fora dito de forma espontânea, como estivesse em sua mente há tempos. —Como disse? —falei. Na verdade, eu não “falei”. Eu “vociferei”. A verdade era que o Sr. Weatherall e eu estávamos irados um com o outro há semanas, talvez até meses. A vida tinha sido reduzida a uma só coisa: discrição. E aquilo me deixava intensamente frustrada. Cada dia era passado preocupando-me em encontrar Germain antes que ele nos encontrasse; cada dia era passado esperando que cartas chegassem de uma série de pontos sempre itinerantes. Sabendo que estávamos travando uma batalha perdida. E, sim, eu fervilhava, sabendo que Germain havia estado tão perto de sentir minha espada. E o Sr. Weatherall também, mas por motivos um tanto diferentes. O que ficou sem ser dito era que ele me via como alguém imprudente e cabeça quente demais; ele acreditava que eu deveria ter esperado e aproveitado o tempo para tramar contra Germain, do mesmo jeito que Germain havia tramado a tomada de poder de nossa Ordem. O Sr. Weatherall dizia que eu pensava com minha espada. Tentava me dizer que meus pais não teriam agido com uma pressa tão incauta. Ele tinha usado cada truque que conhecia, e agora usava Arno. —Arno tinha razão —disse ele. —Você teria sido morta. Poderia muito bem cortar a própria garganta, daria no mesmo para você. Soltei um ruído exasperado, lançando um olhar ressentido para o outro lado da sala do chalé onde nos encontrávamos. Estava aquecida, era aconchegante e eu deveria adorar estar ali, mas, em vez disso, parecia-me pequena e apertada. Aquela sala e o chalé todo tinham passado a simbolizar minha própria falta de ação. —Oque quer que eu faça, então? —perguntei. — Se você ama a Ordem verdadeiramente, o melhor que pode fazer é propor a paz. Oferecer-se para servir à Ordem. Fiquei boquiaberta. —Render-me? —Não, não é rendição, é fazer as pazes. Negociar. —Mas eles são meus inimigos. Não posso negociar com os meus inimigos. — Procure enxergar isso de outra perspectiva, Élise — pressionou o Sr. Weatherall, tentando me afetar. — Você está fazendo as pazes com os Assassinos, mas não negocia com sua própria gente. É isso que parece. —Não foram os Assassinos que mataram meu pai —sibilei. —Acha que sou capaz de fazer uma trégua com os matadores de meu pai? Ele jogou as mãos para o alto. —Meu Deus, e ela pensa que Templários e Assassinos podem se entender. E se forem todos como você, hein? “Eu quero vingança, ao diabo com as consequências.” —Levaria tempo —admiti. Ele partiu para o ataque: —E é isso que você pode fazer. Pode ganhar tempo. Pode fazer mais lá de dentro do que do lado de fora. —E eles saberão disto. Estarão sorridentes, porém com facas às costas. — Eles não matariam uma pacificadora. A Ordem consideraria isto desonroso, e o que eles precisam, acima de tudo, é de harmonia dentro da Ordem. Não. Se você levar diplomacia, eles responderão com diplomacia. —Você não pode ter certeza disso. Ele deu de ombros levemente. — Não, mas de qualquer modo, acredito que se arriscar à morte do meu jeito é melhor do que se arriscar a morrer do seu. Levantei-me e olhei feio, com ar de superioridade, aquele velho recurvado sobre as muletas. —Então este é seu conselho? Fazer as pazes com os assassinos de meu pai. Ele me fitou com olhos tristes, pois ambos sabíamos que só havia um final possível para aquilo tudo. —Sim —disse ele. —Como seu conselheiro, este é meu conselho. —Sendo assim, considere-se dispensado —ordenei. Ele assentiu. —Quer que eu vá embora? Balancei a cabeça. —Não. Quero que você fique. Era eu quem iria partir.

2 de abril de 1794 

Era quase doloroso demais voltar ao château em Versalhes, mas era onde Arno estava, e, portanto, foi para onde me dirigi. No início pensei que a informação que recebi devia estar errada, porque, por dentro, o château estava o mesmo, se não em condições piores do que quando estive aqui pela última vez. E eu soube de mais uma coisa: Arno evidentemente encarou mal ter sido banido pelos Assassinos e conquistou certa reputação como o bêbado local. —Você está péssimo —falei a ele quando enfim o encontrei entocado no escritório de meu pai. Fitando-me com olhos cansados, ele falou antes de virar a cara: —Você parece querer algo de mim. —Esta é uma ótima coisa de se dizer depois de você sumir. Ele soltou um bufar de desdém. —Você deixou muito claro que meus serviços não eram mais necessários. Senti a raiva aumentar. —Não. Não se atreva a falar comigo desse jeito. —Oque quer que eu diga, Élise? Lamento se não deixei você morrer? Perdoe-me por me importar mais com você do que com matar Germain? E, sim, acho que meu coração derreteu. Só um pouquinho. —Pensei que quiséssemos o mesmo. —Oque eu queria era você. E me mata saber que meu descuido resultou na morte de seu pai. Tudo que fiz foi para consertar este erro e evitar que acontecesse novamente. — Ele baixou os olhos. —Você deve ter vindo aqui com algo em mente. Oque é? — Paris está se dilacerando, Germain tem levado a revolução a novos patamares de depravação. As guilhotinas agora operam quase 24 horas por dia. —E o que espera que eu faça a respeito disso? —OArno que eu amo não teria feito esta pergunta —observei. Gesticulei para a bagunça que um dia fora o amado escritório de meu pai. Foi ali que eu soube de meu destino como Templária, ali eu soube da linhagem Assassina de Arno. Agora, era só uma choupana. —Você é melhor do que isso —disse eu. —Voltarei a Paris... Você virá? Ele arriou os ombros e por um momento pensei ser o fim para nós. Com tantos segredos envenenando o lago de nosso relacionamento, como um dia poderíamos voltar a ser o que fomos? Nosso amor acabara frustrado pelos planos feitos por terceiros para nós. Mas ele se levantou, como se tomando a decisão, e ergueu a cabeça, olhando-me com os olhos turvos e de ressaca, que, ainda assim, estavam repletos de um propósito renovado. —Ainda não —disse-me ele —, não posso sair sem cuidar de alguém. La Touche. Ah, Aloys la Touche era um novo acréscimo à nossa Ordem —ou eu deveria dizer à Ordem “deles”. O sujeito que era designado para amputar os membros dos mendigos. Arno podia matá-lo, eu não me importava. Mesmo assim... — Isto é realmente necessário? — perguntei. — Quanto mais esperarmos, mais chances de Germain escapar por entre nossos dedos. —Ele esteve pisoteando Versalhes por meses. Eu devia ter feito algo a respeito disso há muito tempo. Ele tinha razão. —Muito bem. Cuidarei de nosso transporte. Fique longe de problemas. Ele me olhou. Sorri e corrigi minha despedida: —Não seja pego.

3 de abril de 1794 

—As coisas mudaram muito desde que você saiu de Paris —disse a ele no dia seguinte enquanto assumíamos nossos lugares em uma carroça de volta à cidade. Ele assentiu —Há muito a ser consertado. —E ainda estamos longe de encontrar Germain. —Isto não é totalmente verdade. Tenho um nome. Encarei-o. —Quem? —Robespierre. Maximilien de Robespierre. Eis aí um nome a conjurar. O homem que chamavam de “l’Incorruptible”, era presidente dos jacobinos e o mais próximo que a França tinha atualmente de um governante. Consequentemente, era um homem que detinha enorme poder. —Creio que é melhor você me contar o que sabe, não? —falei. — Eu vi tudo, Élise — disse ele, o rosto se contorcendo, como se incapaz de lidar com a recordação. —Oque quer dizer com “tudo”? —perguntei com cautela. — Quero dizer... eu vejo coisas. Lembra-se de quando matei Bellec? Eu vi coisas na época. É assim que consigo saber o que fazer. —Conte-me mais. —Eu queria que ele se abrisse, mas, ao mesmo tempo, sem querer obrigá-lo a falar. —Lembra-se de que matei Sivert? Franzi os lábios, sufocando uma leve onda de negação. —Tive uma visão na época —continuou Arno. —Tive visões com todos eles, Élise. Todos os alvos... Homens e mulheres com quem eu tenho relação pessoal. Vi seus pais negarem a Sivert a entrada a uma reunião dos Templários, as primeiras sementes de seu ressentimento para com seu pai; vi Sivert aproximar-se do Rei dos Mendigos. Vi os dois atacarem seu pai. —Os dois —cuspi. — Ah, seu pai lutou corajosamente e, como eu disse, conseguiu arrancar o olho de Sivert; de fato, ele teria vencido sem dúvida nenhuma se não fosse pela intervenção do Rei dos Mendigos... —Você viu isso acontecer? —Na visão, sim. —E é assim que você sabe que foi usado um broche de iniciação? —De fato. Inclinei-me para ele. —Essa coisa que você faz. Como funciona? —Bellec disse que alguns homens nascem com a capacidade, outros podem aprender com o tempo, mediante treinamento. —E você é daqueles que nasceram com isso. —Parece que sim. —Oque mais? — Sobre o Rei dos Mendigos, soube que seu pai resistiu às sondagens. Vi Sivert oferecer-lhe o broche, explicando como seu “mestre” poderia ajudar. —Seu “mestre”? Germain? — Exatamente. Mas eu não sabia disso na época. Só vi que era uma figura de manto aceitando o Rei dos Mendigos em sua Ordem. Pensei, com uma onda de remorso no Sr. Weatherall, de quem me separei em condições tão ruins, desejando poder contar a ele que nossas teorias estavam corretas. —ORei dos Mendigos foi recompensado pela morte de meu pai? —perguntei. —Parece que sim. Quando matei Madame Levesque, vi os planos dos Templários de aumentar o preço dos grãos. Também testemunhei seu pai expulsando Germain da Ordem. Germain invocava Jacques de Molay enquanto era arrastado para fora. E mais tarde vi Germain procurar Madame Levesque. Vi os Templários tramando para soltar a informação que seria prejudicial ao rei. “Germain disse que, quando o rei fosse executado como um criminoso comum, ele poderia mostrar ao mundo a verdade sobre Jacques de Molay. “E vi outra coisa também. Vi Germain apresentar a seus confederados Templários ninguém menos do que Maximilien de Robespierre.

8 de junho de 1794 

Eu mal conseguia me lembrar de uma época em que as ruas de Paris não estavam tomadas de gente. Via tantos levantes e execuções, tanto sangue derramado. Agora, no Champ de Mars, a cidade estava reunida novamente. Dessa vez, porém, a sensação era diferente. Antes, os parisienses vinham prontos para a batalha, certamente preparados para matar e morrer se fosse necessário; mas ao passo que antes se reuniam para encher as narinas do cheiro do sangue da guilhotina, agora vinham comemorar. Distribuíam-se em colunas, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Muitos traziam flores, buquês e galhos de carvalho, e aqueles que não tinham flores traziam bandeiras, enchendo o Champ de Mars, aquele parque imenso, olhando o morro feito pelo homem em seu centro, onde esperavam ver seu novo líder. Aquele então era o Festival do Ser Supremo, uma das ideias de Robespierre. Enquanto outras facções revolucionárias queriam dispensar inteiramente a religião, Robespierre compreendia o poder da fé. Sabia que o homem comum era ligado à ideia da crença. Que desejava acreditar em alguma coisa. Com muitos republicanos apoiando o que agora chamavam de “descristianização”, Robespierre teve uma ideia. Pensou na criação de um novo credo. Apresentou a ideia de uma nova deidade não cristã: o Ser Supremo. E no último mês anunciou o nascimento de uma nova religião de Estado, decretando que “o povo francês reconhece a existência do Ser Supremo e a imortalidade da alma...” Para convencer o povo de que era uma ótima ideia, ele pensou nos festivais. OFestival do Ser Supremo era o primeiro deles. Onde estavam suas verdadeiras motivações, eu não tinha ideia. Só o que sabia era que Arno tinha descoberto alguma coisa. Arno ficara sabendo que Robespierre era marionete de Germain. Oque quer que acontecesse aqui hoje tinha menos a ver com as necessidades do populacho em geral e mais com a consecução dos objetivos de meus antigos associados Templários. —Jamais conseguiremos chegar perto dele no meio de tudo isso —observou Arno. —É melhor nos retirarmos e aguardarmos uma oportunidade melhor. — Você ainda pensa como um Assassino — repreendi. — Desta vez, eu tenho um plano. Ele me olhou de sobrancelhas erguidas e ignorei suas tentativas bem-humoradas de incredulidade. —Ah, sim? E que plano é esse? —Pense como um Templário. De longe, veio o som de artilharia. O tagarelar da multidão morreu e se ergueu novamente enquanto se preparavam e, solenemente, as duas colunas de pessoas começaram a avançar para o morro. Eram milhares. Entoavam canções e gritavam “Viva Robespierre” enquanto prosseguiam. Em toda parte, a bandeira tricolore estava erguida, tremulando sob uma brisa suave. Ao nos aproximarmos, eu via cada vez mais calções brancos e casacos abotoados e trespassados da Guarda Nacional. E todos tinham uma espada junto ao quadril, a maioria também segurava mosquetes e baionetas. Formavam uma barreira entre a turba e o morro no qual Robespierre faria seu pronunciamento. Paramos diante deles, esperando que o grande discurso começasse. —Muito bem, e agora? —perguntou Arno, aparecendo ao meu lado. — Robespierre é inacessível, tem metade da guarda como segurança — comentei, apontando para os homens. —Jamais chegaremos a metros dele. Arno lançou-me um olhar. —E foi isso que eu disse. Não muito longe de onde estávamos, havia uma grande tenda, cercada pela vigilante Guarda Nacional. Nela estaria Robespierre. Ele sem dúvida estaria se preparando para seu grande discurso, como um ator antes do espetáculo, pronto para aparecer diante do povo, tão majestoso quanto presidencial. De fato, não havia dúvida para ninguém a respeito de quem se referia quando falava do Ser Supremo; ouvi rumores sobre isso enquanto entrávamos na área principal. É verdade que havia um clima de comemoração no ar, com a cantoria, os risos, galhos e buquês que todos seguravam, mas não havia escassez de dissensão, ainda que declarada em um volume muito inferior. E isso me deu uma ideia... —Mas ele não é tão popular como antigamente —informei a Arno. —Os expurgos, este culto ao Ser Supremo... Só o que precisamos fazer é desacreditá-lo. Arno concordou. —E um enorme espetáculo público é o local perfeito para isso. —Exatamente. Retrate-o como um louco perigoso e seu poder vai evaporar como neve na primavera. Só precisamos de uma prova convincente. ii Do morro, Robespierre fazia seu discurso: — É chegado enfim o dia eternamente feliz no qual o povo francês consagra o Ser Supremo... —começou ele. A multidão aplaudia cada palavra, e à medida que eu avançava pela multidão pensava: Ele realmente está levando a ideia a cabo. Ele estava de fato inventando um novo deus e queria que todos nós o venerássemos. — Ele não criou reis para devorar a espécie humana — disse Robespierre — nem criou sacerdotes para nos atrelar como animais brutos a carruagens de reis. Verdadeiramente, aquele novo deus era bom para uma revolução. E então finalizou o discurso e a multidão rugiu; talvez até aqueles que o renegavam foram apanhados na alegria comunitária da ocasião. Era preciso dar crédito a Robespierre. Para um país tão dividido, estávamos enfim gritando com uma só voz. Arno, enquanto isso, tinha encontrado seu caminho para a tenda de Robespierre, procurando algo que pudéssemos usar para incriminar nosso líder supremo. Ele reapareceu trazendo regalos, uma carta que li, provando sem nenhuma dúvida a ligação de Robespierre e Germain. Monsieur Robespierre Cuide para não permitir que suas ambições pessoais estejam à frente da grande obra. Esta que realizamos, não para nossa própria glória, mas para refazer o mundo à imagem de Jacques de Molay. G. Havia também uma lista. — Uma lista de nomes... cerca de cinquenta deputados da Convenção Nacional — disse Arno —, todos escritos pela mão de Robespierre e todos opositores dele. Eu ri. —Imagino que esses bons cavalheiros ficariam muito interessados em saber que estão nesta lista. Mas primeiro... —Apontei para uma curta distância dali, para alguns barris de vinho. —Monsieur Robespierre trouxe as próprias bebidas para um refresco. Distraia a guarda para mim. Tive uma ideia. iii Realizamos bem nossas tarefas. Arno garantiu que a lista atraísse a atenção de alguns dos críticos mais ferozes de Robespierre; eu, enquanto isso, colocava drogas no vinho. —Oque exatamente foi posto no vinho? —questionara Arno enquanto aguardávamos o início do espetáculo; para que Robespierre prosseguisse o discurso sob a influência do que eu havia colocado em sua bebida, que foi... —Ergotina em pó. Em pequenas doses causa loucura, fala arrastada, até alucinações. Arno sorriu. —Ora, isto será interessante. E de fato foi. Robespierre balbuciou frases desconexas por seu discurso, e quando seus adversários o questionaram sobre a lista, ele não apresentou nenhuma resposta sensata. Partimos enquanto Robespierre cambaleava morro abaixo, acompanhado das vaias e gritos da multidão, provavelmente confusos porque o festival tinha começado tão bem e estava terminando de forma tão catastrófica. Perguntei-me se ele podia sentir a presença de mãos nos bastidores, manipulando os acontecimentos. Se ele era um Templário, estaria acostumado a isso. De qualquer forma, o processo para desacreditá-lo havia verdadeiramente começado. Só precisávamos esperar.

27 de julho de 1794 

Lendo o último registro deste diário. “Só precisávamos esperar.” Ora essa, bah! Uma pinoia, como teria dito o Sr. Weatherall. Era a espera que me deixava louca. Sozinha, eu rodava pelos andares despojados do château vazio, de espada em punho, praticando minhas habilidades, e me via ansiando pela presença do Sr. Weatherall, que estaria sentado observando-me com as muletas à mão, dizendo-me que minha postura estava errada, o trabalho com os pés complicado demais, “e você deve parar de se exibir, maldição”, mas ele não estava ali. Eu estava só. Eu já devia saber que ficar sozinha não me fazia bem. Sozinha, eu refletia. Tinha tempo demais para chafurdar em meus pensamentos e remoer as coisas. Sozinha, eu supurava como uma ferida infectada. Tudo aquilo foi motivo para que hoje eu me perdesse. ii Começou com a notícia que me colocou em ação, e depois um encontro com Arno. Robespierre tinha sido preso, informei a ele. —Ao que parece, ele fez vagas ameaças de um expurgo contra “inimigos do Estado”. Sua execução está marcada para o período da manhã. Precisávamos vê-lo antes disso, naturalmente, mas na prisão For-l’Évêque encontramos um cenário de carnificina. Havia mortos para todo lado, a escolta de Robespierre assassinada, mas nenhum sinal dele. De um canto, veio um gemido e Arno ajoelhou-se junto a um guarda recostado na parede, o peito pegajoso de sangue. Ele estendeu a mão para afrouxar as roupas do soldado, encontrou o ferimento e estancou o sangramento. —Oque houve aqui? —perguntou ele, então cheguei mais perto, esticando o pescoço para ouvir a resposta. Enquanto Arno se esforçava para mantê-lo vivo, pisei em uma poça do sangue do soldado para aproximar meu ouvido da boca dele. —O diretor recusou-se a levar os prisioneiros —tossiu o moribundo. —Enquanto esperávamos pelas ordens, soldados da Comuna de Paris nos fizeram uma emboscada. Levaram Robespierre e os outros prisioneiros. —Para onde? — Por ali — apontou ele. — Não podem estar longe. Metade da cidade se voltou contra Robespierre. —Obrigado. E é claro que eu deveria ter ajudado a cuidar dos ferimentos do homem. Não deveria correr para encontrar Robespierre. Era algo errado de se fazer. Era ruim. Mesmo assim, não foi tão ruim como o que aconteceu em seguida. iii Robespierre tentou escapar, mas tal como em tantos de seus planos recentes, acabou frustrado por mim e por Arno. Nós o alcançamos no Hôtel de Ville, com os soldados da Convenção a instantes de irromper pela porta. —Onde está Germain? —exigi saber. —Jamais falarei. E eu fiz. A coisa terrível. A coisa que é prova de que eu tinha chegado ao limite do que eu era, que não pude evitar, porque, para chegar até ali, tinha percorrido uma longa distância. O que fiz foi puxar a pistola do cinto e, mesmo quando Arno levantou a mão para tentar me impedir, apontei para Robespierre, enxergando através de um véu de ódio, e disparei. O disparo pareceu um tiro de canhão na sala. A bala pegou o maxilar inferior dele, que rachou e ficou pendurado, flácido, ao mesmo tempo em que o sangue começou a esguichar dos lábios e das gengivas, espirrando pelo chão. Ele gritou e se contorceu, os olhos arregalados de pavor e dor, as mãos na boca espatifada e sangrenta. —Escreva —vociferei. Ele tentava articular as palavras, mas não conseguia, escrevendo em um pedaço de papel, o sangue vertendo do rosto. — O Templo — falei, pegando o papel e lendo o que ele tinha escrito, ignorando o olhar apavorado que Arno me lançava. —Eu já devia saber. As botas dos soldados da Convenção estavam próximas agora. Olhei para Robespierre. — Espero que desfrute da justiça revolucionária, Monsieur — ironizei, e partimos, abandonando um Robespierre ferido e choroso, segurando a boca com as mãos ensopadas de sangue... e um pouquinho de minha humanidade. iv Essas coisas. É como se eu as imaginasse feitas por outra pessoa — “outro eu” sobre quem não tenho controle, a cujos atos só posso assistir com um interesse imparcial. E suponho que tudo isso seja prova não só de que eu falhara ao desprezar os alertas do Sr. Weatherall e, talvez mais odiosamente, de que também não colocara em prática os ensinamentos de meus pais —mas que cheguei a um ponto de infecção mental no qual já se é tarde demais para parar. Não há alternativa senão arrancá-la fora e torcer para que sobreviva à amputação como uma pessoa purificada. Mas se eu não sobreviver... Devo agora concluir meu diário, pelo menos por esta noite. Tenho algumas cartas a escrever.

SD 59

27 de março de 1791

 Assim que atravessei a porta da frente do chalé, silenciosamente, um espectro esvoaçou pelo corredor. Pigarreei e a figura parou, virou-se e pôs a mão na boca. Era Hélène, flagrada voltando ao seu quarto após sair do cômodo de Jacques. —Desculpe-me se a assustei —sussurrei. —Ah, mademoiselle. —Toda essa dissimulação é de fato necessária? Ela ruborizou. —Não quero que o Sr. Weatherall saiba. Abri a boca para discutir, mas parei, virando-me para a porta em vez disso. —Bem, adeus, pelo menos por um tempo. —Aonde vai, mademoiselle? —A Paris. Há algo que preciso fazer. —E vai partir no meio da noite, sem se despedir? —Preciso fazer isso, é... OSr. Weatherall. Ele não quer... Ela atravessou o cômodo na ponta dos pés, veio até mim e puxou meu rosto, beijando-me com força nas bochechas. —Tenha cuidado, por favor, Élise. Por favor, volte para nós. Que pitoresco. Estou embarcando em uma jornada para supostamente vingar minha família, mas na verdade o chalé é minha família. Por um segundo, cogito ficar. Não seria melhor viver no exílio com aqueles que eu amava a morrer em busca de vingança? Mas não. Havia uma bola de ódio em minhas entranhas e eu precisava me livrar dela. —Voltarei —prometi a ela. —Obrigada, Hélène. Você sabe... sabe que a quero muito bem. —Eu também. —Ela sorriu, eu me virei e parti. ii O que eu sentia enquanto incitava Scratch para Châteaufort, cavalgando para longe do chalé, não era exatamente felicidade. Era o regozijo pela atitude e pelo senso de propósito. Primeiro, eu tinha uma tarefa a realizar e, ao chegar nas primeiras horas da manhã, encontrei comida e uma taberna ainda aberta. Lá, eu disse a qualquer um que tivesse a curiosidade de perguntar que meu nome era Élise de la Serre e que eu morava em Versalhes, mas que agora estava a caminho de Paris. Na manhã seguinte parti e cheguei a Paris, atravessando a Pont Marie para a Île SaintLouis, indo para... casa? Mais ou menos. Pelo menos, meu château. Como estaria? Eu nem mesmo conseguia me lembrar se fui uma zeladora diligente da última vez em que estive lá. Ao chegar, tive minha resposta. Não, não fui uma zeladora diligente, apenas sedenta, a julgar pelas muitas garrafas de vinho jogadas pelo lugar. Reprimi um calafrio, pensando nas horas sombrias que havia passado naquela casa. Deixei os resquícios do passado tal como estavam. Em seguida escrevi a Monsieur Lafrenière uma carta solicitando um encontro no Hôtel Voysin dentro de dois dias. Depois de entregá-la pessoalmente no endereço que ele havia me informado, voltei ao château, onde montei armadilhas de fio, para o caso de me procurarem ali, depois me acomodei no escritório da governanta para esperar.

29 de março de 1791

Fui ao Hôtel Voysin, em Le Marais, onde pedi para me encontrar com Lafrenière. Quem apareceria? Esta era a grande dúvida. Lafrenière, o amigo? Lafrenière, o traidor? Ou alguém inteiramente diferente? E se eu tivesse caído em uma armadilha? Ou será que eu tinha feito a única coisa possível para evitar uma vida inteira escondendo-me dos homens que queriam me ver morta? Opátio do Hôtel Voysin era cinza-escuro. A construção se erguia de todos os lados, e outrora fora grandiosa, a aparência tão aristocrática quanto aqueles que frequentavam o local; porém, assim como os aristocratas foram destruídos pela Revolução —e a cada dia perdiam mais direitos por causa da Assembleia —, o Voysin também parecia intimidado pelos acontecimentos dos últimos dois anos: as janelas onde luzes teriam ardido estavam apagadas, algumas quebradas e cobertas por tábuas. Os jardins, que antigamente teriam sido podados e cuidados por jardineiros que cumprimentavam tirando o chapéu, jaziam desertos e abandonados à ruína, de modo que a hera trepava à vontade pelas paredes, suas gavinhas procurando o caminho para as janelas vazias do primeiro andar. Enquanto isso, o mato crescia entre as pedras e lajes do calçamento do pátio deserto que, enquanto eu entrava, ecoava o barulho de minhas botas. Reprimi uma inquietação, vendo todas aquelas janelas escurecidas dando para o pátio que um dia fora movimentado. Qualquer uma delas poderia proporcionar um esconderijo para um agressor. —Olá? —chamei. —Olá, Monsieur Lafrenière? Prendi a respiração, pensando: Isso não está certo. Isso não está nada certo. Considerando-me uma idiota por ter marcado um encontro ali e perguntando-me se cogitar uma armadilha era o mesmo que estar preparada para encontrar uma. O Sr. Weatherall tinha razão. Mas é claro que tinha, e eu mesma sabia disso o tempo todo. Era uma armadilha. Às minhas costas, ouvi um barulho e virei-me, vendo um homem surgir das sombras. Semicerrei os olhos, flexionando os dedos, preparada. —Quem é você? —questionei. Ele avançou rapidamente e percebi que não era Lafrenière, ao mesmo tempo vi o luar faiscar em uma lâmina que ele tirou da cintura. E talvez eu desembainhasse minha espada a tempo. Afinal, eu era rápida. E talvez eu não desembainhasse minha espada a tempo. Afinal, ele era rápido também. Independentemente de como fosse, não importava. A dúvida foi solucionada pela lâmina de um terceiro, uma figura que aparentemente surgira do nada. Vi o que eu sabia ser uma lâmina oculta cortar a escuridão, em seguida meu pretenso assassino caiu, e atrás dele estava Arno. Por um segundo só consegui ficar parada e boquiaberta, porque este Arno estava completamente diferente daquele que eu conhecia. Não só usava o manto dos Assassinos e uma lâmina oculta como o menino tinha desaparecido. Em seu lugar, havia um homem. Precisei de um instante para me recuperar e então, quando me ocorreu que jamais enviariam um único assassino para dar cabo de mim, que haveria outros, vi o homem assomando por trás de Arno —e todos aqueles meses de treino de tiro ao alvo no chalé compensaram no momento em que disparei acima do ombro dele, criando um terceiro olho no assassino e fazendo-o cair morto nas pedras do pátio. ii Recarregando a arma, eu disse: —Oque está havendo? Onde está Monsieur Lafrenière? —Está morto —respondeu Arno. Ele disse aquilo em um tom que não me agradou muito, como se houvesse muito mais naquela história do que ele deixava transparecer. Olhei-o incisivamente. —Oquê? Mas antes que Arno pudesse responder, veio o som de um ricochete e uma bala de mosquete bateu em uma parede próxima, provocando uma chuva de lascas de pedra em cima de nós. Havia atiradores nas janelas do alto. Arno estendeu uma das mãos em minha direção, e a parte de mim que ainda o odiava queria se livrar dele, dizer que eu podia me virar muito bem sozinha, obrigada; mas as palavras do Sr. Weatherall faiscavam em minha cabeça, a noção de que, independentemente de qualquer coisa, Arno estava ali por mim, e afinal era só isso que realmente importava. E deixei que ele me tocasse. —Explicarei depois —continuou ele —, vá! E quando outra rajada de balas de mosquete choveu das janelas, corremos para os portões do pátio e saímos nos jardins. À nossa frente havia um labirinto, malcuidado e tomado de mato, mas ainda era um labirinto. O manto de Arno se abria enquanto corria, o capuz puxado para trás, vi as feições bonitas, e fui alegremente transportada a uma época mais feliz, antes dos segredos que ameaçavam nos sobrepujar. — Lembra-se daquele verão em Versalhes, quando tínhamos 10 anos? — berrei enquanto corríamos. —Lembro-me de ficar perdido naquele maldito labirinto de sebe durante seis horas enquanto você comia minha parte da sobremesa —respondeu ele. — Então é melhor não ficar para trás desta vez — alertei e, apesar de tudo, não consegui deixar de ouvir o tom de alegria em minha voz. Só Arno era capaz de causar aquilo em mim. Apenas ele era capaz de trazer tal luz à minha vida. E creio que se um dia houve um momento em que eu verdadeiramente o “perdoei”, em meu coração e minha mente, foi nesse dia. iii Agora tínhamos chegado ao meio do labirinto. Nosso prêmio foi outro matador aguardando por nós. Ele se preparou, olhando nervosamente de um para outro, e fiquei feliz por ele porque Arno iria para o túmulo pensando que eu havia me unido aos Assassinos. Ele poderia encontrar seu criador flutuando em uma nuvem de honradez. Em minha narrativa, ele era o bandido. Na dele, ele era o herói. Recuei e deixei que Arno enfrentasse o duelo, aproveitando a oportunidade para admirar sua habilidade com a espada. Em todos aqueles anos em que adquiri minhas próprias habilidades, ele sempre demonstrara maior disciplina nos testes de álgebra do preceptor, e dentre os dois eu sempre fui, de longe, a espadachim mais experiente. Mas ele me alcançou, e alcançou depressa. Ele notou meu olhar impressionado e exibiu um sorriso que teria derretido meu coração, se é que precisava ser derretido. Saímos do labirinto e chegamos ao boulevard, que fervilhava com a vida noturna. Uma coisa que notei logo depois da Revolução foi que o povo passou a comemorar mais do que nunca; vivia cada dia como se fosse o último. Sendo assim, a rua estava viva, com atores, acrobatas, malabaristas e titereiros por todos os lados, e a via repleta de espectadores, alguns já bêbados, outros a caminho da embriaguez. A maioria com sorrisos largos estampados nos rostos felizes. Víamos muitas barbas e vários bigodes reluzindo de cerveja e vinho — os homens agora deixavam os pelos na cara crescerem para mostrar seu apoio à Revolução — bem como as características “boinas da liberdade” vermelhas. E era por isso que os três homens vindo em nossa direção se destacavam. Ao meu lado, Arno sentiu-me tensa, prestes a pegar a espada, mas conteve minha mão com um aperto gentil em meu braço. Qualquer outra pessoa teria perdido um ou dois dedos por tentar me conter. Arno, eu estava preparada para perdoar. —Encontre-me amanhã para o café. Aí explicarei tudo.

1º de abril de 1791 

A place des Vosges, a maior e mais antiga praça da cidade, não ficava longe de onde eu havia deixado Arno e, depois de uma noite em casa, voltei no dia seguinte, em puro nervosismo, curiosidade e empolgação mal contida, transbordando com a noção de que, apesar do revés de Lafrenière, eu tinha chegado a algum lugar. Tinha avançado. Cheguei à praça sob uma das imensas arcadas abobadadas que faziam parte das construções de tijolos aparentes por seu perímetro. Algo me fez parar e fiquei confusa por um momento, perguntando-me o que havia de diferente ali. Afinal, os edifícios eram os mesmos, o pilar decorado ainda estava ali. Mas faltava alguma coisa. Então percebi. A estátua no meio da praça — o bronze equestre de Luís XIII. Não encontrava-se mais lá. Eu tinha ouvido falar que os revolucionários estavam derretendo as estátuas. Eis ali a prova. Mas Arno estava lá, com seu manto. À luz fria do dia, examinei-o de novo, tentando entender em que aspecto o menino amadurecera para o homem: ele tinha agora uma expressão mais decidida, talvez? Os ombros encontravam-se mais aprumados, o queixo erguido, os olhos de granito simultaneamente ferozes e belos. Arno sempre foi um menino bonito. As mulheres de Versalhes comentavam isso. As meninas mais jovens ficavam vermelhas e davam risadinhas sob suas mãos enluvadas sempre que ele passava; pelo simples fato de sua beleza se sobrepor a quaisquer dúvidas que elas normalmente teriam sobre sua posição social como nosso mero tutelado. Eu costumava amar a sensação calorosa e superior de saber que “ele era meu”. Mas agora — agora havia algo de quase heroico nele. Senti uma pontada de culpa, perguntando-me se, ao encobrir a verdadeira natureza de sua ascendência, de algum modo acabamos evitando que ele atingisse seu potencial mais cedo. E lá veio mais outra pontada de culpa, desta vez por papai. Se eu tivesse sido menos egoísta e tivesse trazido Arno para nós, como um dia jurei fazer, talvez este novo homem engendrado agora estivesse a serviço de nossa causa e não da oposição. Mas daí, enquanto estávamos sentados tomando café e havia alguma semelhança da vida parisiense normal transcorrendo ao redor, o fato de eu ser uma Templária e ele um Assassino não parecia importar muito. Não fosse pelo manto de seu Credo, poderíamos ser dois amantes desfrutando juntos de nossa bebida matinal. E quando ele sorriu, foi o sorriso do velho Arno que apareceu, o menino com quem cresci e por quem me apaixonei, e durante alguns instantes foi tentador me esquecer de tudo e deleitar-me naquele banho quente de nostalgia, deixando os conflitos e o dever de lado. —E então... —disse eu, finalmente. —Então. —Parece que você esteve ocupado. — Localizando o homem que matou seu pai, sim — emendou ele, desviando os olhos, de forma que mais uma vez perguntei-me se havia algo oculto ali. — Boa sorte — desejei. — Ele matou a maioria de meus aliados e intimidou os restantes a se calarem. Pode muito bem ser um fantasma. —Eu o vi. —Oquê? Quando? —Ontem à noite. Pouco antes de encontrar você. — Ele se levantou. —Venha. Vou explicar tudo. Enquanto caminhávamos, pressionei-o para saber mais informações e Arno relatou os acontecimentos da noite anterior. Na realidade, o que ele viu foi uma misteriosa figura de manto. Não havia nome acompanhando tal aparição. Mesmo assim, a capacidade de Arno de saber de tanta coisa era quase sobrenatural. —Mas como diabos você conseguiu isso? —perguntei. — Tenho possibilidades singulares de investigação abertas a mim — respondeu ele misteriosamente. Lancei-lhe um olhar de viés e lembrei-me do que meu pai dissera sobre os supostos “talentos” de Arno. Eu supunha que ele estivesse falando de “habilidades”, mas talvez não. Talvez fosse outra coisa —algo tão singular que só os Assassinos conseguiam farejar. —Muito bem, então, guarde seus segredos. Apenas me diga onde encontrá-lo. —Não sei se esta é uma boa ideia —protestou ele. —Não confia em mim? —Você mesma disse isso. Ele perseguiu seus aliados e assumiu sua Ordem. Ele quer você morta, Élise. Eu gargalhei. —E daí? Você quer me proteger? É isso? —Quero ajudá-la. —Ele agora estava sério. —A Irmandade tem recursos, efetivos... —A piedade não é uma virtude, Arno —falei incisivamente. —E eu não confio nos Assassinos. —Você confia em mim? —questionou ele, o olhar penetrante. Desviei o rosto para o outro lado, sem saber a resposta de fato —não, sabendo que eu queria confiar em Arno e de fato estava desesperada para tanto, mas sabendo que ele agora era um Assassino. — Não mudei tanto assim, Élise — implorou ele —, sou o mesmo menino que distraía a cozinheira enquanto você roubava a geleia... O mesmo que a ajudou a pular aquele muro para o pomar infestado de cães... Havia outra coisa também. Outra coisa na qual se pensar. Conforme o Sr. Weatherall já observara, eu estava praticamente sozinha: eu contra eles. Mas e se eu tivesse o apoio dos Assassinos? Eu não teria de perguntar o que meu pai faria. Já sabia que ele estaria preparado para uma trégua com os Assassinos. Concordei com a cabeça e falei. —Leve-me à sua Irmandade. Ouvirei a oferta deles. Ele se revelou perplexo. —Oferta pode ser uma palavra meio forte...

2 de abril de 1791 

O Conselho dos Assassinos por acaso se reunia em um salão na Île de la Cité, à sombra da Notre Dame. —Tem certeza de que esta é uma boa ideia? —perguntei a Arno enquanto entrávamos em uma sala cercada por arcos abobadados de pedra. Em um canto havia uma grande porta de madeira com uma maçaneta em aro de aço, guardada por um Assassino corpulento e barbado cujos olhos brilhavam sob as profundezas escuras de seu capuz. Sem dizer uma palavra sequer, ele assentiu para Arno, que retribuiu o cumprimento, e tive de reprimir uma onda de ilusão ao ver Arno daquela maneira: Arno, um homem; Arno, um Assassino. — Temos um inimigo em comum — disse ele enquanto a porta era aberta e passávamos para um corredor iluminado por archotes acesos nas paredes. —OConselho compreenderá isto. Além do mais, Mirabeau era amigo de seu pai, não? Assenti. —Não exatamente amigo, mas meu pai confiava nele. Vamos. Primeiro, porém, Arno pegou uma venda no bolso, insistindo que eu a pusesse. Só para contrariá-lo, contei os passos e as guinadas, confiante de que seria capaz de encontrar a saída do labirinto caso necessário. Quando a jornada se deu por encerrada, apreendi meu novo ambiente, sentindo estar em uma câmara subterrânea úmida, parecida com a de cima, mas agora povoada. À minha volta, eu ouvia vozes. No início foi difícil situá-las, e pensei que estivessem vindo de galerias no alto, só então percebi que os membros do Conselho estavam distribuídos junto às paredes, as vozes se elevando como se gotejassem da pedra enquanto se arrastavam, desconfiados e resmungando entre si. —Isso é...? —Oque ele está fazendo? Senti uma figura diante de nós, que falou com uma voz áspera, uma espécie de Sr. Weatherall francês. —Mas que diabos você fez desta vez, beberrão? —questionou ele. Meu coração martelava e minha respiração era laboriosa. E se aquela infração estivesse sendo demasiada? Um passo longo demais? O que eu ouviria? Mais gritos de “Mate a meretriz ruiva”? Não seria a primeira vez e, afinal, Arno permitiu que ficasse com minha pistola e minha espada — mas de que adiantaria, considerando que eu estava vendada e que enfrentaria vários adversários? Vários adversários Assassinos? Mas não. Arno tinha me salvado de uma armadilha. Ele jamais me entregaria a outra. Eu confiava nele. Confiava tanto quanto o amava. E quando ele se dirigiu ao homem que bloqueava nosso caminho, a voz dele saiu calma e firme, um bálsamo para meus nervos. —Os Templários querem vê-la morta —disse ele. —E então você resolveu trazê-la para cá? —questionou a voz autoritária, em dúvida. Seria Bellec? Mas Arno não teve tempo de responder. Houve outra nova entrada à câmara do Conselho. Outra voz que exigiu saber: —Bem, quem temos aqui? —Meu nome é... —comecei, mas o recém-chegado me interrompeu. —Ah, pelo amor de Deus, tire esta venda. É ridículo. Eu a tirei e os olhei, o Conselho dos Assassinos que, justamente como eu pensava, estava posicionado ao longo das paredes de pedra daquele santuário subterrâneo e escuro, o brilho alaranjado das chamas bruxuleando em seus mantos e os rostos indecifráveis sob capuzes. Meus olhos pousaram em Bellec. De nariz aquilino e desconfiado, ele me olhava com franco desdém, a linguagem corporal protetora em relação a Arno. O outro homem julguei ser o Grão-Mestre, Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau. Como presidente da Assembleia, ele tinha sido um herói da revolução, mas ultimamente vinha sendo uma voz moderada em comparação a outros que clamavam por mudanças mais radicais. Diziam que ele era ridicularizado por sua aparência, mas embora fosse um cavalheiro corpulento de cara redonda, com uma pele tremendamente feia, tinha olhos gentis e confiáveis, e gostei dele de imediato. Aprumei os ombros. — Meu nome é Élise de la Serre — anunciei a todos no cômodo. — Meu pai era François de la Serre, Grão-Mestre da Ordem dos Templários. Vim pedir ajuda. Cabeças se inclinaram quando os membros do Conselho começaram a cochichar, até que o recém-chegado —certamente Mirabeau —os silenciou, erguendo um dedo. —Continue —instruiu ele. Outros membros do Conselho protestaram. —Repetiremos este debate mais uma vez? —Mas Mirabeau os silenciou novamente. — Sim — disse-lhes ele —, assim o faremos. Se não conseguem ver a vantagem de a filha de François de la Serre nos dever um favor, perco as esperanças por nosso futuro. Continue, mademoiselle. —Lá vamos nós —cuspiu o homem que presumi ser Bellec. Foi a ele a quem dirigi meus comentários seguintes: — O senhor não está entre os homens em quem eu normalmente apostaria, monsieur, mas meu pai está morto, assim como meus aliados na Ordem. Se devo recorrer aos Assassinos para ter minha vingança, assim será. — “Apostar” uma balela. Isto é um truque para nos fazer baixar a guarda. Devemos matá-la agora e enviar sua cabeça como aviso —disse Bellec depois de bufar. —Bellec... —alertou Arno. — Basta — gritou Mirabeau. — Francamente, é melhor que esta discussão seja conduzida em particular. Pode nos dar licença, Mademoiselle de la Serre? Fiz uma breve mesura. —Certamente. —Arno, talvez deva acompanhá-la. Sei que vocês têm muito o que conversar. ii Saímos, voltando pela ponte e caminhando pelas vias movimentadas, até que nos vimos de volta à place de Vosges. —Bem —falei enquanto andávamos —, não era bem isso que eu esperava. —Dê tempo a eles. Mirabeau os convencerá. Andamos mais e meus pensamentos foram de Mirabeau, o Grão-Mestre dos Assassinos, ao homem que subvertera minha própria Ordem. —Acredita realmente que podemos encontrá-lo? —perguntei. — A sorte dele não pode durar para sempre. François Thomas Germain acreditava que Lafrenière era... Eu o detive. —François Thomas Germain? —Sim —disse Arno —, o prateiro que me levou a Lafrenière. Uma onda de empolgação fria me invadiu. — Arno — falei, ofegante —, François Thomas Germain era o lugar-tenente de meu pai. —Um Templário? — Ex-Templário. Foi expulso quando eu era mais nova, algo a ver com concepções heréticas e Jacques de Molay. Não tenho muita certeza. Mas ele devia estar morto. Morreu anos atrás. Germain. Jacques de Molay. Afastei tais ideias para voltar a elas depois, talvez com a ajuda do Sr. Weatherall. —Este Germain é extraordinariamente ativo para um cadáver —dizia Arno. Assenti. —Gostaria muito de fazer algumas perguntas a ele. —Eu também. A oficina dele fica na rue Saint-Antoine. Não é longe daqui. Com uma determinação renovada, seguimos apressados por uma travessa arborizada que se abria em uma praça, galhardetes pendurados acima de nossas cabeças, os toldos de lojas e cafeterias tremulando na leve brisa de verão. A rua ainda trazia parte das cicatrizes dos tumultos: uma carroça virada, uma pequena pilha de barris quebrados, uma série de marcas de queimadura nas pedras do calçamento e, naturalmente, bandeiras tricolores no alto, algumas trazendo as marcas da batalha. Tirando isto, porém, parecia tranquila, tal como antigamente, com as pessoas passando de um lado a outro, cuidando de suas vidinhas cotidianas e, por um momento, foi difícil imaginar que aquele fora o lugar de acontecimentos cataclísmicos que mudavam nosso país. Arno me guiou por ruas calçadas de pedras até chegarmos ao portão de um pátio. Dali vimos uma casa grandiosa, na qual ele disse localizar-se a oficina. Era onde encontraríamos o prateiro. Germain. O homem que havia encomendado a morte de meu pai. — Da última vez que vim aqui havia guardas — disse Arno, e parou, com uma expressão preocupada. —Agora não há nenhum —comentei. — Não. Mas muita coisa aconteceu desde a última vez que vim. Talvez os guardas tenham sido retirados. —Ou talvez tenha sido outra coisa. De repente ficamos silenciosos e cautelosos. Minha mão foi à espada e fiquei feliz ao sentir a pistola em meu cinto. —Tem alguém em casa? —gritou ele pelo pátio vazio. Não houve resposta. Embora a rua atrás de nós estivesse ruidosa, a mansão agourenta à nossa frente ostentava apenas silêncio e o encarar fixo das janelas. A porta se abriu a um toque de Arno. Com um olhar para mim, entramos e descobrimos que o hall de entrada estava deserto. Subimos a escadaria, Arno na frente, até a oficina. Pela aparência despojada, o lugar tinha sido abandonado recentemente. Ali dentro estava a maior parte do equipamento do ofício de um prateiro —pelo menos, até onde eu podia ver —, mas nenhum sinal dele. Começamos a vasculhar em volta, no início cautelosamente, folheando alguns papéis, afastando objetos em prateleiras, não muito certos de o que procurávamos, apenas procurando, na esperança de encontrar alguma confirmação da teoria de que aquele prateiro aparentemente inocente de fato era Germain, o Templário de alta posição. Porque se fosse ele, significava que aquele prateiro aparentemente inocente tinha sido o homem responsável pela morte de meu pai, e que estava se esforçando ao máximo para destruir também todos os outros aspectos de minha vida. Cerrei os punhos quando pensei nisso. Meu coração endureceu ao pensar na dor que aquele homem havia trazido à família de la Serre. Nunca a ideia de vingança me pareceu mais real do que naquele momento. Veio um barulho da porta aberta. O menor dos ruídos — um mero farfalhar de tecido —entretanto, alto o bastante para alertar sentidos aguçados. Arno também ouviu e, em uníssono, giramos em direção à entrada. —Não me diga que isso é uma armadilha —arfou ele. —Isso é uma armadilha —respondi. iii Arno e eu nos olhamos e sacamos a espada quando quatro homens carrancudos passavam pela porta, assumiram posição para barrar nossa saída e nos olharam com ódio. Com os chapéus amassados e as botas arranhadas, pareciam ter tido o cuidado de aparentar revolucionários temíveis, que talvez não fossem abordados na rua, mas havia mais na mente deles do que a liberdade, a libertação ou... Bem, eles tinham a morte na mente. Eles se dividiram, dois para mim e dois para Arno. Um dos sujeitos ficou de frente para mim, encarando-me, os olhos encovados em uma testa alta, um lenço vermelho amarrado no pescoço. Tinha uma faca em uma das mãos e puxou a espada das costas com a outra, girando em uma breve exibição, desenhando um oito e apontando as armas para mim. Seu companheiro fez o mesmo, erguendo o dorso da mão um pouco além da lâmina da espada. Se fossem revolucionários, dispostos a roubar ou a me atacar de outra maneira, agora estariam rindo, subestimando-me nos poucos e breves momentos antes de sua morte rápida. Mas não eram. Eram matadores Templários. E chegara aos ouvidos deles que Élise de la Serre não era uma presa fácil; que ela lhes daria trabalho. Aquele que segurava a espada no alto avançou primeiro, lançando-a em um ziguezague tático para minha cintura, ao mesmo tempo em que jogava o peso do corpo no pé de apoio. O aço tiniu quando aparei a lâmina e dancei um pouco para a esquerda, prevendo corretamente que o Lenço-Vermelho faria seu ataque simultaneamente. De fato ele o fez, e consegui receber a espada com um golpe de baixo, mantendo os dois homens ao largo por pelo menos mais um instante, dando-lhes tempo para pensar, deixando que soubessem que o que lhes disseram estava certo: eu era treinada; tinha sido treinada pelo melhor. E estava mais forte do que nunca. À minha direita, ouvi as espadas de Arno e de seus dois adversários, e em seguida veio um grito que não era de Arno. O Espada-Reta cometeu seu primeiro erro: desviou o olhar para ver qual destino recaíra sobre seu companheiro e, embora tivesse sido um lapso momentâneo de concentração, aquele meio segundo em que ele desviou a atenção de mim bastou para que eu pudesse lhe cobrar o preço. Eu o tinha na ponta da espada, então avancei, ataquei por baixo de sua guarda e golpeei para cima, abrindo o pescoço dele com um girar do pulso. O Lenço-Vermelho era bom. Sabia que a morte do companheiro lhe dava uma oportunidade e arremeteu para a frente com a espada em um golpe reto e ofensivo que, caso tivesse feito contato, teria no mínimo tirado meu equilíbrio. Mas ele não conseguiu. Foi um pouco afobado e desesperado demais para tirar proveito do que pensara ser uma abertura, e eu já esperava seu ataque daquele lado, tinha me abaixado sobre um joelho e erguido minha lâmina, que ainda cintilava com o sangue fresco do Espada-Reta, e que agora estava incrustada abaixo da axila do Lenço-Vermelho, entre duas camadas de uma grossa armadura de couro. Ao mesmo tempo veio um segundo grito à minha esquerda e ouvi um baque quando o quarto corpo bateu no chão e a batalha se deu por encerrada; Arno e eu os únicos a continuar de pé. Recuperamos o fôlego, nossos ombros estremecendo por causa do arfar enquanto os últimos gorgolejos de nossos pretensos matadores minguavam ao ofegar seco da morte. Olhamos para os cadáveres, depois, um para o outro e decidimos mutuamente voltar a dar a busca na oficina. iv —Não há nada aqui —falei depois de um tempinho. —Ele devia saber que seu blefe não se sustentaria —disse Arno. —Então perdemos novamente. —Talvez não. Vamos continuar procurando. Ele testou uma porta que estava trancada e parecia prestes a abandoná-la quando lhe abri um sorriso e a arrombei com um pontapé. Então fomos saudados por outra câmara ligeiramente menor, esta cheia de símbolos que logo reconheci: cruzes templárias trabalhadas em prata, cálices e jarros lindamente ornados. Sem dúvida aquela era uma sala de reunião dos Templários. Em uma plataforma elevada em uma extremidade do cômodo, havia uma cadeira decorada com entalhes complexos, onde o Grão-Mestre se sentaria. E de cada lado havia duas cadeiras, para seus lugares-tenentes. No meio da sala havia um pedestal com cruzes entalhadas, e disposto em cima dele um conjunto de documentos, os quais peguei, com a sensação de que me eram familiares mas também estranhos, como se estivessem deslocados ali naquela câmara adjacente à oficina de um prateiro, e não no château da família De la Serre. Um deles continha várias ordens. Eu já tinha visto ordens semelhantes, naturalmente, assinadas por meu pai, mas aquela — aquele documento estava assinado por Germain. Lacrado com uma cruz Templária em cera vermelha. —É ele. Germain agora é o Grão-Mestre. Como isso aconteceu? Arno meneou a cabeça, indo à janela enquanto falava. —Filho de uma puta. Precisamos contar a Mirabeau. Assim que... Ele não terminou sua frase. Ouvimos o barulho de tiros lá fora e de vidro se espatifando enquanto balas de mosquete zuniam pelas janelas, batendo no teto, provocando uma chuva de lascas de pedra. Procuramos cobertura, Arno junto da janela, eu, perto da porta, justamente quando veio mais uma saraivada de tiros. —Vá —disse ele. —Vá à casa de Mirabeau. Eu cuidarei disso. Assenti e saí, partindo para procurar o Grão-Mestre Assassino Mirabeau. v Estava escurecendo quando cheguei à mansão de Mirabeau. Ali, a primeira coisa que me ocorreu foi a escassez de criados. A casa possuía uma estranha sensação de silêncio — por isso levei um ou dois segundos para reconhecer o modo como minha própria casa ficara na esteira da morte de minha mãe. A segunda coisa que me ocorreu — e é claro que agora sei que as duas estavam relacionadas —foi o estranho comportamento do mordomo de Mirabeau. Ele exibia uma expressão estranha, como se suas feições não se encaixassem bem no rosto; isto e o fato de ele não ter me acompanhado aos aposentos de Mirabeau. Ao me lembrar de minha chegada à Boar’s Head Inn, na Fleet Street, aquela não seria a primeira vez que alguém me tomava por uma dama da noite, mas não pensei que o mordomo desleixado fosse assim tão burro. Não, havia algo errado. Saquei a espada e entrei silenciosamente no quarto. Estava às escuras, com as cortinas fechadas. As velas em um candelabro eram quase toquinhos, o fogo ardia fraco na lareira; em uma mesa, estavam os restos do que parecia a ceia, e na cama, o que parecia um Mirabeau adormecido. —Monsieur? —chamei. Não houve resposta, nenhuma reação de Mirabeau, cujo peito largo, que deveria estar subindo e descendo devido à respiração durante o sono, continuava imóvel. Aproximei-me. É claro. Ele estava morto. — Élise, o que é isso? — A voz de Arno à porta me assustou e dei meia-volta. Ele parecia exausto do que, obviamente, tinha sito uma luta breve, mas, tirando isso, estava bem. Uma repentina sensação de culpa descabida cresceu dentro de mim. —Eu o encontrei assim... Eu não... Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. —É claro que não. Mas devo informar isto ao Conselho. Eles saberão... —Não —vociferei. —Eles já não confiam em mim. Serei a suspeita deles, a primeira e única. —Tem razão —disse ele, assentindo. —Você tem razão. —Oque faremos? — Vamos descobrir o que aconteceu — rebateu ele, decidido. Então se virou, examinando a madeira que cercava a entrada bem atrás de si. —Não parece que a porta foi arrombada —acrescentou. —Então o assassino era esperado? —Um convidado, talvez? Ou um criado? Minha mente foi ao mordomo. Mas se o mordomo tinha feito aquilo, por que ainda estava na casa? Minha suposição era de que o mordomo trabalhava sob uma ignorância obstinada. Algo captou a atenção de Arno e ele pegou o objeto, aproximando-o a fim de examiná- lo. De início, parecia um broche decorativo, mas ele o estendeu, a expressão séria, transparecendo algo significativo. — O que é isso? — perguntei, mas eu sabia o que era, é claro. Tinha recebido um deles em minha iniciação. vi Arno o entregou a mim. —É... a arma que matou seu pai. Peguei-o para examinar, vendo a insígnia familiar no centro do desenho, depois examinando o broche em si. Nele havia uma minúscula canaleta, de modo que o veneno pudesse correr por dentro da lâmina e sair de duas aberturas mínimas mais abaixo. Engenhoso. Letal. E de projeto templário. Quem quer que encontrasse aquilo —um dos compatriotas Assassinos de Mirabeau, por exemplo — teria suposto que o Grão-Mestre tinha sido morto por um Templário. Talvez até supusesse que eu tivesse assassinado Mirabeau. —Este é um distintivo dos Templários —confirmei a Arno. Ele assentiu. —Não viu mais ninguém quando chegou? —Só o mordomo. Ele abriu a porta para mim, mas não subiu. Arno agora fazia uma busca pelo quarto, seu olhar se deslocando pelo cômodo como se examinando sistematicamente cada área. Com uma exclamação curta, ele correu a um armário, ajoelhou-se e passou a mão por baixo, pegando uma taça manchada, ainda com a borra seca de vinho. Ele a cheirou e se retraiu. —Veneno. —Deixe-me ver —pedi, e levei a taça ao nariz. Em seguida voltei minha atenção ao corpo de Mirabeau, abrindo seus olhos com as pontas dos dedos a fim de verificar as pupilas, escancarando-lhe a boca para examinar a língua, empurrando a pele. —Acônito —falei —, difícil de se detectar, a não ser que você saiba o que procura. —Essa planta é popular entre os Templários? —Entre os que querem se safar de um assassinato —expliquei para ele, ignorando a insinuação. —É quase impossível de se detectar, e o cheiro e os sintomas se assemelham à morte por causas naturais. É útil quando você precisa se livrar de alguém sem vigiá-lo. —E como alguém pode ter adquirido isto? — Cresce com facilidade em um jardim, mas como os sintomas ocorreram tão subitamente, deve ter sido processado. —Ou foi comprado de um boticário. —Veneno templário, broche templário... é incriminador. Ele me lançou um olhar sugestivo e, em troca, ganhou uma testa franzida. —Bravo, você entendeu —falei secamente. —Meu plano astuto era eliminar o único Assassino que não queria me ver morta, depois ficar por aqui, esperando ser descoberta. —Não o único Assassino. —Tem razão. Peço desculpas. Mas você sabe que isto não é do meu feitio. —Acredito em você. Mas o restante da Irmandade... —Então vamos encontrar o verdadeiro assassino antes que eles tomem conhecimento disso. vii Uma curiosa guinada nos acontecimentos. Arno soube por um boticário que o veneno havia sido adquirido por um sujeito que usava o manto dos Assassinos. Dali, surgiu um rastro de pistas que Arno seguiu — as quais nos trouxeram até aqui, à igreja SainteChapelle, na Île de la Cité. Uma tempestade se formava quando chegamos à igreja grandiosa, em mais de um sentido. Vi que Arno ficou abalado com a ideia de existir um traidor nas fileiras Assassinas. É melhor se acostumar a isso, pensei com tristeza. —Orastro termina aqui —observou ele pensativamente. —Tem certeza? Ele olhava para o alto dos campanários da igreja imensa, onde havia uma figura escura. Em silhueta contra o céu, seu manto flutuava ao vento enquanto ele nos olhava lá embaixo. —Sim, infelizmente —disse ele. Preparei-me para entrar em batalha mais uma vez, porém, segurando minha mão, Arno me impediu. —Não, devo fazer isto eu mesmo. Voltei-me contra ele. —Não seja ridículo, não vou deixar que faça isso sozinho. — Élise, por favor. Depois que seu pai morreu, os Assassinos... me deram um propósito. Algo em que acreditar. E ver tal propósito ser traído... preciso corrigir eu mesmo. Preciso saber por quê. Eu era capaz de entender. Melhor do que ninguém, eu consegui entender e, com um beijo, permiti que ele fosse. —Volte para mim —falei. viii Estiquei o pescoço para olhar o teto da igreja, mas vi apenas pedra e o céu colérico para além dela. A figura tinha sumido. Mesmo assim, continuei olhando, até que instantes depois vi duas figuras lutando em um ressalto. Minha mão foi à boca. Um grito por Arno, que teria sido inútil de qualquer modo, secou em minha garganta. No instante seguinte, as figuras tombavam, caindo pela frente do edifício, quase sombreadas pela forte chuva. Por meio segundo pensei que fossem bater no chão e morrer ali, bem diante de mim, mas a queda foi obstruída por uma saliência mais abaixo. De minha posição, ouvi o impacto dos corpos e os gritos de dor. Perguntei-me se um deles teria sobrevivido à queda e tive minha resposta quando ambos se recompuseram lenta e dolorosamente, continuando a lutar, no início com incerteza, porém depois com uma ferocidade cada vez maior, as lâminas ocultas faiscando como raios no escuro. Agora eu os ouvia gritar um com o outro, Arno exclamando: — Pelo amor de Deus, Bellec, uma nova era está chegando. Não vamos superar este conflito interminável? É claro, era Bellec, o segundo em comando dos Assassinos. Sendo assim... ele era o homem por trás da morte de Mirabeau. — Será que tudo que ensinei a você ricocheteou neste crânio blindado? — rugiu Bellec. —Estamos lutando pela liberdade da alma humana. Liderando a revolução contra a tirania dos Templários. — Estranho como é curta a estrada da revolução contra a tirania para o assassinato indiscriminado, não? —gritou Arno. —Bah. Você é um merdinha teimoso, não? —Pergunte a qualquer um —retorquiu Arno, e deu um salto para a frente, a lâmina formando um oito. Bellec saltou para trás. — Abra os olhos — gritou ele —, se os Templários querem a paz, é apenas para se aproximar o suficiente para meter a faca em seu pescoço. —Você está errado —argumentou Arno. —Você não viu o mesmo que eu. Vi Templários aniquilarem aldeias inteiras, só pela oportunidade de matar um Assassino. Diga-me, rapaz, em sua vasta experiência... o que você viu? —Vi o Grão-Mestre da Ordem dos Templários assumir um órfão assustado e criá-lo como o próprio filho. — Eu tinha esperanças por você — gritou Bellec, agora fervilhando. — Pensei que fosse capaz de raciocinar por si mesmo. —E sou, Bellec. Só não penso como você. Os dois, ainda em combate, estavam emoldurados por um vitral enorme da igreja muitíssimo acima de mim. Fustigados pela chuva, iluminados e coloridos por trás, eles lutaram por um segundo, como se vacilando à beira de um precipício, como se pudessem cair de um lado, da sacada para a pedra escorregadia do pátio da igreja; ou de outro, dentro da própria construção. A única dúvida era para que lado cairiam. Houve um estrondo, o vitral se espatifando, mantos batendo e sendo rasgados pelos cacos de vidro, e eles caíram mais uma vez, desta vez para dentro da igreja. Corri pelo pátio até o portão, empurrando-o e vendo-os ali dentro. —Arno —chamei. Ele se levantou e balançou a cabeça, como se tentando desanuviá- la, espalhando cacos no chão de pedra. Não havia sinal de Bellec. — Estou bem — gritou ele para mim, ouvindo-me sacudir o portão enquanto eu o testava mais uma vez, tentando alcançá-lo. —Fique aí. E antes que eu pudesse protestar, ele partiu, e me esforcei para ouvi-lo se aventurando na escuridão da igreja. Em seguida a voz de Bellec veio de... não consegui distinguir sua origem. Mas estava perto. — Eu devia ter deixado você apodrecer na Bastilha. — A voz dele era um sussurro ecoando na pedra úmida. —Diga-me, algum dia realmente acreditou no Credo ou sempre foi um traidor amante de uma Templária desde o começo? Ele estava provocando Arno. Provocava das sombras. — Isto não precisa ser assim, Bellec — gritou Arno, olhando em volta, procurando enxergar nos nichos e recessos escuros. A resposta chegou, e mais uma vez foi difícil situar sua origem. A voz parecia emanar da pedra da igreja. —É você que está provocando isso. Se criasse juízo, poderíamos levar a Irmandade a uma altura que não vemos há duzentos anos. Arno balançou a cabeça, cheio de ironia. — Sim, matar todos que discordam de você é um jeito brilhante de começar sua ascensão das cinzas. Houve um barulho acima de mim e vi Bellec um segundo antes de Arno. — Cuidado — gritei quando o Assassino mais velho investiu das sombras com a lâmina oculta estendida. Arno se virou, viu Bellec e rolou para o lado. Depois se pôs de pé, pronto para receber um ataque, e por um momento os dois guerreiros ficaram cara a cara. Os dois encontravam-se ensanguentados e feridos da batalha, os mantos rasgados, quase em farrapos em determinados pontos, mas ainda dispostos à luta. Ambos estavam determinados para que aquilo acabasse ali, agora. De sua posição, Bellec podia me ver ao portão, e senti seus olhos em mim antes de se voltarem para Arno. —E então —começou ele, a voz cheia de escárnio, tomada de desdém —, agora vemos a essência disso. Não foi Mirabeau quem envenenou você. Foi ela. Bellec formara um vínculo com Arno, mas não fazia ideia do vínculo que já existia entre mim e seu pupilo, e foi por isso que eu não duvidei de Arno. —Bellec... —alertou Arno. — Mirabeau está morto. Ela é a última peça desta insensatez. Um dia você vai me agradecer por isso. Ele pretendia me matar? Ou matar Arno? Ou a nós dois? Eu não sabia. Só o que sabia era que a igreja ressoava com o barulho de aço encontrando aço enquanto as lâminas ocultas se chocavam mais uma vez e eles dançavam em volta um do outro. O que o Sr. Weatherall me dissera todos aqueles anos atrás era verdade: a maioria das lutas de espada era decidida nos primeiros segundos do confronto. Mas aqueles dois combatentes não eram como a maioria dos espadachins. Eram Assassinos treinados. Mestre e discípulo. E a luta continuou, aço contra aço, os mantos se balançando, ambos atacando e se defendendo, golpeando e aparando golpes, abaixando-se e rodopiando; a luta prosseguiu até que ambos estavam recurvados de cansaço e Arno conseguiu recorrer a reservas ocultas de suas forças e prevaleceu, derrotando o inimigo com um grito de desafio e um último golpe da lâmina oculta na barriga de seu mentor. E Bellec enfim arriou na pedra do chão da igreja, com as mãos na barriga. Seus olhos pousaram em Arno. —Faça —implorou ele, agora perto da morte. —Se tem um grama de convicção em si e não é apenas um poltrão iludido pelo amor, você me matará agora. Porque eu não vou parar. Eu vou matá-la. Para salvar a Irmandade eu veria Paris arder. —Eu sei —disse Arno, e deu o coup de grâce. ix Mais tarde, Arno me contou o que viu. Ele teve uma visão, segundo dissera, com um olhar de soslaio, como se querendo conferir se eu o estava levando a sério, e então pensei no que meu pai falava a respeito de Arno, sobre suas crenças de que o rapaz fosse dono de dons especiais, algo não muito... corriqueiro. E lá estavam os tais dons em ação. Uma visão na qual Arno distinguiu dois homens, um usando o manto Assassino, o outro, um brutamontes Templário, ambos lutando na rua. O Templário parecia triunfar, mas um segundo Assassino entrou na refrega e matou o Templário. Oprimeiro Assassino era Charles Dorian, pai de Arno. Osegundo era Bellec. Bellec salvou a vida de seu pai. A partir deste incidente, Bellec reconheceu um relógio de bolso que Arno costumava carregar, e então, quando na Bastilha, notou exatamente quem Arno era. Arno também teve uma segunda visão, provavelmente ocorrida antes de ele matar mais alguém. Esta mostrava Mirabeau e Bellec conversando em algum momento do passado, Mirabeau dizendo a Bellec: “Um dia Élise de la Serre será a Grã-Mestre. Será de grande benefício se ela tiver uma dívida para conosco.” Bellec dizia em resposta, “Seria benefício ainda maior matá-la antes que ela se torne uma ameaça real”. “Seu protegido a afiança”, dissera Mirabeau. “Não confia nele?” “Com a minha vida”, respondeu Bellec. “É na menina que não confio. Nada do que eu disser o convencerá?” “Receio que não.” E Bellec — com relutância, contou Arno, vendo que seu mentor não tinha prazer nenhum, satisfação maquiavélica nenhuma em matar o Grão-Mestre; que, para ele, aquilo era um mal necessário, gostando ou não — colocou veneno nas taças, entregando uma delas a Mirabeau. “Santé.” A ironia é que eles beberam à saúde um do outro. Mais tarde, Mirabeau estava morto e Bellec estava plantando o broche Templário, para então partir em seguida. Pouco depois disso, é claro, eu entrei em cena. Conseguimos encontrar o culpado e assim evitar que eu fosse acusada do crime. Será que fiz o bastante para agradar a eles? Eu não acreditava nisso.